I See You
5 Capítulo 5
Notas iniciais
Os olhos do rei, sempre gélidos, fitavam Eruwen de maneira impassível.
— Meu senhor. — Luna se pronunciou calmamente, mas foi ignorada pelo soberano.
A atmosfera estava pesada, de maneira palpável. A elfa esperava algum tipo de reação de seu rei, uma palavra, uma repreensão… qualquer coisa. Mas o que mais a intrigava era o fato do mesmo estar ali. Aquela não era uma das alas em que ele passava com frequência, na verdade, nunca passara — pelo que Eruwen lhe dissera.
— Retire-se. — o rei ordenou indiferente, com seus olhos fixos no elfo.
O loiro fitou Luna de esguelha e logo se voltou para seu soberano. Nada respondeu, apenas assentiu. Ele caminhou para a saída a passos rápidos, sendo seguido pelo olhar cortante de Thranduil.
Os olhos azuis do rei élfico continuaram fixados no caminho que o outro havia tomado por alguns minutos e, em um gesto lento, ele se voltou para Luna — que estava com os lábios entreabertos. Seu senhor caminhou pacientemente em sua direção, com a expressão nublada e merecedora de temor.
— Majestade… — iniciou ela, com uma das sobrancelhas arqueadas.
Em resposta, Thranduil estreitou os olhos com um mínimo, porém perceptível, sorriso de desdém. Em um ato automático de autoproteção, ela se recostou à parede mais próxima, no mesmo ritmo lento em que seu senhor se aproximava. A elfa tentou captar o que ele pretendia e até mesmo algum tipo de ponto que denunciasse raiva ou descontentamento, mas tudo que podia perceber era o maldito sorriso de desdém em seus lábios.
— Então planejam fugir… — ele disse com sarcasmo. — que lindo.
Seus passos eram quase torturantes.
— Meu senhor — Luna tentava soar de maneira calma. — creio que não tenha entendido.
— Além de cego, me chama de surdo? — o loiro riu entredentes. — Mais uma ofensa a se acrescentar à lista. — finalizou debochado.
— Meu rei… — a elfa já se sentia incomodada pela maneira estranha como ele agia. — quis dizer apenas que não compreendeu bem o sentido da situação.
Thranduil encurralou-a na parede, apoiando uma de suas mãos à mesma. Ele curvou a cabeça para poder fitá-la melhor e assim teve o corpo dela a milímetros de distância do seu.
Luna sentia seu coração bater acelerado pela proximidade. Sua respiração tornou-se pesada, mais do que o normal, o que chamou a atenção do rei — que se limitou a um sorriso de canto.
— Você e seu amigo tem uma visão ingênua do mundo lá fora — sussurrou calmamente em seu tom de indiferença mais cruel. — não o escute.
— Me deixaria partir se pedisse?
— O que vale a liberdade em comparação a uma vida? — rebateu ríspido.
— Para ser algo tão importante deve cobrar um preço tão caro!
— Não sabe o que diz! — ele contraiu o rosto em irritação.
— Me deixaria partir se pedisse? — Luna repetiu a pergunta, com mais veemência.
Thranduil não lhe respondeu de imediato, ainda fitando com intensidade seus olhos azulados. Sua respiração ia de encontro ao rosto alvo de sua chefe da guarda, permitindo-a sentir o ar quente que saía das narinas de seu senhor.
— Ainda vou bani-la por sua audácia, Luna! — sua voz estava baixa e rouca. — Você me irrita… profundamente.
O elfo ergueu a mão livre, fazendo menção em tocar o rosto de Luna. Porém, antes que a ponta de seus dedos ao menos lhe roçasse a face, o rei se afastou de maneira bruta e a fez ter um mínimo sobressalto. Ele se afastou e se colocou de costas para ela. Já a elfa controlava a respiração e tentava entender o que acontecera. Em sua mente milhões de pensamentos dançavam em uma confusão sem fim.
Ela fechou os olhos com força.
O que era aquilo?
Quando voltou a abri-los não o viu mais. Estava sozinha com a própria dúvida.
.o0o.
