I See You
6 Capítulo 6
Notas iniciais
Quatro dias haviam se passado desde que ela estivera na presença de seu rei. Dia e noite Luna patrulhava a floresta, juntamente a seus companheiros, pensando em como contaria a Annchir sobre a vontade de seu senhor. Ela não voltava ao palácio, não ousava ultrapassar os portões, e sua imaginação era usada na tarefa de criar alguma desculpa aos chamados de Elenor ou Lórien — o que não era nada fácil.
A elfa estava recostada em uma árvore, perdida em pensamentos.
— Luna. — Eruwen se aproximou e a saudou. — Achei que estivesse ao norte da floresta.
— Preferi estar por perto desta vez, Orcs sondaram nossas terras ontem pela madrugada. — o loiro assentiu e ficou em silêncio, pondo-se a seu lado.
Depois do ocorrido há alguns dias, ele não ousava se aproximar dela. Não como antes. Em parte Luna preferia assim, mesmo que sentisse falta da presença do amigo e de seus conselhos.
— Sabe — Eruwen cortou o silêncio. — estive ponderando sobre três coisas nos últimos dias.
— E o que seriam?
— A primeira delas; — ele jogou uma garrafa na direção de Luna, esta que agarrou o objeto no ar. — nosso rei tem um gosto muito refinado para vinhos.
A elfa riu divertida e fitou a garrafa com atenção.
— Você roubou isso da adega real?
— A segunda; — Eruwen ignorou sua pergunta e continuou. — os carcereiros costumam se embebedar às vezes, o que facilita o empréstimo de vinhos às escondidas. Você precisa rever isto…
Luna riu alto com o tom satírico do amigo.
— Terceira e última ponderação; — ele se aproximou o suficiente para fazer a elfa se recostar ainda mais a árvore e prender a respiração, mas, ao contrário do que ela pensava, não era nela que o elfo se concentrava. Luna viu uma das mãos do loiro ir de encontro a uma borboleta. A mesma fez menção de levantar voo, porém, foi capturada no último instante. — nosso rei a está vigiando.
Ele mostrou a pequena criatura à Luna, esta que a fitou com um misto de curiosidade e irritação. Eruwen segurava as delicadas asas e fez menção de arrancá-las.
— Não faça… — era tarde, mas a mesma se surpreendeu com o que aconteceu a seguir.
Após ter as asas arrancadas o corpo do pequeno ser se desmanchou em pó na palma de Eruwen.
— Como imaginei. — ele se livrou dos restos da criatura.
A fisionomia de Luna era de espanto, revolta. Como assim estava sendo vigiada por aquele ser que deveria chamar de rei?
— Como sabia? — ela indagou ao fitá-lo com espanto.
— Sabe que sou um bom observador — sim, ela sabia. Ele fez uma pausa. — mas, gostaria de entender o motivo de tudo isto.
A elfa suspirou.
— Ele pensa que vamos fugir. Desde o dia que nos encontrou juntos.
Eruwen ergueu uma das sobrancelhas.
— E qual seria o problema se realmente decidíssemos fazê-lo?
— Sua Majestade nos considera ingênuos em relação à visão que temos do mundo lá fora. — Luna repetiu as palavras que ouvira do soberano.
Por um instante ela se permitiu voltar a lembrança de seu senhor próximo a si, dos olhos dele vidrados nos seus, da arrogância tão fixa em seu tom de voz…
— Algum problema? — foi trazida de volta a realidade por Eruwen.
Ela balançou a cabeça negativamente após se recompor.
— Nenhum. — respondeu rápido demais.
O elfo ergueu uma das sobrancelhas, tombando a cabeça para um dos lados enquanto a fitava.
— Você não sabe mentir, minha querida… — ele exclamou com um meio sorriso. — sabe que pode confiar em mim.
Sim, ela sabia. Mas, mesmo com toda a confiança que dirigia à Eruwen, aquilo era algo que ia muito além de qualquer coisa que já havia compartilhado com o amigo.
Tão ridículo, a seu ver.
— Nosso rei me deu a ordem de retirar Annchir do esquadrão. — disse como se aquele fosse o motivo de seu devaneio anterior.
O elfo entreabriu os lábios, surpreso.
— E o que você fará?
— Estou sem alternativas. — confessou ela, quase em um sussurro. — Ele me odiará eternamente…
— Não é culpa sua. — Eruwen interveio suavemente, tentando acalmá-la.
— Você sabe que ele não pensará igual. — Luna tentava conter a própria angústia.
— Mas… por quê? Qual foi o motivo que levou Thranduil a tomar esta decisão? O que ele lhe disse?
— Por causa da missão. — a chefe da guarda se limitou a responder.
