I See You
24 Capítulo 24
Notas iniciais
— Onde ela está? — o elfo indagou assim que repousou suas íris esverdeadas sobre Eruwen.
— Seus Orcs a levaram assim que chegamos ao portão norte, disseram-me que você os ordenou. — ele tinha um olhar raivoso. — Não foi este o nosso acordo, Annchir. Você disse que me daria Luna se eu lhe garantisse Thranduil.
O outro ergueu uma de suas sobrancelhas.
— Está duvidando de minha promessa?
— Depois de tudo o que fez, como acha que eu me sentiria? — Eruwen estreitou os olhos.
— Por favor, poupe-me da sua hipocrisia. Quer mesmo levar a nossa conversa para o tema “traição”?
— Jamais quis destruir a Floresta das Trevas! — o outro elfo retrucou em sua própria defesa.
— Isso não faz seus atos serem menos graves, faz? — Annchir se levantou lentamente e fez com que o som do encontro de suas botas com o piso de mármore ecoasse pelo recinto. — Você acha mesmo que ela o odiará menos por isso?
Eruwen engoliu em seco.
— Com o tempo ela aprenderá a me amar, independente de minhas ações. — ele argumentou ao se colocar de costas, sentindo-se incapaz de fitar as pedras de jade que o observavam com tanta atenção. — Os fins justificam os meios.
— Tem tanta certeza disso? — Annchir voltou a questionar e sua voz profunda invadiu os ouvidos do outro elfo de modo ameaçador.
— Tenho. — Eruwen o respondeu e quase vacilou, ele ainda tentava convencer a si mesmo do que dizia.
Annchir soltou uma risada odiosa.
— Certo, certo. — ele deu de ombros e então se concentrou na visão das grandes fornalhas, lugar onde os Orcs trabalhavam em seus armamentos incessantemente. — Você a quer e a terá, porém, minha irmã ainda é de grande serventia para mim.
— Não ouse fazer mal a Luna! — Eruwen vociferou ao se voltar para o loiro.
— Vou ignorar o tom de ameaça em sua exclamação, meu caro. — Annchir sorriu de lado após lançá-lo um olhar jocoso. — Não farei mal algum a Luna, afinal, ela é a recompensa por sua ajuda e eu manterei a minha palavra. Mas, no momento, contente-se com o cargo de chefe da guarda real da Floresta das Trevas. É o que posso dá-lo por agora.
Eruwen sorriu enquanto contia o nervosismo, a áurea do ambiente o intimidava e Annchir conseguia assustá-lo ainda mais.
— Fico satisfeito. — ele engoliu em seco. O lugar era quente demais e também empoeirado, como se o próprio ar desejasse sufocá-lo até a morte. — O que devo fazer agora?
O outro ponderou alguns minutos.
— Volte para a Floresta das Trevas e mantenha o disfarce. Quando lhe questionarem sobre a ausência de Thranduil, diga que o rei decidiu ir ao encontro de seu filho para visitá-lo em sua missão. — Annchir pensou um pouco. — Acrescente que ele resolveu levar minha irmã consigo por um motivo que decidiu não lhe revelar, afinal, um rei não precisa justificar suas ações. — ele sorriu de lado. — Soa como algo que Thranduil faria.
— E quanto a Argon? O maldito notou que eu estava montado em Alcarinquë e provavelmente contará a Elenor quando o exército chegar ao reino, se é que já não chegaram, e você sabe que Lórien está desconfiada.
O irmão de Luna voltou a endurecer sua expressão, ele sempre detestara a guardiã das fronteiras.
— Se o questionarem, diga que o rei ordenou que você levasse o animal para Valle apenas para validar sua autoridade sobre o exército. Quando voltar para a Floresta das Trevas vá montado em seu cavalo, ele está amarrado perto do portão sul, lá embaixo. — Annchir se vangloriava internamente por ter decidido guardar a montaria. — Também diga que ele deixou o reino nas mãos de Elenor, já que é seu servo mais leal, e encarregou você de comandar a guarda no lugar de minha querida irmã.
— E o que vai fazer com Alcarinquë? — Eruwen questionou com desconfiança e Annchir deu de ombros.
— Há tempos os Orcs não provam a carne de um animal pertencente a realeza. — ele exclamou sem nenhum tipo de piedade. — Agora vá e cumpra o que ordenei. Se esforce e faça com que todos acreditem em tudo, entendeu bem? — o outro apenas curvou a cabeça lentamente. — E, Eruwen — Annchir fitou o elfo de esguelha. — eu tenho a sua lealdade?
