ILHA DOS DESEJOS

10 CAPÍTULO 10 - Entre o passado e o presente


Sarah soube que alguma coisa estava errada quando as luzes se apagaram.

Não houve oscilação.

Nenhum aviso.

Um segundo, o escritório estava iluminado pelo sol que atravessava as grandes janelas e pelas luminárias sobre a mesa. No seguinte, tudo morreu.

O computador.

O ar-condicionado.

O pequeno ruído constante da casa.

Sarah levantou os olhos.

— Ótimo.

Paul Lahote, responsável pela segurança da propriedade, apareceu na porta poucos segundos depois.

— Senhorita Clearwater.

Sarah ergueu uma sobrancelha.

— Pelo menos acertou o sobrenome.

Paul não sorriu.

Aquilo fez o humor desaparecer do rosto dela.

— O gerador deveria ter entrado automaticamente — disse ele.

Sarah olhou para o teto.

— E não entrou.

— Não.

Paul pegou o rádio.

Estática.

Tentou novamente.

Nada.

Sarah levantou-se.

— Isso também não é normal, certo?

— Fique aqui.

Ela cruzou os braços.

— Todo homem desta ilha parece ter aprendido a mesma frase.

— Senhorita Clearwater...

— Essa parte continua correta.

— Tranque a porta.

Dessa vez Sarah não discutiu.

Alguma coisa na expressão de Paul dizia que não era momento para isso.

— Certo.

Ele saiu.

Sarah caminhou até a janela.

A propriedade parecia normal.

Mar.

Jardins.

Palmeiras.

O mesmo cenário paradisíaco que a recebera pouco mais de uma semana antes.

Mas agora parecia diferente.

Quieto demais.

Pegou o celular.

Sem sinal.

Aquilo não era novidade em alguns pontos da ilha. Na casa, entretanto, havia sinal por meio de um repetidor.

Ou deveria haver.

Tentou Jacob.

Nada.

Embry.

Nada.

— Vamos lá, Jacob...

Tentou novamente.

A chamada nem iniciou.

Sarah sentiu o primeiro aperto verdadeiro no estômago.

Não porque estivesse com medo por si mesma.

Jacob estava na mata com Embry procurando um homem que desaparecera havia quatro anos.

Edward Cullen.

O homem que tivera um caso com Isabella Swan.

O homem ligado às movimentações financeiras.

O homem que sabia da caixa escondida nas ruínas da antiga casa da praia.

E, principalmente, o homem que podia saber alguma coisa sobre as últimas horas de vida de Isabella.

Sarah fechou os olhos.

— Não faça nenhuma estupidez.

Jacob dissera que não pretendia.

O que, vindo de Jacob Black, provavelmente significava que já estava planejando pelo menos três.

Um ruído metálico veio do lado de fora.

Sarah virou-se.

— Paul?

Nada.

Saiu do escritório e parou no corredor.

— Paul?

Outro som.

Perto da área técnica.

Sarah foi até uma das janelas laterais.

Viu movimento.

Uma pessoa.

Não era Paul.

Recuou imediatamente.

Seu coração disparou.

Não.

Aquele não era momento de ser curiosa.

Se havia alguém desconhecido na propriedade, Sarah não precisava descobrir quem era.

Precisava sair.

Virou-se e quase colidiu com Paul entrando pela porta lateral.

— Meu Deus!

— Desculpe.

— Você quer me matar?

— Precisamos sair da casa.

O tom dele apagou imediatamente a indignação.

— Por quê?

— Os cabos do gerador foram cortados.

Sarah ficou imóvel.

— Cortados?

— Sim.

— Acidente?

Paul apenas a encarou.

Sarah respirou fundo.

— Certo. Pergunta idiota.

— O repetidor também foi desligado.

Agora o medo veio.

Real.

Frio.

— Alguém fez isso deliberadamente.

— Sim.

Paul retirou a arma do coldre.

Sarah olhou para ela.

— Isso não está ajudando.

— Vá para o carro.

— E Jacob?

— Jacob sabe se cuidar.

— Essa é exatamente a frase que antecede decisões masculinas muito ruins.

— Sarah.

Ela respirou fundo.

— Certo.

Então ouviram um motor.

Paul ergueu a arma.

