ILHA DOS DESEJOS
4 Capítulo 4 — A DISTÂNCIA IMPOSSÍVEL
Jacob não dormira bem.
Às quatro e vinte da manhã, estava acordado.
Às quatro e quarenta, continuava olhando para o teto.
Às cinco, desistiu.
Vestiu o short de corrida, calçou os tênis e saiu de casa antes mesmo de o céu começar a clarear.
Correu mais do que de costume.
Cinco quilômetros tornaram-se sete.
Sete viraram quase dez.
Quando finalmente diminuiu o ritmo, estava na extremidade norte da praia, respirando pesadamente, com as mãos apoiadas nos quadris e o primeiro brilho do amanhecer surgindo sobre o oceano.
Não adiantara.
Ainda conseguia sentir a boca de Sarah na sua.
— Merda.
Passou as mãos pelos cabelos úmidos.
O beijo havia sido um erro.
Ele sabia disso antes de beijá-la.
Sabia enquanto a beijava.
E continuava sabendo agora.
O problema era que não se arrependia.
Essa era a parte verdadeiramente perigosa.
Quatro anos.
Durante quatro anos, Jacob organizara a própria vida de modo que ninguém conseguisse chegar perto demais.
Relacionamentos superficiais eram fáceis.
Jantares ocasionais eram fáceis.
Mulheres que compreendiam perfeitamente que não haveria manhã seguinte também eram fáceis.
Sarah não era.
Sarah estava dentro da casa dele.
Espalhava papéis sobre sua mesa.
Discordava de suas decisões.
Ria dele.
O enfrentava.
Olhava para ele como se Jacob Black não fosse um sobrenome, uma conta bancária ou um homem que as pessoas preferiam não contrariar.
E agora sabia como era beijá-la.
Jacob voltou a correr.
Talvez mais dez quilômetros resolvessem.
Sabia que não.
Quando retornou à casa, Sarah ainda não havia descido.
Ótimo.
Jacob tomou banho e se vestiu rapidamente.
Às sete e meia estava no escritório.
Às sete e quarenta, ouviu passos no corredor.
Não levantou os olhos.
Sarah entrou.
— Bom dia.
— Bom dia.
Jacob continuou olhando para o computador.
Silêncio.
— Você está ocupado?
— Sim.
Mais silêncio.
— Certo.
Ela saiu.
Jacob fechou os olhos.
Covarde.
Era exatamente o que Embry diria.
E estaria certo.
Jacob levantou-se.
Quando chegou à sala principal, Sarah já estava abrindo as plantas sobre a mesa.
Usava uma calça branca leve e uma blusa verde-clara. Os cabelos estavam presos em um rabo baixo, embora vários fios ondulados tivessem escapado e emoldurassem seu rosto.
Ela não olhou para ele.
— Sarah.
— Hum?
— Sobre ontem...
Ela continuou trabalhando.
— Não precisa.
Jacob franziu a testa.
— Não precisa o quê?
— Ter essa conversa constrangedora em que você me explica que o beijo foi um erro e que devemos manter uma relação estritamente profissional.
Ele ficou em silêncio.
Sarah finalmente ergueu os olhos.
Verdes.
Malditos olhos verdes.
— Era isso que você ia dizer?
Jacob colocou as mãos nos bolsos.
— Mais ou menos.
— Ótimo. Economizamos tempo.
Ela voltou para a planta.
Aquilo o irritou de maneira completamente irracional.
— Você está muito tranquila.
Sarah ergueu novamente os olhos.
— Deveria estar chorando?
— Não foi isso que eu disse.
— Então qual exatamente seria a reação apropriada?
— Não sei.
— Quando descobrir, me avise.
Jacob cruzou os braços.
— Você faz isso de propósito.
— O quê?
— Age como se nada afetasse você.
Sarah ficou imóvel.
O sorriso desapareceu.
— Você não me conhece o suficiente para afirmar isso.
Jacob percebeu que havia tocado em alguma coisa.
— Sarah...
— Você quer distância? Tudo bem. Eu respeito. Mas não transforme isso numa questão sobre mim só porque está desconfortável com aquilo que você fez.
A precisão da frase o atingiu.
— Nós fizemos.
— Sim. Nós fizemos.
Ela fechou a pasta.
— E eu não me arrependo.
Jacob parou.
Sarah sustentou seu olhar.