Um minuto de silêncio se passou até que o outro respondesse:
— Não estou totalmente do lado de ninguém porque ninguém está totalmente do meu lado. — ele disse e então se retirou.
No caminho, Eruwen se deparou com Húrthak e este rosnou em sua direção ao passar por si.
— Mate-o enquanto ele ainda não representa uma ameaça. — o general exclamou após se colocar ao lado de Annchir.
— A inocência de Eruwen me diverte, e ele ainda me é útil. No entanto, se aproxima o dia em que poderei descartá-lo, então, não se preocupe. — ele respondeu indiferentemente.
— O exército está de prontidão e mais armas estão sendo forjadas, o que pretende fazer?
— Nosso mestre não necessita mais de reforço ao norte, como a conquista de Erebor representaria. Agora que tenho a Floresta das Trevas em mãos não há nada que impeça Lothlórien de ser invadida, já que esta faz fronteira com o reino de Thranduil. — o Orc o fitou com interesse. — Apenas precisamos isolar o ataque à floresta para que Lothlórien permaneça despreocupada. Sem esperar por qualquer ameaça vinda do reino de Thranduil e privados do apoio dos elfos silvestres, nós garantiremos a queda dos inimigos mais notáveis de nosso mestre; os senhores Celeborn e Galadriel, como planejado inicialmente.
— Você fala como se sua vitória estivesse garantida. — Húrthak retrucou zombeteiro. — Azog também superestimou a própria força e hoje está morto.
— Azog era apenas um verme, na verdade, todos vocês são. — Annchir se afastou dele para retornar a seu assento. — Eu tenho Thranduil aqui, preso em meu reino. E não estou superestimando minha força quando digo que ele não representa nenhuma ameaça, é apenas uma análise dos fatos. — exclamou arrogantemente. — A Floresta das Trevas é minha! — o loiro abriu os braços para evidenciar sua conquista.
— Você tem o rei e não o exército. — o cheiro pútrido do hálito de Húrthak impregnava o ambiente. — Esqueceu-se da aliança entre os dois reinos?
— O ataque à Valle destruiu qualquer tipo de laço de amizade entre elfos e anões e é por este motivo que Dáin não socorrerá a Floresta das Trevas quando nosso exército for invadi-la. E, de qualquer maneira, ele não teria tempo para prestar socorro nem que desejasse. — Annchir apoiou o queixo em uma de suas mãos. — Eu diminuí consideravelmente o contingente de Thranduil ao investir contra suas fronteiras, durante todo este tempo, e também após sequestrar e assassinar alguns dos elfos que estavam em Valle. Será tudo rápido e silencioso, e quando destruirmos aquele reino não haverá quem socorra ou impeça o ataque e conquista de Lothlórien. — ele fez uma pausa. — O plano perfeito.
— E os elfos presos? Aquela sua irmã deu bastante trabalho aos meus soldados. — o general proferiu na tentativa de abalar a áurea prepotente do loiro.
— Mas que grande novidade, troglodita como Luna é… — Annchir zombou ao pensar na elfa. — ela e Thranduil são meus convidados de honra, quero que eles assistam a destruição daquilo que mais amam! — ele sorriu de canto e então deu de ombros. — Façam o que quiserem com Nathrini, este não é necessário.
Húrthak sorriu e deixou seus dentes negros à mostra. Seu olhar profundo e mortífero evidenciava o total descaso que tinha para com a causa daquele a quem era subjugado.
— Certifique-se de que seu plano não falhará, filho de Eru. Nosso mestre não lhe dará outra chance.
O loiro o fitou com desdém.
— Seus avisos são insignificantes para mim, criatura grotesca! — seu tom de voz não poderia ter soado mais altivo. — Agora vá, deixe-me sozinho.
Húrthak gargalhou rapidamente, divertindo-se com o frágil temperamento do elfo diante de si. Sem qualquer vontade de prolongar sua presença naquele lugar, ele apenas deu de ombros e se retirou em silêncio.
Annchir respirou fundo e remexeu os ombros.
