I See You
20 Capítulo 20
Notas iniciais
— O que disse? — Luna indagou estupefata.
— Case-se comigo! — o arqueiro repetiu sem se desfazer da convicção em sua alma. — Prometo amá-la e respeitá-la até meu coração parar de bater.
Os olhos azulados da elfa o fitaram descrentes. Bard estava mesmo lhe propondo aquilo?
— Não! — ela o respondeu de imediato, como se tivesse ouvido uma loucura. — Não mancharei sua honra desta maneira, nem que me peça!
— Luna, eu não… — foi interrompido.
— Esta conversa está encerrada! — decretou e então fez menção em caminhar para longe, mas foi impedida de dar qualquer passo quando o homem segurou um de seus pulsos.
— Escute-me, por favor…
— Deixe-me em paz, Bard! — a elfa se desvencilhou de seu toque e correu para o mais longe possível dali.
— LUNA! — ainda o ouviu chamar seu nome. — LUNA!
Ela sabia que o havia magoado com sua recusa, mas era preciso. Não traria Bard para perto de si se isto envolvesse machucá-lo, não o iludiria com a promessa de um futuro amor quando seu interior se via incapaz de comportar tal sentimento.
Seu coração fora partido de forma irremediável, mas ela não partiria o de Bard.
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— Creio ter sido extremamente claro quando disse que não toleraria falhas em nossa segurança, Lórien. — seu tom de voz era cortante.
— Peço perdão, Vossa Majestade. — a elfa fitava o chão fixamente. — Os Orcs estão atacando com mais frequência e em maior quantidade, nossas forças estão se mostrando mais abaladas a cada nova investida do inimigo. Ontem, pela noite, perdi três soldados. Todos protegiam o cerco antes que as criaturas adentrassem os limites da floresta.
Thranduil cruzou as mãos em frente ao rosto, dividindo sua atenção entre a guardiã das fronteiras e Eruwen, que até então havia permanecido em silêncio. Ele ponderou profundamente sobre qual decisão tomar, afinal, não poderia permitir que seu lar fosse violado por tais criaturas e muito menos que vidas de seu povo fossem tiradas.
— Mande Luna e seus soldados retornarem ao reino. Envie um emissário a Dáin para explicá-lo os meus motivos, caso necessário, mas eu a quero aqui antes do anoitecer do dia de amanhã. Entendido?
Lórien e Eruwen se entreolharam.
— Meu senhor, a missão… — a elfa foi interrompida.
— A missão foi encerrada. — o soberano exclamou ao estreitar os olhos ameaçadoramente. – Ego.
Sem dizer nenhuma palavra, ambos fizeram uma reverência e então caminharam para fora da Sala do Trono, sendo contemplados pelo olhar impassível de Thranduil.
Em sua mente, Eruwen não poderia estar mais satisfeito, pois tudo parecia sair exatamente como o planejado. Ele conhecia alguém que se agradaria muitíssimo em saber que Luna logo receberia a ordem de retornar à Floresta das Trevas.
— Vejo que se alegra com o iminente regresso de minha senhora. — o elfo ouviu Lórien exclamar quando ambos já estavam distantes da Sala do Trono.
— Não devo? — ele retrucou enquanto disfarçava a irritação com seu costumeiro sorriso de divertimento.
— Suponho que sim — os olhos esverdeados da guardiã das fronteiras brilharam em desafio. — mas, isto não vem ao caso. — ela deu de ombros.
— Deseja me dizer algo? — Eruwen questionou ao estacionar seus passos e Lórien logo o imitou.
Ela o fitou com atenção e enrijeceu sua postura, tudo sem permitir com que o olhar do loiro a intimidasse.
— Ainda é muito cedo para suposições, eu admito. Talvez seja apenas o meu luto falando mais alto, quem pode saber? — a elfa sorriu tristemente e então assumiu uma expressão de seriedade. — Mas, ainda me pergunto como você não percebeu a aproximação dos Orcs.
