ILHA DOS DESEJOS

9 CAPÍTULO 9 - O homem que voltou


Às quatro e dezessete da manhã, Sarah percebeu que Jacob ainda segurava sua mão.

Não continuamente.

Em algum momento ele a soltava para pegar um documento, escrever alguma coisa ou atender uma ligação.

Depois, sem perceber, voltava a procurar seus dedos.

Sarah também fingia não perceber.

Estavam sentados lado a lado diante do computador havia horas.

Duas xícaras vazias.

Uma terceira pela metade.

Papéis espalhados.

O caderno de Isabella aberto.

Fotografias.

Extratos.

E um nome que aparecia cada vez mais.

Charlie Swan.

Quanto mais procuravam, menos simples a história se tornava.

— Aqui — disse Sarah.

Jacob aproximou a cadeira.

— O quê?

Ela apontou para uma data.

— Blue Horizon foi registrada seis anos e oito meses atrás.

— Sim.

— E a primeira transferência da sua empresa aconteceu oito meses depois.

— Certo.

Sarah abriu outro documento.

— Charlie morreu cinco anos atrás.

Jacob assentiu.

— Isso significa que a Blue Horizon existiu durante quase dois anos enquanto ele estava vivo.

— Sim.

— Precisamos descobrir quem movimentava as contas.

Jacob esfregou os olhos.

Estava exausto.

Sarah também.

— Já pedi.

— Quando?

— Enquanto você estava fazendo café.

Sarah olhou para ele.

— Você fez café há doze minutos.

— Tenho uma equipe eficiente.

— Você é assustador.

— Você gosta.

Ela tentou não sorrir.

— Continue trabalhando.

Jacob sorriu.

Alguns minutos depois, o computador emitiu um som.

Novo e-mail.

Os dois olharam.

Jacob abriu.

Leu rapidamente.

Então voltou ao início.

— O que foi? — perguntou Sarah.

Ele não respondeu.

— Jacob?

— A Blue Horizon não pertencia a Charlie.

Sarah franziu a testa.

— Mas você disse...

— Ele aparece como responsável legal.

Jacob virou a tela.

— Não como proprietário.

Sarah aproximou-se.

— Então quem era?

— Uma estrutura fiduciária.

— Beneficiário?

Jacob continuou lendo.

— Protegido por sigilo.

Sarah soltou o ar.

— Voltamos ao começo.

— Não exatamente.

Ele rolou a página.

— Charlie abriu a empresa como advogado.

— Para um cliente.

— Sim.

Sarah apontou para outra linha.

— O que é isso?

Jacob leu.

Ficou imóvel.

— Procuração.

— De quem?

Ele abriu o documento anexado.

Havia uma assinatura.

Jacob reconheceu antes mesmo de ampliar.

— Edward.

Sarah sentiu um arrepio.

— Então Edward era cliente de Charlie.

— Parece.

— E Charlie criou a Blue Horizon para ele.

— Parece.

Sarah percebeu que Jacob repetira deliberadamente a palavra que ela usava desde o início.

Não conclusão.

Possibilidade.

— Isso muda o papel de Charlie — disse ela.

Jacob assentiu lentamente.

— Talvez.

— Jacob.

Ele olhou para ela.

— O quê?

— Você passou as últimas horas se convencendo de que o pai de Isabella fazia parte disso.

— O nome dele estava lá.

— E agora temos uma explicação possível.

— Possível.

Sarah sorriu.

— Estou orgulhosa.

— Não exagere.

Ela voltou ao documento.

— Mas existe outra pergunta.

— Qual?

— Se Charlie representava Edward, ele sabia das transferências?

Jacob ficou sério.

— Essa pergunta continua.

— E Isabella sabia que o pai representava Edward?

Silêncio.

Mais uma pergunta.

Mais uma porta.

Jacob recostou-se.

— Estamos ficando bons nisso.

— Em encontrar respostas?

— Em encontrar perguntas piores.

Sarah riu.

O telefone de Jacob tocou.

Ele olhou para a tela.

Embry.

Atendeu.

