I See You
38 Capítulo 38
Notas iniciais
O vento soprava suavemente, e, ainda assim, conseguia levantar as folhas secas do outono.
Do lado de dentro, os corredores do palácio se encontravam tristes e vazios, peculiarmente evidenciados pelas belas tapeçarias reais, e o mínimo som ecoaria como um estrondo. No local da armaria, arcos e flechas douradas descansavam ao lado de espadas e escudos milimetricamente trabalhados. Cada utensílio devidamente enfileirado e guardado, o que denotava sua inutilidade em tempos de paz.
Não havia movimento, absolutamente nada. O silêncio era gritante e também a única coisa que preenchia o interior do palácio da Floresta das Trevas.
Mas, ao contrário da parte interna daquela magnífica morada, o lado de fora iluminava ao refletir a luz do sol — que logo se deitaria no horizonte. O pátio, antes abandonado, agora ganhava um ar alegre e festivo, e tecidos esbranquiçados desciam por colunas esculpidas na rocha para darem mais leveza e tranquilidade ao local.
Tudo irradiava felicidade enquanto todos fitavam admirados as figuras principais naquela visão, que mais parecia uma obra de arte desenhada pelo próprio Eru Ilúvatar.
Os fios loiros contrastavam com os negros no momento em que ambos os elfos, postos frente a frente, proferiam as palavras que consolidariam aquela união.
— Eu trilhei, por quase quinhentos anos, um caminho triste e obscuro. Então, como a lua se ergue e rompe as sombras da noite, você surgiu e trouxe luz para o meu coração. — a voz firme do rei preencheu o ambiente e sobrepujou o som das flautas ao fundo. Uma serva se aproximou com uma pequena almofada, esta que fora costurada num veludo carmim, onde duas alianças descansavam. Thranduil tomou em mãos um dos círculos prateados e o colocou no dedo indicador de Luna. — Que este sentimento belo e genuíno perdure pelo tempo que nos resta; a eternidade.
Ela o fitou com emoção quando o loiro capturou sua mão e se curvou levemente para depositar um beijo cálido sobre o pequeno objeto, sem desviar seu olhar do dela.
Mithrandir e Legolas se entreolharam com um meio sorriso enquanto o mago apertava seu cajado entre os dedos, visivelmente contente com o desfecho de toda aquela história.
Seus cabelos esbranquiçados estavam levemente desalinhados e suas vestes cinzentas eram salientadas pela sujeira de alguma missão a que se sujeitara, ainda assim, Luna sorriu agradecida por sua presença, que era deveras importante para ela. Já o príncipe trajava vestes nobres, junto à singela coroa de ouro. Por dentro ele estava imensamente extasiado pela felicidade de seu pai, mesmo que por fora sua expressão fosse contida.
Os outros convidados permaneciam atentos e alegres.
Luna havia solicitado a presença de seus amigos anões e até a dos homens célebres de Valle como Bëor, Dior e Húrin. Ela também pediu que Argon convidasse o arqueiro e sua família, pois, Bard lhe fazia falta e a elfa não queria, de forma alguma, perder sua amizade.
Thranduil não objetou contra nenhuma daquelas decisões, apesar de sua antipatia para com o último ponto. Se aquele era o desejo de Luna, ele não lhe negaria.
A elfa capturou a segunda aliança e a colocou no dedo indicador de Thranduil.
— As Eras do mundo passam diante de nossos olhos como as folhas secas do outono. — o rosto dela irradiava uma felicidade inigualável. — Então, mesmo quando os tempos difíceis chegarem a nós e até quando tudo que conhecemos se perder… aconteça o que acontecer, este sentimento jamais acabará!
Thranduil sorriu.
— Que Eru Ilúvatar, nosso Criador, abençoe esta união para todo o sempre. — o rei finalizou.
Outra serva se aproximou e, assim como a primeira, ela carregava uma pequena e bem costurada almofada. Capturando todas as atenções, a coroa prateada com entalhes de folhas minuciosamente trabalhados descansava na superfície acolchoada. Sua parte frontal fechava em um triângulo invertido, e este dava lugar a uma singela safira — tão escura quanto o céu noturno — em sua ponta.
Muito diferente da coroa do rei.
Thranduil desejava refletir a personalidade de Luna em seu símbolo de poder. A prata, como insígnia da força e perseverança, adornava a beleza de sua rainha e exteriorizava a nobreza de seu espírito. E a safira, como a joia da sabedoria e serenidade, representava a preciosidade que ela era… a sua preciosidade.
O loiro tomou o objeto delicado e majestoso em mãos e o dirigiu à elfa, que se inclinou para que ele colocasse a coroa em sua cabeça.