Observando os três alvos à frente ela posicionou o arco e se colocou de lado, esticando a fecha até quase encostá-la nos lábios. Luna respirou profundamente, normalizando seus batimentos e mantendo a coluna ereta. Quando abriu a mão ela libertou a flecha e a viu seguir para o centro do alvo, certeira. Com agilidade, a chefe da guarda fez o mesmo para acertar os outros dois alvos.
Após o ocorrido com seu rei Luna se dirigira para o local da armaria, ocupando sua mente com a única coisa que conseguiria acalmá-la: treinos. Estivera a noite inteira ali e mal percebera o tempo passar. O sol já deveria despontar no horizonte quando ela guardou seu arco e os outros utensílios para se sentar por um instante, fitando um ponto fixo na parede.
Estava irritada consigo mesma por se prestar a tal papel. Nunca se deixara abalar por nada e nem ninguém. Sempre firme, como um rochedo. Depois de quinhentos e sessenta anos já havia passado por muitas situações e, mesmo assim, permanecera inabalável, como uma guerreira deveria ser.
O quão tola deveria parecer ao permitir que sua mente vagasse pela lembrança de seu senhor tão próximo de si para fitá-la nos olhos de modo tão profundo, como se vasculhasse sua alma?
Ela bufou irritada.
— Vejo que algo a incomoda, minha irmã. — viu Annchir adentrar o recinto e se dirigindo a uma mesa para depositar suas armas. Ele se voltou para a elfa e cruzou os braços. — A missão está completa.
— Sem sombra de falha? — Luna questionou enquanto fingia interesse e tentava se concentrar no que o irmão diria.
— Nenhuma.
— Ótimo. — seu tom de voz havia sido mais ríspido do que o desejado, e aquilo fez com que Annchir erguesse uma das sobrancelhas. — Perdão…
— Diga-me, qual o problema? — ele indagou ao empunhar uma espada para examinar sua lâmina bem polida, porém, ainda atento ao que Luna contaria.
A mesma ponderava se aquilo era algo que pudesse confiar a seu irmão ou se deveria enterrar nas profundezas de seus pensamentos.
— Vejo que conversa comigo em paz, está de bom humor? — ela preferiu mudar de assunto.
O elfo sorriu sem parar de observar a lâmina que refletia a claridade em seus olhos cor de jade.
— Perdão pelas oscilações de minhas emoções. — ele se desculpou cordialmente. — Sei o quanto isto a incomoda.
— Você é meu irmão, não gosto que nos enfrentemos. — respondeu séria, mesmo com Annchir mantendo um ar de divertimento.
— O importante é que no final sempre nos reconciliamos… — ele a fitou e sorriu, mas Luna sabia que não era verdadeiro. — não é mesmo?
— Até quando, irmão? — sorriu tristemente. — Talvez chegue o dia em que isto não venha mais acontecer.
— Deixará meras brigas nos destruírem? Sou tudo que tem no mundo e você tudo que eu tenho.
— Não sou eu quem está destruindo algo aqui! — a elfa suspirou pesadamente. — Eu prometi protegê-lo do mundo, mas não posso protegê-lo de si mesmo.
Annchir abaixou a cabeça e sorriu com ironia.
— Você me julga porque não me entende. — seus olhos verdes voltaram a fitá-la, apáticos. — Não sabe o que é crescer na sombra de alguém.
— Fala da mesma sombra que sempre cuidou e protegeu você? — suas palavras ecoaram pelo recinto. — Tenho medo, meu amado irmão. Medo do que esse sentimento possa torná-lo e medo do seu poder corrosivo.
Luna se pôs de pé e andou até a saída.
— Ainda me ama, irmã? — suas palavras a fizeram parar e fitá-lo por cima dos ombros.
A elfa sentiu um nó em sua garganta.
— Para além da eternidade, você sabe disso. — fez uma pausa. — Mas tenho medo que esse amor possa me cegar e me impedir de ver.
— Ver o que? — seu tom de voz era sombrio, baixo e profundo.
— Me diga você, irmãozinho. — ele riu levemente.
Luna caminhou para longe dali, ainda podendo ouvir as últimas palavras do mais novo.
— Tão forte… tão corajosa… mas, tão ingênua.
.o0o.