— O que foi?

Sarah observou sua expressão mudar.

— Onde?

Jacob levantou-se.

— Tem certeza?

Silêncio.

— Não faça nada. Estou indo.

Desligou.

Sarah já estava de pé.

— O que aconteceu?

Jacob pegou as chaves.

— Encontraram uma lancha.

— Onde?

— Enseada norte.

— De quem?

— Não sabem.

Sarah pegou o celular.

Jacob parou.

— Você fica.

Ela olhou para ele.

— Não.

— Sarah.

— Nem comece.

— Não sabemos quem está na ilha.

— Exatamente.

— Essa é a razão para você ficar.

— E deixar você sair sozinho?

— Embry está lá.

Sarah cruzou os braços.

— Vou com você.

Jacob aproximou-se.

— Não.

Ela sustentou o olhar.

— Vai me trancar?

Jacob percebeu que ela iria de qualquer maneira.

— Você é impossível.

— Já estabelecemos isso.

Ele apontou para ela.

— Fica perto de mim.

— Certo.

— Estou falando sério.

— Eu também.

— Se eu disser para voltar...

— Jacob.

— Sarah.

Ela respirou fundo.

— Certo.

— Certo de verdade?

— Não abuse.

Jacob fechou os olhos.

— Vamos.

O sol começava a nascer quando chegaram à enseada.

Embry estava próximo da água com dois funcionários da ilha.

A lancha permanecia parcialmente escondida entre as pedras.

Jacob desceu do jipe.

— Encontraram alguém?

— Não — respondeu Embry.

Sarah observou a embarcação.

Pequena.

Motor potente.

Nenhum nome visível.

Jacob aproximou-se.

— Registro?

— Removido.

A expressão dele endureceu.

Sarah percebeu.

— Alguém não queria ser identificado.

Embry assentiu.

— Parece.

Jacob entrou na lancha.

Sarah ficou na areia.

— Alguma coisa?

Ele verificou rapidamente.

— Água.

— Comida — disse Embry.

— Combustível.

Sarah observou a areia.

Então viu.

— Jacob.

Ele virou-se.

Ela apontou.

Pegadas.

Seguiam da água para a vegetação.

Jacob saiu imediatamente da embarcação.

Ajoelhou-se.

— Recentes.

Embry olhou para a mata.

— Alguém entrou na ilha durante a madrugada.

Jacob sentiu o corpo inteiro ficar alerta.

— Volte para a casa — disse para Sarah.

— Não.

Ele se virou.

— Sarah.

— Não vou ficar sozinha numa casa se existe alguém desconhecido andando pela ilha.

Ele percebeu que ela tinha razão.

Aquilo o irritou ainda mais.

— Então fica comigo.

— Era o plano.

Embry olhou para os dois.

— Acho melhor chamarmos segurança.

Jacob assentiu.

— Faça.

Embry pegou o rádio.

Sarah continuou olhando para as pegadas.

— Ele conhece a ilha.

Jacob virou-se.

— Por quê?

— Porque não usou o cais.

Ela apontou para a enseada.

— Entrou exatamente por um lugar escondido da casa. Trouxe comida. Tirou o registro da lancha. Isso não parece alguém perdido.

Jacob olhou para a mata.

Uma sensação antiga começou a crescer.

Não sabia por quê.

Mas conhecia aquela sensação.

— Vamos voltar.

Às oito, havia homens procurando pela propriedade.

Jacob estava no escritório.

Sarah permanecia perto da janela.

— Você acha que tem relação com a caixa? — perguntou.

— Não sei.

— Coincidência?

— Não gosto de coincidências.

Sarah virou-se.

Jacob estava diferente.

Não era medo.

Era proteção.

Ele verificava o celular constantemente.

As câmeras.

Os acessos.

Os funcionários.

— Jacob.

— Hum?

— Estou bem.

Ele levantou os olhos.

— Eu sei.

— Não parece.

— Existe alguém na minha ilha que não deveria estar aqui.

— Eu sei.

— E você está aqui.

Sarah compreendeu.

