ILHA DOS DESEJOS
11 CAPÍTULO 11- Aquilo que se pode perder
Jacob soube que alguma coisa havia mudado antes mesmo de Edward abrir a boca.
Estava na cozinha quando o viu surgir na porta.
Sarah permanecia sentada à bancada, bebendo água enquanto discutia com Embry sobre a possibilidade de transformar o antigo depósito da casa em uma pequena adega. Era uma conversa absurda para aquele momento, e talvez exatamente por isso Jacob tivesse permitido que continuasse. Depois de horas falando sobre Isabella, morte, traição, dinheiro e ameaças, ouvir Sarah defender apaixonadamente que nenhuma pessoa civilizada precisava de uma adega para quatrocentas garrafas parecia quase normal.
Edward apareceu.
Parou.
Olhou primeiro para Jacob.
Depois para Sarah.
E tornou a olhar para Jacob.
— Preciso falar com você.
Jacob apoiou a xícara.
— Fale.
Edward hesitou.
— A sós.
O corpo de Jacob ficou imediatamente alerta.
— Se envolve Sarah?
Edward não respondeu.
Foi suficiente.
— Então ela fica.
Sarah parou de falar.
Embry também.
Edward respirou fundo.
— Jacob...
— Você acabou de prometer que não esconderia nada que dissesse respeito a ela.
Edward passou a mão pelo rosto.
— Eu sei.
— Então já está começando mal.
— Não estou escondendo.
— Está tentando me tirar da sala para contar.
Sarah desceu do banco.
— Talvez ele tenha uma razão.
Jacob olhou para ela.
— Não.
— Você nem sabe qual é.
— Se diz respeito a você, quero que escute.
— E se eu preferir não escutar?
Aquilo o fez parar.
Sarah aproximou-se.
— Não decida por mim.
Jacob apertou a mandíbula.
— Certo.
Virou-se para Edward.
— Fale.
Edward retirou o telefone do bolso.
Colocou sobre a bancada.
— Recebi isso há alguns minutos.
Jacob pegou o aparelho.
Leu a primeira mensagem.
Você não deveria ter voltado.
Segunda.
Agora ele sabe que você está vivo.
Jacob ergueu os olhos.
— Quem enviou?
— Número mascarado.
— Respondeu?
— Sim.
Jacob continuou.
Quem é você?
Depois:
A pessoa que sabe por que Isabella precisou morrer.
O estômago de Jacob se contraiu.
Embry aproximou-se.
— Meu Deus.
Jacob não respondeu.
Continuou descendo.
Então viu a fotografia.
Ele e Sarah.
Na varanda.
Sarah dentro de seus braços.
Tirada havia menos de uma hora.
O mundo pareceu parar.
Jacob ampliou.
A fotografia fora feita de longe.
Provavelmente a partir da vegetação.
Mas não longe o suficiente.
Conseguia ver o rosto de Sarah.
A mão dela em sua nuca.
Seu próprio braço ao redor da cintura dela.
E abaixo:
Desta vez, Jacob tem mais a perder.
Nenhuma reação veio imediatamente.
Foi justamente isso que assustou Sarah.
— Jacob?
Ele colocou o telefone sobre a bancada.
— Embry.
— Sim.
— Feche a propriedade.
Edward franziu a testa.
— O quê?
Jacob ignorou.
— Ninguém entra. Ninguém sai. Quero todos os funcionários localizados e identificados. Quero câmeras verificadas desde ontem, barcos, veículos, combustível, tudo.
— Certo.
— E dobre a segurança.
Embry pegou o rádio.
— Vou fazer.
— Paul.
O segurança apareceu no corredor.
— Senhor.
— Sarah não fica sozinha em nenhum momento.
Sarah abriu a boca.
Jacob levantou a mão.
— Não.
Ela estreitou os olhos.
— Você acabou de dizer que não decidiria por mim.
— Isso foi antes de eu descobrir que alguém estava fotografando você escondido.
— Continuo sendo a mesma pessoa.
— E a ameaça continua sendo contra você.