Um jipe surgiu no caminho.

Rápido demais.

Sarah sentiu o coração subir à garganta.

Até reconhecer o motorista.

— É Jacob.

Antes que Paul pudesse impedi-la, ela abriu a porta.

— Sarah!

O jipe ainda estava em movimento quando Jacob saltou.

Ele correu até ela.

Sarah nunca ouvira seu nome daquela maneira.

Não era um chamado.

Era medo.

Jacob segurou seu rosto com as duas mãos.

— Você está bem?

— Estou.

— Tem certeza?

— Jacob...

As mãos dele percorreram seus braços, ombros, cintura, como se precisasse confirmar fisicamente que nada havia acontecido.

— Estou bem.

Jacob a puxou contra o peito.

Sarah ficou imóvel por um segundo.

Depois o abraçou.

O coração dele batia violentamente.

— Estou bem — repetiu contra sua camisa.

— Não consegui ligar.

— Cortaram o repetidor.

Jacob afastou-se imediatamente.

— O quê?

Paul aproximou-se.

— Gerador e comunicações foram sabotados. Vi movimento perto da área técnica, mas não consegui identificar ninguém.

A expressão de Jacob mudou.

— Embry!

Embry saiu do jipe.

E então Sarah viu o terceiro homem.

Soube imediatamente.

Não precisou perguntar.

Edward Cullen.

Era diferente das fotografias.

Mais velho.

Mais magro.

Os cabelos mais compridos, barba curta, uma cicatriz sobre a sobrancelha. Sangue seco marcava o lábio.

Sarah olhou para Jacob.

Depois para Edward.

— Você bateu nele.

Jacob nem piscou.

— Duas vezes.

Embry passou a mão pelo rosto.

— Não incentive.

Sarah voltou-se para Edward.

— Mereceu?

Edward respondeu antes de Jacob:

— Sim.

Ela ergueu as sobrancelhas.

— Pelo menos temos um ponto de consenso.

Jacob segurou sua cintura.

— Dentro.

Sarah olhou para a mão dele.

— Você voltou a dar ordens.

— Sarah.

Ela viu.

Ele ainda estava assustado.

Muito.

E decidiu não discutir.

— Tudo bem.

Edward parou no hall.

E Sarah percebeu imediatamente que aquilo seria pior do que imaginara.

Ele conhecia aquela casa.

Não apenas reconhecia.

Lembrava.

Os olhos passaram pela escada, pela sala, pelo corredor e finalmente encontraram a porta da ala oeste.

Algo mudou em seu rosto.

Jacob viu.

— Nem pense.

Edward desviou os olhos.

— Não ia entrar.

— Ótimo.

— Jacob...

— Não diga o nome dela como se ainda tivesse algum direito nesta casa.

Edward apertou a mandíbula.

— Você não pode decidir o que eu sinto.

Jacob deu um passo.

— Nesta casa posso decidir muita coisa.

Sarah tocou seu braço.

— Jacob.

Edward soltou uma risada amarga.

— Continua igual.

Jacob virou-se completamente.

— Não. Você não sabe como eu continuo. Não sabe absolutamente nada sobre os últimos quatro anos da minha vida porque não estava aqui.

Edward ficou em silêncio.

— Lembra? — insistiu Jacob.

— Lembro.

— Ótimo.

Embry fechou a porta.

— Talvez possamos guardar a tentativa de homicídio entre ex-amigos para depois. Alguém acabou de sabotar a casa.

Sarah olhou para Edward.

— Você sabia da caixa.

— Sabia que Isabella havia separado documentos.

— Sabia da carta que ela deixou para Jacob?

Edward hesitou.

— Sabia que ela pretendia escrever alguma coisa. Não sabia se conseguiu.

Sarah percebeu a reação de Jacob.

— E você estava com Isabella na noite em que ela morreu.

Edward assentiu.

Sarah voltou-se para Jacob.

— Você descobriu agora?

— Sim.

Havia alguma coisa quebrada nos olhos dele.

Sarah tocou seu braço.

— O que Edward disse?

Foi o próprio Edward quem respondeu:

— Isabella estava viva quando fui embora.

Sarah ficou imóvel.

— Viva e sem ferimentos?

— Que eu tivesse visto, sim.

— Horário?