— Você está preocupado comigo.

— Muito.

A simplicidade da resposta a fez ficar quieta.

Jacob levantou-se.

— Se alguma coisa acontecer...

— Nada vai acontecer.

— Sarah.

— Certo.

Ele foi até ela.

— Se eu disser para entrar num carro e ir para o aeroporto, você vai.

— Jacob...

— Prometa.

Ela olhou para ele.

— Você está me assustando.

Jacob tocou seu rosto.

— Essa não era a intenção.

— Então diga o que está pensando.

Ele hesitou.

— Estou pensando que alguém chegou escondido à ilha exatamente depois de encontrarmos documentos enterrados há quatro anos.

Sarah sentiu um arrepio.

— Você acha que alguém sabe.

— Talvez.

— Quem?

Jacob olhou para ela.

— É isso que preciso descobrir.

O rádio sobre a mesa chiou.

A voz de Embry.

— Jake.

Jacob pegou imediatamente.

— Fala.

— Encontramos alguma coisa.

— Onde?

— Perto das ruínas.

Jacob olhou para Sarah.

— Estou indo.

Encontraram a mochila primeiro.

Estava escondida entre pedras próximas da antiga casa.

Dentro havia roupas.

Dinheiro.

Um telefone desligado.

E uma fotografia.

Embry entregou-a para Jacob.

Sarah viu o rosto dele mudar.

— O que foi?

Jacob não respondeu.

Olhava fixamente para a fotografia.

Sarah aproximou-se.

Era antiga.

Jacob.

Isabella.

Outro homem.

— Edward — murmurou ela.

Jacob assentiu.

Virou a fotografia.

No verso havia uma frase.

Escrita recentemente.

Você finalmente encontrou.

Sarah sentiu o sangue gelar.

— Meu Deus.

Embry olhou para a mata.

— Ele está aqui.

Jacob apertou a fotografia.

— Edward.

Não era uma pergunta.

Era certeza.

Sarah tocou seu braço.

Jacob virou-se imediatamente.

— Você volta para a casa.

— Jacob...

— Agora.

— Não vou deixar você...

— Sarah!

Ela parou.

Nunca o ouvira falar com ela daquela maneira.

Jacob percebeu.

Passou a mão pelo rosto.

— Desculpe.

— Não grite comigo.

— Eu sei.

— Não sou uma criança.

— Eu sei.

— Então pare de tentar me mandar embora toda vez que está com medo.

Ele ficou imóvel.

— Eu estou com medo.

Sarah não esperava a admissão.

— Não de Edward — continuou Jacob.

Ele segurou seu rosto.

— De alguma coisa acontecer com você.

Sarah sentiu o peito apertar.

— Jacob...

— Por favor.

Aquela palavra mudou tudo.

Não era ordem.

Era pedido.

Sarah assentiu.

— Eu volto.

Jacob fechou os olhos por um instante.

Encostou a testa na dela.

— Embry vai com você.

— Não.

Os dois olharam para ele.

Embry apontou para Jacob.

— Você não vai procurar Edward sozinho.

— Preciso...

— Não precisa provar nada.

Sarah assentiu.

— Ele tem razão.

Jacob apertou a mandíbula.

— Então um dos homens leva Sarah.

— Certo — disse Embry.

Sarah segurou a camisa de Jacob antes que ele se afastasse.

— Não faça nenhuma estupidez.

— Não pretendo.

— Isso não me tranquiliza.

Ele quase sorriu.

Sarah o beijou.

Rápido.

Mas intenso o suficiente para fazê-lo parar.

— Volte para mim.

Jacob ficou olhando para ela.

Duas palavras.

Simples.

Mas ninguém lhe dizia aquilo havia muito tempo.

Volte para mim.

— Eu volto.

Jacob e Embry seguiram as marcas pela vegetação.

Durante quase quarenta minutos, encontraram apenas sinais pequenos demais para significar alguma coisa para qualquer pessoa que não conhecesse a ilha.

Um galho quebrado.

Terra recentemente deslocada.

