I See You
25 Capítulo 25
Notas iniciais
— Consegui! Ele cedeu! — Luna exclamou e sorriu extasiada enquanto empurrava o metal arrebentado. Cautelosa, ela remexeu a fechadura e saiu do cubículo empoeirado, apressando-se em abrir a entrada da cela de seu rei.
— Provavelmente há uma tropa vigiando a abertura no início da passagem. Surpreendo-me da falta de guardas rondando este corredor. — ele dizia ao mesmo tempo em que forçava a fechadura do lado de dentro, para auxiliá-la.
— São Orcs, criaturas grotescas e estúpidas. Acha mesmo que sabem como dividir seu exército para que presos como nós não escapem? — a elfa desdenhou ao sorrir de canto e dirigir um rápido olhar para o loiro. — Não será uma tarefa fácil, não quantitativamente falando, mas em questão de qualidade nós temos a vantagem.
Thranduil sorriu levemente e a fitou com atenção.
— Não subestime o seu adversário, Luna. — ele alertou no momento em que a tranca rompeu e a entrada se abriu.
— Já fui subestimada demais em um único dia, acho que tenho esse direito. — ela retrucou ao menear a cabeça. — Vamos! — girou os calcanhares e seguiu pelo corredor com o elfo em seu encalce.
— Luna, espere! — Thranduil segurou seu antebraço. — Apesar da evidente estupidez de nosso inimigo, este não é o melhor momento para duvidarmos de sua sorte. — ele disse e a empurrou para escondê-los de uma tropa que passava próximo dali.
O espaço onde se encontravam era minúsculo, enclausurando-os em uma proximidade absurda e sugestiva — e aquilo foi incômodo demais para Luna. O som da marcha dos Orcs logo preencheu o ar e ativou todos os sentidos dos dois, mas, felizmente, ambos passaram despercebidos pelas criaturas.
— Acho que já podemos ir — Luna parecia desconfortável e não se atrevia a erguer o rosto pois Thranduil a fitava fixamente. — não ouço mais nada. — ela disse quando a tropa se afastou.
O loiro não lhe deu resposta, apenas afastou-se o suficiente para checar.
— Vamos. — foi tudo o que ele disse antes de seguir em frente, tomando cuidado para que seus passos não fossem ouvidos já que o eco no corredor poderia entregá-los.
— Estamos sem nenhum armamento… — ela foi interrompida.
— Shii.
A contragosto, Luna bufou e então se calou. Seus olhos azulados varreram o local com desconfiança e, poucos minutos depois, eles descansaram sobre uma passagem que seguia por outro corredor.
— Ali. — a elfa chamou a atenção do rei.
— Eu já havia visto, mas nós não sabemos em que direção estamos indo e nem aonde aquilo vai dar. O melhor é continuarmos seguindo em frente. — Thranduil exclamou e deu de ombros.
— Meu senhor pode ao menos considerar alguma ideia minha ou se esqueceu de quem o libertou daquela cela? — ela indagou entredentes.
— Não vamos começar com isso agora, Luna. — ele se limitou a responder e então voltou a caminhar, porém, a elfa não fez menção em segui-lo. — Eu sei o quanto é difícil entender as minhas razões, mas tudo o que quero é sair daqui com você em segurança. Então, faça o favor de ficar calada, pelo menos até encontrarmos uma saída. — Thranduil finalizou sem desviar sua concentração do caminho que seguiam.
Minutos se passaram e ele percebeu que não havia recebido qualquer revide, e foi impossível evitar um sorriso de canto com aquela explícita desistência de sua chefe da guarda.
— Sua língua afiada não encontrou resposta ou você apenas se cansou de ser inconveniente? — silêncio. Ele ergueu uma de suas sobrancelhas e então se voltou para trás. — Luna? — ela não estava mais ali. — Que ótimo. — Thranduil murmurou irritado. Ele retrocedeu todo o percurso e se embrenhou na escuridão da passagem mencionada pela elfa, concluindo que ela teria ido por aquele caminho. — Céus, por que não estou surpreso?
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— É uma noite fria. — Húrin exclamou ao se pôr a seu lado para observar a ruína de Valle junto consigo. — Não perca a fé, meu amigo.
Bard deu de ombros.
— Em todos esses anos, mesmo com todas as desventuras que sofremos, eu sempre me recusei a perdê-la. — o arqueiro suspirou. — Mas, agora, fitando a desgraça do meu povo, me pergunto se esta fé será o suficiente… se ela me dará forças para recomeçar.
