I See You
4 Capítulo 4
Notas iniciais
— Como deve ser o mundo lá fora, longe da Floresta das Trevas? — ouviu o amigo questionar.
Estavam os dois na copa de uma das árvores, acima da escuridão que emoldurava o interior da floresta, onde o vento batia e o sol podia ser visto livremente.
— Eu não sei. — fez uma pausa. — Diferente, com mais aventuras… — sugeriu pensativa.
— Mas você já saiu, Luna. Diga-me, como é? — insistiu ele com um meio sorriso.
— Não vi muito. Aonde fui ainda fica nos limites da floresta, então não posso considerar isso uma verdadeira expedição. — a elfa o respondeu em tom cômico.
Eruwen riu levemente com o comentário, assentindo em concordância.
— Confesso que mesmo amando meu lar tenho curiosidade em conhecer outros lugares… outras possibilidades. — o elfo fitava o horizonte.
— E o que o prende aqui? — ela questionou. — Não pode viver a eternidade desta maneira, reprimindo seus desejos.
Ele a fitou com profundidade.
— É difícil — suspirou. — muito difícil de explicar.
A elfa sorriu calidamente e então assentiu, passando a fitar o horizonte e apreciando a beleza do pôr do sol.
— Luna — Eruwen chamou-a com a voz rouca. — você viria comigo?
Seus olhos azuis se fixaram nas íris cor de mel dele.
— Como assim?
— Partir — apontou para além do horizonte. — para algum lugar com aventuras, e bem longe daqui… — fez uma pausa. — só você e eu.
A elfa se surpreendeu um pouco, Eruwen nunca lhe fizera tal proposta. O fato era que, de certa forma, ela se sentia tentada.
— Partir? — repetiu enquanto ponderava. — Mas, e nosso povo? Nosso rei?
O loiro riu.
— Ficarão bem… — respondeu tentando tranquilizá-la.
Luna ergueu os cantos dos lábios em um sorriso triste.
— Sim… acho que Sua Majestade não se oporá sobre minha partida. — exclamou fitando-o nos olhos. — É bem capaz que dê uma festa em seu reino para comemorar. — foi sarcástica.
— Como assim?
— Ele não me aceita, não me aprova. Ainda me pergunto qual seria o motivo para não me colocar na liderança das fronteiras outra vez e sair a escolha de um novo chefe para sua guarda. — Luna desabafou ao mesmo tempo em que respirava fundo. — Creio que ele deve ter razão, talvez eu não esteja preparada. Talvez Tauriel tenha se enganado.
— Não se menospreze! — Eruwen a repreendeu ao tocar seu o rosto com delicadeza, fitando cada traço de suas belas feições. — É mais preciosa do que imagina, Luna!
Ela sorriu e sentiu-se corar.
— Precisamos ir, já se passam dois dias. Somos esperados nos portões. — disse calmamente. — Merida e Aranir já devem estar se dirigindo para lá.
Ele a fitou um pouco e acabou por apenas assentir.
Ambos desceram das árvores, seguindo em direção aos portões do palácio. O elfo seguia atrás de Luna enquanto caminhavam.
— Você ainda não me respondeu… — ele cortou o silêncio.
— Não respondi o quê?
— Se iria embora comigo. — Luna parou abruptamente, sem se virar para fitá-lo, mas logo continuou a caminhar.
— Mesmo com toda arrogância de nosso rei, confesso que é contra meus princípios abandoná-lo de forma tão desleal — olhou-o por cima dos ombros. — mas, prometo pensar.
Eruwen conteve um sorriso de satisfação. Desta vez, eles seguiram o resto do caminho em silêncio absoluto.
.o0o.
— Então…?
— O leste está limpo, minha dama, nenhuma daquelas criaturas grotescas escapou. — respondeu Elenor, tomando a dianteira.
— E os ninhos foram queimados. — completou Nathrini.
— Lórien?
— O norte também se encontra limpo, senhora, não teremos mais problemas naquela região. — disse a elfa, sempre séria demais.
Luna assentiu e se voltou para o irmão, que a fitava indiferente.
— Annchir?
— Matamos todas que encontramos pelo caminho. Algumas fugiram para longe de nossas fronteiras para não mais voltar, minha senhora. — suas últimas palavras soaram em um tom sarcástico que Luna resolveu ignorar.
— As ordens eram para que fossem exterminadas, Annchir, não para que as deixasse fugir. — repreendeu Lórien, acenando com a cabeça em negativo.
— Exatamente. — concordou Eruwen. — Elas podem voltar e infestar nossas terras outra vez!
— Se voltarem vocês dois podem resolver o problema, já que se incomodam tanto. — rebateu o irmão de Luna, com um sorriso irônico.
Lórien deu um passo à frente, sendo barrada por um dos braços de Nathrini.
— Chega! — ordenou a chefe da guarda, em tom autoritário. — Pensei ter sido clara, meu irmão.
