I See You

2 Capítulo 2


Notas iniciais
Resolvemos adiantar, afinal, são muitos capítulos!

Luna chegou à presença de seu rei e então fez uma leve reverência. Ela sentia suas mãos suarem e sua respiração tornar-se um tanto pesada. Tentou fazer com que seu nervosismo não fosse explícito, mas falhou drasticamente.

— Diga-me, por que eu permitiria que alguém que nem ao menos consegue me fitar ou se manter firme diante de mim seja responsável por minha guarda? — a voz fria e prepotente de Thranduil ecoou pelo grande salão. — Confesso que esperava mais do bom senso de Tauriel ao escolher seu substituto.

Luna entreabriu os lábios e ajeitou a postura, passando a fitar seu rei diretamente.

— Meu senhor, com todo respeito que tenho, permita-me dizer que senhora Tauriel não errou. Creio que Vossa Majestade esteja equivocado em me julgar por uma primeira impressão. — ela se surpreendeu com a própria ousadia.

Thranduil observou-a com as íris faiscando, mas logo baixou o olhar e sorriu levemente. Segundos depois ele o ergueu outra vez e então uniu as mãos em frente ao rosto, de forma elegante.

— Então me diga o porque de estar errada a minha primeira impressão, ou melhor, dê-me um motivo para mudá-la. — sugeriu com deboche.

A elfa ponderou alguns instantes, dessa vez, tomando cuidado com suas palavras.

— E o que sugere, meu senhor?

O rei élfico se levantou de seu trono, desceu as escadas elegantemente e tomou sua espada em mãos. Ele fitou a lâmina polida por alguns instantes, e então apontou-a na direção de Luna.

— Lute comigo, mostre-me a sua coragem e determinação. — disse calmamente.

Luna franziu o cenho e inclinou a cabeça.

— Não posso. Longe de mim levantar uma espada contra meu rei. — ela exclamou alarmada. — Antes de ir contra o meu dever de guerreira vai contra os meus próprios princípios.

— Aprecio a sua fidelidade, mas, considere isso um teste. — Thranduil estava sério. — Veremos se a sua espada é tão afiada quanto a sua língua. — ele abaixou a arma, quase frustrado, e então se aproximou da elfa a passos lentos. O loiro a rodeava como um predador rodeia sua presa. — Contudo, se quiser, pode renunciar. Apenas confirmará o conceito que já tenho sobre você… Luna. sussurrou próximo ao rosto dela, desdenhoso.

A elfa prendeu a respiração, ainda com os olhos fitando o chão. Thranduil sorriu de canto e lhe deu as costas, mas parou abruptamente com a resposta que ouviria a seguir:

— Aceito.

O rei se voltou e fitou-a estupefato.

— E pensa que conseguirá?

— Tenho plena certeza que não.

— Então, por que aceita minha sugestão?

— Porque sou uma elfa da Floresta das Trevas, sou uma guerreira. E mesmo que tenha a absoluta certeza de que não conseguirei, seria uma desonra fugir. É preciso ter coragem, mesmo quando não se tem esperança.

Thranduil pareceu, por mínimos instantes, se surpreender com aquilo — com ela. Mas, ele tratou de se recompor e assim se afastou. Sua postura imponente retornou e sua mudez a acompanhou. O silêncio reinou por segundos que pareceram minutos, dando um ar de tensão ao ambiente.

— Suponha que eu conceda a você a tarefa de comandar a minha guarda… — ele iniciou gélido. — como posso ter a certeza de que minha fronteira ficará segura? Sabendo que esta é sua tarefa e que é feita com esmero e dedicação, como saber que outros terão o mesmo sucesso?

— Eu mesma cuidarei disso, Majestade. — ela o respondeu prontamente.

Luna teve a ligeira impressão de que Thranduil dificultava o máximo possível sua situação.

O rei deu de ombros, caminhando lentamente de volta a seu trono.