Uma marca de sola onde o terreno ainda permanecia úmido da tempestade.

Então chegaram a uma trilha antiga.

Jacob parou.

Reconheceu imediatamente.

— O mirante.

Embry assentiu.

Nenhum dos dois precisou dizer mais.

Edward conhecia aquela trilha.

Anos antes, quando tudo ainda parecia simples, os três haviam caminhado por ali inúmeras vezes.

Jacob.

Embry.

Edward.

Antes de Isabella.

Antes de Edward se tornar quase um irmão.

Antes de descobrir que aquele homem entrara em sua casa, sentara-se à sua mesa, bebera seu vinho e, ao mesmo tempo, dormira com a mulher com quem Jacob pretendia se casar.

Jacob sentiu a mandíbula se contrair.

Continuou andando.

Quando chegaram ao mirante, não havia ninguém.

Apenas oceano.

Pedras.

Vento.

E uma garrafa de água sobre uma das rochas.

Jacob tocou nela.

Ainda estava fria.

— Ele estava aqui — disse Embry.

Jacob olhou para a mata.

Quatro anos.

Durante quatro anos, imaginara o que faria se encontrasse Edward.

Em algumas noites, imaginara quebrar seu rosto.

Em outras, apenas perguntar por quê.

Nas piores, imaginava agarrá-lo pela camisa e exigir que dissesse o que Isabella fizera nas últimas horas de vida.

Mas todas aquelas cenas terminavam da mesma maneira.

Edward nunca respondia.

Porque Edward nunca estava realmente ali.

Agora estava.

Em algum lugar daquela ilha.

— Edward!

A voz de Jacob atravessou o mirante.

Nada.

— Jake...

— Edward!

Silêncio.

Jacob avançou alguns passos.

— Eu sei que está aqui!

O vento movimentou as árvores.

Nenhuma resposta.

A raiva cresceu.

— Quatro anos!

Embry olhou para ele.

Jacob não se importou.

— Você desapareceu durante quatro malditos anos e agora entra escondido na minha ilha?

Sua voz ecoou.

— Apareça!

Silêncio.

Jacob riu sem humor.

— Continua sendo um covarde!

Então uma voz surgiu atrás deles.

— Talvez.

Jacob congelou.

Não foi apenas porque reconheceu a voz.

Foi porque seu corpo a reconheceu antes da mente.

Durante uma fração de segundo, estava novamente numa sala em Miami anos antes, ouvindo Edward rir enquanto discutiam um contrato.

Depois numa varanda, os dois bebendo bourbon.

Depois no próprio casamento que nunca aconteceu, imaginando aquele homem ao seu lado como padrinho.

Depois no funeral de Isabella.

Edward parado alguns metros atrás.

Pálido.

Silencioso.

O último dia em que Jacob o vira.

Virou-se.

O homem saiu lentamente entre as árvores.

Mais magro.

O rosto mais duro.

Barba curta.

Os cabelos mais compridos.

Uma pequena cicatriz que Jacob não reconhecia cortava sua sobrancelha.

Mas eram os mesmos olhos.

Edward Cullen.

Jacob não conseguiu se mover.

Todo o ódio que alimentara durante quatro anos deveria ter explodido.

Não explodiu.

Primeiro veio o choque.

Depois uma sensação quase absurda de irrealidade.

Edward estava morto em sua cabeça havia anos.

Não literalmente.

Mas pertencia ao mesmo lugar que Isabella.

Ao passado.

Àquela vida destruída que Jacob aprendera a manter atrás de uma porta fechada.

Agora respirava diante dele.

— Jake.

O apelido atingiu Jacob como um golpe.

— Não.

Edward ficou imóvel.

— Não me chame assim.

A voz de Jacob saiu baixa.

Edward assentiu.

— Certo.

Embry não disse nada.

Jacob deu um passo.

Parou.

Olhou para Edward como se precisasse confirmar que era realmente ele.

— Você está vivo.

Edward franziu levemente a testa.

— Estou.

Jacob soltou uma risada curta.

Sem humor.

— Está vivo.

