I See You
19 Capítulo 19
Notas iniciais
Três semanas depois
Da entrada da montanha Luna podia observar toda Cidade de Valle, esta reerguida e honrada. O povo unido contribuía para o crescimento de todas as partes sem qualquer sombra do mal anterior e a elfa não poderia estar mais orgulhosa.
Os dias passavam de maneira lenta diante de seus olhos e ela, aos poucos, recebia a paz em seu interior como uma velha e querida amiga. Seu coração, no entanto, se apertava apenas em imaginar o que viria a seguir. Sua missão logo chegaria ao fim e ela teria de retornar à sua terra natal.
Luna tragou o ar de maneira pesada.
Suas íris azuladas fitaram o horizonte, para além da civilização humana, contemplando o sol se pôr. O céu mesclava em tons de amarelo e laranja enquanto algumas estrelas já podiam ser vistas no firmamento.
— Apreciando a vista? — o som grave da voz do rei anão a despertou de seus devaneios.
— Sim, sim… — a elfa se sentiu envergonhada por ter sido pega de surpresa, não era de seu feitio estar tão alheia ao que acontecia a seu redor. Após se recompor, ela tratou de fazer uma leve e respeitosa reverência. — em nosso mundo poucas coisas nos dão tanto prazer.
Dáin sorriu minimamente por detrás de sua barba ruiva um tanto esbranquiçada.
— Imagino que esteja feliz em logo poder voltar para a Floresta das Trevas!
Luna pigarreou, sentindo-se desconfortável no mesmo instante. Ela forçou um sorriso na tentativa de apaziguar a agonia em seu coração e amaldiçoou a si mesma por ainda se perturbar com tal assunto.
— Sinto falta de meu povo, sem dúvidas — ela iniciou calmamente. — mas, me sinto bem em Valle. Agora mais do que nunca. — admitiu.
O anão sorriu de canto.
— Essas pessoas são verdadeiramente agradáveis, não são? Não há povo mais nobre em toda Terra Média, pelo menos, não entre os homens! — ele exclamou orgulhoso. — Nem mesmo os gondorianos se enquadram em tal padrão.
— Eu suponho que sim. — Luna respondeu ao assumir uma expressão de divertimento por conta da afirmação. — Na verdade, fico extremamente admirada com o seu apreço pelo povo de Valle.
— Essas pessoas sofreram as mais diversas adversidades até aqui. Humanos não são resistentes como anões ou habilidosos como elfos. Tendo tais qualidades, eles podem ser considerados um povo peculiar. — as vestes de ferro do rei pesavam aos olhos de Luna, esta que não discordava da resistência e força da raça anã. — Porém, dentre todos, devo ressaltar a descendência de Gírion. Em particular, Bard, o Matador do Dragão.
— Ele não tem uma boa relação com esse título. — Luna brincou e logo ouviu a grave risada de Dáin.
— Está certíssima, minha cara. Apesar de todo o sofrimento e humilhação, ele não se vangloria por seu maior ato de coragem. — fez uma pausa. — Estranho, não acha?
— Bard é honrado demais para se vangloriar. — a elfa argumentou. — O senhor iniciou todo este diálogo, deu várias voltas e enfim chegou ao ponto como um verdadeiro mestre. Mas, agora gostaria de saber o real motivo para tudo isto. — ela finalizou e o fitou com atenção.
Dáin cruzou os braços em frente ao peito enquanto seu rosto marcado pelas guerras assumia um semblante paciente.
— Perspicaz! — ele a elogiou e estreitou os olhos. A elfa sorriu de forma cálida. — Como deve saber, uma de suas missões é erguer um novo Senhor de Valle, e não há ninguém tão apropriado para o cargo quanto o próprio descendente de Gírion; o arqueiro.
Luna suspirou.
— Ele mesmo frisou sua total discordância sobre isso. Bard não deseja governar a cidade. — o vento frio da noite batia levemente contra suas vestes.
— A questão não é o que ele deseja para si e sim o que ele deseja para o povo, e este precisa de um homem bom e honrado para liderá-lo. Bard não anseia o bem de Valle?
— Certamente que sim, mas está fora de meu controle fazê-lo aceitar. — ela reafirmou. — Chame-o e diga isto a ele, meu senhor. Creio que não teimará contra sua vontade.
— Esta seria uma boa alternativa se eu já não tivesse tentado. — Dáin esclareceu. — Por isso peço a você que tente convencê-lo.
— Não tenho total certeza de que vou ser ouvida.
— E eu devo discordar. — o ruivo sorriu de lado. — Minha cara, você é uma das poucas pessoas que conseguiria fazê-lo mudar de ideia!
A elfa respirou fundo, mais do que nunca entendendo o porque dos anões serem famosos por sua vontade de ferro. Os olhos penetrantes do Rei Sob a Montanha a fitavam a espera de uma resposta e ela sabia que ele não se daria por vencido.
— Prometo fazer o possível. — Luna desistiu de sua resistência e então viu um sorriso de satisfação iluminar o rosto de Dáin.
— Tenho certeza que sim.
