I See You
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Luna esperou anoitecer para poder sair do reino, assim não seria facilmente notada. Ela não contara a Annchir o que pretendia fazer, na verdade, desde o incidente na floresta não o havia visto.
A elfa deixou todos os guardas em seus postos, cumpriu com seus deveres básicos — um modo de não se sentir tão culpada pelo que faria — e então embrenhou-se na floresta com seu cavalo, em direção ao sul. A jornada tortuosa logo foi vencida e os olhos azulados da chefe da guarda contemplaram a terrível ruína de Amon Lanc, agora chamada Dol Guldur.
O lugar estava aparentemente vazio. Tudo que se podia ouvir era o som macabro do vento batendo contra as grades de ferro e contra as celas penduradas no ar. Ela dava cada passo com calma, ouvindo o som de suas botas baterem contra o chão úmido.
O céu estava nublado, quase negro, mas não de uma forma natural.
Luna retirou a capa, que cobria-lhe a cabeça, tomando o arco em mãos para se pôr em prontidão. A elfa caminhou mais um pouco, adentrando ainda mais a fortaleza amaldiçoada. Nenhum sinal de inimigo. Seja lá o que o mago temia, não estava mais ali. Porém, uma sensação estranha a perturbava.
A elfa conseguia sentir o mal dali, ou, pelo menos, seu cheiro impregnado na atmosfera do lugar. Uma das grades rangeu inesperadamente e assobios estranhos ressoaram junto com um vento frio, o que a deixou em alerta no mesmo instante. Era como se tudo rodopiasse a sua volta e sussurros batessem contra seus ouvidos.
Ela se sentiu confusa e perdida, o que a fez caminhar por entre as paredes sufocantes.
O que estava acontecendo?
Subiu as escadas lentamente, continuando a vasculhar o local, mas nada encontrou. O lugar estava completamente vazio, ao menos de uma presença física, porém Luna não conseguia ignorar os resquícios. Resquícios de algo forte e mais antigo do que ela mesma.
A elfa percebeu que escurecia ainda mais e então estranhou. Quando chegara a Dol Guldur o sol ainda não havia nascido.
Sentia-se confusa.
Ela ouviu o trotar de um cavalo e então correu para a saída do que um dia fora um tipo de sala. Luna desceu uma curta escadaria, rapidamente, indo em direção à entrada da fortaleza.
— Vejo que seguiu o meu conselho. — o mago exclamou, dirigindo-a um leve sorriso.
— Mithrandir… — ela soou aliviada. — pensei que estava indo para Valfenda.
— Bem, minha cara, em certas circunstâncias me vejo obrigado a fazer coisas que geralmente não faria. — ele meneou a cabeça. — Mentir é um delas.
Luna ergueu uma das sobrancelhas mas logo deu de ombros. O Maia se aproximou e então fitou o lugar com desconfiança.
— E a busca?
— Não encontrei nada, nem ninguém. Mas… — ela hesitou um pouco antes de continuar. — sinto que algo de muito ruim esteve aqui.
— Certamente que sim. — concordou ele enquanto caminhava para dentro da fortaleza.
A elfa franziu o cenho, confusa, e então o seguiu.
— Se o mal não reside mais aqui, por que pediu para que o vasculhasse?
O mago se voltou abruptamente para Luna, fitando-a com o semblante sério.
— Há sempre a suposição do inimigo voltar a seu ponto de partida, Dama da Floresta, nunca se esqueça disso. — ele olhou o lugar de esguelha. — Ao menos, Dol Guldur já não é mais o ponto principal.
— E as aranhas?
— Possivelmente não mais assolarão o reino de Thranduil. — respondeu-a gentilmente.
Luna suspirou aliviada, porém, lembrou-se de algo.
— Mas e a doença em nossa floresta?
O mago apertou o cajado entre os dedos.
— Enquanto o mal que a criou ainda existir a doença na floresta resistirá. — fez uma pausa. — Volte para a Floresta das Trevas, não há mais nada a se fazer aqui. — a elfa assentiu e foi em direção a seu cavalo. — Fico realmente surpreso que Thranduil tenha permitido sua vinda. — Mithrandir prendeu uma risada.
— Meu senhor Thranduil não sabe que estou aqui. — ela o respondeu ao subir em sua montaria. – Contudo, penso que não notará minha saída. — o animal se fez inquieto, relinchando incessantemente.
— Como assim? Você é a chefe de sua guarda, isto é impossível. — afirmou ele, casualmente.
— Após sua partida, meu senhor se recolheu. Ao anoitecer vim em direção à fortaleza. — o animal continuava inquieto, fazendo-a estranhá-lo.
— Mas isto foi há dois dias! — Mithrandir estava curioso.
A expressão de Luna se tornou confusa. Não havia muito tempo que estava ali, talvez algumas horas, como assim dois dias?
Ele olhou ao redor.
— Acho melhor você ir logo, este não é um lugar para elfos! — Luna nada respondeu, apenas assentiu com a cabeça e saiu dali o mais rápido que pôde. — Não é lugar para elfos e nem para ninguém… — Mithrandir findou em um sussurro.