— Contra você.
— Usando você.
Silêncio.
Sarah sentiu.
A escolha das palavras também atingiu Jacob.
Edward observava.
— Jacob — disse ela mais suavemente. — Não transforme isso numa prisão.
— Prefiro você irritada comigo do que...
Ele parou.
Sarah esperou.
— Do que o quê?
Jacob não respondeu.
Não precisava.
Edward desviou os olhos.
Embry saiu.
Paul permaneceu próximo à porta.
Sarah cruzou os braços.
— Quero falar com você.
— Estamos falando.
— Sozinhos.
Jacob olhou para Edward.
— Não saio daqui com o telefone.
— Pode ficar com ele — respondeu Edward.
Jacob o encarou.
— Senha?
Edward disse.
Jacob digitou.
— Vou mandar copiar tudo.
— Faça.
— E o aparelho fica comigo.
Edward hesitou apenas uma fração de segundo.
Jacob percebeu.
— Problema?
— Minha vida inteira dos últimos quatro anos está aí.
— Então vai ser uma leitura interessante.
— Jacob.
— Você quer minha confiança? Começa aqui.
Edward sustentou seu olhar.
Depois assentiu.
— Fica com ele.
Jacob não esperava.
Mas não demonstrou.
— Ótimo.
Sarah segurou seu braço.
— Agora.
Ele foi com ela.
Sarah não parou na varanda.
Continuou andando pelo corredor.
Subiu.
Jacob percebeu para onde iam.
— Seu quarto?
— Sim.
— Sarah...
— Entre.
Ele entrou.
Ela fechou a porta.
Jacob imediatamente foi até a janela.
Verificou o jardim.
A varanda.
A linha de árvores.
Sarah observou.
— Pare.
— Tem alguém lá fora.
— Eu sei.
— Tirou uma fotografia daqui.
— Eu sei.
— Então não me peça para parar.
Sarah caminhou até ele.
— Olhe para mim.
Jacob continuou olhando para fora.
Ela segurou seu rosto.
Obrigou-o a encará-la.
— Eu estou aqui.
— Agora.
Sarah ficou quieta.
— Não diga “agora” como se eu estivesse prestes a morrer.
Ele fechou os olhos.
— Não faça piada com isso.
— Não estou fazendo.
Jacob afastou-se.
Passou as mãos pelos cabelos.
— Você precisa sair da ilha.
Sarah ficou imóvel.
— Não.
— O avião pode estar pronto em uma hora.
— Não.
— Vai para Miami.
— Jacob.
— Ou qualquer lugar que escolher. Dois seguranças vão com você.
— Não vou.
Ele virou-se.
— Não estou perguntando.
Sarah ficou muito quieta.
— Repita.
Jacob percebeu.
Mas estava assustado demais para recuar.
— Você vai sair da ilha.
— Não.
— Sarah.
— Eu assinei um contrato para trabalhar aqui.
— Dane-se o contrato.
— Tenho trabalho.
— Dane-se a reforma!
— E tenho direito de decidir onde fico.
— Não quando alguém está ameaçando matar você!
— Ninguém ameaçou me matar.
Jacob riu de incredulidade.
— “Jacob tem mais a perder.” O que você acha que significa?
— Pode significar muitas coisas.
— Não vou esperar descobrir!
— Então investigue!
— É o que estou fazendo!
— Não. Está tentando me colocar num avião porque está com medo!
A frase caiu.
Jacob parou.
Sarah respirava rapidamente.
Ele também.
— Sim.
Ela não esperava.
— Estou com medo.
Jacob aproximou-se.
— Muito.
Sarah perdeu parte da raiva.
— Jacob...
— Quando o rádio parou de funcionar hoje, corri de volta imaginando você no chão desta casa.
A voz dele falhou.
— Agora descubro que alguém estava aqui. Observando você. Fotografando.
Ele apontou para a janela.
— Não consigo fazer isso.
— Fazer o quê?
— Esperar alguma coisa acontecer.
Sarah aproximou-se.