— Por muito tempo minha guarda esteve em mão confiáveis. — dizia subindo as escadas. — Por muito tempo tudo esteve em ordem. Tauriel soube cumprir com o dever que a ela foi concedido… — finalmente sentou-se em seu trono, de forma elegante. — vamos ver se você tem a mesma capacidade. Vamos ver se eu estou… errado.

Ele abanou a mão para que Luna se retirasse. A elfa fez como o ordenado, respirando fundo e lembrando-se das últimas recomendações de Tauriel:

Seja paciente com o nosso rei!

Comandar a guarda não seria um trabalho tão difícil quanto cumprir com este conselho. Realmente, o temperamento de Thranduil era o verdadeiro perigo em comparação a Orcs, Trolls ou Goblins.

Sentiu o olhar do rei pesar sobre suas costas, mas ela simplesmente caminhou para bem longe dali.

.o0o.

O dia seguinte amanheceu luminoso. Ali em cima, na copa de uma das árvores, onde o vento batia e as folhas voavam, tudo parecia estar perfeito. Luna sorriu e fechou os olhos, aproveitando ao máximo a sensação. Depois de mais alguns minutos, ela resolveu descer e voltar ao palácio.

Olhou em volta, sentindo algo errado. Calmamente a elfa ergueu a mão e puxou uma flecha, posicionando-a no arco com cuidado e em silêncio absoluto. Ouviu o som de galhos se partindo ao serem pisados levemente, aguçando sua curiosidade e redobrando sua atenção.

Ela tragou o ar com suavidade, tentando capturar algum cheiro pútrido de Orc ou qualquer criatura potencialmente perigosa.

Nada.

O ar tencionou-se e sua respiração pesou.

Inesperadamente alguém pulou e se pôs atrás de seu corpo ereto. Com toda rapidez e precisão de uma elfa, Luna girou o corpo e travou o movimento com a ponta da flecha exatamente na fronte de Annchir, este que a fitava curioso.

Ela suspirou aliviada e baixou a arma.

— O que pensa que está fazendo? — questionou ele, levemente indignado.

— Achei que fosse um inimigo. — respondeu o dando as costas e tomando o caminho para o palácio.

A elfa surpreendeu-se quando seu caminho foi bloqueado pelo corpo do irmão. Ela percebeu sua áurea descontente.

— Algum problema, Annchir?

— Por que não me contou que Tauriel escolheu você para substituí-la? — ele foi direto. — Era isso que ela queria falar ontem, não era?

— Agora não. — Luna disse ao se desviar dele, porém, mais uma vez, foi impedida de prosseguir. — O que foi dessa vez?

— Como pôde? — o elfo indagou gélido. — Me apunhalou pelas costas, minha própria irmã!

Ela respirou profundamente, mantendo — ou ao menos tentando manter — a calma.

— O apunhalei? Nunca mencionou que gostaria de substituí-la, irmão!

— Tantos treinamentos, tanto esforço… acha mesmo que fiz tudo isso para me contentar apenas com um lugar na guarda real? — riu irônico. — Não seja tola, Luna!

— Você se acha merecedor de tantas coisas, não é? — passou a mão levemente pelo rosto. — Bem, de todas as habilidades que Eru Ilúvatar me concedeu, nenhuma delas é a de ler pensamentos.

— Não ouse falar assim comigo. — Annchir rebateu raivoso. — Como sempre você me tira tudo a que tenho direito, como sempre toma o meu lugar!

Uma áurea negra tomou conta dele. Seus olhos de jade demonstravam toda amargura que sentia.

— Meu irmão… — foi interrompida.

— Não me chame de irmão. — sorriu debochado. — Mas não durará. Você não tem a força necessária, nosso rei logo perceberá o quão errônea foi a escolha de Tauriel.

Luna o empurrou para o lado, vendo sua expressão passar de indignação para fúria.

— Você não sabe o que diz. Está impregnado pela ambição e seu ego explode no peito. — cuspiu as palavras. — Seu dia chegará, e ao contrário do que você me faz agora, eu o parabenizarei e ficarei feliz por você. Porque é isso que irmãos fazem. — caminhou para longe, mas, antes de se afastar mais, se voltou para ele — Nosso pai sentiria vergonha do ser que você está se tornando.