Quatro anos de perguntas comprimiram seu peito.

— Onde?

Edward não respondeu.

— Onde você estava?

— É complicado.

Jacob sentiu alguma coisa romper.

— Complicado?

Edward respirou fundo.

— Jacob...

— Não.

Ele avançou outro passo.

— Você não desaparece três dias depois do funeral da minha noiva, passa quatro anos sem atender uma ligação, sem responder uma mensagem, sem dar qualquer sinal de vida e aparece aqui para me dizer que é complicado.

Edward abaixou os olhos.

Foi um erro.

— Olhe para mim.

Edward levantou o rosto.

Jacob viu culpa.

E aquilo foi suficiente.

— Você estava dormindo com ela.

Não era uma pergunta.

Edward fechou os olhos por um instante.

Jacob sentiu o estômago revirar.

Sabia.

Já sabia.

Tinha fotografias.

Mensagens.

Provas.

Mas ouvir o silêncio de Edward transformava uma descoberta antiga em alguma coisa presente.

— Diga.

Edward abriu os olhos.

— Sim.

Uma palavra.

Jacob sentiu como se Isabella tivesse acabado de traí-lo outra vez.

Sua mão fechou.

Embry percebeu.

— Jake...

Jacob ergueu a mão, impedindo-o de se aproximar.

Continuou olhando para Edward.

— Há quanto tempo?

— Isso não vai...

— Há quanto tempo?

Edward respirou fundo.

— Oito meses.

Jacob ficou completamente imóvel.

Oito meses.

O aniversário de Isabella.

A viagem a Paris.

O Natal.

A noite em que ela lhe mostrara revistas de casamento na cama.

O dia em que escolheram a música da cerimônia.

Tudo atravessou sua mente.

Edward estivera com ela durante tudo aquilo.

— Oito meses — repetiu.

Edward não respondeu.

Jacob deu mais um passo.

— Você entrou na minha casa.

— Eu sei.

— Sentou à minha mesa.

— Eu sei.

— Olhou para mim.

Edward engoliu em seco.

— Eu sei.

— E depois ia para a cama com ela.

— Jacob...

O soco veio então.

Não impulsivo.

Não imediato.

Veio depois de quatro anos.

O punho de Jacob acertou o rosto de Edward com força suficiente para fazê-lo cair.

Embry avançou.

— Jake!

Jacob não foi atrás.

Ficou parado.

Respirando pesadamente.

Edward permaneceu no chão durante alguns segundos.

Passou o polegar pela boca.

Sangue.

Olhou para Jacob.

— Eu mereci.

Jacob soltou uma risada amarga.

— Isso não chegou nem perto.

Edward levantou-se devagar.

— Eu sei.

A ausência de defesa irritou Jacob ainda mais.

— Por quê?

Edward ficou em silêncio.

— Eu quero ouvir.

— Não existe resposta que torne isso melhor.

— Não estou procurando uma resposta que torne melhor!

Jacob avançou.

— Quero saber por que meu melhor amigo dormia com a mulher com quem eu ia me casar.

Edward sustentou seu olhar.

— Porque me apaixonei por ela.

Jacob o acertou novamente.

Dessa vez Embry segurou seu braço antes que viesse um terceiro golpe.

— Chega!

— Me solta.

— Não.

Edward apoiou uma mão na pedra.

Sangue escorria do lábio.

— Ele tem direito.

Embry olhou para ele.

— Cale a boca.

Jacob se soltou.

Mas não avançou novamente.

— Ela amava você?

Edward hesitou.

Aquilo doeu mais que qualquer resposta.

— Diga.

— Achei que sim.

Jacob sentiu o peito apertar.

— Achou?

— Isabella era mais complicada do que qualquer um de nós sabia.

— Não use isso para justificar o que fizeram.

— Não estou justificando.

— Então por que voltou?

Edward olhou para ele.

A culpa em seu rosto desapareceu.

Agora havia urgência.

— Porque você encontrou a caixa.

Jacob ficou imóvel.

Embry também.

— Como sabe da caixa?

— Porque eu sabia que estava lá.

