I See You
37 Capítulo 37
Notas iniciais
As semanas se passaram rapidamente aos olhos dos elfos da Floresta das Trevas e, durante muitos dias, lamentos foram proferidos pelas vidas perdidas. Entretanto, o luto causado pela morte logo foi convertido em cânticos de vitória, pois, mais uma vez, o reino havia resistido ao inimigo. E mesmo o clima seco, ocasionado pelo fim do verão, não impediu com que uma grande comemoração fosse perpetrada.
Em meio a esta celebração, Thranduil fitava cada um dos presentes com seu típico olhar impassível. Suas mãos cruzadas em frente ao rosto lhe davam uma áurea sombria e apática, mas, em seu íntimo, o soberano estava imensamente feliz.
— Você está silencioso. — a elfa a seu lado se pronunciou após beber o vinho em seu cálice. — Algo o perturba?
Thranduil a fitou.
— Há anões demais aqui. — ele respondeu em um tom duvidoso, referindo-se ao grande tumulto em um dos cantos do magnífico recinto.
Bofur cantava uma de suas costumeiras canções e Bombur mastigava insatisfeito a comida servida pelas servas, por se tratar apenas de frutas e folhas. Já Ori e Nori sorriam alegremente enquanto Dwalin debatia algum assunto com Óin em um volume extremamente elevado.
Luna revirou os olhos e sorriu.
— Não seja tão intolerante. — ela o repreendeu em um sussurro. — Eles estão apenas se divertindo.
O rei redirecionou sua atenção após sentir alguém se aproximar de seu assento imperioso, e assim ele se levantou para receber seu convidado de honra. De longe, em uma mesa mais reservada, Mithrandir fitava a cena com um sorriso contido. Já Luna, que se encontrava próxima do soberano, bebia seu vinho com um olhar de divertimento explícito.
Os dois monarcas se coloraram frente a frente, com a postura evidenciando sua exímia majestade.
Dáin estava com uma expressão dura e inabalável, o que apenas um legítimo herdeiro de Dúrin poderia exibir com tamanha precisão. O martelo posto a seu lado, junto com a pelagem branca que o cobria, o davam um ar de nobreza incontestável, apesar de suas características austeras. E a coroa sobre sua cabeça, sendo o maior símbolo de seu poder, reafirmava sua magnificência.
Thranduil, por sua vez, trajava uma túnica de um cróceo fosco, esta que havia sido milimetricamente bordada com fios de ouro e enfeitada com detalhes que relembravam os poderosos carvalhos — o que era cabível ao senhor da Floresta das Trevas. O semblante dele era frio e com resquícios de uma arrogância ofensiva, contudo, o que elevava o espírito de Thranduil naquele momento estava muito distante de qualquer capricho de seu ego.
— Dáin II Pé de Ferro, Rei Sob a Montanha. — o elfo iniciou com seu típico olhar impassível. — Diante do meu povo, diante dos senhores de Lothlórien e de todos os seus corajosos soldados, eu, Thranduil Oropherion, rei da Floresta das Trevas, o saúdo. — ele se voltou para os demais. — Os seus guerreiros lutaram bravamente ao lado dos meus e, com minha própria vida nesta conta, protegeram-nos nas mais diversas situações. A nossa vitória foi garantida pelos vossos machados, e isto jamais será esquecido pelos elfos silvestres ou por qualquer reino élfico na Terra Média.
Balin era o único anão que sorria de forma exultante, pois, todos os outros assistiam aquela cena com uma atenção exagerada e com expressões que não podiam ser descritas. Era, explicitamente, algo inusitado e inesperado. Ver um lorde élfico — sobretudo Thranduil — saudando um anão de maneira tão honrosa era uma situação infinitamente incomum.
Dáin ouvia tudo com uma satisfação extraordinária. Ele queria ter seu primo Thorin vivo para que este visse o grande e orgulhoso rei Thranduil agradecê-los pela ajuda prestada. Contudo, o ruivo não podia negar que um sentimento atípico de harmonia para com o soberano à sua frente havia tomado seu coração, fazendo-o vê-lo não mais como um rival e sim como um verdadeiro nobre.
Thranduil tomou seu cálice em mãos e, com elegância, o ergueu para exclamar:
— Vida longa à linhagem de Dúrin!
— Vida longa a linhagem de Dúrin! — todos os convidados repetiram o gesto e então uma salva de palmas preencheu o magnífico salão.