Não poderia hesitar naquele momento tão crucial e seu mestre não toleraria qualquer deslize. Metade do caminho fora trilhado e ele agora só precisava se fortalecer o suficiente para dominar a Floresta das Trevas e, por fim, Lothlórien. A grandeza e a glória o aguardavam, pois a conquista dos dois reinos faria com que seu senhor confiasse totalmente em si e também lhe garantiria o poder que ele tanto ansiava.
Estou quase lá.
E Luna, sim, sua doce e querida Luna, não escaparia de suas mãos impiedosas.
“Juro, por todos os nossos antepassados, que a destruirei e destruirei este reino. Nem mesmo que seja a última coisa que eu faça.”
Aquelas palavras ecoavam nas paredes de seu coração todos os dias e o davam força para seguir adiante. Sim, ele viveria para cumprir este juramento e nada o impediria.
Nada!
.o0o.
— SOLTEM-ME, CRIATURAS IMUNDAS! — ela se debatia ao ser arrastada brutalmente pelos Orcs em meio à pouca luz do corredor. — SOLTEM-ME! SOLTEM-ME!
A cada passo o caminho se tornava mais macabro e extremamente frio, fazendo com que a elfa pudesse enxergar o ar que saía de sua boca na forma de uma fumaça fina e esbranquiçada. Seus protestos intrépidos e incessantes resultaram em uma pancada que desorientou seus sentidos e, pela primeira vez, ela sentiu medo. Não da morte, mas sim da maldade contida em cada uma das criaturas malignas que a rodeavam.
Eles a fariam sofrer da pior forma imaginável antes de libertá-la daquela vida.
No momento em que Eruwen a deixara ser levada pelos monstros Luna soube que algo muito sério estava acontecendo. E, apesar de seus apelos, as costas de seu antigo amigo foram a última coisa que ela havia visto de alguém familiar. No entanto, dentre todas as questões que sondavam seus pensamentos, a única pergunta que gritava ensurdecedoramente em sua cabeça era; onde estaria Thranduil?
Sua linha de raciocínio foi cortada no momento em que seu corpo foi jogado dentro de uma cela fétida e imunda. A brutalidade do ato foi tanta que as mãos de Luna rasparam o chão e um pouco de seu sangue manchou suas vestes, o que a fez gemer de dor e frustração. Ainda que o incômodo agora revestisse seus braços, a elfa não desistiu e se levantou rapidamente, contudo, era tarde demais para qualquer fuga, pois a porta da cela já havia sido fechada.
Luna segurou as grades da entrada com firmeza e sentiu que poderia destruir as criaturas apenas com seu olhar ameaçador, mas estas apenas gargalharam de sua condição medíocre e logo se retiraram dali. Ela esmurrou os ferros — indiferente a dor que os ferimentos lhe causavam — e então rugiu enfurecida, amaldiçoando Eruwen em pensamento por tê-la trapaceado, por tê-la traído…
E ele está muito enganado se pensa que ficarei presa neste lugar.
Ela passou a procurar qualquer falha que a garantisse uma fuga, mas a tarefa se mostrou extremamente desafiadora. Uma tocha acessa revelava o extenso corredor do lado de fora de sua cela, e aquela era toda luz que a elfa conseguiu visualizar em metros.
Assim que as criaturas se afastaram o suficiente a ponto de não ouvirem suas tentativas de sair dali, Luna chutou a grade com força e por consequência teve seu corpo impulsionado para o lado contrário. Sentada sobre o chão arenoso ela suspirou e meneou a cabeça. Seria mais difícil do que havia imaginado, mas aquilo não era nenhum problema para seu espírito incansável.
— Vamos lá… — Luna murmurou ao se pôr de pé para voltar a chutar a grade com determinação, mas o resultado de sua segunda tentativa foi tão catastrófico quanto o primeiro e a elfa, mais uma vez, se viu jogada no chão. — não vou desistir, não vou desistir… — ela voltou a dizer, agora se levantando com dificuldade, enquanto se preparava para investir uma terceira vez contra as grades de ferro da entrada.
— Eu não faria isso se fosse você. — uma voz ecoou da cela ao lado da sua e o dono estava escondido no ponto onde a luz da tocha não o alcançava. Entretanto, não importando a escuridão, Luna sabia exatamente de quem se tratava. Ela reconheceria aquela voz até mesmo nos confins do mundo. — Como sempre, vejo que sua grosseria fala mais alto do que sua inteligência.