— Desculpe se não sou tão perfeito quanto você, Luna. — Annchir cuspiu as palavras. — Tenho certeza que cumpriu com a tarefa com sucesso.
Luna respirou profundamente.
— Essas ordens foram dadas diretamente pelo rei, Annchir — iniciou ela, tentando manter a calma. — essa missão deveria ter sido encerrada rapidamente.
— E o que faremos? — indagou Elenor, este que se manteve inalterado durante toda a discussão.
— Não podemos esperar para ver o que vai acontecer, há uma grande possibilidade de que as aranhas voltem. — Eruwen se pronunciou.
Todos, menos Annchir, assentiram.
— Mande alguns de nós, seguiremos seus rastros e as aniquilaremos. — sugeriu Nathrini.
— Então, que assim seja. — disse Luna, vendo o irmão revirar os olhos. — Elenor e Nathrini, juntem seu grupo com Annchir e o dele e cumpram esta tarefa.
— Luna… — o mais novo dos dois irmãos tentou se pronunciar, menos azedo desta vez.
— Chega! — ela o interrompeu. — Estou cansada de discussões. Se não me respeita como irmã ao menos me respeite como sua superior e obedeça, sem objeções, as minhas ordens. Entendeu bem?
Os olhos do elfo faiscavam, mas ele não protestou.
— Sim, minha senhora. — curvou a cabeça.
Ela voltou-se para os dois líderes.
— Sejam rápidos, Sua Majestade não se agradará se prolongarmos mais esta situação. Podem ir. — todos assentiram e se retiraram.
— E nós, minha senhora? — questionou Aranir.
— Podem voltar para suas funções, estão dispensados.
Os elfos dispersaram e Luna seguiu para dentro do palácio. Mais tarde iria à presença de Thranduil.
.o0o.
Ela seguiu o caminho por entre as grandes colunas, subindo por uma imensa escadaria que a levaria até o local da armaria do exército, e também lugar de descanso para os guerreiros. Caminhou um pouco, passando por alguns cômodos, até chegar ao seu. Luna abriu a porta, adentrou o recinto e fechou-a atrás de si para então trancá-la.
Finalmente.
Há mais de quatro dias não pisava no seu amado lugar de descanso. Não era de sua natureza se cansar com facilidade, mas sua mente estava exausta.
Luna caminhou em direção a uma mesa, no canto do cômodo, e depositou suas armas ali — sentindo-se mais leve no mesmo momento. Ela retirou as botas e o resto da vestimenta e, com cuidado, desprendeu alguns utensílios de seus longos cabelos, deixando suas madeixas negras caírem como cascata por suas costas nuas.
Depois de completamente despida e de ter seus cabelos soltos, ela seguiu em direção à cama e se deitou relaxadamente. Seus olhos estavam fixos no teto.
Sua tranquilidade aguçou seus sentidos e Luna se sentiu observada. Sensação esta que a fez olhar o local sem se mover, mas não captou nenhuma presença no recinto. Ela estava completamente sozinha e, mesmo assim, sentia que alguém a fitava. E o poder do olhar parecia cortante o suficiente para fazer com que um arrepio subisse por sua espinha e eriçasse os pelos de seus braços.
Tentando manter tais pensamentos alucinógenos longe, a elfa fechou os olhos e respirou tão calmamente que mau se podia ouvir o som do ar entrando e saindo de suas narinas.
Perdida na imensidão de sua mente, ela deixou-se vagar pelas lembranças dos últimos acontecimentos. Lembrou-se de sua ida à Dol Guldur e da experiência. Com toda certeza, não gostaria de ir até lá outra vez. Nem mesmo o Mago Cinzento parecia se sentir confortável naquele lugar amaldiçoado, ela menos ainda.
A irmã de Annchir vagou para mais distante, vendo imagens de seu irmão gêmeo e as brigas que agora eram constantes. No fundo, Luna se arrependeu de muitas de suas palavras. Ela era a mais velha e deveria tentar entendê-lo, ajudá-lo, e não atiçá-lo mais. Temia por seu futuro e o do irmão, afinal, ele era a única família que ela tinha.
Não se prendendo muito a lembranças ruins, a chefe da guarda foi ainda mais longe e deparou-se, inesperadamente, com o olhar frio e arrogante de seu rei.
Luna abriu os olhos e se pôs sentada no mesmo instante, assustada. Ela balançou a cabeça, tentando afastar a imagem que tanto a intimidava, interrogava… sua pulsação havia acelerado e, em sua testa, minúsculas gotículas de suor se formaram. A elfa ergueu uma de suas mãos e passou-a suavemente no local, fazendo uma expressão de total confusão ao ver a resposta de seu corpo a mera lembrança.
Com toda certeza, aquilo não era comum.
Os olhos azuis de seu senhor não eram tão claros quantos os seus, porém, eram mais profundos e intensos. Olhos tão frios e sem vida, carregados de mágoa e impregnados de arrogância.