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Ela suspirou aliviada ao contemplar os portões do palácio da Floresta das Trevas, seu lar.
A elfa entrou em uma luta interna: iria ou não à presença de Thranduil, seu rei? Uma grande voz dentro de si gritou para que não fosse, mas isso apenas pioraria as coisas. Luna tinha plena consciência de que corria o grande risco de ser banida, assim como Tauriel havia sido — certa vez — e isso a alarmava. Ela então ordenou a si mesma que se acalmasse, demonstrar fraqueza era o que menos queria na presença de seu arrogante soberano.
— Onde está o rei? — questionou a um dos guardas.
— Em sua biblioteca particular, minha senhora. — ele respondeu ao curvar a cabeça de maneira respeitosa.
Luna assentiu e seguiu em direção ao lugar.
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Desde que ela chegara Thranduil ainda não havia dito uma única palavra. Ele a fitava profundamente, sem demonstrar nenhum tipo de emoção em suas feições.
O lugar estava silencioso, e a elfa incomodada. Ela odiava quando seu rei falava, pois de seus lábios sempre saíam adagas disfarçadas de palavras. Sempre frio e arrogante. Porém, naquele momento, ela descobriu odiar ainda mais seu silêncio, o estado imprevisível de seu senhor a assustava.
— Majestade… — iniciou e logo foi interrompida.
— Cale-se. — ordenou gélido.
O rei largou o livro que segurava em uma mesa próxima, calmo o suficiente para fazê-la prender a respiração. Então se voltou e caminhou em sua direção, passando a rodeá-la lenta e dolorosamente.
— Estou decidindo o que fazer com você, Luna. — o nome escorregava de seus lábios de uma forma diferente, incomparável. — Além de me afrontar e insultar, ainda teve a audácia de ir contra as minhas ordens. — ele cuspiu as palavras.
— Sei que merecerei todo e qualquer castigo que me impor, meu senhor. — exclamou a elfa, um tanto irritada. — Mas, entenda, tudo o que fiz foi para o bem de nosso povo.
Thranduil riu entredentes, irônico.
— Pensa que sou tolo? — ele se colocou diante dela, curvando-se e aproximando os rostos para fitá-la diretamente nos olhos. — Pensa que não sei o que se passa em sua cabeça?
A elfa ergueu uma das sobrancelhas.
— Sinceramente, não sei do que está falando. — retrucou enquanto ponderava sobre o fato de seu rei sempre se pôr em sua frente daquela maneira.
— Quer testar meus limites? Ver até aonde minha paciência pode ir? — sua voz, baixa e profunda, ecoava por seus ouvidos como um furacão. — Não sou seu irmão, você não é superior a mim.
Luna se sentiu ofendida, jamais pensara nada daquilo.
— Creio ter que discordar, meu senhor. — respondeu rapidamente, vendo um sorriso de canto se moldar nos lábios de seu rei.
— Não pode discordar dos fatos, fatos esses que os meus olhos contemplam. — Thranduil exclamou pausadamente, se inebriando com o próprio poder.
— Os mesmos olhos que não me viram partir há dois dias? — foi impossível esconder o tom irônico que sua voz assumira. — Isso torna a sua suposição duvidosa, meu rei. — Luna fez um esforço gigantesco para esconder seu sorriso de satisfação ao ver a expressão irritada de Thranduil.
A elfa questionou internamente o que estava fazendo. Que tipo de súdita era para desrespeitar seu rei daquela maneira? Mas não estava completamente errada, ela tinha conhecimento da personalidade difícil de Sua Majestade, mas não imaginava que ele fosse tão… insuportável.
— Eu deveria bani-la. — ele sussurrou rispidamente. Estreitou os olhos, como se lutasse contra si mesmo. — Contudo, serei benevolente.
Luna fitou-o confusa.
O rei fechou os olhos, ainda curvado em frente à elfa. Ele tragou o ar, profundamente, abafando um som vindo de sua garganta e contendo uma expressão que ela não soube distinguir.
— O que descobriu em Dol Guldur? — o loiro questionou para logo se afastar, fitando um ponto fixo na parede.
Luna balançou a cabeça levemente, se concentrando na pergunta.
— Não há mais nada na fortaleza, meu senhor, apenas a sombra de seja lá o que residia naquele lugar. Creio que as aranhas não serão problema, não mais. — Luna caminhava pelo recinto enquanto falava. — Se exterminarmos as que rodeiam nossas terras e seus ninhos estaremos completamente livres desta praga.
Viu Thranduil assentir, ainda sem fitá-la. O rei estava ereto e paralisado, como se ponderasse sobre o assunto. Segundos depois, com a voz mais cortante do que a lâmina de sua espada, ele respondeu:
— Destrua os ninhos e expulse estas bestas das minhas terras. — olhou-a por cima dos ombros, desdenhoso. — Consegue seguir esta ordem?
— Sim, meu senhor. — ela assentiu, fez uma leve reverência e então ergueu os olhos para ele.
