I See You
7 Capítulo 7
Notas iniciais
— Mais vinho, Majestade? — indagou uma das servas, fazendo com que seu rei a fitasse por cima dos ombros de um modo apático. Ele fez um leve movimento com a mão, em consentimento, e fechou os olhos. Inebriado com o som do líquido enchendo suavemente sua taça.
Depois que terminou, a elfa disse alguma coisa que Thranduil não fez questão de escutar e se retirou, após uma respeitosa reverência. O som da porta de seus aposentos se fechando foi a última coisa que ele ouviu.
Sozinho.
O loiro se voltou elegantemente para o objeto cristalino, repousado sobre uma bandeja de prata em cima de uma mesa próxima à sua cama, e caminhou até o mesmo sem pressa. Lento e paciente, como o nascer do sol.
Seus pés descalços tocavam o chão como se caminhassem sobre as estrelas, sentindo a maciez do tapete feito à mão. Suas vestes eram pesadas e dividiam-se entre um vermelho escarlate e um prateado escurecido e anéis descansavam em seus dedos, demonstrando toda a magnitude de sua autoridade. Magnitude esta que o inebriava e enchia-lhe o ego.
Mas, naquele momento, sua mente estava longe — muito longe de todas aquelas futilidades.
Quando chegou a seu destino, Thranduil capturou a taça entre os dedos e levou-a de encontro à boca, para roçá-la lentamente em seus lábios. O cheiro do vinho subia em suas narinas e o forçava a fechar os olhos, para gemer extasiado.
E foi então que um formigamento estranho o atingiu, o mesmo de quando beijara Luna na noite anterior.
Em um ato de fúria repentina, o soberano jogou violentamente o objeto contra a parede, vendo o cristal se despedaçar em milhares de pedaços. Thranduil passou a caminhar de um lado para o outro do quarto, cruzando as mãos atrás das costas para não cometer outro ato grotesco proveniente de sua irritação. E sua respiração pesava como uma rocha enquanto ele sentia seu maxilar trincar.
— Maldita… — sussurrou entredentes.
Ela estava o atormentando.
O rei élfico fechou as mãos em um punho e cerrou os olhos. Respirou fundo uma, duas, três vezes… ele foi em direção à parede mais próxima, recostou sua fronte e espalmou as mãos à mesma. Agora respirava lenta e pacientemente, com os olhos fechados.
Controle—se.
Era tudo que conseguia pensar.
— Não esta noite… — ele dizia para si mesmo. — não esta noite!
Inesperadamente, Thranduil riu alto — de um modo irônico e debochado. Ele se virou de maneira desleixada e desta vez colou suas costas à parede.
Louco.
O loiro ouviu a voz de Luna sussurrar ao pé de seu ouvido e então se voltou rapidamente, a procura de sua presença — mesmo sabendo que ela não estava ali, assim como sabia que aquilo era mais um fruto de sua mente insana.
Ele repousou as mãos sobre o rosto e sentiu o ódio queimar por suas veias. Aquele sentimento corrosivo o atormentava desde o momento em que colocara seu olhar sobre a elfa e a cada dia crescia ainda mais dentro de si. Tudo nela o insultava, sua audácia, teimosia… até mesmo sua coragem.
Tudo.
Mas, principalmente, seus olhos azulados. Olhos tão cheios de vida e doçura, imaculados, sem nunca terem enxergado o mal que o mundo carrega. Sua ingenuidade e esperança o incomodavam de tal forma que em vários momentos ele pensou na possibilidade de exilá-la, somente para não ter de fitá-la outra vez.
E ele havia mentido, mentido descaradamente.
Deu aquela ordem já sabendo o resultado. Seria demais para o ego de seu irmão mais novo ser expulso da Ordem dos Líderes para se tornar um mero carcereiro. Thranduil sabia que ele iria embora, que iria deixá-la, e o rei fez isso apenas para retirar de Luna todo o sentimento que simbolizasse fraqueza. Para mostrá-la a verdadeira face e realidade do mundo em que viviam.
Dor e sofrimento.
E mesmo assim, quando fitara aqueles olhos tão azuis quanto o céu no verão, o elfo pudera enxergar algum tipo de esperança — esta que ia muito além da realidade. Ela realmente ainda amava seu irmão, apesar de tudo. Então, Thranduil foi desarmado. Ele não teve coragem de lhe contar a verdadeira razão para sua ação. Deu desculpas, meras desculpas, dizendo que queria somente protegê-la. Mas a verdade é que se sentira envergonhado, todo o peso de seu egoísmo caiu sobre seus ombros naquele exato momento.