— Então não espere. Proteja a casa. Descubra quem entrou. Coloque vinte seguranças no jardim se isso fizer você dormir.
— Não vou dormir.
— Eu imaginei.
Ele quase sorriu.
Não conseguiu.
— Mas não me mande embora.
— Por quê?
Sarah ficou surpresa.
— Porque eu não quero ir.
— Isso não é suficiente.
— Para mim é.
Jacob balançou a cabeça.
— Você não entende.
— Então explique.
Ele ficou olhando para ela.
— Isabella morreu aqui.
Sarah não se moveu.
— Eu sei.
— Eu estava nesta casa enquanto ela estava naquela praia.
— Jacob...
— Passei quatro anos pensando que, se tivesse prestado atenção, se tivesse saído do escritório, se tivesse percebido alguma coisa...
Sarah tentou interromper.
— Não.
Ele ergueu a mão.
— Eu sei o que você vai dizer. Sei que não foi minha culpa. Sei racionalmente.
Respirou fundo.
— Mas saber não muda a sensação.
Sarah compreendeu.
— E agora você acha que está acontecendo novamente.
Jacob fechou os olhos.
— Sim.
Ela aproximou-se.
— Eu não sou Isabella.
Ele abriu os olhos.
— Eu sei.
— E você não é o homem de quatro anos atrás.
— Também sei.
— Então pare de tentar corrigir aquela noite através de mim.
Jacob ficou imóvel.
A frase doeu.
Sarah viu.
Mas não retirou.
— Você não pode me proteger de tudo porque não conseguiu protegê-la.
— Não é isso.
— Uma parte é.
Jacob virou o rosto.
— Talvez.
Sarah tocou seu peito.
— Eu não vou entrar sozinha no mato. Não vou sair da propriedade. Não vou nadar. Não vou fazer nada idiota.
— Isso seria uma novidade.
Sarah deu um pequeno tapa nele.
Jacob quase sorriu.
— Mas não vou fugir.
— Não seria fugir.
— Para mim seria.
Ele olhou para ela.
— Por quê?
Sarah demorou.
Depois respondeu:
— Porque você está aqui.
Jacob perdeu completamente a expressão.
— Sarah...
— Não faça essa cara.
— Que cara?
— Essa em que parece que vai dizer alguma coisa que vai complicar tudo.
— Tudo já está complicado.
— Bom argumento.
Jacob segurou sua mão.
— Você ficaria por minha causa?
Sarah olhou para os dedos entrelaçados.
— Não exclusivamente.
— Sarah.
Ela suspirou.
— Sim.
Jacob não falou.
— Parte de mim quer saber o que aconteceu com Isabella — continuou ela. — Parte de mim está preocupada com Edward, Embry, com essa história inteira.
Levantou os olhos.
— Mas a maior parte não quer ir embora porque você está aqui.
O silêncio ficou diferente.
Jacob aproximou-se.
— Isso deveria me fazer querer ainda mais colocar você naquele avião.
— E faz?
— Muito.
Sarah sorriu.
— Mas?
Jacob tocou seu rosto.
— Mas também é a coisa mais egoisticamente boa que ouvi hoje.
Ela riu baixo.
— Pelo menos admite.
— Estou melhorando.
— Lentamente.
Ele a beijou.
Dessa vez o beijo não começou com urgência.
Começou com medo.
Sarah sentiu.
Na maneira como Jacob segurava seu rosto.
Na hesitação.
Na forma como interrompeu o beijo apenas para olhar para ela.
Como se precisasse memorizar.
— Não — murmurou Sarah.
— O quê?
— Não me olhe assim.
— Assim como?
— Como se eu pudesse desaparecer.
Jacob não respondeu.
Sarah passou os dedos pelos cabelos dele.
— Estou aqui.
Ele fechou os olhos.
Encostou a testa na dela.
— Fica.
Uma palavra.
Sarah sentiu o coração apertar.
— Era exatamente o que eu estava tentando dizer.
Jacob abriu os olhos.
— Não estou falando da ilha.
Ela ficou imóvel.