Dizendo isto, Luna foi em direção ao palácio.

.o0o.

— Thranduil. — ele disse ao chegar à presença do rei élfico.

— O que o traz aqui, Mithrandir? — questionou indiferente, fitando o cinzento com curiosidade.

— Assuntos importantes, como sempre. Com a morte de Azog e o fracasso ao ataque à Erebor, as forças das trevas diminuíram… mas, não desapareceram. — iniciou calmo enquanto segurava firmemente seu cajado. — Temo que a constante aparição das aranhas vindas de Dol Guldur venha representar um grande problema futuramente.

— Pensei que senhora Galadriel tivesse resolvido este pequeno imprevisto em Dol Guldur.

— Parcialmente — ele meneou a cabeça. — mas o mal sempre encontra um jeito de retornar. E é necessário que retardemos ao máximo este momento.

— O que sugere? — o loiro arqueou um das sobrancelhas.

— Mande guerreiros à fortaleza para que vasculhem-na. Livre sua terra.

— Não tenho parte com Dol Guldur, Mithrandir. — Thranduil respondeu desinteressado. — Este entrave não é meu.

— Não tenha tanto descaso assim! — o mago advertiu. — Sua floresta está doente, permitirá que esta doença assole seu povo?

— Meus muros não permitirão! — o rei soou prepotente. — O meu reino resistirá.

— Com o passar dos anos o mal ficará mais forte e o seu reino cairá, Thranduil Oropherion!

O rei contraiu o rosto, contendo-se.

— Não permitirei!

O mago revirou os olhos e bateu seu cajado no chão, totalmente indignado. O som ecoou por todo lugar como um estrondo.

— Dentre todos os senhores élficos você é o único que nunca leva minha opinião em consideração, mesmo considerando os fatos! — Mithrandir estava cansado de debater.

Thranduil o ignorou ao falar algo inaudível para um dos guardas, este que fez uma leve reverência e se retirou.

— Diga-me, o que exatamente teme? — o elfo questionou ao fitá-lo de esguelha.

— Temo que a teimosia herdada de seu pai o faça ter o mesmo destino que o dele. — ele foi ríspido. — Espero ansiosamente pelo reinado de seu filho. Algo me diz que Legolas será mais… aberto a opiniões.

O rei não pôde deixar de sorrir em escárnio pela afronta.

— O que espera que eu faça? Na Batalha da Última Aliança meu pai levou nosso exército e acabamos por perder mais do que ganhamos.

— Estavam lutando em prol de um bem maior! — o mago respondeu indignado com o que acabara de ouvir.

— Bem maior este que custou milhares do nosso exército, e até mesmo o nosso rei! — Thranduil retrucou friamente.

— Tudo por causa de sua teimosia e pretensão!

— Vossa Majestade, mandou me chamar? — a voz de Luna foi ouvida no salão, chamando a atenção dos dois e interrompendo o diálogo que já havia se transformado em uma discussão.

Thranduil pousou seu olhar sobre a elfa, que também o fitou — mas logo curvou a cabeça para esconder seu olhar.

— Sim, mandei. — o loiro voltou seu olhar para o cinzento. — Mithrandir, conte a Luna suas ideias para cessar a infestação de aranhas em meu reino. — sugeriu ironicamente.

O mago se aproximou e a fitou profundamente.

— E quem seria? — questionou cordial.

— Luna, minha nova chefe da guarda real. — o rei exclamou demonstrando toda sua insatisfação, o que fez o outro arquear uma das sobrancelhas.

— E Tauriel?

— Senhora Tauriel abdicou do cargo e me colocou em seu lugar. — a elfa tratou de responder antes que seu soberano fizesse mais um comentário em tonalidade duvidosa. — O que sugere, Mithrandir?

— Ao menos há alguém sensato o suficiente para me escutar neste lugar. — ele olhou de esguelha para Thranduil, fazendo Luna sorrir minimamente. — Sinto que há uma necessidade de um grupo ser enviado a Dol Guldur, em primeiro caso para verificar a situação das aranhas que tanto assolam a Floresta das Trevas e… outro fator relevante.