— Nós somos homens de Valle, homens do norte! — Húrin disse com convicção. — Vamos superar este acontecimento, assim como superamos todos os outros!
— Tudo o que temos feito desde que aquele maldito dragão atacou Erebor, no tempo de nossos antepassados, é superar, superar e superar. Sempre nos sujeitando a situações humilhantes para não perecermos. Pelo menos uma vez, uma única vez, a sorte poderia nos sorrir. — Bard fechou os olhos e proferiu com raiva: — Ou somos filhos rejeitados de Eru para que ele não venha olhar por nós?
— Chega! — a voz grave de Dáin ecoou e os dois homens se voltaram para fitá-lo. — Cuidado com suas palavras, Bard. Você pode ter perdido a fé em si mesmo, mas não duvide de Eru Ilúvatar ou dos Valar. Eles já fizeram muito por todos nós, e se pretende afrontá-los sugiro que vá para longe das rochas de Erebor. — o rei o fitou com os olhos cerrados pela desaprovação e então se voltou para o outro homem. — Mestre Húrin, organize as tropas. Enviarei um grupo à cidade para recuperá-la o mais rápido que puder. Caso precisem de mantimentos sintam-se livres em me pedir, há suficiente para todos nós.
— Sim, Vossa Majestade. — ele o respondeu em meio a uma reverência. — Com sua licença.
O silêncio reinou por alguns minutos após a saída de Húrin, e foi Bard quem corajosamente o quebrou.
— Perdoe-me pelo momento de insensatez. — ele cruzou os braços e suspirou. — Fui um tolo e fiz mal uso de minhas palavras.
O anão abalançou a cabeça em negativo.
— Ora, meu amigo, todos eles se apoiam em você. O mundo pode estar desabando, mas o líder deve se manter firme, pelo bem do seu povo. E por mais dura que esta frase possa parecer, é a nossa realidade.
— Eu não sou um líder!
— Então me diga o que você é, e seja convincente. — Dáin o desafiou sem esconder sua irritação. — Não há como olhar a sua trajetória e não vê-lo como um verdadeiro líder. Negar isso a todos e a si mesmo não mudará esta condição.
— Eu não sei como fazer isso, meu amigo. Não posso carregar esta responsabilidade! — o arqueiro passou uma das mãos sobre o rosto.
Ele se sentia sufocado.
— E você acha que nós não cometemos erros? Acha que sempre sabemos o que fazer? — o ruivo contraiu a face pela impaciência. Dentre todas as qualidades, a tolerância não estava incluída nas características dos anões. — Ninguém nasce um líder, Bard, e eu quero dizer líder de verdade. Nós somos criados pela necessidade e lapidados pelas circunstâncias.
— Dáin, eu… — o anão o interrompeu.
— Eu não nasci para ser o Rei Sob a Montanha, deveria ter sido Thorin, e olhe para mim agora. Você acha que eu pedi por isso? Não, mas aceitei, isso porque o meu povo precisava de mim. — ele fez uma pausa. — Não sabia exatamente o que fazer, mas eu tinha duas coisas essenciais: força de vontade e amigos para me apoiar e aconselhar. — os olhos azulados de Dáin o fitaram profundamente. — Acredito que você têm ambas, então não me diga que não sabe ou que não pode fazer isso.
Bard cruzou os braços e sentiu o vento balançar seus cabelos levemente, este trazia consigo o cheiro das cinzas que subiam de Valle.
— Eu devo admitir, você é bem convincente quando quer. — o arqueiro exclamou ao se dar por vencido.
O anão gargalhou alto.
— Coisas do ofício, você logo vai aprender. — ele acenou positivamente com a cabeça e então sorriu de maneira divertida. — Fico feliz que finalmente tenha mudado de ideia, Senhor de Valle.
Bard meneou a cabeça.
— Ou, pelo menos, do que restou dela. — retrucou com ironia e Dáin voltou a gargalhar.
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— Quieta, elfa! Pare de se remexer! — a ameaçaram com uma adaga em seu pescoço para logo depois lançarem-na aos pés de Húrthak. — Encontramos essa aqui tentando escapar, mestre.
O Orc a fitou minuciosamente e se intrigou com a firmeza em seu olhar.
— Onde está o outro? — o general indagou e então os servos recuaram, temendo respondê-lo, e aquilo foi o suficiente para fazê-lo entender o que tinha acontecido. — Encontrem-no, aquele elfo nojento não gostará de saber que um de seus prêmios fugiu. — imediatamente os mesmos se retiraram para fazer segundo o ordenado.