Ela dirigiu seus olhos azulados para o chão, ainda com a garrafa em mãos. O loiro, percebendo a áurea de Luna, se aproximou.
— Eu… — ele foi interrompido pela presença de um guarda.
— Minha senhora, o rei solicita sua presença. Imediatamente.
Eruwen e Luna se entreolharam.
— Me dirigirei até a Sala do Trono o mais rápido possível. — respondeu e o viu assentir e se retirar, tão rápido quanto chegou.
— O que acha que ele quer? — indagou seu amigo.
— Não sei. — suspirou pesadamente. — Nunca sei o que esperar do meu rei…
Sem aguardar resposta ela foi em direção ao palácio, repreendendo-se internamente pelo frio na barriga que estava sentindo.
.o0o.
Luna se aproximava a passos ritmados e não pôde deixar de erguer uma sobrancelha após perceber que seu rei não a esperava sozinho.
Annchir, por sua vez, lhe dirigiu um olhar interrogativo quando pôs os olhos sobre si. Quando chegou à presença de seu rei, a elfa se colocou ao lado do mais novo e trocou olhares com este rapidamente.
— Não cumpriu com minha ordem, Luna. — acusou o soberano.
— Meu rei… — ele a interrompeu. Um hábito que ganhara e que a irritava demasiadamente.
— Pensei ter sido bem claro. — Thranduil fitou-a com desdém.
— Tive pequenas dificuldades… — seu coração batia acelerado. Já imaginava o que faria.
Não, ele não ousaria…
— Faça. — ordenou indiferente ao repousar seus olhos de inverno na figura de sua chefe da guarda.
— Por favor… — ela pediu. — meu senhor, por favor!
— Faça. — o rei repetiu com veemência. Dessa vez, fitando-a nos olhos.
Em um pedido mudo, seus olhos azulados suplicaram a seu rei mais uma vez, e em resposta Thranduil apenas dirigiu seu olhar para o chão. Negando-se a encará-la.
Luna mordeu o lábio, contendo um gemido de furor, e se voltou para seu irmão — que assistia a cena confuso.
— Soldado — ela engoliu em seco. — você está dispensado de suas funções na Ordem dos Líderes. — a elfa prendeu a respiração, buscando forças para continuar. — A partir de hoje você será um dos guardas da prisão. Sua função será vigiar os prisioneiros, e apenas isso.
Annchir arregalou os olhos levemente, não acreditando no que ouvia.
— O quê?
— Na última missão em que todos tinham um dever particular você falhou com o seu. — Thranduil tomou a palavra. — Era uma missão simples que você não foi capaz de cumprir. Que tipo de chefe da guarda sua irmã seria se permitisse com que continuasse no cargo, desmerecidamente? — indagou ele, e seu cinismo era desprezível. — Não é mesmo, Luna?
— Meu senhor, eu… — ela ainda tentou argumentar.
— Chega! — sua voz ecoou pelo recinto, autoritária, e a elfa apenas abaixou a cabeça. O rei finalizou. — Isto é tudo, Annchir.
Luna ouviu o loiro marchar para longe dali e ergueu a cabeça, fazendo menção em segui-lo.
— Certas coisas são necessárias. — ela se deteve quando ouviu Thranduil dizer calmamente.
— Posso me retirar? — sua voz era como o gelo.
Seu rei a fitou de um modo estranho, afetado por seu tom. Ele não respondeu, apenas assentiu. Seus olhos azulados estavam vidrados em Luna e eles assistiram ela seguir na mesma direção que o irmão havia tomado.
.o0o.
— Annchir, onde ele está? — ela indagou enquanto adentrava o local da armaria, encontrando Lórien e Nathrini conversando. Os dois acenaram negativamente com a cabeça, confusos.
Luna continuou andando e seguiu pelo extenso corredor que a levaria aos dormitórios dos soldados, se dirigindo até o de seu irmão. Assim que estava em frente à porta ela a abriu sem cerimônias, mas não encontrou nada além do vazio.
— Annchir? Annchir? — ela chamava insistentemente.
Passou as mãos pelas madeixas negras em sinal de desespero. Aonde ele poderia estar? A elfa se retirou rapidamente, refazendo todo o caminho de volta e passando por seus companheiros. Estes que, dessa vez, a fitaram preocupados.
— Minha senhora? — ainda ouviu Nathrini chamá-la.
.o0o.
Já escurecia quando a elfa passou pelos portões do palácio, vendo o irmão fazer menção em adentrar a floresta.
— ANNCHIR! — chamou-o enquanto respirava aliviada por encontrá-lo. — Irmão! — apressou o passo para alcançá-lo. — Annchir! — chamou-o mais uma vez, vendo que ele estagnara seus passos mas não se voltara para fitá-la.