— Essa é a diferença — continuou. — Eu não vou fingir que não gostei apenas para tornar isso mais fácil para você.
— Eu também não disse que não gostei.
— Então qual é o problema?
Jacob sabia.
O problema era que havia gostado demais.
— Você trabalha para mim.
— Já estabelecemos que trabalho para sua empresa.
— Mora na minha casa.
— Temporariamente.
— Ficaremos praticamente sozinhos nesta ilha durante três meses.
— Você continua repetindo isso como se eu tivesse esquecido.
— Porque parece não compreender a complicação.
Sarah aproximou-se.
— Talvez seja você que esteja complicando.
— Sarah...
— Nós nos beijamos, Jacob. Não assinamos uma certidão de casamento.
Ele soltou uma risada incrédula.
— Você sempre reduz tudo ao absurdo?
— Quando alguém transforma um beijo numa crise existencial, sim.
Jacob ficou olhando para ela.
Então, contra a própria vontade, começou a rir.
Sarah sorriu.
— Melhor.
— Você é insuportável.
— E você é dramático.
— Ninguém jamais me chamou de dramático.
— Talvez tenham medo de você.
Jacob riu novamente.
Ela havia conseguido.
Em menos de cinco minutos, destruíra completamente a conversa que ele ensaiara durante quase dez quilômetros de corrida.
— Certo — disse.
— Certo o quê?
— Vamos trabalhar.
Sarah abriu a planta.
— Excelente ideia.
Jacob começou a se afastar.
— Jacob?
Ele virou-se.
Sarah o observava.
— Eu realmente não me arrependo.
O sorriso desapareceu do rosto dele.
— Nem eu.
Foi a única resposta que conseguiu dar antes de sair.
No final da manhã, Jacob recebeu uma ligação que o manteve quase duas horas no escritório.
Quando finalmente terminou, encontrou Sarah no jardim lateral.
Ela estava discutindo com três trabalhadores.
Em espanhol.
Jacob parou.
Não sabia que ela falava espanhol.
Sarah apontava para uma parede externa enquanto explicava alguma coisa. Os homens ouviam atentamente.
O vento soltou o cabelo que ela havia prendido pela manhã.
Os fios negros caíram pelas costas.
Sarah tentou prendê-los novamente.
Desistiu.
Jacob percebeu que estava olhando.
Outra vez.
— Você sabe que encarar uma mulher escondido atrás de uma coluna é um pouco assustador, não sabe?
Embry surgiu ao lado dele.
Jacob nem se assustou.
— Vá embora.
— Você gosta dela.
— Embry.
— Muito.
— Tenho trabalho.
— Você estava trabalhando intensamente naquela coluna.
Jacob olhou para o amigo.
Embry sorriu.
— Quatro anos, Jake.
O humor desapareceu imediatamente.
— Não.
— Eu só ia dizer...
— Eu sei o que você ia dizer.
Embry ficou sério.
— Então talvez devesse ouvir.
— Não preciso de conselho.
— Não. Você precisa de alguém que diga quando está sendo idiota.
Jacob começou a caminhar.
Embry acompanhou.
— Isabella morreu. Você não.
Jacob parou.
A frase acertou-o como um golpe.
— Não fale dela.
— Alguém precisa falar.
— Eu disse para não falar.
Embry ergueu as mãos.
— Certo.
Jacob respirou fundo.
Do outro lado do jardim, Sarah riu de alguma coisa que um dos trabalhadores havia dito.
Ele olhou para ela.
Embry percebeu.
— Ela não é Isabella.
— Eu sei.
— Então pare de tratá-la como se gostar dela fosse uma traição.
Jacob virou-se.
— Você terminou?
Embry sustentou seu olhar.
— Por enquanto.
Pouco depois das três da tarde, o tempo mudou.
Sarah percebeu primeiro.
— Aquela nuvem estava ali dez minutos atrás?
Jacob olhou para o horizonte.
Uma enorme massa cinza avançava sobre o mar.
— Não.
O vento aumentou.
Embry saiu da casa.
— Tempestade.
— Quanto tempo? — perguntou Jacob.
— Vinte minutos. Talvez menos.
Sarah olhou ao redor.
Havia amostras, ferramentas e caixas espalhadas pela área externa.
— Precisamos recolher tudo.
— Os funcionários fazem isso — disse Jacob.
Sarah já estava pegando uma caixa.
— E quatro mãos fazem mais que duas.
— Sarah...