— Estava desatento.
— Thorondir e Argalad já estavam fora de nossa proteção, mas a sua falha custou a vida de Gwyan! — Lórien contrapôs entredentes e sentiu um nó em sua garganta. Tentando vencer os sentimentos que cresciam e se tornavam evidentes, ela tratou de se recompor. — Eu não serei responsabilizada por um erro seu.
— Disse-lhe ontem e repetirei; lamento profundamente por Gwyan e também sofro com sua morte. — Eruwen estreitou os olhos. — Contudo, não tomarei a sua dor como razão para me ameaçar.
— Estou apenas avisando. — a atmosfera entre os dois pesava como uma montanha. — Você acha que meus olhos estão fechados para o que está acontecendo? Acha que eu não sinto o cheiro fétido do perigo? — ela contraiu a expressão como se pudesse ler a mente do elfo à sua frente.
— Não sei do que está falando, Lórien. — Eruwen manteve a postura séria e o olhar firme, estando acima de qualquer suspeita. — Não tenho tempo para isso, Luna deve estar aqui amanhã e Sua Majestade não se agradará se não fizermos segundo o ordenado. Dê-me licença. — ele se curvou levemente e então lhe deu as costas.
A partir do momento em que sua expressão já não era visível o loiro permitiu com que sua máscara de seriedade caísse e seu descontentamento entrasse em evidência. Já Lórien, que permanecia fitando suas costas enquanto o mesmo se afastava, mantinha sua desconfiança intacta.
Desde que o rei o enviara à Valfenda, Eruwen já não era o mesmo. Talvez ela estivesse apenas sendo precipitada, contudo, seu raciocínio perspicaz não a deixava parar de pensar que algo estava acontecendo bem debaixo do nariz do soberano da Floresta das Trevas.
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— Hoje tivemos algum problema? — a elfa indagou com rispidez enquanto fitava Argon de maneira gélida.
— Não, minha senhora, nenhum problema iminente. — ele respondeu com a cabeça inclinada.
— Ótimo. Mande Lúthian montar guarda com um grupo de elfos na entrada da cidade, soube que Esgaroth tem sido caminho para muitos Orcs nos últimos tempos e não desejo ter nenhuma surpresa desagradável. — exclamou e então lhe deu as costas.
Luna se dirigia a seus dois conselheiros apenas quando era extremamente necessário, pois a traição ainda feria seu ego. Ela preferiu não tomar nenhuma providência quanto ao ocorrido, não achando certo despejar sua fúria sobre aqueles cuja força não era tão significativa. Afinal, eles não eram os únicos envolvidos e, mesmo magoada, ela era justa.
Assim que saiu da hospedaria dos elfos a chefe da guarda passou a caminhar por entre as ruas de Valle, estas que eram iluminadas pelo sol recém-despontado no horizonte, e muitos habitantes a cumprimentavam cordialmente pelo caminho.
Em sua jornada de treinamentos e batalhas, Luna jamais havia se imaginado acomodada com a vida pacata, simples e feliz dos homens. Ela fitava os semblantes serenos das pessoas a sua volta com curiosidade e atenção, e percebeu que as mesmas sentiam uma paz grande o suficiente para alegrá-las até o fim de seus dias. Mas, por mais que se esforçasse, a elfa não conseguia ter esta calma em si.
Algo em seu coração a incomodava em demasia, como um espinho perfurando sua pele continuamente.
O desejo se torna algo anódino quando saciado, e eu creio que não terei problemas com ele outra vez.
Um sorriso desdenhoso dançou em seus lábios rosados. O som daquela voz pronunciando tais palavras ainda era audível o suficiente para machucá-la, mesmo sendo apenas uma mera lembrança. Sua alma estava cansada de questionamentos e sua razão mais do que nunca zombava de seu coração. Afinal, o que esperar do inverno a não ser o seu frio cortante?
Você não serve para mim, Luna.