Húrthak se agachou e o som do ranger de sua armadura ecoou pelo ambiente. Luna torceu o nariz quando o sentiu se aproximar de si, pois ele tinha um cheiro asqueroso.
— Eu poderia duvidar de que o mesmo sangue daquele elfo imundo corre em suas veias. — o Orc tocou o rosto dela com brutalidade e avaliou cada lado de sua face com desdém. — Como eu gostaria de deformar esse seu rostinho bonito, filha de Eru. — a elfa cuspiu contra a face desfigurada do general e aquilo o fez soltá-la de imediato.
— Não encoste suas mãos nojentas em mim, criatura amaldiçoada! — ela exclamou com rispidez.
Húrthak sorriu de canto e se limpou com uma das mãos.
— Não despreze aquele que pode libertá-la. — ele proferiu com sarcasmo. — Você não terá outra chance de escapar. A não ser que alguém lhe conceda uma oportunidade e, como você pode ver, não há bondade neste lugar… — foi interrompido.
— Ou em você. — Luna completou com ironia. — Posso entender o sentido de suas palavras, posso sentir o odor da sua intenção. O que você ganharia traindo a confiança de Annchir?
Ele gargalhou e o som se assemelhava ao crocitar de corvos; era asqueroso e macabro.
— O que leva um Orc a seguir ordens não é lealdade, é medo — um barulho vindo do lado de fora preencheu o ambiente. — e eu não tenho medo do seu irmão. — a criatura soltou as correntes que a prendiam de maneira grotesca, machucando-a propositalmente no ato. — Libertá-la é atrapalhar Annchir, e ele só precisa cometer um mínimo erro. Um deslize gentil. Você deve saber, o meu verdadeiro mestre não perdoa.
A porta foi arrombada e Thranduil adentrou o recinto com rapidez, vasculhando todo o local com o olhar até repousá-lo sobre os dois. Ele empunhava uma tocha improvisada em uma das mãos e uma espada de Gundabad na outra.
Sua expressão não poderia ser mais soturna.
— Luna? — ele indagou ao erguer a arma na direção do Orc. Thranduil o teria assassinado no mesmo instante se o som de urros e objetos estridentes e macabros não tivesse invadido o ambiente, tirando-os daquele triângulo perigoso.
A elfa sabia o que aquilo significava; toda Gundabad estava desperta. Sem esperar por mais nada, ela se levantou com agilidade e pulou na direção do rei, arrastando-o dali sem olhar para trás. Os elfos corriam pelo corredor frio e assustador sem hesitar, tudo enquanto ouviam o som das criaturas se aproximando cada vez mais.
Ambos conseguiam sentir o ódio que os Orcs carregavam, pois o lugar era maldito e os dois eram o único ponto de luz em toda aquela escuridão.
— NATHRINI! — Luna exclamou quando passaram por uma grade lateral que os dava a visão panorâmica de um pesadelo inimaginável; aquele era o local de tortura dos filhos de Ilúvatar. — NATHRINI, NÃO!
O capitão jazia acorrentado, estando despido de suas vestes, e seu corpo mutilado era devorado por algumas criaturas — estas que ouviram os gritos da elfa. Thranduil a arrastou dali no mesmo instante, mas ela se debatia em desespero na vã esperança de salvar o amigo. O rei estava dilacerado pela dor daquela visão, mas eles deveriam continuar.
O espírito de Nathrini agora estava em Mandos, e não havia nada que pudessem fazer.
Poucos minutos depois os dois se depararam com um grupo numeroso de Orcs e o rei se colocou à frente da elfa, privando-a daquela visão aterrorizante, como uma muralha. Ele sabia que ela jamais havia estado em um local tão impregnado pelo mal e teria dado tudo para que aquela lembrança jamais existisse na cabeça de Luna.
— Eles são muitos… — ela proferiu com a voz embargada e as mãos trêmulas. A imagem do corpo desfigurado de Nathrini não saía de seus pensamentos.
— Nenhum deles tocará em um fio de cabelo seu. — aquela fora sua última afirmação antes do grupo avançar para o ataque.
Thranduil desferiu o primeiro golpe mortal em um dos Orcs e, logo em seguida, Luna já não conseguia acompanhar os movimentos de sua mão. Tudo o que ela assimilava era o som das criaturas caindo sem vida no chão gelado após a lâmina do rei rasgar seus corpos fétidos e defeituosos.