— Não seguimos para muito longe depois de partirmos, meu senhor. E com um profundo esforço conseguimos cumprir com o ordenado. — dizia Elenor à Thranduil, este que fitava a todos com uma expressão neutra e com as mãos cruzadas em frente aos lábios elegantemente.
— Sem falhas desta vez? — ele indagou e fitou Annchir com superioridade, vendo-o curvar a cabeça para esconder o olhar de seu soberano.
— Nenhuma, meu senhor. — respondeu Elenor, percebendo, assim como os outros, o olhar de seu rei sobre o elfo.
Desde que chegara com seus companheiros à presença de Thranduil, Luna ainda não havia pronunciado uma única palavra ou sequer o havia fitado. Ela estava em um lugar mais afastado dos outros e percebia os constantes olhares que recebia de Eruwen, mas não se voltou para ele.
—…nossas terras estão livres destas bestas, meu rei. — dizia Lórien.
— Me alegro muitíssimo. — Thranduil respondeu e fez com que Luna erguesse uma sobrancelha diante daquele sarcasmo. — Agora se retirem e cuidem para que permaneçamos livres não somente destas, mas também de todas as outras criaturas que venham nos assolar. — finalizou e se pôs de pé para inclinar a cabeça levemente, sendo imitado pelos líderes diante de seu trono.
A elfa fez menção de seguir seus companheiros, chegando a se aproximar do grupo, mas ouviu o som inebriante de seu nome ser chamado por seu rei:
— Luna — ela paralisou e viu todos passarem por si em silêncio. — fique.
A elfa ouviu o som dos passos deles se tornarem cada vez mais distantes por entre as colunas do grande palácio, e então veio o silêncio. Relutante, ela se voltou para o rei e se aproximou de seu trono.
Em um respeito calculado, Luna parou diante do olhar de Thranduil e inclinou a cabeça, permanecendo dessa maneira.
— Retire seu irmão do esquadrão. — ele foi friamente direito.
A elfa se controlou ao máximo para não erguer o olhar.
— Meu senhor?
— Pelo erro dele esta minúscula missão foi estendida. — Thranduil se sentou em seu trono e, em tom de descontentamento, finalizou. — Ele é um fardo, um atraso desnecessário que não permitirei na Ordem dos Líderes.
— Mas… — foi interrompida.
— Não me questione, Luna. Minha decisão já está tomada. — disse inflexível. — Execute-a.
Ela fechou as mãos em um punho.
— Meu senhor…
— Olhe para mim. — ele ordenou gélido. A elfa não fez menção em obedecê-lo, temendo que sua expressão fechada denunciasse sua irritação. — Luna — o rei disse seu nome com veemência. – olhe para mim.
Ela sentiu os pelos de seus braços eriçarem e mordeu o lábio, contendo um leve gemido de angústia. Sem pressa, Luna ergueu a cabeça e fixou suas íris diretamente nas de Thranduil — que continuava sentado em seu trono, demonstrando toda sua imponência e soberania… o que a irritava ainda mais.
— Dou minha palavra de que isto não se repetirá. — ela tentou argumentar. — Permita com que meu irmão permaneça no esquadrão.
— Você o favorece.
— Quero dar a ele uma oportunidade de mostrar seu potencial!
— Você o favorece. — Thranduil repetiu, visivelmente deliciado com a expressão irritada dela.
— Meu senhor não compreende! — a chefe da guarda estava visivelmente irritada.
— Não compreendo exatamente o quê? Sua necessidade em dá-lo sempre o que ele quer para que fique satisfeito, mesmo não merecendo?
— Não compreende minhas atitudes por não conhecer o amor que sinto por meu irmão! — Luna cuspiu as palavras sem pensar. — Me surpreenderia muito se Vossa Majestade já tivesse provado tal sentimento, já que não o demonstra nem mesmo ao próprio filho!
A respiração da elfa estava pesada e um sentimento de arrependimento tomava seu peito. Mas, ela não o demonstrou. Não voltaria atrás com suas palavras, ele não merecia.
Thranduil entreabriu os lábios enquanto seus olhos assumiam certa escuridão, como se estivesse perdido em seus próprios pensamentos.
— Então é essa a visão que você tem de mim? — foi quase em um sussurro.