Dáin fechou a mão direita em um punho e a levou de encontro ao peito, denotando o sentimento pacífico e respeitoso que agora existia entre ambos os reis. Após aquilo, ele inclinou a cabeça na direção de Luna, que se encontrava sentada um pouco atrás, e deu as costas aos dois.
Todos voltaram a comemorar e as atenções foram rapidamente desviadas, assim Thranduil arrastou sua túnica e tornou a se sentar.
— E então, doeu? — Luna o provocou.
Ele estreitou os olhos e a fitou com um ar irritado.
— Calada.
Apesar da evidente discrição da parte de ambos, os laços que uniam o soberano da Floresta das Trevas a sua chefe da guarda já eram de conhecimento público, principalmente após a batalha. Contudo, ninguém ousava comentar.
— Vossa Majestade. — Legolas o saudou e se inclinou ligeiramente. — Luna. — ele repetiu o ato, e por esta foi prontamente correspondido. Mais atrás vinham Mithrandir e os senhores de Lothlórien, Celeborn e Galadriel.
Necessitando se reunir com a Ordem dos Líderes, a chefe da guarda disse duas ou três palavras, despedindo-se dos nobres, e então deixou o pequeno grupo.
Ela caminhou tranquilamente pelo salão — reencontrando amigos e cumprimentando conhecidos — e se dirigiu a um canto afastado, onde o som da música não era tão audível. Ali encontrou Elenor dialogando com Argon enquanto Lórien se limitava a observá-los. Lúthian, por sua vez, parecia um espectro com sua total apatia e indiferença.
Luna paralisou por um instante, permitindo com que a lembrança de tempos passados voltasse à sua mente.
Nathrini e Elenor estariam debatendo sobre alguma estratégia de batalha ou algo relacionado à infantaria, já Lórien estaria trocando farpas com Annchir e Eruwen, como sempre, estaria a seu lado.
Aquela era uma visão turva e antiga, quase remota. Não passava de uma sombra pertencente ao passado, algo intocável e irrecuperável.
Na nova escalação, Argon e Lúthian substituíam respectivamente Nathrini e Annchir, e naquele momento eles esclareceriam o destino de Eruwen e decidiriam quem assumiria seu lugar entre os líderes do reino.
— Minha senhora. — um deles se pronunciou ao avistá-la, chamando-a de volta de seus pensamentos.
— Eu me reuni com Sua Majestade e já tenho a sentença de Eruwen. — a chefe da guarda iniciou sem cerimônias. — Sua vida será poupada, contudo, ele está condenado à eternidade nas celas inferiores. Jamais voltará a sentir o vento em seu rosto ou calor do sol sobre sua pele.
Um silêncio glacial se instalou entre os elfos e aquilo a incomodou grandemente. Todos a fitavam como se esperassem alguma coisa, algum protesto da parte dela. Por seu silêncio, eles compreenderam que Luna estava de acordo com aquela decisão.
— É pouco. — Lórien exclamou com seus olhos esverdeados impassíveis.
— Nosso rei foi misericordioso. — Elenor comentou ao fitá-la.
— Eruwen entregou Sua Majestade ao inimigo, ele traiu nosso reino enquanto era protegido pelas paredes deste palácio. — ela contrapôs sem qualquer alteração de sua postura, mas sua insatisfação era evidente. — O sangue de Nathrini não será vingado?
— Ele não morreu em vão, se é isso que você insinua. Nathrini se sacrificou e manteve seu juramento de proteger nosso rei, não há morte mais honrada do que esta. — interveio Argon. — Não somos assassinos, muito menos vingadores. Muito sangue já foi derramado, Lórien!
— O filho de Elöhin deve pagar pelo que fez. — foi a vez de Lúthian opinar. — Não somente pela vida de Nathrini, mas também por ter me enganado no ataque à Valle ao dizer que tudo acontecia por ordem de nosso soberano.
— Você não me pareceu contrariado em acatá-lo, fosse ou não uma ordem de nosso rei. — Argon retrucou. O rancor pelo outro elfo era visível em seus olhos. — E eu ainda me lembro das palavras que dirigiu a nossa senhora nesta tragédia. Sendo assim, não seja vitimista quando está muito longe de tal condição.
— O calor do momento! — Lúthian se defendeu ao se pôr de pé em um pulo. — E eu obedecia ordens!
— Meras desculpas! — desdenhou o outro, repetindo o movimento com a mesma velocidade e aspecto ameaçador.