— Vamos. — o elfo disse quando restavam apenas eles no corredor. Luna o fitou com os lábios entreabertos, estando totalmente estupefata. Ela tinha conhecimento das habilidades de seu soberano, contudo, naquele momento teve a certeza de que ainda tinha muito a aprender.
A elfa respondeu apenas com um aceno de cabeça enquanto Thranduil lançava a tocha — que havia segurado durante todo o confronto com maestria — por cima de um dos corpos, vendo-o incendiar de imediato. Ele se abaixou, tomou a espada de um deles e então a ergueu para Luna, num incentivo silencioso. Ela fitou a arma por alguns instantes, mas logo a pegou para si, com um ar determinado.
Eles sairiam dali, diziam isso um para o outro apenas com o olhar. E aquilo foi o suficiente para o medo em seus corações ser extinguido.
— Vamos embora deste lugar imundo. — Thranduil exclamou antes de voltar a correr pelo corredor.
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Eles caminharam silenciosamente e então se esconderam atrás de uma das rochas, ouvindo o som de um grupo de Orcs ir para o lado contrário — provavelmente a procura dos dois.
Luna ergueu os olhos e fitou a varanda no ponto mais alto do interior da montanha, e ela quase pôde sentir a ira de Annchir emanar dali.
— Não se concentre naquilo que fará mal a seu coração. — Thranduil aconselhou em meio ao barulho perturbador da marcha das criaturas e, apesar de seu tom sério, a elfa sentiu sinceridade em suas palavras e aquilo a confortou. — Veja, aquele é o portão principal. — observaram os guardas de prontidão.
— Devem estar a nossa espera. Se as forças de Gundabad se concentrarem neste local, apesar de tudo, não teremos nenhuma chance. — Luna pronunciou com pesar. Ela não enxergava qualquer luz no exterior do portão e concluiu ser noite.
— Há uma coisa que você não sabe. — ele retrucou. — Após termos nos separado, acabei encontrando um caminho que terminava em uma saída circular fechada por barras de metal que dão para o sul da montanha. O ponto era alto, mas a queda não causaria um dano sério. As barras cederiam facilmente se forçadas e eu me atrevo a supor que existem mais saídas como aquela por aí.
— Não compreendo.
— Seria óbvio estarmos aqui, óbvio demais. — Thranduil explanou. — Devem achar que vamos usar uma dessas saídas em vez do portão principal. Há poucos guardas ali e isso qualifica a minha suposição.
A elfa sorriu parcialmente.
— Bem pensado.
— Precisamos ser rápidos. — ele exclamou ao fixar seu olhar nos Orcs. — Contei trinta criaturas, mas nós temos alguma vantagem; somos mais rápidos e mais inteligentes.
— Um de nós precisa chegar até ela. — Luna se referia a alavanca lateral que abria o grande portão.
— Lutarei com as criaturas e você cuida dela. — Thranduil não aceitaria qualquer contestação.
— O senhor acha que consegue fazer isto sozinho? — a elfa observou os Orcs com suas formas desfiguradas e postura selvagem e então voltou seu olhar para o loiro, que a fitava com uma de suas sobrancelhas erguida. — O quê?
Thranduil revirou os olhos. Luna sabia perfeitamente como tirá-lo do sério.
— Vamos! — ele correu em direção à saída e ela foi em seu encalce. De imediato foram percebidos e logo as forças que guardavam o portão vieram a seu encontro para atacá-los.
Naquele ponto, enquanto derrotava as bestas de Gundabad, Thranduil pôde ponderar rapidamente sobre todo o ocorrido. Ele não perdoaria Eruwen por sua traição, muito menos Annchir. Não os perdoaria por terem o colocado naquela situação, não os perdoaria pela morte de Nathrini, não os perdoaria por terem arriscado a vida de Luna.
Luna!
Thranduil ergueu o olhar rapidamente e a assistiu desviar de maneira veloz de um objeto com a ponta afiada — provavelmente feito de ossos quebrados — que um dos Orcs havia usado para atacá-la. Ele suspirou aliviado ao vê-la golpear a criatura e chegar até a alavanca em segurança.
O rei retornou sua atenção para a própria batalha, mas não antes de um último pensamento acender sua ira; os culpados daquilo não teriam a sua clemência.
— MEU SENHOR! — ele a ouviu chamá-lo.
— ESTOU UM POUCO OCUPADO, LUNA! — a respondeu antes de se curvar para se defender de um ataque.
— A ALAVANCA EMPERROU, EU NÃO CONSIGO ABAIXÁ-LA!