Thranduil, o rei da Floresta das Trevas, baixou a guarda e se permitiu ser embriagado por algo que não conseguia explicar. Se permitiu ser dominado por uma mera elfa da floresta. O mesmo não sabia o que pensar, então — como que encontrando um meio mais rápido e fácil de se livrar de tudo aquilo que envolvia Luna — ele preferiu odiá-la. Odiá-la por deixá-lo tão confuso, odiá-la por sua inocência, odiá-la por cada fio de cabelo em sua cabeça.
Veneno.
Ela era, para ele, como uma espécie de veneno. Um belo rosto, uma áurea angelical… o elfo fechou os olhos, mais uma vez sentindo seu corpo esquentar ao lembrar-se do sabor dos lábios dela, de sua pele macia. Por que fizera aquilo? Por que deixara com que um pensamento lascivo e momentâneo controlasse suas ações? Vergonha, Thranduil sentia vergonha de si mesmo. E ele amaldiçoou Luna por tê-lo amaldiçoado. Sua cabeça rodava e ele ainda queimava em ódio, céus…
Controle—se.
Em certo instante sua mente lhe trouxe a lembrança de fios dourados, tal como o ouro. Do calor de seu belo corpo, da maciez de sua voz e, por fim, do tom quase cristalino de seus olhos. O mais próximo que ele pôde estar da verdadeira pureza, era ela…
E se Luna era seu veneno, sim, ela era sua cura. O único sopro de paz que o acalmava do furacão de pensamentos e insanidade que sua chefe da guarda conseguia lhe causar.
O elfo passou as mãos pelo cabelo e respirou profundamente, e então dirigiu seus olhos para o canto e visualizou o estado deplorável em que os restos da taça se encontravam — junto a resquícios de vinho espalhados por certos pontos do ambiente. Ele ergueu uma sobrancelha, enojado.
Agora, mais calmo, Thranduil podia então pensar com mais clareza. Não se deixaria abalar com aquele mero e insignificante acontecimento. Não se deixaria abalar por aquela mera e insignificante elfa, a quem tolerava como chefe de sua guarda. Não, a situação não sairia de seu controle outra vez. E sua primeira atitude seria convocá-la para esclarecer as coisas.
O soberano cerrou os olhos e, usando de suas capacidades para encontrá-la, varreu toda a extensão de seu reino com a leveza de seu espírito. Ele podia ouvir cada som, podia sentir até mesmo uma única e minúscula folha cair da copa de uma das árvores e assim tocar o chão. Indo mais além, Thranduil vasculhou toda a área de treinamento, os aposentos, os portões…
Franziu o cenho.
Onde você está?
Ele seguiu sua busca pela floresta e se deparou com vários seres e rostos, menos com o de Luna. E foi quando chegou à fronteira leste, poucos metros depois dos limites, que ele teve a ampla visão do campo e contemplou um cavalo cavalgando para longe dali o mais depressa que podia. O mesmo era montado por um ser de longas madeixas negras e soltas ao vento.
— GUARDAS! — Thranduil exclamou no mesmo momento, fechando as mãos em punho.
Apenas segundos haviam se passado quando um deles apareceu.
— Hîr vuin? — o soldado fez uma leve reverência.
— Luna não está mais nos limites do reino e eu quero que a tragam imediatamente, entendeu bem? — o guarda assentiu. — Se ela resistir faça o que for necessário, mas eu a quero de volta. — seu tom era cortante. — EGO!
O elfo nada respondeu, apenas se inclinou e se retirou de forma rápida.
Completamente absorto em pensamentos, Thranduil voltou a caminhar de um lado para o outro da sala — quase de um modo arrastado. Ele respirava fundo e de maneira pesada. Então, parou por um momento e sorriu de canto ao cruzar as mãos atrás das costas. Sua postura, como sempre, estava ereta e elegante.
Não.
Se ela pensava que ganharia estava muito enganada. Ele não enlouqueceria, não perderia aquela batalha. A coroa, o trono, o reino, inclusive a própria Luna… tudo o pertencia e estava sob o seu controle. E enquanto ele fosse o soberano sua vontade iria sempre prevalecer.
.o0o.
Ela se desprendeu com brutalidade da mão que segurava seu braço, irritada com a situação, e então fitou seu rei — este que segurava um livro e o observava calmamente, sem dirigi-la o olhar. Para mostrar que estava a par de sua presença, Thranduil apenas ergueu um dos braços em uma ordem muda para que os guardas se retirassem.
— Meu senhor poderia me dizer o que isto significa? — Luna indagou sem qualquer sinal do clássico tom respeitoso, o que fez o rei sor minimamente.