— Chega! — a chefe da guarda decretou e, relutantes, ambos voltaram a se sentar. Ainda que sustentassem o olhar firme um sobre o outro, a experiência os relembrava que não era sábio desacatar Luna. — Dissensões nunca resolveram nada e eu não admito que aja mais guerra, não entre nós. O passado pertence ao passado. — ela fez uma pausa, erguendo o queixo para fitar cada um dos presentes no círculo de líderes. — Sem dúvida, Eruwen é merecedor de morte por suas ações. Porém, eu convenci Sua Majestade a não dá-lo esta pena.
— Mas, Luna! — Lórien protestou e ela apenas elevou a mão, refreando-a.
— Convenci o rei a não optar por esta sentença por não ser a favor de mais mortes, sejam elas merecidas ou não. Já houve muito derramamento de sangue entre os de nossa raça.
— De qualquer maneira, ele definhará e acabará escolhendo morrer por estar preso nas celas inferiores. — argumentou Lúthian. — Esta decisão é apenas o retardamento do inevitável.
— Sendo assim, que Eruwen definhe e morra. — Luna exclamou duramente. — Contudo, não haverá sangue dele em minhas mãos — ela olhou ao redor. — ou nas vossas.
Elenor e Argon apenas acenaram em concordância, já Lúthian torceu o lábio e assim voltou sua atenção para o vinho em seu cálice. Lórien suspirou, um tanto insatisfeita, mas acabou aceitando. Ela não contestaria as ordens de sua senhora, tampouco de seu rei.
— Mais algum comentário ou objeção? — a chefe da guarda indagou enquanto voltava a fitar cada uma deles. Ninguém se manifestou e ela apenas assentiu. — Sendo assim, damos o assunto por encerrado. Eu mesma informarei Eruwen de sua sentença.
Mais uma vez houve silêncio.
— Tem certeza? — Elenor questionou com um fundo de receio.
Todos compreendiam a dor que a elfa carregava, estar na presença do antigo amigo não seria uma tarefa fácil.
— Sim. — ela garantiu. — Com relação a quem irá substituí-lo, já chegaram a uma decisão?
— Merida é uma ótima aprendiz. — comentou Lórien.
— Ela é jovem e tola. — Lúthian contrapôs. — Aranir, filho dos jangadeiros, é mais preparado.
— Merida é corajosa, isso é tudo de que precisa. — Elenor exclamou ao descansar o cotovelo no braço do acento, passando a massagear seu maxilar tranquilamente.
— Eu devo concordar com Lúthian. — a voz de Argon foi ouvida e a contrariedade estava explícita em suas feições. — Aranir é mais preparado para ser colocado entre os líderes.
— Então, temos uma igualdade. — Lórien suspirou e direcionou suas íris para Luna. — O que nos diz, minha senhora?
A elfa não desejava escolher, pois não queria soar injusta com nenhum dos mencionados. Diante disso, ela apenas respirou fundo e se relembrou de um dos conselhos de seu falecido pai.
— Habilidades são ensinadas a qualquer um disposto a aprender, é o ato de observar e repetir. Todavia, coragem, determinação e força não podem ser ensinadas. São princípios que estão em nós, que nascem conosco e se tornam imutáveis. — Luna meneou a cabeça. — Habilidades podem ser sobrepujadas em batalha por um oponente mais forte e mais preparado. Entretanto, a coragem que cada um de nós carrega dentro de si nunca pode ser atingida ou superada. É inabalável e, dependendo de sua intensidade, invencível. — ela fitou a todos rapidamente e então decretou. — Sendo assim, eu escolho Merida.
.o0o.
Ele fitava os grãos de areia sobre o chão aonde estava sentado com uma atenção hilária. A pouca claridade, proveniente das tochas acesas, era o suficiente para lembrá-lo do sol que ardia sobre o mundo fora daquela prisão, apesar de não se comparar em nada com seu calor e beleza.
O elfo ouviu o som de alguém descendo as escadas e não demorou muito para que um corpo se colocasse diante da entrada de sua cela.
— Confortável? — Luna indagou com uma frieza cortante.
— Ironia nunca foi o seu forte, minha querida. — Eruwen retrucou com um meio sorriso.
Após dias de preparação, a elfa finalmente pôde observar a imagem decaída do antigo amigo. Seus fios de ouro estavam desalinhados e suas vestes sujas evidenciavam sua miséria. Ele agora era um ser muito diferente do soldado belo e altivo que ela havia conhecido.
— Espero que esteja satisfeito com sua condição atual. — o elfo torceu o nariz para aquela frase.
— À parte o seu explícito sarcasmo, posso dizer que poderia estar em condições piores. — Eruwen olhou o recinto enquanto mantinha seu divertimento. — Não estou totalmente insatisfeito. Tranquilo, até.