Após endireitar a postura, Luna sorriu abertamente e Thranduil ergueu a mão em sua direção. Ela aceitou aquele convite e o elfo fechou o aperto entre seus dedos, dirigindo-os calmamente para a frente da multidão que os assistia. Então, após poucos segundos de silêncio e expectativa, o ambiente foi preenchido por uma salva de palmas que saudavam o rei e a rainha da Floresta das Trevas.
Pétalas de rosas brancas eram jogadas do alto por crianças élficas, que o faziam animadas e sorridentes, e o vento as sustentava no ar até que caíssem de maneira suave por cima dos convidados — que se inclinavam respeitosamente para os senhores do reino.
Thranduil voltou a se movimentar e, dessa vez, os levou para um corredor de súditos que terminava em dois grandes acentos previamente preparados e tão imponentes quanto seus donos. O primeiro era de proporções maiores e intimidantes, feito de carvalho e adornado com folhas que mais pareciam um complemento à coroa de Thranduil; o assento do rei. O segundo também era de carvalho, porém, visivelmente mais delicado e trabalhado; o da rainha.
Todas as atenções estavam sobre os dois quando eles se sentaram em seus respectivos lugares. Após devidamente acomodado, o rei apoiou o cotovelo em um dos braços do assento enquanto sua mão ainda segurava a de Luna.
— Celebrem! — ele exclamou calmamente e então o povo iniciou a comemoração.
Servas passaram a caminhar por entre os convidados, com bandejas feitas de prata e cheias dos mais variados tipos de fruta, ao mesmo tempo em que barris enchiam os cálices ávidos pelo famoso e precioso vinho da adega de Thranduil.
Luna observava as pétalas que ainda caíam calidamente e contrastavam com a luz do sol, este que já alcançava o laranja e se mesclava ao vermelho, ambos se misturando às nuvens como se houvessem sido agitados ou simplesmente como se estivessem concretizando seu desejo de se tornarem apenas um no firmamento.
Os olhos dela brilharam como estrelas com aquela imagem.
— Está feliz? — seu esposo indagou enquanto a fitava.
— É direito meu fazer esta pergunta… — Luna se voltou para ele, avaliando a profundidade de seu olhar. — está feliz?
A questão da elfa não se limitava ao estado de espírito de Thranduil naquele momento, ela também servia de espaço para uma pergunta subliminar, no que dizia respeito ao verdadeiro estado de seu coração. Uma leve neblina de incerteza pairava sobre a mente de Luna há dias, e esta gostaria de saber se o rei não sofria mais com a perda de sua última e tão amada esposa ou se ela havia falhado em libertá-lo de sua dor.
Antes que Thranduil pudesse lhe responder, ambos sentiram uma presença se aproximar do local onde se encontravam.
— É muito tarde para dar as minhas felicitações? — os cabelos de um ruivo profundo e chamativo logo se revelaram junto aos habituais trajes de guerreira, e seu rosto sereno era emoldurado por um sorriso sublime.
Luna se levantou no mesmo instante para receber sua antecessora na chefia da guarda real enquanto Thranduil permanecia em seu lugar; inalterado e indisposto a se pôr de pé para qualquer tipo de convenção receptiva.
— Tauriel! — a rainha exclamou alegremente.
— Minha senhora! — a elfa curvou a cabeça e a outra torceu o nariz, desaprovando toda aquela formalidade.
— Não tivemos notícias suas durante todo este tempo — Luna comentou em tom de preocupação. — por onde esteve?
Tauriel suspirou.
— Viajei por tantas estradas e para tantos lugares que seria enfadonho para você me ouvir narr… — ela foi interrompida.
— Concordo plenamente. — o rei se pronunciou e assim capturou ambas as atenções. Era possível perceber os resquícios de rispidez sob seu tom inalterado.
As elfas se entreolharam e Luna valeu-se do último conselho que a própria Tauriel a dera antes dela assumir a guarda real:
Seja paciente com o nosso rei.
— Vossa Majestade. — a ruiva se dirigiu ao soberano em um tom decoroso.
— Então, pretende ficar? — a rainha apressou-se em indagar quando seu esposo fez menção em dizer alguma coisa negativa para a outra elfa.
Thranduil cerrou os olhos no mesmo momento, visivelmente insatisfeito com aquela intromissão, e Tauriel prendeu uma risada pela cena.
— Apenas durante a celebração, afinal, eu não poderia deixar de comparecer! — ela foi gentil.
— Sabe que pode voltar a hora que desejar… — a voz macia de Luna denotava o convite sob sua exclamação.
Tauriel assentiu suavemente, tentada em aceitá-lo. Porém, seu coração era sincero quando lhe dizia que a Floresta das Trevas não era mais o seu lar.