— Você colocou?

— Não.

— Então quem?

Edward respondeu:

— Isabella.

Jacob sentiu um frio atravessar a espinha.

— Mentira.

— Não.

— Eu estava no quarto dela ontem. Encontrei uma carta que dizia para procurar naquela casa.

A expressão de Edward mudou.

— Você encontrou a carta?

— Sim.

— Então ela conseguiu escrever.

Jacob franziu a testa.

— O que isso significa?

Edward olhou para a mata.

Como se verificasse alguma coisa.

Depois voltou para Jacob.

— Precisamos sair daqui.

— Não vou a lugar nenhum até você responder.

— Jacob...

— Como sabia da caixa?

Edward soltou o ar.

— Porque ajudei Isabella a preparar os documentos.

Silêncio.

— O caderno?

— Sim.

— As transferências?

— Sim.

— Fotografias?

— Sim.

Jacob sentiu a raiva retornar.

— Então admite.

— Admito o quê?

— Quatro milhões de dólares.

Edward passou a língua pelo lábio ferido.

— Sim. Eu tirei dinheiro da sua empresa.

Embry soltou um palavrão.

Jacob não se moveu.

— Quatro milhões.

— Eu sei.

— E Isabella ajudou.

Edward ficou sério.

— Não da forma que você pensa.

— Todo mundo continua dizendo isso.

— Porque você ainda não sabe o que aconteceu.

Jacob aproximou-se.

— Então conte.

Edward olhou diretamente para ele.

— Isabella descobriu.

— Descobriu o quê?

— As transferências.

— Você acabou de dizer que ela ajudou a preparar os documentos.

— Depois que descobriu.

Jacob tentou acompanhar.

— Ela não sabia desde o começo?

— Não.

A resposta foi imediata.

— Isabella não roubou você.

Jacob ficou imóvel.

Uma parte dele sentiu alívio.

Odiou sentir.

— E você?

Edward não desviou.

— Eu roubei.

— Por quê?

— Porque Charlie mandou.

O nome caiu entre eles.

Jacob sentiu toda a reação da madrugada voltar.

— Charlie Swan está morto.

— Agora está.

— Ele era pai de Isabella.

— Eu sei.

— Era seu advogado.

— Eu sei.

— Então por que mandaria você roubar quatro milhões da minha empresa?

Edward respirou fundo.

— Porque o dinheiro nunca foi o objetivo.

Jacob franziu a testa.

— Então qual era?

Edward olhou novamente para a mata.

— Precisamos sair daqui.

— Pare de olhar para as árvores e responda.

Edward voltou-se para ele.

— Isabella descobriu que o pai estava usando suas empresas havia anos. Quando descobriu, veio até mim.

— Por que você?

Edward riu sem humor.

— Porque eu era o homem fazendo o trabalho sujo.

Jacob sentiu náusea.

— E vocês já estavam juntos?

Edward baixou os olhos.

— Sim.

Aquilo complicava tudo.

Isabella descobrira que o amante roubava Jacob a mando do próprio pai.

— E mesmo assim continuou com você?

— Não por muito tempo.

Jacob lembrou da carta.

— Ela ia me contar.

— Sim.

— Na noite em que morreu.

Edward ficou imóvel.

Jacob percebeu.

Aquela era a pergunta.

A pergunta que importava mais que todas as outras.

— Você estava com Isabella naquela noite?

Edward fechou os olhos.

Embry ficou tenso.

Jacob não respirou.

— Edward.

Ele abriu os olhos.

— Sim.

O mundo pareceu ficar silencioso.

Jacob ouviu apenas o próprio coração.

— As duas taças.

— Nossas.

Jacob fechou os olhos por um instante.

Finalmente.

Quatro anos.

Quatro anos olhando mentalmente para aquelas duas taças.

Agora sabia.

— Ela foi encontrar você.

— Foi.

— E você deixou que entrasse no mar.

Edward franziu a testa.

— Não.

Jacob abriu os olhos.

— O quê?

— Isabella não entrou no mar.

— Encontraram o corpo dela no mar.