— Vossa Majestade? — ela indagou ao se aproximar da grade que separava as duas celas. Thranduil se revelou pacientemente e assim a elfa pôde ver que seus longos cabelos loiros estavam desalinhados e suas vestes douradas estavam escurecidas pela sujeira extrema do lugar.
— Por que nossos encontros acontecem sempre sob as piores circunstâncias? — ele fez uma pausa e então comentou: — Vejo que está diferente… — seus olhos a fitaram de cima a baixo e aquilo a fez corar. — contudo, assisti suas tentativas patéticas de sair daqui e posso dizer que você continua o mesmo ser estúpido e inconsequente de sempre.
— Estou emocionada com sua afirmação. — Luna retrucou de forma irônica. — Por que o senhor não continua falando enquanto eu finjo que o escuto? — ela deu as costas para o elfo e então voltou a se concentrar na entrada de sua cela, pensando em um jeito de abri-la.
Thranduil ergueu uma de suas sobrancelhas e depois apoiou os braços nas barras de metal que os separavam. Ele fitava cada movimento da elfa com atenção e também com um divertimento quase ofensivo.
— O que pretende fazer agora? Derrubar as grades com a força de seus pensamentos? — ele provocou e a elfa apenas revirou os olhos, indisposta a dá-lo o gosto de seu aborrecimento.
Nenhum dos dois falou por vários minutos depois daquilo e apenas o som das tentativas ineficazes de Luna em quebrar a fechadura preencheu o ambiente.
— Maldição… — ela murmurou após ter seu dedo prensado por parte do mecanismo que selava sua cela.
— Por mais impertinente que minha afirmação possa parecer, pelo menos neste momento tão inconveniente, não devo deixar de dizer que, em parte, isto tudo é culpa sua.
Luna se voltou para seu rei.
— Minha culpa? — em poucos segundos ela estava diante Thranduil, tendo apenas as barras de metal como separatória.
— Se tivesse me ouvido e retornado à Floresta das Trevas no momento em que enviei Elenor, provavelmente, nada disto estaria acontecendo. — ele disse calmamente e aquilo reascendeu toda raiva de Luna.
— O senhor enlouqueceu de vez? — ela questionou em um tom de voz elevado. — Como tem a audácia de me dirigir tal ofensa quando o senhor enviou um exército inteiro para aniquilar um povo inocente? — Thranduil franziu o cenho, confuso. — Talvez não devesse ser tão ávido em me atacar com suas palavras. Posso ser teimosa, inconsequente e ter um gênio difícil, como o senhor sempre diz, mas jamais seria capaz de agir de forma tão baixa quanto Vossa Majestade.
— Como sempre, você não sabe o que diz. Os seus julgamentos são baseados em meras suposições ou questões resolvidas erroneamente. — ele retrucou enquanto recostava o corpo nas barras de metal. — Não mudou nada.
— Se considera o meu julgamento precipitado, por favor, conte-me a verdadeira história dos acontecimentos. — ela cerrou os olhos. — Quem sabe assim eu possa odiá-lo menos. — o loiro suspirou e meneou a cabeça, a dureza nas palavras dela conseguia incomodá-lo.
— Seu irmão é a verdadeira história, Luna.
— O que disse? — ela deu um passo para trás.
— Você não me obedeceu e eu decidi ir buscá-la com o exército, e admito o meu grande erro ao tomar este caminho. — Thranduil fez uma pausa demorada, como se mastigasse o próprio orgulho ao admitir aquilo. — No meio do caminho acabei caindo em uma armadilha, algum tipo de magia negra, e me afastei de meus soldados. Nathrini e Eruwen — ele proferiu o nome do segundo com amargura. — me seguiram. No fim, acabamos presos em uma emboscada feita por Annchir e seus Orcs.
— Annchir?
— Ele não é mais o elfo mimado e limitado que você conheceu, Luna. Agora seu irmão está mergulhado na escuridão.
Ela riu levemente e acenou a cabeça em negativo.
— Annchir pode ter certa inclinação para atitudes impensadas, mas eu conheço o meu irmão e sei que ele não seria capaz de se aliar a escuridão. Absolutamente não!
— O meu erro abriu espaço para uma oportunidade que Annchir soube aproveitar. Com o exército ausente, a Floresta das Trevas ficou indefesa e ele ameaçou invadi-la. E eu não tive outra opção a não ser me render. — Thranduil exclamou calmamente e a viu se afastar das grades com o semblante perturbado. — Acredito que este fato desvalida a sua afirmação.