Ambos se fitaram por instantes que pareceram horas, e assim Luna se retirou.
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— Matem as aranhas e queimem seus ninhos. Vasculhem a floresta inteira se preciso. — a elfa ordenava com um porte altivo e autoritário, sendo ouvida atentamente por todos. — Annchir, leve seu grupo para o sul. Lórien, o seu permanecerá aqui, no norte. Elenor e Nathrini, levem os seus para o leste. Nos encontraremos aqui em dois dias, nos portões do palácio.
Procurou o olhar de Annchir, mas não encontrou. Fingindo não se importar, ela foi em direção ao seu grupo enquanto os outros partiam para suas respectivas direções.
— Vamos para o oeste, não é Luna? — indagou Merida.
— Sim. É melhor nos apressarmos. — disse calmamente e assim correu em direção à floresta, sendo seguida por seus soldados.
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O sol do dia seguinte já despontava no horizonte.
— Aranir e Merida, vasculhem naquela direção. Eruwen, venha comigo. — todos assentiram.
Os dois caminharam em silêncio durante um tempo. Depois de uma longa noite enfrentando as grandes bestas, elas pareciam ter desaparecido.
— Annchir não está nada satisfeito, ele não esconde a raiva pela sua nova posição. — disse o loiro, chamando a atenção da elfa para si.
A mesma o fitou e assentiu em concordância.
Eruwen era um velho amigo, seu melhor amigo, em quem ela sabia que poderia confiar. Sempre levava seus conselhos e apontamentos em consideração, e Luna o considerava um irmão.
— Não entendo. O que fiz para ser tão odiada por meu próprio irmão? — questionou mais para si mesma do que para o amigo. Seus olhos fitavam as árvores.
Eruwen tocou seu braço, fazendo-a olhá-lo.
— Não se martirize. — seu tom de voz era aveludado. — Annchir tem uma tendência duvidosa da qual você não tem culpa, Luna. — findou e tocou-a suavemente no rosto. A elfa sorriu, fechando os olhos e aproveitando a carícia. Era reconfortante em vista dos acontecimentos.
— Obrigado, Eruwen… — ela agradeceu gentilmente. — sua amizade é muito importante para mim.
Luna viu o olhar do elfo vacilar. Ele se preparava para dizer algo, porém, foi interrompido pelo som de uma luta não muito longe dali.
— Merida e Aranir precisam de nós! — ela correu por entre as árvores e foi seguida por Eruwen.
Não demorou até chegarem ao centro de todo o alvoroço. Eles avistaram duas mulheres e três crianças enquanto os elfos lutavam contra um grupo de aranhas que tentavam apanhá-los.
Luna não esperou e se moveu com agilidade. Ela pulou no tronco de uma das árvores e escorregou na direção de uma das bestas, velozmente. A elfa tomou sua adaga em mãos, caindo deitada e passando em baixo de uma das aranhas para rasgar-lhe toda a parte inferior do corpanzil. Quando se pôs de pé outra veio em sua direção e Luna rapidamente se desviou da mesma, com um rodopio preciso. E, em um movimento ágil, ela tomou uma flecha em mãos para logo desferi-la na direção da besta em um golpe mortal.
A chefe da guarda olhou em volta, vendo que as outras criaturas haviam sido mortas pelos outros três elfos. Suspirando aliviada, ela fitou com mais atenção as mulheres e crianças.
— O que faziam andando pela floresta? — perguntou calmamente, porém, com a expressão séria. — É um lugar perigoso para todos os seres, principalmente crianças. – frisou de modo repreensivo.
Uma das mulheres fitou-a gentilmente.
— Sim, minha senhora. Estávamos indo para a Cidade de Valle, ao pé da Montanha Solitária. — argumentou. — Nossos familiares residem lá e nós pretendemos nos juntar a eles, este era o caminho mais rápido.
— Mortais… — Luna ouviu Aranir sussurrar desdenhoso.
Ela o fitou de esguelha, fazendo-o curvar a cabeça ao perceber o olhar de sua senhora.
— Estas terras ainda não são seguras para um não-elfo. Deveriam ser mais cuidadosas. — avisou pacientemente. — Merida e Aranir irão escoltá-los até a fronteira da floresta, na direção de Valle.
— Mas, minha senhora… — Aranir tentou argumentar.
— Prefere ficar e lutar com as aranhas que encontrar, meu caro? Porque, pelo que vi quando cheguei, não está se saindo muito bem. — Merida riu levemente enquanto Eruwen permanecia de prontidão, alheio a conversa.
— Não, minha senhora. — respondeu-a um tanto envergonhado.
— Melhor assim. — Luna retrucou séria e se voltou para as duas mulheres e suas crianças. — Vocês ficarão seguros.
— Luna — ouviu o amigo chamá-la em tom de lembrete. — temos que terminar a patrulha.
Ela assentiu em concordância.
— Podem ir. — dizendo isto se retirou, acompanhada de Eruwen.
Orava internamente à Eru Ilúvatar para que aqueles dois não fizessem besteiras.
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