.o0o.
— Você poderia, por favor, parar com isso? — ela pediu envergonhada.
— Culpe a sua expressão de concentração, ela é peculiar! — Bard a respondeu com divertimento e a elfa também sorriu, mas logo voltou a se concentrar no que estava fazendo. — Luna?
— Sim? — indagou enquanto limpava a flecha em sua mão.
— Fique comigo…
— Eu estou com você agora, Bard. — ela afirmou ao erguer o olhar rapidamente, sem parar o que estava fazendo, e então se voltou para a flecha. — Não estou?
O arqueiro suspirou e passou a fitar o horizonte.
— Você logo irá embora, logo voltará para sua casa — seu semblante era neutro. — logo não estará mais comigo.
Luna sorriu suavemente.
— O coração de um poeta no corpo de um líder. — ela exclamou ao soltar o objeto.
— Não mude de assunto.
— Esta não é a minha pretensão. — a elfa ergueu as mãos para tocar o rosto de Bard, observando-o de perfil. — Mas, já é hora de falarmos disto. Você sabe.
— Não nasci para governar ninguém, Luna!
— Não é isto que o brilho em seus olhos me diz!
O arqueiro riu levemente.
— E o que o brilho em meus olhos lhe diz? — ele direcionou seu olhar curioso para ela e a viu ponderar alguns segundos enquanto o fitava profundamente.
— Que mesmo tendo sofrido tanto, passado pelas piores situações e circunstâncias, você não se deixou levar pela tristeza ou amargura. — Luna se lembrou no mesmo instante daquele que mais queria esquecer. — Mesmo debaixo do jugo da dor você soube se reerguer e acabou se tornando no homem mais honrado, destemido e bondoso que Arda já conheceu até os dias de hoje. — os olhos azulados dela brilhavam pelas lágrimas contidas.
Ele segurou suas mãos e as levou até os lábios para beijá-las delicadamente.
— Não sou digno, eu tenho medo — sussurrou contra a pele macia e leitosa da elfa. — medo de me perder pelo caminho.
— Bravo não é quem não sente medo, meu querido – ela disse e aquilo o fez fitá-la. – bravo é quem vence o medo.
O homem franziu o cenho.
— Não posso fazer isso, Luna.
— O que o seu coração teme? — ele ponderou antes de respondê-la.
— Meu caminho é invisível para mim…
— Ele está diante de seus pés, é só segui-lo. Você não pode recuar agora. — a chefe da guarda exclamou e Bard não soube como responder.
— Fique comigo e eu me tornarei o Senhor de Valle.
A elfa riu.
— Isto não é negociável! — contrapôs com divertimento, e só depois de alguns segundos percebeu que aquilo não havia sido uma brincadeira do arqueiro. Luna o fitou de maneira séria. — Tenho responsabilidades com meu povo.
— Tem responsabilidades consigo mesma. Você é feliz naquele lugar?
— Isto não vem ao caso, e sim o meu dever com eles.
— Considerarei sua resposta como um não! — Bard retrucou e ela fez menção em se retirar. — Eu vi a forma com que voltou da Floresta das Trevas, você não me pareceu e ainda não me parece ávida em retornar para lá. — o homem chegou a segurar seu braço mas foi repelido no mesmo momento. — Olhe para mim!
Inconscientemente, Luna passara a odiar aquela frase.
— Eu não quero voltar! — ela respondeu raivosa e então se pôs de pé. — Satisfeito? Era isto que queria ouvir?
— Luna…
— Isto vai muito além do que eu quero, Bard, muito além! Eu tenho um povo, um compromisso com o qual não posso faltar.
— Sua vontade não está inclinada para este compromisso, muito menos o seu coração!
— E o que você sabe sobre o meu coração? — a elfa deu de ombros, não menos cortante. — Sou uma tola, meu coração mais ainda. Ele sempre me guiou por caminhos tortuosos que terminaram em tristezas.
— Ele é o mais próximo que podemos chegar da verdade absoluta, e a mesma nem sempre é aprazível aos olhos. Você sabe disso! — sua voz era mansa, totalmente paciente.
— Verdade? — Luna riu com sarcasmo. — A única verdade é que o sofrimento é inevitável, e é a isto que o coração está exposto. Sendo assim, eu prefiro simplesmente ignorá-lo.
— Não seja tão inflexível!
— Estou sendo realista! — suas palavras eram duras e sua expressão estava impassível. Bard quase não a reconheceu. — E não é por puro capricho, é por experiência. Então, não ouse dizer que estou sendo inflexível.
Eles se fitaram em silêncio por um instante e a atmosfera do ambiente não poderia ser pior.
— O que aconteceu com você? — Bard indagou.
Os olhos azulados da elfa se desviaram para um ponto atrás dele.
— Por favor! — ela pediu, agora mais calma.
— Eu tento não perguntar, tento não dar importância a isto… mas, todas as vezes que olho em seus olhos vejo algo diferente, algo que não via antes. — Bard exclamou e sua preocupação era explícita. — Não posso mais conviver com isso, você precisa me dizer o que aconteceu para que eu possa ajudá-la!