— O QUÊ? — o loiro acabou abrindo um pouco da guarda ao ouvir aquilo e assim a ponta da lâmina de uma arma inimiga arranhou sua face, fazendo um leve filete de sangue escorrer do ferimento.
Uma fúria há muito contida cresceu em seu peito e seus olhos ganharam uma tonalidade escurecida, estando nublados pelo ódio. Segundos depois tudo era apenas urros e morte, pois os movimentos rápidos e precisos do elfo tornavam a desvantagem diante dele insignificante.
Thranduil era insuperável.
O último Orc caiu derrotado minutos depois e o rei jogou a espada desleixadamente sobre seu corpo imundo e sem vida.
— Logo os reforços estarão aqui, devem ter escutado o barulho do enfrentamento. — ele murmurou enquanto caminhava na direção de Luna. — Você disse que ela está emperrada? — seus olhos azulados avaliaram a alavanca.
— Geralmente esse tipo de mecanismo necessita de vários para manuseá-lo. Este aqui é mal construído, pelo que percebo. Seu funcionamento não deve ser dos melhores e sua manutenção deve estar em falta. Veja como o ferro está corroído — ela apontou para as correntes. — precisamos de força para acioná-lo.
Thranduil olhou ao redor.
— Não temos tempo, mais destas criaturas logo estarão aqui. — ele caminhou em direção aos corpos.
— O que vai fazer? — a elfa indagou curiosa ao assisti-lo arrastar um dos cadáveres em direção ao portão.
— Vamos empilhar o máximo que pudermos sobre a alavanca. Orcs são pesados com suas armaduras, é a única forma de fazer esta coisa grotesca funcionar. — Thranduil disse sério, erguendo a criatura e colocando-a sobre o objeto com certa dificuldade.
Luna o fitou por alguns segundos. Aquela era uma das maiores sandices que já havia escutado. Mas, loucura ou não, ela faria como o ordenado. Afinal, eles não tinham muitas opções.
— Ok. — foi tudo o que disse antes de passar a arrastar os cadáveres com ele.
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Húrthak caminhava apressado a seu lado e os soldados vinham logo em seguida, todos com um ar selvagem e amedrontador. Eles desceram a ala principal, caminharam por entre as colunas de pedra e, de longe, conseguiram avistar o grande portão norte.
Annchir se apressou ainda mais, sentindo-se transpirar após sua pulsação acelerar. Suas vestes pesadas não o impediram de chegar a seu destino com rapidez e logo seus olhos cor de jade puderam contemplar vários mortos no chão. Ele ergueu a vista e observou o portão negro semiaberto, isso por conta da alavanca que sustentava vários corpos.
Fugiram!
Aquele foi seu último pensamento antes dele reunir todas as suas forças e concentrá-las em sua garganta. Annchir gritou de maneira tão feroz e odiosa que alguns Orcs recuaram, com medo. O som daquela explosão ecoou pela montanha como um alarido aterrorizante e inesquecível, penetrando os cantos mais sombrios da grande fortaleza e se fixando nas rochas para a eternidade.
O elfo esperou alguns minutos até sua ira amenizar.
— Reúnam os Wargs. — ele deu a ordem para o Orc a seu lado, sentindo o gosto metálico do sangue em sua boca. Suas exaltações sempre lhe saíam caro. — Eu os quero aqui antes do amanhecer. — a criatura logo sumiu de suas vistas.
— O que vai fazer? — Húrthak indagou com seu costumeiro tom de escárnio. Ele se divertia muitíssimo com aquela desgraça e Annchir sabia disso.
O loiro se voltou para o general rapidamente e, por um tempo, ambos ficaram ombro a ombro, face a face. O ambiente se encontrava envolto por uma sombra e a maioria dos presentes inclinou a cabeça para aquele duelo silencioso, como os animais mais fracos se prostram diante dos mais fortes.
— Este é um infortúnio inesperado, eu devo admitir. — Annchir fez uma pausa. — Contudo, não pense que de alguma forma atrapalhará meu plano. Se eles não estiverem aqui até o alvorecer, pode preparar o exército. Eu dominarei o reino da Floresta das Trevas antes que o sol de amanha se ponha, e então você terá que beijar os meus pés, criatura imunda. — cuspiu as palavras.
— Com o rei de volta, como fará isso? Eles estarão a sua espera. Todos eles. — Húrthak retrucou e sorriu de lado, expondo seus dentes apodrecidos. — Admita, elfo, você já perdeu.