— Pouco depois das onze.

— E você tem alguma coisa que confirme isso?

Edward a encarou.

— Não.

Sarah assentiu.

— Então, por enquanto, é seu relato.

Jacob olhou para ela.

Edward também.

— Você não acredita em mim? — perguntou ele.

— Não é uma questão de acreditar. Você desapareceu durante quatro anos, voltou escondido para a ilha e está trazendo informações sobre uma mulher morta cuja morte nunca foi esclarecida. Eu seria irresponsável se transformasse tudo o que você disser em fato.

Edward sustentou o olhar por alguns segundos.

— Justo.

— Isabella morreu afogada — continuou Sarah.

— Foi o que o relatório concluiu.

— Você acha que foi assassinada?

Edward respirou fundo.

— Acho que há coisas naquela noite que nunca foram investigadas direito. E sei que alguém tentou me matar dois dias depois do funeral.

— Isso também precisa ser comprovado — respondeu Sarah.

Edward tocou discretamente o ombro.

— Tenho cicatrizes.

— Cicatrizes provam ferimentos. Não provam quem os causou nem por quê.

Pela primeira vez, algo semelhante a respeito apareceu na expressão dele.

— Continue fazendo isso.

Jacob imediatamente endureceu.

— Não dê conselhos a ela.

Sarah suspirou.

— Escritório. Todos.

Edward sentou-se no sofá.

Embry permaneceu perto da porta.

Paul foi coordenar o restabelecimento das comunicações e a busca na área técnica.

Sarah ocupou uma poltrona.

Jacob permaneceu em pé.

— Comece do início — disse Sarah.

Edward olhou para Jacob.

— Do início seria uma história muito longa.

Jacob respondeu:

— Então fale por muito tempo.

Edward respirou fundo.

— Conheci Charlie Swan antes de conhecer Isabella.

Jacob permaneceu imóvel.

— Sabemos que você tinha ligação profissional com ele — disse Sarah. — Há uma procuração sua relacionada à Blue Horizon.

Edward demonstrou surpresa.

— Encontraram isso?

— Encontramos.

— Então já chegaram mais longe do que eu imaginava.

— Não responda pergunta com pergunta — disse Jacob.

Edward assentiu.

— Charlie fazia trabalhos jurídicos e financeiros para clientes que não queriam aparecer diretamente.

Sarah perguntou:

— Legalmente?

Edward soltou uma risada amarga.

— Algumas vezes.

— E você trabalhou para ele antes de trabalhar para Jacob?

— Sim.

Jacob aproximou-se.

— Foi Charlie quem recomendou você para minha empresa.

— Foi.

— Por quê?

Edward hesitou.

— Na época, achei que fosse porque confiava em mim.

— E hoje?

— Hoje não tenho certeza.

Sarah interveio:

— Isso é importante. Você está dizendo que não sabe qual era a intenção de Charlie.

Edward olhou para ela.

— Sim.

— Então mantenha assim.

Jacob cruzou os braços.

— E a Blue Horizon?

Edward respirou fundo.

— Eu fiz movimentações usando a empresa.

— Quanto? — perguntou Jacob.

— Não consigo dizer o valor total sem os registros.

— Encontramos mais de quatro milhões.

Edward fechou os olhos.

— Então provavelmente encontraram quase tudo daquele período.

— Você roubou quatro milhões de mim.

— Movimentei dinheiro sem sua autorização.

— Não tente escolher palavras bonitas.

— Não estou.

Jacob avançou.

— Você roubou.

Edward sustentou o olhar.

— Sim.

O silêncio ficou pesado.

— Isabella sabia? — perguntou Sarah.

Edward demorou.

— Não no começo.

Jacob soltou uma risada amarga.

— Claro.

Sarah ergueu a mão.

— Não. É exatamente aqui que precisamos separar as coisas. Edward afirma que Isabella não sabia. Temos alguma prova independente disso?

— Os documentos que ela reuniu.

— Podem mostrar que investigou depois. Não necessariamente o que sabia antes.

Edward assentiu lentamente.

— Certo.

Jacob olhou para Sarah.

— Você consegue transformar até a minha raiva em ata de audiência.

— É uma habilidade.

Embry murmurou:

— Uma habilidade útil nesta casa.