— Concordo em que devemos livrar nosso reino destas bestas, mas, antes é necessário avaliar o que está em questão — ela iniciou pensativa. — o que mais reside na fortaleza?

Mithrandir meneou a cabeça e apertou o cajado entre os dedos.

— Não sei ao certo e talvez seja cedo demais para ter confirmações. — ele se abaixou um pouco, fitando-a nos olhos. — Mas a precaução nunca foi considerada um defeito, foi?

Seu olhar era sugestivo demais, e Luna percebeu. Havia algo a mais, muito mais.

— E acha que nós conseguiremos realizar a missão com êxito? — questionou interessada, esquecendo-se de que seu rei estava presente e a fuzilava com o olhar.

— Não estou considerando muito, apenas uma… varredura. o mago finalizou. — Bom — voltou a sua posição normal e ajeitou sua túnica. — estou partindo para Valfenda, Elrond me espera. — disse sério e se voltou para o elfo. — Thranduil, está em suas mãos.

Ele fitou Luna rapidamente e se retirou.

A elfa suspirou, pensativa.

— Não dê ouvidos a ele. Magos tem mania de alarde. — o rei deu de ombros.

— Temos que admitir que ele pode estar certo, meu senhor. Seus conselhos deveriam ser considerados! — Luna sugeriu e recebeu um olhar de reprovação.

— Não me diga o que fazer! — a voz dele soou cortante.

Os olhos azuis da elfa o fitaram tristes, mas ela assentiu.

— Perdão, Majestade. — desculpou-se. — Mas, creio que meu dever seja o de proteger não somente a realeza, mas também o povo. E, ponderando sobre o assunto, isto poderia ser considerado como um perigo em potencial. — o olhar do rei sobre si era profundo. — Ser considerado um tolo por não ouvir o conselho de Mithrandir pode não o afetar, mas, ser chamado de covarde por não se atrever a enfrentar o mal que assola seu povo não o agradaria. Tenho certeza.

A expressão apática e indiferente de Thranduil se tornou pasma e surpresa, e ele respirava lentamente, como se aquilo o ajudasse a se acalmar. Caminhou um pouco e então se aproximou de Luna, esta que não vacilara o olhar.

Agora se encontravam frente a frente.

— Meu conceito sobre você apenas piora. — ele cuspiu as palavras, fitando cada traço do rosto da elfa.

— Com todo respeito, seu conceito sobre mim não me importa. — respondeu intimidada. Sua voz quase falhara.

— E o que lhe importa em tudo isso? — o coração de Luna batia descompassado.

— Cumprir com o meu dever cuidando do meu povo. Proteger e ser leal ao meu rei. — ela quis baixar a cabeça mas foi impedida por uma das mãos de Thranduil, que segurara seu queixo para forçá-la a fitá-lo.

— Se realmente preza a sua honra cuidando do seu povo, protegendo e sendo leal ao seu rei — fez questão de repetir cada palavra dita por Luna. — então obedeça as minhas ordens. Nenhuma patrulha deve ser enviada a Dol Guldur. Entendeu bem? — questionou pausadamente, mirando seu olhos.

— Sim, meu senhor.

O rei ainda fitou-a por alguns momentos, estando paralisado enquanto sua respiração batia pesada contra o rosto dela. Thranduil pareceu sair de um transe quando soltou o rosto de Luna e se recompôs.

— Isto é tudo. — ele a deu as costas e se retirou.

Assim que saiu a elfa pôde respirar livremente. Sentia os pelos dos braços eriçados, mas deu de ombros e caminhou para longe dali.

Ela tentou não se sentir culpada pelo que faria, afinal, não desobedeceria Thranduil, apenas modificar sua ordem. Ele disse que nenhuma patrulha deveria ir à fortaleza, mas não disse nada sobre Luna ir até lá verificar por conta própria.

Notas finais
Beijocas! *-*