— É como meu senhor se apresenta. — Luna deu um passo para trás.
O rei se levantou de seu trono, abandonando a postura de superioridade, e a fitou com toda mágoa e irritação que jamais dirigira a nenhum outro ser.
— Pois digo que você, sua criatura tola e petulante, não sabe de nada… NADA! — ele gritou e a assustou. Luna curvou a cabeça. — Eu sou o seu rei! — exclamou rigorosamente e a elfa estremeceu. — E não há nada mais que você precise saber, além disso!
Ela ouviu seus passos enquanto ele descia a curta escadaria e caminhava para colocar-se à sua frente.
Luna engoliu em seco.
— Perdão, meu senhor… — ela disse ao, enfim, abandonar o orgulho e erguer a cabeça cuidadosamente.
Thranduil fitou-a de cima.
— Sua presença me irrita, suas palavras me irritam, sua teimosia me irrita. — ele dizia com rispidez. — Tudo em você, Luna, me irrita… profundamente. — repetiu o que havia dito mais cedo. Depois de longos minutos sua expressão se suavizou, mas repentinamente suas feições se endureceram outra vez. — Cumpra com o que lhe ordenei, imediatamente. Este assunto está encerrado. — o elfo fez uma pausa e a deu as costas. — Agora saia.
A elfa não conseguiu evitar um suspiro de descontentamento e desespero. Com a postura ereta e sem nem mesmo fazer algum tipo de reverência, ela deu as costas a seu rei — tão arrogante quanto ele — e se retirou a passos pesados.
.o0o.
— Gandalf, você voltou a Dol Guldur? — indagou o elfo em tom de reprovação.
O mago tragou seu cachimbo, liberando a fumaça de forma cuidadosa, e então meneou a cabeça.
— Não me entenda mal, meu amigo. Mas, depois de tantas experiências a desconfiança passa a ser uma característica imutável e não apenas um estado passageiro de espírito. — ele respondeu com um meio sorriso. — De qualquer forma, e se isso o tranquilizar, saiba que não encontrei nada que pudesse realmente representar um perigo iminente.
O senhor de Valfenda sentou-se de frente para o cinzento, fitando-o com profundidade.
— Tem certeza?
— Absoluta! — o outro continuou pensativo. — Sauron por hora não fará alarde, imagino. Mas não devemos nos enganar, nosso inimigo está se preparando e logo estará forte o suficiente para tentar fazer o que não conseguiu no passado.
Elrond assentiu e logo uma expressão de curiosidade tomou conta de suas feições.
— Disse que foi à presença de Thranduil.
O mago suspirou pesadamente.
— Um grande rei, porém, um elfo de personalidade bem complicada, devo acrescentar. — ele fez uma pausa. — Para um ser tão arrogante, o rei da Floresta das Trevas deveria ser grato aos seus fiéis guerreiros.
— Como assim? — Elrond indagou com curiosidade, contendo um riso de divertimento.
— Aconselhei-o a enviar uma patrulha à Dol Guldur e aquele senhor não fez nenhuma menção em me escutar, assim como aconteceu em Erebor… — ele exclamou irritado. — mas, sua nova chefe da guarda achou melhor me ouvir.
— Gandalf, você a convenceu a desobedecer o próprio rei? — o elfo controlou uma risada, estando surpreso. Porém, já tinha conhecimento das artimanhas de seu velho amigo.
— Não a convenci… apenas sugeri. — Elrond balançou a cabeça negativamente com um pequeno sorriso. — Mesmo assim, devo admitir, Luna é corajosa.
— Seu nome? — o mago assentiu em confirmação.
— Penso que poderíamos mandá-la de encontro à Legolas, em sua missão no norte. Seria de grande ajuda para o que planejamos, e também um ótimo uso de suas habilidades. — ele disse pensativo.
Elrond franziu o cenho.
— Tem certeza disso, meu amigo?
O mago se levantou e tomou seu cajado em mãos.
— É apenas uma suposição. — explicou melhor. — Mas, considerando a personalidade do nosso querido rei — o elfo riu pelo tom duvidoso do outro. — seria mais sábio deixá-la a seu lado. Que ela seja uma influência para Thranduil… uma boa, de preferência.
Fale com o autor