Sarah continuou:

— Quando Isabella descobriu as movimentações?

— Alguns meses antes de morrer.

— Como?

— Encontrou documentos de Charlie depois da morte dele. Começou a fazer perguntas.

— E procurou você porque sabia que havia trabalhado para o pai dela.

— Sim.

Jacob riu sem humor.

— O amante conveniente.

Edward fechou os olhos.

— Se pretende fazer isso a cada frase...

— Pretendo.

— Jacob — advertiu Sarah.

Ele ficou quieto.

Sarah voltou-se para Edward.

— Você contou tudo a Isabella?

— Não.

— Por quê?

— Medo.

— De quem?

Edward demorou.

— Na época, eu não sabia exatamente. Charlie falava de pessoas acima dele. Estruturas antigas. Gente que não aparecia nos documentos mais óbvios.

Sarah percebeu imediatamente.

— Nomes?

— Nenhum que eu possa afirmar com segurança.

— Melhor.

Edward franziu a testa.

— Melhor?

— Melhor admitir que não sabe do que preencher o vazio com uma teoria.

Jacob soltou uma respiração pesada.

— E meu dinheiro?

Edward encarou-o.

— Parte das movimentações que fiz foi criminosa. Não vou fingir o contrário.

— Parte?

— Algumas começaram antes de Isabella descobrir qualquer coisa. Depois que ela começou a investigar, continuamos movimentando determinados valores porque eu tinha medo de que uma interrupção repentina mostrasse que alguma coisa havia mudado.

Sarah se inclinou.

— Isso foi uma decisão sua e de Isabella?

— Em alguns momentos.

Jacob ficou muito quieto.

— Então ela participou.

Edward percebeu o perigo da palavra.

— Participou de algumas decisões depois de descobrir. Não estou dizendo que participou do esquema desde o começo.

— Mas você não consegue provar isso agora — disse Sarah.

— Não.

Jacob virou-se para a janela.

— Ela sabia que dinheiro meu continuava sendo movimentado.

— Sim.

— E não me contou.

Edward baixou os olhos.

— Não.

— Porque confiava em você.

Edward não respondeu.

Jacob virou-se.

— Diga.

— Em parte.

A expressão de Jacob mudou.

— Enquanto eu confiava nos dois.

— Eu sei.

— Pare de dizer que sabe.

Edward se calou.

Sarah observou Jacob por alguns segundos.

— Continue — pediu ela.

Edward respirou fundo.

— Isabella estava reunindo documentos. Tentava entender o que Charlie havia feito, por que a Blue Horizon existia e quem mais aparecia por trás das operações.

— Ela descobriu?

— Algumas coisas.

— Quais?

— Não sei todas.

Jacob riu amargamente.

— Você é impressionantemente inútil para alguém que voltou dizendo saber tanto.

— Isabella parou de me contar tudo.

Aquilo fez Jacob olhar para ele.

— Por quê?

Edward demorou.

— Porque deixou de confiar em mim.

— Inteligente da parte dela.

Edward aceitou o golpe.

Sarah perguntou:

— Ela procurou Nassau?

A reação dele foi mínima.

Mas existiu.

— Sim.

— Por quê?

— Documentos relacionados a Charlie.

— Banco?

— Ela perguntou se eu conhecia pessoas no setor bancário de Nassau.

— Você deu nomes?

— Dois.

— E sabe se ela procurou algum deles?

— Não.

Sarah assentiu.

Aquilo era melhor.

Uma pista verificável.

Não uma solução pronta.

— E você não sabe se havia cofre, conta ou qualquer outra coisa?

— Não com certeza.

Jacob observou Edward.

— Está escondendo alguma coisa?

— Estou dizendo exatamente o que sei. Isabella me perguntou sobre bancos em Nassau. Dei dois contatos. Depois disso, ficou ainda mais reservada.

Sarah registrou mentalmente.

A investigação de Nassau surgia agora pelo caminho correto.

A chave, se existisse, ainda precisava ser encontrada.

A conversa se tornou mais difícil quando Jacob voltou ao assunto que realmente o destruía.

— Você amava Isabella?

Edward fechou os olhos por um instante.

— Sim.

Jacob ficou imóvel.

— E ela?

Edward hesitou.