— Vejam! — alguém gritou e a trouxe de volta de seus devaneios.
Logo um burburinho foi ouvido e todos os moradores pareciam ter se dirigido para as vias principais da cidade, formando um aglomerado que parecia se formar desde a entrada até o centro de Valle. As pessoas abriam caminho para que ela passasse, de maneira respeitosa, e assim Luna conseguiu se dirigir rapidamente até o núcleo do que acontecia.
Ela não pôde conter a surpresa ao se deparar com Elenor e um pequeno grupo de elfos. O capitão a avistou e, com um singelo sorriso, desceu de sua montaria.
— Suilad, mellon nîn! — a elfa o saudou cordialmente, mas deixou escapar um tom de desconfiança que não passou despercebido pelos olhos negros de Elenor.
— Hîril vuin. — ele se inclinou quando se colocou diante dela. — Trago uma ordem direta de nosso rei.
— Prestad?
— Todos os elfos residentes em Valle devem retornar à Floresta das Trevas, imediatamente.
Os olhos azulados dela o fitaram curiosos.
— O que disse?
— Perdoe-me, minha senhora, mas Sua Majestade tem pressa e deseja que retornem o mais depressa possível. Na verdade, ainda hoje.
— Mas, e a missão em Valle? Nós ainda não terminamos com nosso dever! — Luna já estava irritada.
— Qualquer problema com o Rei Sob a Montanha será resolvido por nosso soberano. Por agora, a senhora tem suas ordens.
A elfa entreabriu os lábios, permitindo com que sua surpresa ficasse em evidência. Todos em volta ouviam com clareza o diálogo dos dois e logo murmúrios se espalharam pela multidão.
— Eles nos abandonarão…
— O rei dos elfos silvestres não tem firmeza em sua palavra, suas promessas de nada valem…
Luna agora estava preocupada.
— Entenda, no momento isso não é possível. Ainda temos coisas a fazer. — ela tentava argumentar. — Não podemos ir embora agora, demos a nossa palavra!
— Não está em minhas mãos. — Elenor disse com a tristeza dos impotentes. Ele não poderia ajudá-la, por mais que desejasse. — A ordem foi dada e a senhora e seus soldados têm até o anoitecer deste dia para estar na Floresta das Trevas.
— Por quais motivos estamos sendo convocados? — Luna quis saber.
— Nossas terras estão sofrendo com uma série de invasões de Orcs, e a situação está se agravando. Muitos dos nossos foram feridos ou mortos e, pela primeira vez em séculos, estamos vulneráveis. Por algum motivo as bestas conseguem se situar, algo impossível para um ser que não seja morador da floresta. Como se conhecessem o território… — ele finalizou perturbado, mas logo recuperou sua postura firme. — todo o apoio é necessário neste momento delicado.
A elfa franziu o cenho, como assim Orcs sabiam andar por entre a floresta?
— Isto não é normal…
— Por este motivo devem retornar, temos que reforçar a guarda e metade de nossos soldados estão aqui. — o loiro ressaltou e logo se pôs a caminhar no encalço de Luna quando esta o deu as costas e começou a marchar para longe. — Minha senhora!
— Já disse e não retrocederei com minha palavra. — ela estagnou e se voltou para o elfo. — Temos uma missão em Valle e não retornaremos a Floresta das Trevas até que a tenhamos finalizado, diga isto a seu rei.
— Não posso voltar com tais notícias! — Elenor rebateu impaciente. — Luna, por favor!
— Minha decisão já está tomada, e se isto não o agradar que ele venha pessoalmente dar sua maldita ordem. — a voz do povo soou em apoio à afirmação da elfa. — Mais alguma coisa?
Os olhos negros de Elenor a fitaram com surpresa.
— Vejo que está decidida. — ele suspirou e fez uma pausa. — Reportarei as notícias a Sua Majestade.
A chefe da guarda assentiu em concordância.