— Planejou isso desde o começo não foi? — ele disse com mágoa.
— Irmão, por favor…
— NÃO ME CHAME DE IRMÃO! — o elfo gritou com fúria ao se voltar para Luna.
Seus olhos cor de jade a fitavam com ódio, desprezo… inveja.
— Annchir… — sussurrou enquanto se sentia lacrimejar.
— VOCÊ ME TRAIU! — ele bateu no próprio peito com brutalidade. — ME TRAIU! — seus cabelos loiros estavam soltos e alguns fios estavam grudados em sua testa. Os olhos profundos e machucados brilhavam, brilhavam de um modo macabro. — Você me destruiu, me amaldiçoou.
Luna balançou a cabeça negativamente.
— Eu não tenho culpa! — justificou-se. — Fui obrigada a isso! — contraiu os olhos e ergueu os braços, tentando fazê-lo entender.
— Acha mesmo que estou surpreso com a atitude deste maldito rei? — Annchir soava cortante. — Mas o que você fez? O QUE VOCÊ FEZ? — o mais novo fez uma pausa. — Nada. Absolutamente nada.
— Irmão…
— Não se conteve somente com a nova função, não é mesmo? — a elfa entreabriu os lábios, mas o outro foi mais rápido em se pronunciar. — Queria a satisfação de me elevar e depois me jogar escada a baixo. Você é desprezível…
— Do que você está falando? — Luna sentiu a revolta crescer em seu peito. — EU JAMAIS SERIA CAPAZ DISSO, ANNCHIR! JAMAIS!
— Não? — o loiro riu sarcástico. — Me poupe de suas desculpas, Luna! — ele fechou a expressão novamente. — Eu me enojo deste lugar e me enojo de Thranduil. Mas para você, sangue do meu sangue, eu guardo meu ódio e meu desprezo mais profundo. E juro, por todos os nossos antepassados, que a destruirei e destruirei este reino. Nem mesmo que seja a última coisa que eu faça.
— O QUE EU FIZ PARA ME ODIAR TANTO? — ela gritou e sentiu grossas lágrimas rolarem por seu rosto.
Ele ainda a fitou, apenas por um instante, antes de prosseguir com a voz impregnada pela mágoa.
— Durante todos esses anos sempre foi você… a melhor, a escolhida. Em tudo. — Annchir sorriu tristemente. — Até mesmo nosso pai preferia você.
— Isto não é verdade, você sabe disso!
— Eu sei? — a pergunta pairou pelo ar por alguns instantes. — A única coisa que realmente sei é que você sempre se sobrepôs a mim, e agora sei que o fez por querer me humilhar. — cuspiu as palavras. — Mas isso não vai mais acontecer, não mais.
— Pare com isso…
— Você se delicia com minhas derrotas, se diverte com minha decadência. E quanto mais fundo puder me afogar, você o fará! — ele a deu as costas, dando um passo à frente.
— Annchir! — Luna o chamou chorosa. — Não vá… por favor… irmão! — ela soluçava incessantemente. — Não vá!
Por um segundo o elfo pareceu hesitar diante de seu desespero, e então fechou as mãos em punho. Porém, não havia o que decidir.
— Adeus, Luna. — dizendo isto ele partiu, adentrando a floresta e sumindo em meio a escuridão.
Ela sabia que a partir dali tudo mudaria. Seu irmão tinha partido, cortando todos os laços. E nada, jamais, seria como antes.
.o0o.
Ali, fitando as flores do pequeno jardim enquanto a lua brilhava no céu, ela não conseguia pensar em nada. Somente na expressão de ódio de seu irmão. Luna prendeu um soluço que subia pela garganta ao mesmo tempo em que lágrimas silenciosas desciam por seu rosto alvo, já molhado. Seu coração se apertava, quase sufocando.
Estava partido.
Ela baixou a cabeça, alheia a tudo, e não percebeu quando seu rei se aproximou de si silenciosamente.
— Não chore, Luna. — ele sussurrou ao pé de seu ouvido.
A elfa não se moveu, apenas ergueu a cabeça enquanto endurecia a expressão bem demarcada pelas lágrimas. Ela não o fitava diretamente, apenas olhava as flores diante de si.
— Meu senhor pode pedir ao sol que não nasça todas as manhas? Pode pedir ao vento que não viaje seu percurso de norte a sul? — fitou-o nos olhos, agora permitindo que ele contemplasse toda sua dor. — Então não me peça para não chorar.