Aquilo foi pior do que uma resposta rápida.

— Diga.

— Acho que me amou de alguma maneira.

Jacob riu.

— “De alguma maneira.”

— Não existe resposta boa para isso.

— Tente.

Edward respirou fundo.

— Isabella tinha sentimentos por mim. Mas nunca deixou de amar você.

Jacob o encarou.

— Não faça isso.

— O quê?

— Não tente devolvê-la para mim agora.

— Não estou tentando.

— Está me dizendo que no fim ela me escolheu como se isso apagasse oito meses.

— Não apaga.

— Então por que está dizendo?

— Porque você perguntou.

Jacob se aproximou.

— Eu escolhi você para ser meu padrinho.

Edward perdeu a cor.

Sarah sentiu o peito apertar.

— Eu tinha um irmão na minha cabeça — continuou Jacob. — Era isso que você era para mim.

— Eu sei.

— Não sabe.

Jacob apontou para ele.

— Eu confiava em você com meu dinheiro, minha casa, minha vida. E ia colocar você ao meu lado enquanto me casava com ela.

Edward baixou os olhos.

— Sim.

— Você teria ficado lá?

Edward demorou.

— Não sei.

— Mentira.

— Eu realmente não sei.

Jacob soltou uma risada amarga.

— Claro.

Edward finalmente elevou a voz:

— O caso começou antes de qualquer investigação! Não estou tentando transformá-lo numa missão heroica. Foi errado antes. Foi errado durante. Continuou errado depois.

Silêncio.

— Eu traí meu melhor amigo — continuou Edward. — E Isabella traiu você. Nada que ela tenha descoberto depois apaga isso.

A resposta desarmou Jacob por um segundo.

— Então pare de falar dela como se estivesse tentando santificá-la.

— Não estou.

— Ótimo.

Sarah percebeu que aquela distinção era importante.

Isabella podia ter tentado corrigir crimes e ainda ter traído Jacob.

Uma verdade não eliminava a outra.

— Na noite em que morreu — perguntou Jacob — ela terminou com você?

Edward assentiu.

— Sim.

— Por quê?

— Disse que precisava contar tudo.

— Para mim.

— Sim.

Jacob fechou os olhos.

— O caso também?

— Sim.

— E você deixou que ela ficasse sozinha.

Edward respirou fundo.

— Quando fui embora, Isabella estava viva. Chorando. Com raiva. Assustada.

— Assustada com quê?

— Ela não disse claramente.

— E você foi embora mesmo assim.

— Sim.

Jacob avançou.

Embry ficou alerta.

Mas Jacob não bateu nele.

— Eu me culpei durante quatro anos por não estar com ela naquela noite.

Edward empalideceu.

— Jacob...

— Pensei que Isabella tivesse entrado naquele mar sozinha porque eu estava trabalhando.

A voz dele falhou.

Sarah sentiu os olhos arderem.

— E você sabia que, quando a deixou, ela não estava sozinha naquela casa havia horas. Sabia que esteve com ela. Sabia que ela pretendia falar comigo.

Edward baixou os olhos.

— Sim.

— Então quando me disser que sente culpa, não fale apenas porque dormiu com minha noiva.

Edward ergueu o rosto.

— Sinta culpa por isso também. Porque você me deixou carregar uma culpa que sabia que não era inteiramente minha.

Edward não conseguiu responder imediatamente.

Quando falou, a voz saiu rouca.

— Você tem razão.

Jacob virou o rosto.

— Eu não precisava de toda a verdade há quatro anos. Uma parte já teria mudado minha vida.

Silêncio.

— Por que nunca contou?

— No começo, porque alguém tentou me matar. Depois porque eu estava apavorado. E depois...

Edward parou.

— Depois o quê?

— Porque fui covarde.

Jacob o encarou.

— Finalmente.

Edward não tentou se defender.

— Escrevi para você três vezes.

— Nunca recebi.

— Porque destruí as cartas.

Jacob soltou uma risada incrédula.

— Então isso não conta.

— Eu sei.

— Pensar em contar não vale nada.

— Não.

Jacob ficou olhando para ele.

— O que você quer de mim?

Edward respondeu com sinceridade:

— Nada.

— Perdão?

— Não vim pedir.

— Então por que voltou?