— Não compreendo sua irritação… — ele respondeu com cinismo, finalmente erguendo o olhar para ela e então devolvendo o livro de volta a seu lugar na imensa estante à sua frente.
— Eu fui arrastada — a elfa respirava com furor e suas duas mãos estavam repousadas em ambos os lados de sua cintura. — por todo o caminho.
O rei meneou a cabeça.
— Eu fui bem claro quando disse que poderiam fazer o que fosse necessário para o caso de você resistir. — ele sorriu com divertimento. — Ao menos ainda tenho guerreiros obedientes em meu reino, não vou e nem posso puni-los por isso.
Luna fechou os olhos, tentando manter o autocontrole.
— E qual o motivo de tudo isto? — ela questionou ao assumir uma postura mais rígida.
A expressão de divertimento do rei élfico pareceu ser engolida por uma áurea austera e intimidante, esta que quase fez com que Luna desse um passo para trás, temerosa.
— Qual o seu propósito ao seguir para longe de nossas fronteiras? — ele foi direto e sua voz estava gélida.
A elfa piscou algumas vezes, fitando-o séria.
— Não creio que… — foi cortada.
— Responda a pergunta. — ele cruzou os braços. — E não tente me enganar.
Ambos travavam uma batalha de olhares.
— Fui em busca de Annchir — Luna disse entre um suspiro. — para trazê-lo de volta. — completou.
Thranduil estalou a língua e balançou a cabeça em reprovação.
— Tola! — exclamou desdenhoso.
— A persistência nunca deve ser considerada tolice, meu rei! — ela contrapôs de maneira ríspida.
— E o desrespeito? — ele cerrou os olhos. Sua voz agora soava com rouquidão. — A minha paciência está se esgotando, Luna. E você não se agradará quando tudo que restar dela for uma mera lembrança.
A elfa entreabriu os lábios.
— Com todo respeito, meu senhor, tudo o que fiz em todo este tempo foi sempre para o bem maior de todos e tudo que recebi em troca foram críticas e repreensões!
— Talvez porque a sua audácia seja mais evidente do que a sua bondade! — Thranduil acusou. Ele mantinha certa distância, mas a fitava fixamente.
— Não pode me culpar por não concordar com sua opinião e, consequentemente, suas decisões.
— Eu não quero que concorde comigo, quero que siga as minhas ordens e que tenha sempre em mente de que a última palavra é minha. E gostando ou não você deve acatá-la! — seu tom era rigoroso quando ele se colocou de costas para ela. — E pare de me afrontar.
Àquela altura da situação a elfa já não se continha, ela estava revoltada demais com o tamanho da arrogância de seu rei para notar sua própria falta de decoro.
— Que tipo de soberano se considera acima do bom senso, dando ouvidos somente a própria consciência e àquilo que ele mesmo impõe como certo? — Luna indagou com ressentimento. — Nada e nem ninguém é superior a Vossa Majestade. Sim, o senhor que a todos julga com superioridade, não é mesmo? Minha opinião só se confirma a cada momento que o conheço melhor. — e, cometendo seu maior erro, ela finalizou: — Nem os nobres escapam do seu senso errôneo do que é certo ou não.
Thranduil se voltou abruptamente para si, sabendo de imediato ao que a elfa se referia de modo indireto. Suas feições eram de fúria e seu tom de voz cortante.
— Como ousa dizer tal coisa? — todo o corpo de Luna estremeceu. — Aquele anão brincou com fogo, acumulou um enorme tesouro, uma riqueza fenomenal. E tanta ganância, por fim, o trouxe os problemas que ele merecia.
— E o que o senhor fez quando eles vieram até nós? A honra de nosso povo foi tirada por causa do seu orgulho! — ela ergueu o dedo em riste, provocativa.
— O que aconteceu era problema deles, não nosso. — a chefe da guarda riu com sarcasmo ao ouvir aquele comentário. Thranduil apenas continuou. — Thrór atraiu a ruína para si mesmo e ela o consumiu em forma de fogo.
— E o que o povo tinha a ver com isso? — sua expressão era de raiva. — Pobres anões… assim como o nosso povo, eles tiveram a lástima de serem representados por um governante que não vê nada além do próprio poder.
O rei deu um passo à frente e estancou no lugar, contendo-se. O mesmo respirava cuidadosamente, estava por um fio, mas então suavizou suas feições. Ele sabia que a conversa não era de igual para igual. Ela falava do que ouvira, não havia presenciado nada, visto por si própria.
Era apenas uma barulhenta e ignorante.