Ele também percebeu o que dissera.
— Jacob...
— Esquece.
Sarah segurou sua camisa antes que ele se afastasse.
— Não.
— Não é hora.
— Provavelmente não.
— Então...
— Mas não retire.
Jacob ficou olhando para ela.
Sarah sorriu suavemente.
— Só não precisamos responder hoje.
Ele tocou sua face.
— Você torna tudo muito difícil.
— Curiosamente, ia dizer o mesmo.
Quase quarenta minutos depois, Jacob voltou ao escritório.
Edward estava sozinho.
— Sarah?
— No quarto. Paul está do lado de fora.
Edward assentiu.
Jacob colocou o telefone sobre a mesa.
— Quero falar sobre a mensagem.
— Certo.
— Você esperava?
— Não.
— Mentira.
Edward franziu a testa.
— Não esperava essa mensagem.
Jacob percebeu a precisão.
— Mas esperava alguma coisa.
Edward ficou em silêncio.
— Edward.
— Eu sabia que voltar chamaria atenção.
— De quem?
— Não sei.
Jacob riu sem humor.
— Estou ficando cansado dessa resposta.
— Acha que eu gosto dela?
— Acho que você sabe mais do que diz.
Edward levantou-se.
— E eu acho que você ainda está procurando qualquer razão para não acreditar em mim.
— Você me deu excelentes razões.
— Quatro anos atrás.
— Traição não tem prazo de validade.
Edward apertou a mandíbula.
— Não estou falando de Isabella.
— Eu sempre estou.
A resposta silenciou Edward.
Jacob aproximou-se.
— Para você, talvez seja uma parte da história. Para mim, é o centro.
— Ela não é o centro de tudo que aconteceu.
— Era o centro da minha vida.
Edward fechou os olhos por um instante.
— Eu sei.
— Não diga isso.
— Por quê?
— Porque você não sabe.
Edward abriu os olhos.
— Eu a amava também.
Jacob ficou imóvel.
— Cuidado.
— Não vou fingir que não.
— Não dentro desta casa.
— A verdade não muda porque você odeia ouvi-la.
Jacob segurou a borda da mesa.
— Você quer mesmo fazer isso outra vez?
Edward soltou o ar.
— Não.
— Ótimo.
— Mas existe uma coisa que precisa entender.
— O quê?
Edward olhou para a porta.
— A mensagem não ameaça apenas Sarah.
Jacob ficou frio.
— Explique.
— Quem enviou conhece você.
— Isso é óbvio.
— Não. Conhece você de verdade.
Edward apontou para o telefone.
— “Desta vez, Jacob tem mais a perder.”
— E?
— Desta vez.
Jacob percebeu.
— Isabella.
Edward assentiu.
— Está comparando Sarah com Isabella.
O medo voltou.
— Quem sabia o que Isabella significava para mim?
Edward deu uma risada amarga.
— Metade do mundo.
— Quem sabia o que Sarah significa?
Edward ficou em silêncio.
Jacob aproximou-se.
— Ela está aqui há oito dias.
— Exatamente.
— Então quem tirou aquela fotografia está observando há tempo suficiente para perceber.
— Ou está dentro da propriedade.
Jacob sentiu o estômago apertar.
— Funcionário?
— Talvez.
— Segurança?
— Talvez.
— Você?
Edward olhou para ele.
A pergunta permaneceu entre os dois.
— Você acha que fui eu?
— Acho que você apareceu escondido na minha ilha depois de quatro anos, sabia da caixa, sabia da casa e carrega um telefone que recebe mensagens de alguém que afirma saber por que Isabella morreu.
Edward deu um passo.
— Se eu quisesse machucar Sarah, não teria mostrado a fotografia.
— Talvez exatamente por isso mostrasse.
Edward riu, incrédulo.
— Você realmente não confia em mim.
— Finalmente está entendendo.
— Então por que me deixou entrar?
Jacob respondeu sem hesitar:
— Porque prefiro você onde posso ver.
Edward ficou olhando para ele.
— Justo.