— Para alguém que sonhava em conhecer novos horizontes, este lugar minúsculo e desconfortável não me parece tão atraente.
— O que você quer, Luna? — seus olhos cor de mel a observavam com atenção. — Não é como se fizesse alguma diferença, estou certo?
— Passar a eternidade trancafiado não faz diferença para você, Eruwen? — ela indagou. — Está verdadeiramente mudado.
— Me ajude a sair daqui. — ele usou sua agilidade para se colocar de pé e se aproximar da entrada com rapidez, rodeando as grades com suas mãos e grudando o rosto às mesmas. Luna se afastou no instante seguinte, igualmente ligeira. — Eu sei que consegue fazer isso.
— Você é inacreditável. — ela riu com sarcasmo. — Está onde merece estar e se dê por satisfeito. Deixá-lo mofar dentro deste recinto é um ato de misericórdia da parte do rei, pois, o seu castigo deveria ser a morte por trair o seu reino.
— Como Annchir? — Eruwen contrapôs ao erguer uma de suas sobrancelhas. — Eu soube do que aconteceu.
Os olhos azulados dela o fitaram com raiva e desgosto.
— Não ouse mencionar o nome do meu irmão. — Luna ameaçou enquanto erguia o dedo indicador na direção do elfo. Ela esperou um segundo e então se recompôs. — Vim apenas para informá-lo de sua sentença e espero que esteja, ao menos, agradecido.
Ela lhe deu as costas e colocou um dos pés no primeiro degrau da escadaria, pronta para partir.
— Você voltará aqui?
— Não é de minha vontade voltar a vê-lo. — a rispidez em sua voz tornava a exclamação cortante. — Nunca mais.
— Eu a amo, Luna. — Eruwen exclamou em uma última tentativa. — Tudo o que fiz foi por este amor. Desde o princípio, quando você mal olhava para mim, tudo o que sempre quis foi o seu amor.
— Não, você não me ama. Seja lá o que isso for, não é o que diz. — cada palavra dela era como uma estaca impiedosa. — Eu já conheço o amor, Eruwen, o verdadeiro. Por favor, pare de enganar a si mesmo. — outra vez ela quis se retirar, mas ele a deteve com suas palavras.
— Ainda sou o seu melhor amigo.
— Você não tem mais a minha amizade. — Luna o fitou por cima do ombro, deixando em explícito que nenhuma de suas palavras poderia mantê-la ali por mais tempo. — Adeus.
A elfa continuou seu caminho rumo ao topo da escadaria e logo avistou um dos carcereiros. Ela passou pelo mesmo no momento em que a última exclamação de Eruwen alcançou seus ouvidos:
— Se não pretende me visitar, então, envie-me livros! Muitos! Precisarei deles para ocupar a mente… — ele ironizou em alto e bom som, fazendo com que sua voz ecoasse por entre as paredes rochosas.
Luna tentou sentir pena do antigo amigo, infelizmente, a única coisa que conseguia nutrir pela figura de Eruwen era desprezo e indiferença. Talvez um dia ela o perdoasse, mas nunca poderia esquecer.
Após respirar fundo, a elfa apenas aprumou a postura e continuou seu caminho. Era a última vez que se dirigia até aquele lugar, visto que não havia mais nada que a interessasse ali.
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— Você sabe que não me agrado dos seus sumiços — Luna ouviu a voz de Thranduil e ele logo tomou lugar a seu lado, passando a observar a lua junto consigo. — todavia, admito que aqui está consideravelmente agradável.
— Achei que estivesse ocupado com seus afazeres e não quis perturbá-lo.
— Isto não importa agora. — ele a fitou de esguelha. — Soube que visitou Eruwen.
A elfa suspirou.
— Fui apenas comunicá-lo sobre sua decisão com relação ao destino dado a ele. — ela esclareceu.
— Outros poderiam tê-lo feito.
A chefe da guarda arqueou uma das sobrancelhas e sorriu abertamente.
— Eu poderia reprová-lo pelo seu autoritarismo se não soubesse que ele é fruto de seu despeito amoroso. — suas íris azuladas brilhavam em um desafio descarado.
Thranduil também sorriu.
— E eu poderia reprová-la por sua presunção se não soubesse que essa é apenas uma maneira de amaciar o seu ego gigantesco. — ele retrucou ao se movimentar rapidamente, enlaçando a cintura da elfa e a trazendo para perto de si.
Luna não desfez o sorriso e logo sentiu a respiração do loiro ir de encontro à sua. Por um instante, ela dividiu seu olhar entre os lábios e os olhos dele, perguntando a si mesma se o oceano era tão profundo quanto o azul das íris de Thranduil.