— Eu vi muitos séculos passarem diante dos meus olhos, e sabia que não poderia fazer absolutamente nada para tirá-lo de lá. Eu avisei que aquilo aconteceria, mas ele não me ouviu porque pensou ser mais esperto do que eu — fez uma pausa. — e você está cometendo o mesmo erro.
A elfa balançou a cabeça negativamente.
— Sim, o senhor estava certo. Sim, a arrogância do rei anão o impediu de enxergar o que aconteceria. E sim, talvez eu esteja cometendo o mesmo erro que ele ao duvidar da sua sabedoria, Majestade. — Luna estava mais calma, porém, não menos provocativa. — Mas, não pode olhar nos meus olhos achando que depois dessa sua bela declaração eu vou considerá-lo como o ser mais sábio e benevolente que existe. Minhas experiências dizem o contrário. Meu senhor se sobrepõe achando que é melhor e mais inteligente do que todos, acha que nossa tolice nos cega, mas o único cego para a realidade de si próprio é você mesmo.
A expressão de Thranduil se fez nublada e o mesmo deu um passo para trás, contraindo as sobrancelhas e fitando-a profundamente.
— Você, minha querida Luna, se considera a senhora da verdade, não é? — o rei mordeu o lábio inferior suavemente, fitando a expressão de determinação da elfa com o máximo de controle que conseguiu encontrar dentro de si mesmo. — Pois bem, se tem a solução, na exata medida em mãos, o que você teria feito em meu lugar?
— Eu ajudaria meus aliados e manteria a minha palavra, nem mesmo que isso custasse a minha própria vida. Iria até o fim em tudo aquilo com o que me comprometi. — ela afirmou convicta. — O que é um rei sem honra?
Thranduil ergueu um dos cantos dos lábios em um sorriso mínimo e debochado.
— Seria fácil demais se tudo envolvesse apenas a palavra eu. — rebateu desdenhoso. — Ser rei vai muito além de usar uma coroa, ter um trono ou comandar um reino. Ser rei é pôr as necessidades do seu povo em primeiro lugar. Smaug poderia causar o mesmo mal a nós, e a segurança do meu povo era algo que eu não estava disposto a ariscar. — Thranduil a fitou intensamente. — E o bem-estar do seu povo para um verdadeiro rei é muito mais importante do que a sua honra.
A elfa se impressionou com aquela afirmação e então o fitou por alguns segundos, ao menos até perceber que ele erguia uma sobrancelha.
Ela rapidamente desviou o olhar.
— Perdão, meu senhor. — foi tudo o que conseguir dizer ao engolir o orgulho. — Eu não havia pensado desta forma.
O rei nada respondeu, apenas continuou a observá-la como se desvendasse todos os segredos de sua alma apenas com o olhar. Luna se sentiu constrangida, fazendo menção em se retirar do recinto.
— Certas coisas foram feitas para que as guardemos — Thranduil exclamou e logo fez uma pausa. — enquanto outras devem ser simplesmente esquecidas.
Os olhos azuis da elfa o fitaram no mesmo instante, camuflando o impacto daquelas palavras. Ela sabia exatamente ao que seu senhor se referia.
O beijo…
Luna não o respondeu, apenas assentiu. Ela lhe deu as costas e caminhou em direção à saída, quando chegou em frente à porta olhou-o por cima dos ombros e disse:
— Abdico do cargo de chefe da guarda real. — sua exclamação soou quase como um sussurro.
— Negado. — ouviu-o responder de forma apática. — Seu irmão não voltará por isso, Luna.
Ela engoliu em seco e respirou fundo para não derramar nenhuma lágrima.
— Não retiro o que disse ontem — pronunciou com dureza. — ainda é tudo culpa sua.
A elfa sentiu seu braço ser puxado violentamente para trás. Uma das mãos de Thranduil o rodeava firmemente e a trazia para perto de si com brusquidão. A cabeça de seu senhor estava curvada para poder fitá-la de perto.
— Escute, e me escute bem… — ele iniciou calmamente, com os olhos fixos nos seus. — não preciso da sua simpatia ou admiração, só preciso da sua obediência. Não serei mais tolerante. — o soberano fechou ainda mais o aperto em seu braço. — Se você ousar ultrapassar as fronteiras sem o meu consentimento, eu juro que não é necessário que volte. E se voltar passará o resto da eternidade trancafiada como uma criminosa nas celas inferiores. Ouviu bem?
Os dentes dela trincavam, mas Luna não pronunciou nenhum som. Ela puxou seu braço de forma bruta, livrando-se das mãos de Thranduil com agonia.
— Perfeitamente. — foi tudo o que respondeu antes de lhe dar as costas e sair marchando dali.
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