Jacob pegou o telefone.
— Quero acesso a tudo.
— Já tem.
— Contas. E-mails. Arquivos. Nomes falsos. Lugares onde ficou.
Edward endureceu.
— Não.
— Então saia.
— Jacob...
— Você quer ficar nesta casa enquanto alguém ameaça Sarah? Eu preciso saber quem você trouxe até aqui.
— Não trouxe ninguém.
— Prove.
Edward passou as mãos pelo rosto.
— Algumas pessoas que me ajudaram não têm nada a ver com isso.
— Não me importa.
— Importa para mim.
— Sarah importa para mim.
Edward ficou quieto.
A frase havia saído com uma força que nem Jacob esperava.
— Então escolha — disse Jacob. — Seus segredos ou a segurança dela.
Edward olhou para ele.
— Você realmente está apaixonado por ela.
Jacob endureceu.
— Isso não é da sua conta.
Edward soltou uma respiração quase parecida com riso.
— Não precisa responder.
— Não estou apaixonado.
— Certo.
— Eu a conheço há oito dias.
— Isabella e eu...
Jacob avançou.
— Não termine essa frase.
Edward ergueu as mãos.
— Não ia comparar.
— Nunca compare.
— Não vou.
Jacob ficou perto dele.
— Sarah não é Isabella.
— Eu sei.
— E o que existe entre nós não tem absolutamente nada a ver com o que vocês fizeram.
Edward sustentou seu olhar.
— Eu sei.
Jacob recuou.
— Então me dê as senhas.
Edward permaneceu imóvel.
Depois pegou um pedaço de papel.
Escreveu.
Empurrou pela mesa.
— Tudo.
Jacob pegou.
— Por quê?
Edward respondeu:
— Porque você tem razão sobre uma coisa.
— Qual?
— Sarah não tem nada a ver com os nossos erros.
Jacob olhou para ele.
Edward continuou:
— E eu não vou deixar outra mulher morrer porque tive medo de falar.
Às onze e vinte da noite, a propriedade estava cercada.
Todos os funcionários haviam sido identificados.
Nenhum faltava.
As câmeras mostravam apenas uma falha de onze minutos.
Onze minutos exatamente no período em que a fotografia fora tirada.
Alguém conhecia o sistema.
Jacob estava no escritório quando Sarah entrou.
— Você deveria estar dormindo.
— Você também.
— Estou trabalhando.
— Eu também.
— Fazendo o quê?
Ela levantou duas canecas.
— Café.
Jacob olhou para o relógio.
— Às onze da noite?
— Você claramente não pretende dormir.
Colocou uma diante dele.
— Então prefiro participar da insônia.
Jacob sorriu.
— Obrigado.
Sarah sentou-se.
— Encontraram alguma coisa?
— Não.
— Edward?
— Entregou todas as senhas.
— Isso é bom.
— Ou inteligente.
Sarah revirou os olhos.
— Você vai desconfiar até da maneira como ele respira?
— Provavelmente.
— Justo.
Jacob abriu um arquivo.
Sarah ficou observando.
— O quê?
— Nada.
— Você está me olhando.
— Você usa essa desculpa comigo.
— Aprendo rápido.
Jacob sorriu.
Ela se aproximou.
— Você está exausto.
— Estou bem.
— Mentira.
Sarah ficou atrás dele.
Colocou as mãos em seus ombros.
Jacob fechou os olhos quando ela começou a massagear.
— Isso é manipulação.
— Funciona?
— Muito.
— Então cale a boca.
Ele obedeceu.
Durante alguns minutos, nenhum deles falou.
Então Jacob abriu os olhos.
— Sarah.
— Hum?
— Se eu pedir uma coisa, você promete não discutir?
— Não.
Ele riu.
— Pelo menos é sincera.
— Sempre.
Jacob virou a cadeira.
Segurou suas mãos.
— Durma no meu quarto esta noite.
Sarah ficou imóvel.
O silêncio que se seguiu foi quase cômico.
Jacob percebeu.
— Não estou sugerindo...