Pelo brilho vacilante dos olhos esverdeados que a fitavam, a rainha compreendeu aquele dilema sem qualquer explicação adicional. Diante disso, ela apenas ergueu uma das mãos e capturou a da elfa, dizendo, naquele ato silencioso, que estava tudo bem.
— Vendo a felicidade transbordar de cada lacuna deste reino, eu devo dizer que foi mais do que sábia a decisão de colocá-la como chefe da guarda. — a ruiva comentou com divertimento.
Luna corou e não conseguiu evitar uma leve risada. Até mesmo Thranduil, que se ocupava em observar qualquer coisa ao lado, sorriu com o comentário, mesmo que de maneira imperceptível.
— Foi bom rever a todos, mas, eu preciso ir. — Tauriel falou em tom de despedida. — Estou a caminho de minha última viajem. — a rainha franziu o cenho, confusa. — Vou para as Terras Imortais.
A expressão de Luna se transformou em pura felicidade no mesmo momento.
— Então, não devo me preocupar. — ela exclamou enquanto apertava a mão que ainda estava entre a sua. — Que a luz de Aman leve para longe as dores do seu coração!
— Obrigado, Vossa Majestade! — Tauriel agradeceu e foi extremamente difícil conter a emoção em sua voz. Elas trocaram mais algumas palavras e, minutos depois, a antiga chefe da guarda caminhou para longe dos dois nobres.
Com o cálice entre os dedos, Thranduil se pôs de pé e colocou-se ao lado de sua esposa.
— Não deveria ser tão ríspido com ela.
— Me convenci de que tratá-la desta maneira esclarecia de modo indireto a minha desaprovação a uma possível união entre ela e Legolas. — o elfo bebeu tranquilamente de seu vinho antes de continuar. — Não preciso dizer o quanto isto soa irônico agora.
— Se carrega esta culpa deveria, no mínimo, ser cortês. — Luna contrapôs com a sobrancelha erguida. — Ela ainda sofre…
— E sofrerá eternamente enquanto não se convencer de que a dor, apesar de inevitável, pode sim ser superada. — a mera frase os levou de volta à antiga questão.
Aquilo deveria servir de resposta à sua pergunta inicial, mas, Luna ainda não se sentia segura o suficiente para abandonar a súbita dúvida que a tomara. Não sabendo o que responder, ela sentiu-se infinitamente aliviada quando avistou um grupo conhecido de anões.
— Vou cumprimentá-los!
Thranduil tratou de seguir seu olhar e ainda fez menção em protestar sobre aquela decisão, contudo, ele viu sua fala estagnar na garganta ao notar que Luna já estava distante. Após um suspiro profundo, o elfo se deu conta de que algo perturbava sua rainha, e nada pôde deixá-lo mais intrigado em meio a toda celebração.
— Minha dama! — Balin foi o primeiro a saudá-la e todos os outros se curvaram em uma respeitosa mesura, a qual ela gentilmente retribuiu. — Está tão bela quanto as joias mais lindas de nossa vasta coleção na montanha!
Luna fez menção em agradecer o elogio, mas Glóin foi mais rápido:
— Se antes já reclamávamos da arrogância desse rei, imagino como ele vai agir agora que tem uma rainha… — desdenhou.
— Com certeza não irá deixá-la nos visitar. — ponderou Dori, estando do outro lado do círculo.
— Duvido muito. — garantiu Dwalin. — Luna jamais aceitaria tais ordens vindas daquele patife!
— Irmão! — Balin o repreendeu e a elfa sorriu com divertimento.
— Sim, sim, Dwalin… mas, ela também terá muitas responsabilidades. Não haverá tanto tempo para isso. — interveio Nori.
— Como cozinhar! — sugeriu Bombur, massageando a barriga enquanto observava as elfas passearem com as bandejas abastecidas de frutas.
— Tsc, e as servas? Ela deve cantar, isso sim! — exclamou Bofur ao bater de leve no ombro do irmão.
— E também ter muitos filhos! — completou Óin com uma expressão séria e avaliativa, como se exclamasse o óbvio para a situação.
— Eles são elfos, têm poucos filhos! — Ori o corrigiu e, por sua áurea dócil, baixou os olhos no instante em que recebeu um olhar ameaçador do mais velho.
— Eu agradeço as felicitações… — Luna tratou de intervir. — Thranduil também está muito contente com a presença de todos vocês!
— Não precisa tentar nos agradar. — Dwalin tomou a palavra ao dar de ombros. — Você não, mas aquele elfo arrogante nos chutaria daqui se pudesse.
— Ele vai começar. — Bofur sussurrou para Bombur e ambos reviraram os olhos.
— Por Mahal, eu ainda não acredito que você se casou com ele… — o capitão dizia para quem desejasse, ou não, escutá-lo. Gritos e gargalhadas eram ouvidos por parte de seus companheiros que, vez ou outra, opinavam sobre suas exclamações com comentários hilários.