— Não! — ela continuava negando enquanto caminhava de um lado para o outro em sua cela. — Isso é impossível, é loucura… o senhor está mentindo!
— Luna, me escute… — o rei procurou seu olhar e passou a acompanhá-la da forma que conseguia. — Annchir abateu Nathrini e enviou Eruwen de volta para o exército. Ele está por trás de tudo isto.
— Está me pedindo para acreditar que meu irmão, sangue do meu sangue, se aliou ao inimigo? Que ordenou a morte de pessoas inocentes?
— Estou lhe pedindo para olhar o que está diante de você; o óbvio! — Thranduil retrucou. — Nada é como antes, e quanto mais rápido você entender e aceitar esta situação mais rápido tudo irá se resolver.
— Pare! — Luna pediu ao revelar seu rosto contraído pelas lágrimas que tentava conter. Ela se recostou em uma das paredes de sua cela e se agachou enquanto abraçava o próprio corpo. — Ele é meu irmão… minha família… pare!
Thranduil respirou fundo e passou uma das mãos sobre o rosto, por que tudo era tão difícil com ela? Ele se acalmou e decidiu esperar alguns segundos antes de dizer alguma coisa.
— Perdoe-me. — aos poucos os soluços abafados da elfa passaram a inundar o ambiente e aquilo o massacrava. Era impossível ser indiferente ao sofrimento dela. — Você me tira do sério, as palavras saem sem que eu consiga medi-las. — o rei suspirou pesadamente após finalizar.
Eles foram mergulhados no silêncio por um tempo indefinido, mas então a voz profunda e embargada de Luna quebrou aquele intervalo:
— O senhor tem razão… a culpa é toda minha. Nada disso teria acontecido se eu tivesse sido alguém melhor. Nada disso teria acontecido se, pelo menos uma única vez, eu o tivesse obedecido. — ela fez uma pausa. — Eu sabia desde o início que a inveja no coração de meu irmão o destruiria, mas sempre fingi desconhecer tal sentimento. Me recusei a acreditar porque era mais fácil… — ela franziu o cenho e sua face rosada pelo choro se contraiu. — e agora outros pagam o preço da minha estupidez.
— Já chega, Luna! — Thranduil se exaltou. — Annchir escolheu trilhar o caminho da escuridão por conta própria, nunca pense o contrário. Neste ponto a culpa não é sua. — aquilo apenas piorou a situação. — Céus… — ele se irritou consigo mesmo e bateu uma das mãos contra a grade. — não chore! — sua vontade era pôr as barras de metal que os separavam a baixo. — Luna, olhe para mim!
Relutante, ela ergueu seus olhos azulados e estes se fixaram no rosto de Thranduil.
Toda aquela fragilidade não fazia parte de Luna, não fazia parte da elfa que ele conhecia e com a qual sabia lidar. Aquilo era diferente, era íntimo, e o rei foi desarmado por completo.
— Escute-me, sempre que pensar em desistir pense em todos os motivos que fizeram você aguentar firme por tanto tempo. Nós vamos sair daqui, vamos voltar para nosso reino e tudo isto irá se resolver. — ele fez uma pausa. — Mas, para que isso aconteça eu preciso que você confie em mim, entendeu bem?
— Nós bem sabemos que o senhor não é merecedor da minha confiança.
— Pelo menos uma vez, uma única vez, você pode fazer o que eu digo? — Thranduil indagou com furor enquanto sentia seus dentes trincarem pela teimosia de sua chefe da guarda. — Neste lugar você só tem a mim e eu só tenho você. O passado não é mais relevante, a nossa sobrevivência sim.
Não havia alternativa, Luna compreendia isso. Ninguém viria resgatá-los, afinal, quem — fora Eruwen — sabia do paradeiro dos dois? Ela esperou alguns minutos e então se levantou.
— Isso não mudará nada entre nós. — afirmou com a voz rouca.
— Que seja. — ele camuflou seu contentamento em vê-la ceder. — Vamos sair daqui, preciso voltar para meu reino e arrumar a bagunça que seu irmão fez. — Luna estremeceu ao ouvir aquilo.
— O que fará com ele quando tudo isso acabar?
Thranduil a fitou por alguns segundos.
— Este não é o momento, temos outras preocupações.
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