— Eu sei.
— É pela segurança.
Sarah ergueu uma sobrancelha.
— Claro.
— Sarah.
Ela começou a sorrir.
— Estou brincando.
Jacob não estava.
— Meu quarto tem acesso interno mais seguro. Janelas protegidas. Fica mais distante da lateral onde tiraram a fotografia.
— E você?
— Sofá.
Sarah cruzou os braços.
— Sua cama é grande?
Jacob parou.
— Muito.
— Então não seja ridículo.
— O quê?
— Você dorme na sua cama.
Jacob ficou olhando.
— E você?
— Também.
Ele não disse nada.
Sarah quase riu da expressão.
— Você ficou sem palavras.
— Estou tentando entender se sabe o que acabou de propor.
— Dormir.
— Na minha cama.
— Exatamente.
— Comigo.
— Jacob, tenho vinte e cinco anos. Conheço a logística.
Ele riu.
— Você é impossível.
— E estou cansada.
Sarah pegou sua mão.
— Vamos.
O quarto de Jacob era mais sóbrio do que Sarah imaginara.
Madeira escura.
Tons claros.
Poucos objetos.
Nenhuma fotografia.
Ela percebeu.
Não comentou.
Jacob entregou uma camiseta.
— Banheiro ali.
Sarah olhou para a peça.
— Isso vai chegar no meu joelho.
— Essa é a intenção.
— Cavalheiro.
— Tentando.
Quando saiu do banheiro alguns minutos depois, Jacob estava de costas, fechando as cortinas.
Sarah parou.
Ele usava apenas uma calça leve.
Sem camisa.
Claro.
Jacob virou-se.
Parou também.
A camiseta realmente chegava quase até metade das coxas dela.
Os cabelos negros estavam soltos.
Sem maquiagem.
Descalça.
Sarah percebeu o olhar.
— Nem comece.
— Não disse nada.
— Pensou.
Jacob sorriu.
— Você usa minhas frases agora.
— Estou aprendendo.
Deitaram.
Um de cada lado.
Muito espaço entre os dois.
Sarah olhou para o teto.
— Isso é ridículo.
— O quê?
— Parece que temos uma fronteira internacional no meio da cama.
Jacob riu.
— Estou tentando ser respeitoso.
— Você me beijou contra uma parede ontem.
— Não foi contra uma parede.
— Quase.
— Isso é uma acusação muito específica.
Sarah virou-se para ele.
Jacob também.
Ficaram frente a frente.
— Está com medo? — perguntou ela.
— De você?
— De ficar perto.
Ele ficou sério.
— Sim.
Sarah não esperava.
— Por quê?
Jacob tocou uma mecha de seu cabelo.
— Porque gosto demais.
Ela sentiu o coração acelerar.
— Isso não parece um problema.
— Para mim parece.
— Por quê?
— Porque oito dias não deveriam ser suficientes.
Sarah sorriu.
— Você tem uma obsessão com calendário.
— Sou empresário.
— Péssima desculpa.
Jacob passou os dedos pelos cabelos dela.
— Sarah.
— Hum?
— Eu não quero que isso seja consequência de Isabella.
Ela compreendeu.
— Não é.
— Como sabe?
— Porque não beijo você pensando nela.
Jacob sorriu.
— Argumento forte.
Sarah aproximou-se alguns centímetros.
— E você?
— Nunca.
— Então pronto.
Ele tocou seu rosto.
— Você simplifica.
— Você complica.
— Talvez funcione.
— Talvez.
Jacob a beijou.
Devagar.
Sarah colocou uma mão sobre seu peito.
O beijo aprofundou.
Jacob segurou sua cintura.
Por alguns segundos, o medo e a investigação desapareceram.
Quando se afastou, Jacob respirava pesadamente.
— Precisamos dormir.
Sarah sorriu.
— Covarde.
— Extremamente.
Ela virou-se.
Jacob apagou a luz.
Alguns segundos depois, Sarah sentiu o braço dele ao redor de sua cintura.
Não comentou.