O irmão de Balin, indiscutivelmente, detestava o rei da Floresta das Trevas.
Luna sorria alegremente, estando contagiada pela atmosfera festiva que os cercava, quando virou o rosto para observar os outros convidados e admirar o salão. Nesse momento, seus olhos acabaram caindo sobre Tilda, e a menina também a viu. Ela acenou freneticamente, contudo, a rainha sequer teve tempo de retribuir pois uma mão repousou sobre o ombro da pequena e esta se aquietou. A elfa ergueu os olhos e viu que se tratava do arqueiro, que ainda a fitou por alguns instantes — como se estivesse se decidindo — antes de passar a caminhar em sua direção.
Após perceberem o que acontecia, os anões se entreolharam rapidamente e nada mais foi necessário. Eles lhe dirigiram palavras sinceras de felicitações e, então, com a maior das discrições, dispersaram de sua presença.
Apenas alguns minutos se passaram e, após atravessar a espessa multidão, Bard se pôs diante da figura majestosa da senhora da Floresta das Trevas.
— Eu deveria me inclinar? — o arqueiro indagou com uma diversão contida. Ele olhou em volta e retornou sua atenção para ela, com um sorriso nos lábios. — Acho que deveria.
Luna deu uma risada e acenou em negativo.
— Não, não deve. — ela o respondeu calmamente. — Nunca!
De seus olhos transbordavam tantas emoções que Bard não encontrou palavras para preencher o momento, então, apenas deu de ombros. Sua áurea suave e harmoniosa mantinha-se intacta.
— Eu estou feliz por você, Luna. — ele declarou com sinceridade. — Nada me dá mais alegria do que saber que ficará bem.
— Ah, Bard… eu o desejo a mesma felicidade! — ela proferiu com tanta ternura que quase o fez falhar em prender o bolo que crescia em sua garganta.
— Eu já sou! — ele dirigiu os olhos para um ponto longe dos dois, onde seus filhos se encontravam. — Eles são a minha maior felicidade! — exclamou e então se voltou para Luna, que o fitava com os olhos marejados.
— Eu jamais poderei retribuir o que você fez por mim. A sua amizade é muito importante para o meu coração…
— Não precisa me dizer, eu sei. — o homem sorria calmamente. Ele desejava lhe falar tantas coisas, mas, palavras eram insuficientes para expressar o que se passava dentro de seu peito naquele momento. — Obrigado por me dar esperança!
— Bard… — a elfa foi cortada por uma inesperada vontade de chorar e o lorde a abraçou no mesmo instante, tentando acalmá-la.
— Ah, não chore, Luna! — ele pediu em um sussurro, também segurando as lágrimas. — Você sabe que eu sempre apreciei o seu sorriso. — ao acariciar os cabelos dela com ternura, estes que agora eram emoldurados pela belíssima coroa de prata, o arqueiro se permitiu derramar uma única lágrima. A paz que os rodeou naquele momento fez com que ambos desejassem permanecer assim por mais tempo, contudo, outros não entenderiam as particularidades daquela amizade. Por conta disso, ele se afastou. — É melhor eu ir — disse ao erguer os olhos para um ponto atrás da rainha. — há um certo rei élfico que, pela expressão, não me parece muito satisfeito com a nossa conversa.
— Ele sobreviverá! — Luna retrucou com divertimento, fazendo-o rir levemente. Após segundos de um silêncio confortável, e contrariando o pedido feito pela rainha no início daquele diálogo, o arqueiro se inclinou em uma reverência. — Bard! — ela o repreendeu com ares de alegria.
Ele retribuiu seu sorriso.
— Até mais, Luna! — sua despedida dizia implicitamente que a amizade dos dois permanecia intacta, e a elfa não poderia ter ficado mais feliz. Tudo estava completo.
— Até mais, Bard! — ela respondeu enquanto o assistia sumir por entre a multidão.
Por um segundo, a rainha se permitiu mergulhar no mar de seus pensamentos ao mesmo tempo em que ouvia o som da música suave, das vozes alegres, das risadas. Aquilo penetrou fundo em sua alma e se transformou em uma felicidade transbordante, relembrando-a de suas últimas ponderações:
Sim, estava tudo completo!
.o0o.
A luz da lua entrava pela varanda e atravessava as cortinas brancas quando a elfa dirigiu os olhos para a mesa de mogno, onde sua coroa repousava, e então redirecionou a atenção para o próprio reflexo no espelho.
Rainha!
Uma nomeação que ia muito além de qualquer desejo íntimo de conquista. Ela nunca cobiçara tal título e teria vivido todas as Eras do mundo ao lado de Thranduil apenas como sua chefe da guarda, sem jamais desvanecer de seu amor.
Tê-lo já era o bastante.
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