Ela ergueu uma das mãos para tocá-lo no rosto e, no mesmo momento, ele fechou os olhos para aproveitar sua preciosa carícia.
— Fizemos tudo da maneira errada…
— Discordo. — ela afirmou enquanto o rei voltava a encará-la. — Creio que fizemos o certo, sim, com toques da nossa maneira errada. — Thranduil franziu o cenho, confuso. — O amor nunca deve ser considerado torto, nem os meios usados para descobri-lo. Um sentimento tão puro como este nunca deve ser relacionado a tal palavra.
— Eu apenas não queria tê-la desonrado… — ele parou quando Luna meneou a cabeça em negativo.
— Não, não estrague tudo. — ela ralhou enquanto sua face assumia traços de irritação. — Já resolvemos isso, já resolvemos tudo isso.
Luna fez menção em se livrar dos braços que a rodeavam, porém, Thranduil a impediu de se afastar quando a segurou com mais firmeza.
— Refreie a sua tolice e me escute. — ele exclamou sem qualquer alteração em seu tom de voz. Ela ainda o fitava com os olhos cerrados, mas se aquietou para ouvir o que o loiro tinha a lhe dizer. — Em outros tempos eu a teria cortejado até ter o seu amor. Trocaríamos anéis e a faria minha noiva, esperando apenas o tempo necessário para poder tomá-la como esposa. — o olhar de Luna já não era ameaçador. — Diríamos palavras um ao outro, palavras vindas de nossos corações, e O Único nos abençoaria. Eu a daria uma aliança e você a mim, como símbolo de nossa união. — Thranduil esboçou um sorriso entristecido. — Contudo, esta possibilidade agora está distante. Eu gostaria de tê-la dado a chance de ter esta experiência.
— Você fala como se eu não fosse grata por tudo que passamos da forma que passamos. — ela sorriu gentilmente. — Se não fosse assim, nossos caminhos teriam findado em um único segmento? Você acredita mesmo nesta possibilidade? Veja, nós dois estamos aqui, rodeados por esse amor estapafúrdio, e eu não poderia desejar algo melhor! — sua serenidade tranquilizava o coração do elfo à sua frente.
— Eu não vou abrir mão de você, mas não mancharei o seu nome.
— Não me importo que falem. — a elfa respondeu quando finalmente conseguiu compreender o que ele dizia.
— Eu me importo. — a voz de Thranduil soava rígida. — Não perdoarei que digam algo sobre você, seja lá o que for, porém, não posso culpá-los quando tudo o que fazemos não se enquadra aos padrões exigidos.
— Padrões? — Luna franziu o cenho. — Nunca seguimos nenhum tipo de padrão, sequer conhecemos esta palavra. Você sabe que o convencional não se enquadra a nós. — ela estava perturbada. — Por que este pensamento agora?
Ele havia desistido e procurava uma desculpa para se desfazer de tudo? Dos dois?
O loiro a fitou por alguns minutos, sentindo-a se remexer em seus braços enquanto bufava incessantemente. Não era difícil imaginar os pensamentos que povoavam a mente de Luna, pois, ela sempre lhe seria como um livro aberto.
— Seja minha rainha. — Thranduil a viu paralisar no mesmo instante, estupefata. Cada mão repousava em um dos braços do elfo enquanto este segurava seu corpo com um leve divertimento.
— O quê?
— Seja minha rainha! — ele exclamou, se possível, ainda mais convicto.
— Elfos se casam apenas uma vez. — ela o relembrou e assumiu uma áurea triste pelo fato.
— Pensei que não fôssemos convencionais. — Thranduil comentou com sarcasmo e a fez sorrir abertamente. — Ademais, há coisas que você não conhece sobre os estatutos da nossa raça.
Eles permaneceram com os olhos fixos um no outro e, de súbito, Luna recostou seus lábios aos dele, sendo prontamente correspondida. O loiro havia compreendido seu ato e nada mais foi necessário, afinal, o que ela poderia responder? Sim? Não havia necessidade. Palavras sempre foram insuficientes em meio a todo o envolvimento do rei e sua chefe da guarda, e eles também nunca foram muito bons com elas.
Imperante no firmamento negro e rodeada pelas estrelas que embelezam a imensidão que os cobria, a lua seria para sempre a testemunha daquele momento. Como fora quando se beijaram pela primeira vez, como fora quando se amaram pela primeira vez.
Isil era, e seria eternamente, o símbolo do amor dos dois.
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