Apenas entrelaçou os dedos nos dele.
— Sarah?
— Hum?
— Obrigado por ficar.
Ela apertou sua mão.
— Durma, Jacob.
E, pela primeira vez em quatro anos, Jacob adormeceu naquela casa segurando alguém.
Não por medo de perder o passado.
Mas porque começava a desejar um futuro.
Às duas e treze da manhã, Sarah acordou.
Não sabia por quê.
O quarto estava escuro.
Jacob dormia atrás dela.
Seu braço ainda estava em sua cintura.
Então ouviu.
Um som.
Muito baixo.
Do corredor.
Sarah abriu os olhos.
Outro ruído.
Passos.
Ela tocou o braço de Jacob.
— Jacob.
Ele acordou imediatamente.
— O quê?
Sarah colocou um dedo sobre os lábios.
Passos novamente.
Jacob saiu da cama sem fazer barulho.
Pegou o telefone.
Nenhum sinal.
Outra vez.
Seu rosto endureceu.
Sarah sentou-se.
Jacob fez sinal para que permanecesse.
Foi até a porta.
Encostou o ouvido.
Silêncio.
Então uma voz veio do corredor.
— Jacob.
Edward.
Jacob abriu a porta.
Edward estava pálido.
— O que aconteceu?
— Encontramos uma coisa no meu telefone.
— O quê?
Edward olhou para Sarah atrás dele.
Depois novamente para Jacob.
— Um vídeo.
— De quê?
Edward respirou fundo.
— Da noite em que Isabella morreu.
Jacob não se moveu.
— Isso não é possível.
— Eu também achei.
— Quem gravou?
— Não sei.
— Mostre.
Edward entregou o aparelho.
Jacob apertou o play.
A imagem era escura.
Instável.
Praia.
A antiga casa de hóspedes aparecia ao fundo.
A data estava registrada.
A noite da morte de Isabella.
Então uma mulher entrou no enquadramento.
Isabella.
Viva.
Jacob sentiu o coração parar.
Ela parecia nervosa.
Olhava para trás.
Falava com alguém fora da imagem.
O áudio era ruim.
Mas algumas palavras podiam ser ouvidas.
— ...não vou continuar...
Ruído.
— ...Jacob precisa saber...
Mais ruído.
Então uma voz masculina respondeu.
Não era Edward.
Jacob olhou para ele.
Edward estava completamente pálido.
No vídeo, Isabella recuou.
A pessoa aproximou-se.
Ainda fora do enquadramento.
Isabella disse claramente:
— Você matou meu pai.
O vídeo terminou.
Sarah levou a mão à boca.
Jacob permaneceu imóvel.
Durante alguns segundos, ninguém falou.
Edward foi o primeiro a recuperar a voz.
— Ela estava falando de Charlie.
Sarah olhou imediatamente para ele.
— Sabemos que estava falando do pai dela. Não sabemos ainda o que essa frase significa.
Edward franziu a testa.
— Sarah...
— Não.
Ela apontou para o telefone.
— Isabella disse: “Você matou meu pai.” Isso é o que sabemos. Não sabemos se estava acusando aquela pessoa de provocar o acidente, de ordenar alguma coisa, de levar Charlie a uma situação que resultou na morte dele ou se estava usando a palavra “matou” em outro sentido.
Jacob continuava olhando para a tela congelada.
Isabella.
Viva.
Horas antes de morrer.
— Então ainda não sabemos o que aconteceu com Charlie — disse ele.
Sarah assentiu.
— Não.
Jacob levantou os olhos para Edward.
— Mas agora sabemos que Isabella acreditava que a pessoa com quem estava falando tinha alguma responsabilidade pelo que aconteceu com o pai dela.
Edward permaneceu em silêncio.
Jacob apertou novamente o play.
E a voz de Isabella voltou a preencher o quarto.
Você matou meu pai.
Desta vez, Jacob não ouviu uma resposta.
Ouviu uma nova pergunta.
E talvez fosse a pergunta que Isabella tentara deixar para ele quatro anos antes.
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