— Você não compreende!
— Posso tentar!
— Não insista! — Luna retorquiu ao retornar a sua rispidez.
— Não posso ignorar o que sinto e muito menos o que vejo, assim como não posso assisti-la se enterrar em um mar de tristezas tentando inutilmente camuflar sua dor… — ele parecia angustiado. — eu preciso fazer alguma coisa, me deixe… — foi interrompido.
— CHEGA! — ela tapou os ouvidos, estava cansada de tudo aquilo.
— Luna, você precisa me dizer o que está acontecendo! — Bard segurou seus braços suavemente. — Luna… — balançou-a. — Luna!
— EU ME DEITEI COM ELE! — a elfa explodiu. — ME ENTREGUEI… — sua expressão ganhava um ar de dor e angustia, sentimentos há muito escondidos. — e ele me rejeitou, me humilhou da maneira mais sórdida e imunda que possa imaginar. — logo ela sentiu lágrimas silenciosas rolarem por seu rosto, lágrimas grossas e doloridas. — Agora sinto como se houvesse um buraco em meu coração, algo me consumindo dia e noite. — se apoiou nos braços do arqueiro para não desabar e ele a segurou prontamente, como sempre faria. — Eu queria esquecê-lo, mas, quanto mais tento mais ele se faz presente em mim… — Luna freou um soluço que subia por sua garganta. — e-eu não sei o que fazer. E é por isso que não posso ficar ao seu lado, eu não conseguiria viver de forma que minha desgraça o desonrasse.
A elfa agora o fitava nos olhos, dando-o finalmente o que tanto queria; a verdade. Por um segundo tão longo quanto um milênio, Bard permaneceu estático, sem palavras. Ele não precisava de um nome para saber a quem Luna se referia. Seu peito subia e descia de maneira lenta e, mesmo que seu corpo estivesse visivelmente presente, sua mente parecia se distanciar em pensamentos.
Antes que pudesse voltar a falar algo, Luna — que já estava desesperada pelo silêncio do homem à sua frente — sentiu seu corpo ser colado ao de Bard em um abraço apertado.
— Shii… — ouviu-o chiar contra seu ouvido de forma suave. — não precisa falar mais nada.
— Mas…
— Luna, não! — ele se apressou em dizer, afastando-a apenas para poder fitá-la nos olhos. — Lamento pelo que aconteceu, tanto que não encontro palavras para descrever minha própria ira. — o arqueiro afagou seus cabelos negros como adoração. — Não imagino como alguém seria capaz de magoá-la… não consigo! — rematou antes de beijar sua fronte.
— Não seja tão complacente comigo… — ela pediu.
— Por que não seria? — perguntou e então passou a distribuir beijos por sua face, como se pudesse passá-la algum conforto, como se pudesse curá-la com seus carinhos. — Deixe-me amá-la, deixe-me cuidar de você. Com seu arco e sua espada a todos protege, bela Dama da Floresta. Mas eu posso protegê-la com o meu amor, apenas me dê esta oportunidade. Não vou decepcioná-la!
— Meu querido… — Luna segurou seu rosto entre as mãos e sentiu as lágrimas voltarem a seus olhos. — Entenda que não posso retribuir este belo sentimento, não posso torturá-lo desta maneira!
— Eu não me importo, não me importo! — Bard dizia ao dar de ombros. Ele a apertou ainda mais contra si. — Fique comigo, Luna! Apenas fique aqui e me darei por satisfeito. Entenda você que o meu amor é inevitável para mim, não posso contê-lo. Por favor, fique comigo!
— Eu tenho uma eternidade para ser vivida. Quantos anos lhe restam a partir de agora? Cinquenta? Menos? Um grande golfo separa o meu povo do seu, Bard, e nenhuma ponte pode ser construída para nós. — ela se desprendeu dos braços dele e então se afastou. — Não posso fazer isto com você, não posso fazê-lo sofrer.
Os olhos castanhos esconderam-se debaixo das pálpebras por alguns segundos e então voltaram a fitar a elfa à sua frente.
— Não escolhemos se vamos sofrer ou não, mas podemos escolher aquilo ou aquela pessoa que vai nos fazer sofrer. Desse jeito, até as maiores tristezas valem a pena serem vividas. — o arqueiro fez uma pausa. — A escolha é minha e eu escolhi você, independente do que possa acontecer.
Para isto Luna não teve resposta, apenas vergonha. Como ele poderia devotá-la seu amor quando não era correspondido?
Ela não o merecia.
— Bard…
— É cedo, talvez cedo demais. Porém, eu preciso tentar algo, antes que a veja partir por aqueles portões daqui a alguns dias. Esta pode ser a minha única oportunidade e eu não vou desperdiçá-la. — a elfa franziu o cenho, o que ele estava tentando dizer? — Não a deixarei ir sem que eu tenha arriscado tudo, até mesmo o meu orgulho. — o arqueiro se aproximou e capturou suas mãos. — Luna, case-se comigo!
Continua...
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