— Eu sei.

— Ela morreu afogada.

— Eu sei o que dizia o relatório.

Jacob avançou.

— Então explique.

Edward respirou fundo.

— Isabella terminou comigo naquela noite.

Jacob parou.

— Ela disse que contaria tudo para você. O caso. O dinheiro. Charlie. Tudo.

— E você?

— Tentei fazê-la esperar.

— Por quê?

— Porque era perigoso.

— Para quem?

Edward soltou uma risada amarga.

— Para todos nós.

Jacob sentiu a paciência desaparecer.

— Quando você saiu daquela praia, Isabella estava viva?

Edward sustentou seu olhar.

— Sim.

— Que horas?

— Pouco depois das onze.

— Sozinha?

Edward hesitou.

Jacob percebeu imediatamente.

— Sozinha?

— Quando fui embora, sim.

— Então por que desapareceu depois do funeral?

Edward ficou em silêncio.

— Porque matou Isabella?

Embry olhou para Jacob.

Edward não demonstrou surpresa.

Apenas cansaço.

— Não.

— Então por quê?

Edward respirou fundo.

— Porque dois dias depois do funeral alguém tentou me matar.

Jacob ficou imóvel.

— Quem?

— Não sei.

— Mentira.

— Se soubesse, não teria passado quatro anos escondido.

Jacob observou a cicatriz na sobrancelha.

Pela primeira vez perguntou-se de onde viera.

Edward percebeu.

— Saí de Miami com três costelas quebradas e uma bala no ombro.

— E nunca pensou em me procurar?

Edward riu amargamente.

— Você me odiava.

— Isso não responde.

— Eu achava que quem matou Isabella estava perto de você.

Jacob sentiu um frio atravessar o corpo.

— Perto de mim?

— Alguém sabia sobre a caixa. Alguém sabia que Isabella ia contar tudo. Alguém sabia onde eu estaria depois do funeral.

Embry ficou sério.

— Quem mais sabia?

Edward olhou para ele.

— É exatamente isso que nunca consegui descobrir.

Jacob se aproximou.

— Então por que voltou agora?

Edward olhou diretamente para ele.

— Porque alguma coisa mudou.

— O quê?

— Você voltou para Saint Claire.

— Isso aconteceu semanas atrás.

— Não foi isso.

Edward respirou fundo.

— Você abriu a ala oeste.

Jacob sentiu o sangue esfriar.

— Como sabe?

Edward não respondeu imediatamente.

— Como sabe?

— Porque alguém está observando a casa.

Jacob pensou em Sarah.

Foi instantâneo.

Seu corpo inteiro ficou tenso.

— Quem?

— Não sei.

— Sarah.

Edward franziu a testa.

— Quem?

Jacob já estava pegando o telefone.

Nenhum sinal.

— Merda.

Embry tentou o rádio.

Estática.

Edward olhou para os dois.

— Quem é Sarah?

Jacob não respondeu.

Começou a caminhar.

Edward segurou seu braço.

Foi um erro.

Jacob virou-se tão rápido que Edward o soltou.

— Nunca mais toque em mim.

Edward levantou as mãos.

— Quem é Sarah?

Jacob aproximou-se.

A voz saiu baixa.

— A mulher que está na minha casa.

Edward observou seu rosto.

Compreendeu mais do que Jacob queria revelar.

— Ela importa.

— Não é da sua conta.

— Se ela importa, então precisamos chegar até ela antes que a pessoa que está observando perceba isso também.

Jacob sentiu um medo tão violento que quase se transformou em raiva.

Sarah.

Sozinha na casa com um segurança.

Sarah dizendo volte para mim.

Ele havia prometido.

Jacob começou a correr.

Embry veio atrás.

Edward também.

Por um instante, Jacob quis mandar Edward embora.

Quis dizer que não confiava nele.

Que jamais confiaria.

Mas não havia tempo.

Porque, pela primeira vez desde que Edward surgira entre as árvores, Isabella deixou de ser o pensamento mais importante na cabeça de Jacob.

Sarah era.