Edward olhou para Sarah.

Depois para Jacob.

— Porque soube que você voltou para Saint Claire. Depois soube que a ala oeste tinha sido aberta. E percebi que alguém estava acompanhando a casa novamente.

Sarah se endireitou.

— Novamente?

Edward percebeu o erro.

Tarde demais.

Jacob avançou.

— O que significa novamente?

— Antes de Isabella morrer, ela acreditava que alguém observava a propriedade.

— Acreditava ou sabia? — perguntou Sarah.

— Ela viu um homem duas vezes perto da estrada de serviço. E uma embarcação sem identificação em outra ocasião.

— Comunicou à segurança?

— Não sei.

Embry franziu a testa.

— Eu não recebi nada.

Jacob olhou para Edward.

— Ela contou para você.

— Sim.

— E não para mim.

— Pedi que falasse com você.

— Mas você não falou.

— Não.

Jacob bateu a mão na mesa.

— Impressionante como todos vocês decidiram o que eu podia ou não saber.

Sarah interveio:

— E hoje alguém sabotou o gerador e o repetidor.

O ambiente mudou.

Aquela era a única coisa concreta ocorrida naquele dia.

Edward assentiu.

— Exatamente.

— Você acredita que a sabotagem aconteceu porque voltou — disse Sarah.

— É uma possibilidade.

Ela percebeu a escolha de palavra.

— Melhor.

Jacob olhou para ela.

Sarah continuou:

— Não sabemos se quem cortou os cabos é a mesma pessoa que observava Isabella quatro anos atrás. Não sabemos se tem relação com Edward. Não sabemos sequer se o alvo era Edward, Jacob, os documentos ou outra coisa.

Embry assentiu.

— Finalmente alguém nesta sala que não quer prender metade do Caribe antes do jantar.

Jacob lançou-lhe um olhar.

— Não abuse.

Paul voltou pouco depois.

— Comunicações restauradas parcialmente. O corte foi deliberado.

— Câmeras? — perguntou Jacob.

— A área técnica tem um ponto cego antigo. Mas estou recolhendo as gravações das vias de acesso.

— Encontrou alguém?

— Ainda não.

Jacob olhou para Edward.

— Você fica aqui.

Edward ergueu uma sobrancelha.

— Isso foi um convite?

— Vigilância.

— Então sou prisioneiro.

— Se preferir, pode dormir na praia.

Embry murmurou:

— Eu escolheria o quarto.

Edward ignorou.

— Certo.

Jacob aproximou-se.

— E não esconda mais nada que diga respeito diretamente a mim.

Edward sustentou seu olhar.

— Vou contar o que sei.

— Tudo.

— O que eu puder sustentar como fato.

Sarah ergueu uma sobrancelha.

Edward olhou para ela.

— Estou aprendendo.

Jacob não achou graça.

— Não confunda ficar nesta casa com perdão.

A expressão de Edward tornou-se séria.

— Não confundiria.

Jacob virou-se.

— Jacob.

Ele parou.

— Por mais inútil que seja agora... sinto muito.

Jacob permaneceu de costas.

Durante alguns segundos, Sarah achou que não responderia.

— Um dia talvez eu consiga ouvir isso sem querer quebrar sua cara.

Edward baixou os olhos.

— Já seria alguma coisa.

Mais tarde, Sarah encontrou Jacob na varanda dos fundos.

As mãos dele estavam apoiadas no parapeito.

— Quer ficar sozinho?

— Não.

A resposta veio imediatamente.

Sarah aproximou-se.

Ficou ao lado dele.

— Não sei mais quem Isabella era.

— Talvez esteja começando a descobrir.

— E se eu não gostar?

— Então não gosta.

Jacob olhou para ela.

— Simples assim?

— Não. Mas verdadeiro.

Ele voltou os olhos para o mar.

— Quando descobri Edward, depois da morte dela, quis odiá-la.

Sarah permaneceu quieta.

— Era mais fácil.

— Porque raiva às vezes dói menos.

Jacob assentiu.

— Agora ele aparece dizendo que ela estava tentando descobrir coisas, que pretendia contar tudo, que talvez estivesse tentando corrigir alguma coisa...

— Isso não apaga a traição.

Jacob virou-se para ela.

— Obrigado.