Annchir desembainhou sua espada com agilidade e posicionou a ponta da lâmina contra o pescoço da criatura. O mínimo movimento poderia matá-lo. Os Orcs em volta se alarmaram no mesmo instante, mas ninguém ousou intervir.
— Você espera que eu me ajoelhe e peça perdão? — o general riu desdenhoso. — Mate-me se quiser, filho de Eru. Eu prefiro a morte a viver mais um dia para obedecê-lo. — cuspiu aos pés do loiro.
Annchir olhou rapidamente a seu redor e sua razão se manifestou. A ira estava falando alto demais e isso não poderia acontecer, não naquele ponto. Ele estava muito perto para falhar agora e não deveria pôr seu orgulho acima de sua astúcia. Matar Húrthak apenas romperia com a linha tênue que o ligava aos Orcs, e aquilo o obrigava a manter a calma.
Manter a calma.
No final, Annchir recolheu a espada e a guardou na bainha.
— Pois bem… — ele iniciou. — viva mais um dia se isto lhe faz tanto mal, é o seu castigo.
Annchir mais uma vez olhou ao redor e então dirigiu um sorriso evidentemente traiçoeiro para as criaturas que os assistiam. Sua falsidade era irritante e repulsiva, até mesmo para eles. O elfo deu as costas a todos e se retirou sem dizer uma única palavra, ainda que rosnados ameaçadores tivessem acompanhado sua saída até o fim de seu caminho.
Ele estava furioso, muito furioso.
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Os elfos correram durante minutos que pareceram uma eternidade, sem jamais parar ou olhar para trás. Toda aquela pressa não os levara para longe de Gundabad, ainda que estivessem a uma distância segura.
Ambos se movimentavam perdidos em seus próprios pensamentos quando um som rompeu a noite e os alcançou, fazendo-os parar. Parecia um rugido, um rugido de ódio tão profundo que ecoou para muito além das rochas da grande fortaleza.
— Annchir… — Luna sussurrou ao dirigir seus olhos para a direção de onde o som havia vindo. Ela sentiu uma agonia em seu interior e se curvou o suficiente para apoiar as mãos nos joelhos com o intuito de amenizar a inquietação.
Thranduil percebeu o que acontecia e se aproximou para ajudá-la.
— Nós precisamos continuar. A maldade no coração dele é grande o suficiente para alcançá-la. — ele exclamou apreensivo, sem desligar sua atenção do que acontecia ao redor.
Ela retornou à postura ereta, com certa dificuldade, e então segurou o braço dele como se estivesse prestes a desabar. Os olhos de Thranduil baixaram para a mão que o tocava como se aquilo fosse uma miragem. Na verdade, significava muita coisa. Luna percebeu e se afastou.
— Precisamos decidir para onde estamos indo, é mais inteligente do que correr aleatoriamente. — ela exclamou sem qualquer espécie de ânimo. Os acontecimentos começavam a atingi-la.
O loiro cerrou os olhos ao mesmo tempo em que franzia o cenho, recuperando a compostura. Ele observou o caminho à frente com atenção, pesando suas decisões mentalmente.
— Vamos para o leste, em direção à nascente do Rio da Floresta. — disse ao apontar para o horizonte.
— Previsível. — Luna relembrou.
— Não precisa dizer o que já sei. — Thranduil a repreendeu. — Qualquer caminho que tomemos será previsível em vista de que não temos muitas opções. Vamos continuar seguindo nesta direção e ao primeiro sinal de relva poderemos fazer uma parada para que você possa descansar.
— Não preciso descansar. — ela contrapôs.
— Ao primeiro sinal de relva poderemos fazer uma parada para que você possa descansar. — o rei repetiu sem se importar com a expressão de irritação que a elfa assumira. — Devido aos constantes ataques de Orcs ao reino, Lórien expandiu a guarda para além das fronteiras. Não demorará até sermos vistos pelos soldados quando alcançarmos o rio.
Luna entreabriu os lábios, pensando em dizer algo, mas logo voltou a fechá-los. Porém, sua petulância sempre falava mais alto.
— Ou poderíamos atravessar o Rio da Floresta e rumar para o leste, em direção à Erebor. Seguiríamos pelos pés das Montanhas Cinzentas e depois desceríamos até a Montanha Solitária. — ela sugeriu. — Seria muito mais proveitoso tendo em vista o problema diplomático que os reinos enfrentam por culpa de meu irmão.
— Não. — Thranduil estava irredutível. — Vamos para a Floresta das Trevas, e está decidido.
A elfa revirou os olhos.
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