Ela entregou uma caixa para ele.
— Pare de dar ordens e carregue.
Jacob olhou para a caixa.
Depois para ela.
Embry começou a rir.
— Não diga nada — avisou Jacob.
Durante quinze minutos, todos trabalharam rapidamente.
O vento tornou-se forte.
As primeiras gotas começaram a cair.
— Para dentro! — gritou Embry.
Sarah correu para buscar uma última pasta sobre uma mesa próxima à piscina.
— Deixe isso! — gritou Jacob.
— São os desenhos originais!
Uma rajada forte atravessou o terraço.
As folhas voaram.
— Droga!
Sarah tentou segurá-las.
Jacob correu até ela.
A chuva caiu de uma vez.
Pesada.
Quente.
Em segundos, ambos estavam completamente molhados.
Sarah conseguiu agarrar algumas folhas.
Outra voou em direção ao jardim.
— Esqueça!
— Preciso dela!
Ela correu.
Jacob segurou sua cintura antes que pudesse descer os degraus molhados.
— Ficou louca?
Sarah tentou se soltar.
— É a planta hidráulica!
— Eu compro outra!
— É de 1987!
— Eu compro 1987 inteiro se for necessário. Entre!
Sarah começou a rir.
Jacob olhou para ela como se tivesse enlouquecido.
— O que foi?
— Você acabou de dizer que compraria 1987.
— Você entendeu.
— Não foi isso que falou.
A chuva escorria pelo rosto dela.
Os cabelos estavam completamente molhados, colados aos ombros e às costas.
Jacob ainda segurava sua cintura.
Percebeu tarde demais.
Sarah também.
O riso diminuiu.
Os dois ficaram parados.
A chuva continuava caindo.
— Jacob...
Ele deveria soltá-la.
Não soltou.
Sarah estava muito perto.
Outra vez.
— Não — murmurou ele.
Ela franziu a testa.
— Não o quê?
— Não faça essa cara.
— Que cara?
— Essa.
— Você precisa ser mais específico.
Jacob passou a mão pelo rosto molhado.
— Sarah, estou tentando muito fazer a coisa certa.
Ela o observou.
— E qual é a coisa certa?
— Manter distância.
— Então talvez devesse começar soltando minha cintura.
Jacob olhou para a própria mão.
— Boa ideia.
Mas continuou segurando-a.
Sarah ergueu uma sobrancelha.
— Jacob.
— Estou pensando.
Ela riu.
— Você pensa demais.
— E você pensa de menos.
— Talvez seja por isso que nos damos tão bem.
— Nós não nos damos bem.
— Claro.
Um trovão ribombou.
Sarah se assustou.
Instintivamente, aproximou-se.
Jacob sentiu o corpo dela contra o seu.
E perdeu a discussão consigo mesmo.
Beijou-a.
Dessa vez não houve hesitação.
Sarah correspondeu imediatamente.
As mãos dela seguraram seus ombros enquanto Jacob a puxava para mais perto.
A chuva caía sobre os dois.
O beijo era completamente diferente do primeiro.
Na praia, Jacob havia sido cuidadoso.
Agora havia desejo.
Acumulado.
Negado.
Inconveniente.
Sarah passou os dedos pelos cabelos dele.
Jacob sentiu a mão dela em sua nuca.
Apertou-a contra si.
Então percebeu para onde aquilo estava indo.
Afastou a boca.
Sarah respirava rapidamente.
Ele também.
— Precisamos entrar.
Ela ficou olhando para ele.
— Isso foi uma maneira muito pouco convincente de demonstrar distância.
Jacob soltou uma risada sem fôlego.
— Eu sei.
— Só confirmando.
Ele finalmente soltou a cintura dela.
— Entre antes que fique doente.
— Isso é um mito.
— Sarah.
— Estou indo.
Ela começou a caminhar.
Jacob pegou as pastas.
Então ouviu:
— Jacob!
Virou-se.
Sarah estava alguns metros adiante.
— O quê?
Ela apontou para trás dele.
A planta de 1987 estava grudada na parede pela chuva.
Jacob olhou.
Depois para ela.
Sarah abriu um sorriso enorme.
— Salve 1987!
Ele começou a rir.
A tempestade durou quase duas horas.
Às seis, a chuva diminuíra, mas a energia havia caído.
Embry foi verificar o gerador.
Sarah estava no andar de cima tomando banho.