— Por quê?

— Porque todo mundo transforma mortos em santos.

Sarah balançou a cabeça.

— Isabella podia estar tentando fazer a coisa certa no final e ainda ter feito coisas terríveis antes. Uma coisa não cancela a outra.

— E Edward?

— Mesma regra.

Jacob soltou uma respiração.

— Você realmente não facilita.

— Nunca prometi.

Ele ficou olhando para ela.

Depois estendeu a mão.

Sarah segurou.

Jacob a puxou suavemente.

— Quando voltei e não consegui falar com você...

Ela percebeu a mudança.

— Eu estava bem.

— Eu sei agora.

— Jacob...

— Pensei que alguém tivesse entrado na casa.

Ele fechou os olhos.

— Pensei em você machucada.

Sarah tocou seu rosto.

— Não aconteceu.

— Mas poderia.

— Muitas coisas poderiam acontecer.

Jacob abriu os olhos.

— Não era apenas medo.

Ela ficou quieta.

— Era a ideia de perder você.

O coração de Sarah bateu mais forte.

— Não diga isso porque Isabella morreu aqui.

— Não estou dizendo por causa dela.

— Tem certeza?

— Tenho.

Jacob segurou seu rosto.

— Você não preenche lugar nenhum, Sarah Clearwater.

Ela não se moveu.

— Quando beijo você, não penso em Isabella. Quando quero você perto, não é porque estou tentando recuperar alguma coisa. E quando tive medo de perder você hoje...

Ele respirou fundo.

— Foi porque não quero perder você.

Sarah sentiu os olhos arderem.

— Isso está ficando perigoso.

— Muito.

— Rápido.

— Demais.

— E provavelmente pouco inteligente.

Um pequeno sorriso apareceu.

— Essa parte já estabelecemos.

Sarah passou os braços pelo pescoço dele.

— Eu também fiquei preocupada.

— Comigo?

Ela fingiu pensar.

— Principalmente com Embry.

Jacob estreitou os olhos.

Sarah riu.

— Cruel.

— Você facilita.

Ele a beijou.

O beijo começou devagar.

Não permaneceu assim.

Mas havia algo diferente dos anteriores.

Não era apenas desejo.

Jacob a segurava como se precisasse confirmar que ela realmente estava ali.

Sarah percebeu.

E não recuou.

Quando se separaram, ela encostou a testa na dele.

— Ainda está pensando.

— Sempre.

— Pare.

— Não sei como.

— Posso ensinar.

Jacob sorriu.

— Isso parece perigoso.

— Muito.

Ele beijou sua testa.

Depois a abraçou novamente.

Por alguns segundos não havia Isabella.

Edward.

Charlie.

Blue Horizon.

Dinheiro.

Morte.

Havia apenas Jacob.

E Sarah percebeu que aquilo começava a assustá-la mais do que todo o resto.

Porque sabia lidar com mistérios.

Sabia lidar com homens difíceis.

Sabia até lidar com perigo.

O que ainda não sabia era como sair ilesa de um homem que começava a fazê-la imaginar o que aconteceria quando os três meses terminassem.

No escritório, Edward permanecia sozinho.

Embry havia saído para acompanhar Paul.

Edward olhou para os documentos espalhados sobre a mesa.

Depois para a porta.

Retirou um telefone antigo da mochila.

Ligou.

O sinal retornava lentamente.

Uma barra.

Depois duas.

O aparelho vibrou.

Uma mensagem.

Edward ficou pálido.

Você não deveria ter voltado.

Segunda mensagem.

Agora ele sabe que você está vivo.

Edward digitou:

Quem é você?

A resposta veio quase imediatamente.

Alguém que sabe que Isabella chegou perto demais da verdade.

Edward ficou imóvel.

Outra mensagem apareceu.

Dessa vez havia uma fotografia anexada.

Ele abriu.

Jacob e Sarah estavam na varanda.

Fotografados poucos minutos antes.

Edward levantou-se de uma vez e correu até a janela.

Nada.

Voltou para a tela.

Uma última mensagem surgiu.

Desta vez, Jacob tem mais a perder.

Edward olhou novamente para a fotografia.

E compreendeu que seu retorno não havia apenas reaberto o passado.

Tinha colocado Sarah dentro dele.