A expressão séria e imparcial de seu rei a fazia trincar os dentes. Uma lágrima escapou de seus olhos e Thranduil instintivamente a capturou com um dos dedos, antes que ela rolasse por seu rosto já vermelho pelo choro. O toque de seu rei era suave, quase aveludado, fazendo com que Luna fechasse os olhos para apreciar o carinho — esquecendo, por um segundo, o motivo de sua tristeza.
Mas ela logo voltou a si e o repeliu, permitindo com que mais lágrimas fossem derramadas. O soberano deu um passo em sua direção.
— Não. — a elfa ordenou com uma das mãos em frente ao corpo. — Não ouse se aproximar. — olhou-o com mágoa. — A culpa é sua! A culpa é toda sua!
A fisionomia do rei era de contrariedade, insegurança. Ela quase o perdoou, quase.
— Não me olhe assim! — pediu. — Luna, foi para o seu bem!
A elfa riu debochada.
— E o que o senhor sabe sobre o que é ou não para o meu bem? — ela era pura rispidez. — Por sua culpa a única família que eu tenho foi embora! — seus olhos brilhavam pelas lágrimas, lágrimas salgadas que pingavam de seu queixo. — Meu irmão me odeia… meu único irmão.
O rei se aproximou rapidamente e tomou seu rosto em mãos. Luna se debatia com força, tentando afastá-lo. O que ele queria com aquilo? Uma hora a desprezava, dizendo o quanto sua existência o irritava, e agora isto?
Ele a confundia.
— ME SOLTE! — ela exclamava. — ME SOLTE! — aos poucos ia desistindo, aos poucos perdia as forças e se entregava as lágrimas inevitáveis. Ela queria apenas desaparecer. — Me solte… — finalizou em um fio de voz, parando de se debater e encostando o rosto no peito de seu senhor, fatigada. — Você sabia… sabia que ele iria embora… — pronunciava entre soluços.
O rei, por um momento, não soube o que fazer. Lentamente ele soltou o rosto de Luna e rodeou seu corpo, trazendo-a para mais perto de si e sentindo-a molhar suas vestes com suas lágrimas.
— Algo crescia dentro de seu irmão — ele iniciou ao apertá-la entre os braços. — algo ruim e destrutivo. — continuou calmamente, ouvindo o som de seu sofrimento. — Eu fiz o que era preciso para mantê-la segura dele.
A elfa nada respondeu.
Thranduil desfez o aperto, tomando mais uma vez o rosto de Luna em suas mãos e passando a fitá-la profundamente. A face dela estava vermelha e molhada, e seu típico olhar de verão o lembrava o mais rígido dos invernos.
— Eu o odeio, meu senhor… — ela sussurrou.
Ele piscou algumas vezes, suas sobrancelhas estavam franzidas e seus lábios entreabertos.
— Eu sei… — sussurrou em resposta. — posso conviver com isso.
O elfo observou suas feições até descansar o olhar sobre os lábios rosados, quase vermelhos, de Luna. Hipnotizado. Ele se inclinou um pouco e aproximou os rostos. O coração da elfa batia acelerado enquanto seus olhos contemplavam a fisionomia de seu rei tão de perto.
E quando os lábios se encostaram o tempo parou.
No início foi apenas um leve roçar, mas logo o contato se tornou intenso, profundo. Uma das mãos do rei élfico desceu até a cintura de Luna, colando os corpos e a apertando entre os dedos, enquanto a outra foi para seu pescoço — forçando os lábios a se aprofundarem mais, quase desesperadamente.
Eles arfavam entre o beijo. O mesmo era cheio de angústia, fúria, impaciência… não havia delicadeza nos toques de Thranduil.
Era lascivo, erótico.
A mente de Luna estava nublada e ela não conseguia pensar em nada, a não ser na maciez dos lábios pressionados contra os seus e a brutalidade do contato. Ela gemeu entre o beijo após Thranduil lhe pedir permissão para explorar sua boca, pressionado ainda mais seu pescoço. A elfa mordeu o lábio dele levemente e o sentiu apertá-la contra si, quase levantando-a com a força do ato. Deliciado com tudo aquilo.
O toque indelicado serviu para que Luna voltasse a si, percebendo a loucura que cometia. De um modo inesperado, ela descolou os lábios dos de seu rei e afastou os corpos abruptamente.
Os de Thranduil estavam avermelhados e sua respiração acelerada. Seus olhos azulados ainda fitavam a boca dela, pronto para tomá-la novamente não fosse a tapa que recebera, tão forte que fez seu rosto ser virado para o lado.
O rei fechou os olhos, ainda com a face direcionada para outro lugar, como se engolisse um monstro que subia por sua garganta.
Várias coisas passavam como um turbilhão na mente de Luna, esta que simplesmente se retirou dali sem proferir palavra alguma.
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