Jacob permaneceu sozinho na sala.
Acendeu algumas velas.
O silêncio da casa voltou.
Mas agora parecia diferente.
Antes de Sarah chegar, silêncio significava paz.
Agora parecia ausência.
Jacob percebeu isso com desconforto.
Ouviu passos na escada.
Virou-se.
Sarah descia.
Estava descalça.
Vestia uma calça leve e uma camiseta larga. Os cabelos ainda estavam úmidos e caíam soltos até a cintura.
Sem maquiagem.
Sem vestido verde.
Sem qualquer esforço aparente.
E Jacob achou-a ainda mais bonita.
— A energia voltou? — perguntou ela.
— Ainda não.
Sarah olhou para as velas.
— Então teremos jantar romântico à luz de velas?
— Não é romântico.
— Claro.
— É uma falta de energia.
— Extremamente sensual.
Jacob balançou a cabeça.
— Você consegue transformar qualquer coisa em provocação?
Sarah parou diante dele.
— Talvez você seja muito fácil de provocar.
— Sarah.
Ela sorriu.
— Vou procurar comida.
Jacob segurou sua mão antes que passasse.
Sarah parou.
Ele nem sabia por que havia feito aquilo.
Talvez soubesse.
— O quê? — perguntou ela.
Jacob olhou para os dedos dos dois.
— Embry disse uma coisa hoje.
— Isso geralmente é perigoso.
— Disse que Isabella morreu.
Sarah ficou séria.
Jacob respirou fundo.
— E que eu não.
Ela não respondeu.
Ele continuou:
— Durante quatro anos, achei que seguir em frente significaria esquecer.
Sarah aproximou-se um pouco.
— Não significa.
— Eu sei disso racionalmente.
— E o resto de você?
Jacob sorriu sem humor.
— O resto de mim é mais complicado.
Sarah apertou suavemente a mão dele.
— Você não precisa explicar nada para mim.
— Talvez eu queira.
Ela ficou quieta.
Jacob olhou para a escada.
Depois para o corredor que levava à ala oeste.
— Amanhã.
— Amanhã o quê?
Ele voltou os olhos para Sarah.
— Vou abrir a ala oeste.
Ela pareceu surpresa.
— Jacob, não precisa fazer isso por causa do projeto. Encontrei uma alternativa.
— Não é pelo projeto.
— Então por quê?
Jacob demorou alguns segundos.
— Porque talvez esteja na hora.
Sarah não perguntou mais.
Apenas apertou sua mão novamente.
Jacob percebeu que ela fazia aquilo com frequência.
Sabia quando falar.
Mas, principalmente, parecia saber quando não falar.
Ele levantou a mão dela.
Por impulso, tocou os lábios em seus dedos.
Sarah ficou imóvel.
— Isso faz parte da distância? — perguntou baixinho.
Jacob sorriu.
— Estou começando a desistir da distância.
— Finalmente uma decisão inteligente.
Ele puxou-a delicadamente para perto.
— Não abuse.
— Ou o quê?
Jacob inclinou o rosto.
— Você realmente quer descobrir?
Sarah olhou para a boca dele.
— Talvez.
Um trovão distante ecoou sobre o mar.
Dessa vez ela não se assustou.
Jacob aproximou a boca de seu ouvido.
— Três meses, Sarah.
Sentiu-a sorrir.
— Você precisa encontrar uma frase nova.
Ele riu.
Então a soltou.
— Vamos comer.
— Fugindo novamente?
— Sobrevivendo até amanhã.
Sarah caminhou em direção à cozinha.
Jacob ficou olhando.
Amanhã.
A palavra tinha um peso que ela ainda não compreendia.
Porque abrir a ala oeste não significava apenas permitir que Sarah entrasse no quarto onde Isabella vivera.
Significava abrir uma porta que Jacob mantivera fechada durante quatro anos.
E havia coisas naquele quarto que Sarah poderia perguntar.
Fotografias.
Cartas.
Objetos.
Lembranças.
Coisas que talvez finalmente o obrigassem a enfrentar perguntas que passara quatro anos evitando.
Entre elas, uma que nunca contara a ninguém além de Embry.
Na noite em que Isabella morreu, ela não deveria estar nadando.
Quando Jacob saíra para procurá-la, encontrara as sandálias dela na praia.
E ao lado delas havia duas taças de vinho.
Isabella não estivera sozinha.
Fale com o autor