— Fico satisfeita. — o capitão curvou a cabeça, pronto para se retirar, mas deteve-se após ouvi-la indagá-lo: — Elenor, e Annchir? Alguma notícia de meu irmão? — havia esperança em sua voz.
O elfo lhe dirigiu um olhar de compaixão e então acenou negativamente com a cabeça.
— Não tivemos notícias dele, absolutamente nada.
A esperança que Luna ainda nutria em seu coração desapareceu de uma vez ao escutar tais palavras.
— O que está acontecendo? — ela ouviu uma voz vinda do meio da multidão. — O que eles fazem aqui? — Elros indagou ao se colocar ao lado da elfa e, não muito distante, Bard o acompanhava.
— Mestre Elros, este é Elenor, filho de Eruvadhor e um dos capitães do exército dos elfos da Floresta das Trevas.
— Me alegro em conhecê-lo, meu amigo. — o loiro o saudou.
— Não sou seu amigo, elfo! — Elros retrucou com rispidez. — O que eles fazem aqui? — repetiu a pergunta.
— Apenas uma pequena visita. — Luna o respondeu sem se importar com a expressão de Elenor. — Na verdade, ele e seu grupo já estão de partida.
O capitão a fitou de esguelha e preferiu não discordar daquela ordem camuflada.
— Sim, estamos. — ele fez uma leve reverência a Bard e Elros, mas logo se voltou para Luna. — Não preciso avisá-la das possíveis consequências desta sua atitude, mas, reforço o alerta dizendo que a senhora pode estar cometendo um erro grave ao afrontar nosso rei. — sussurrou em sua direção na tentativa de persuadi-la e assim evitar o pior.
A elfa o assistiu caminhar para longe, montar em seu cavalo e então seguir o caminho de volta à Floresta das Trevas.
— Devemos nos preocupar? — Elros indagou com curiosidade.
Luna permitiu com que suas íris azuladas contemplassem o caminho tomado por seu conterrâneos.
— Devemos — ela redirecionou sua atenção para o homem. — mas não vamos. Se Thranduil não cumpre suas promessas não é problema meu, tudo o que sei é que eu cumpro com as minhas. E não sairei de Valle até que tenha finalizado esta missão.
— Espero que saiba onde está se metendo. — Bard proferiu em um tom baixo antes de sair dali e Luna apenas o acompanhou com o olhar.
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Elenor avistou a porta majestosa e se preparou para o que estava por vir, pois algo em seu interior o dizia que aquilo não terminaria bem. Após respirar profundamente, ele a abriu e se deparou com as costas de seu senhor, este que estava concentrado observando o mapa colocado sobre a enorme mesa no centro do recinto.
— Você veio sozinho. — a voz impactante de Thranduil ecoou pelas paredes da biblioteca real. Seus olhos continuavam vidrados no gigantesco papel que continha cada detalhe do território dos elfos silvestres e, ainda assim, ele percebeu que faltava alguém. — Onde está Luna?
Elenor cruzou as mãos atrás das costas e suspirou.
— Minha senhora não virá. — ele disse de uma vez e o silêncio tomou conta do recinto. — Está decidida a permanecer na cidade dos homens até o fim da missão, independente do vosso ordenado.
O rei se voltou lentamente para o capitão e o fitou de forma penetrante.
— O que mais?
— Meu senhor… — Elenor foi interrompido.
— O que ela disse? — Thranduil soou ameaçador.
O elfo meneou a cabeça e se sentiu encurralado. Ele queria ajudar Luna, mas, mentir não era uma opção.
— A dama foi inflexível, apesar de meus protestos. Ela disse que se a resposta não o agradasse… — hesitou. — o senhor poderia ir pessoalmente dar a sua ordem.
Um sorriso mínimo e debochado dançou no canto dos lábios de Thranduil.
— Pois bem. — ele fez uma pausa. — Prepare-me uma montaria e todos os meus soldados. Se Luna não vem até mim por uma ordem, vou fazê-la retornar a força.
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