Sim…
Olhos que tantas vezes a fitaram com superioridade, demonstrando suas diferenças. Olhos que ela certamente não suportava, mas que a hipnotizavam como a luz do luar.
Amarga contradição acompanhada da cruel indecisão.
Ela varreu mais uma vez o local com o olhar, já cheia de angústia. Não parava de sentir-se observada e as lembranças dos olhos de seu rei não a ajudavam em nada. Com as mãos, Luna cobriu os seios em um ato de preservação e vergonha, sentindo o rosto esquentar e já sabendo estar corada. Voltou a se deitar, mas agora se cobriu com o lençol fino.
A elfa se concentrou em seu trabalho e em como reagruparia a guarda, agora sob sua jurisdição, afastando todo e qualquer pensamento sobre seu soberano. Ela não era tola e não se permitiria seguir adiante com tais pensamentos, afinal, ele estava muito acima dela ou de qualquer elfo naquele reino.
.o0o.
— Indo a algum lugar? — ouviu uma voz indagar enquanto descia a escadaria.
— Na verdade, sim. — respondeu sem fazer parada e logo viu que Eruwen se pôs a segui-la.
— Vim questionar sobre o reagrupamento da guarda e a escolha dos líderes. — ele iniciou com calma. — Os soldados querem saber o que devem fazer.
Luna fitou-o rapidamente.
— Resolverei sobre o reagrupamento da guarda em outro momento, mas deixei minha escalação de líderes explícita na convocação para o extermínio das aranhas. Manterei Elenor e Nathrini, por serem os capitães mais experientes do reino. Também quero Annchir junto de mim, ele é um bom soldado, e também meu irmão, merece reconhecimento por sua habilidade de estrategista. — ele a fitou confuso.
— Tem certeza?
— Absoluta! — respondeu inflexível. — Para me substituir como guardiã das fronteiras eu escolho Lórien. — ela parou um instante, sendo acompanhada por Eruwen. — E para ser o meu braço direito eu escolho você. — o elfo assumiu uma expressão de surpresa que a fez sorrir. — Bem-vindo a Ordem dos Líderes, meu amigo.
Eruwen sorriu junto com ela e a fitou nos olhos.
— Que assim seja. — disse ao inclinar a cabeça e sendo correspondido. — Está indo ao encontro do rei?
— Vou contá-lo sobre o resultado de nossa missão… — ela exclamou em um tom mais baixo.
— Não acha melhor esperar os outros voltarem? — Luna ponderou. — Sua Majestade não se agradará do rumo da missão se você contar o que aconteceu, mesmo por culpa de Annchir. Dado as circunstâncias, é em você que ele descontará seu descontentamento. — seu tom de voz era de advertência.
— É mais prudente acabar com isso de uma vez, Eruwen! — ela retrucou.
— Não seja afoita. Ele não lhe deu um prazo, deu? — a elfa balançou a cabeça em negativo. — Espere até o nascer do sol de amanhã e, antes que ele se deite outra vez, tudo estará resolvido. Assim você poderá falar com Sua majestade, de maneira que o mesmo não tenha motivos para repreendê-la.
Os olhos azuis da elfa fitaram o chão por alguns segundos enquanto ela se decidia. Talvez Eruwen tivesse razão, talvez a melhor alternativa fosse esperar. Ela ergueu-os outra vez, fitando o amigo diretamente.
— Tem razão, é melhor esperarmos. — o elfo sorriu em resposta. — Não piorará as coisas.
— Certamente que não! — ele entreabriu os lábios, como se lembrasse de algo, e segurou inesperadamente uma das mãos de Luna. — Tem algo que preciso lhe mostrar!
Sem dizer mais nenhuma palavra, Eruwen saiu andando, ainda segurando uma das mãos da elfa que o fitava em um misto de confusão e diversão.
— Aonde vamos? — questionou contendo o riso.
— Logo verá! — seus olhos cor de mel brilhavam e um sorriso bailava em seus lábios.
.o0o.
Os olhos de Luna se deslumbravam com a esplendorosa visão da luz do luar enquanto se debruçava à sacada da janela, com Eruwen ao seu lado. Estavam em uma parte menos circulada do grande reino, em um dos poucos pontos altos da morada dos elfos silvestres.
— Escondidos dentro deste palácio, esta é uma visão verdadeiramente rara! — comentou o elfo com a voz aveludada. — Quando me aventurar pelo mundo não se passará uma noite sem que me sente em um lugar qualquer, apenas para admirá-la brilhar soberana na escuridão da noite enquanto permanece na companhia das estrelas.
Luna sorriu levemente.
— É um belo futuro… — respondeu ainda fitando a beleza do astro. — pretende antecipá-lo?
Eruwen suspirou, o que chamou sua atenção.
— Já disse, é difícil. — proferiu enquanto baixava o olhar para logo voltar a erguê-lo.
— Não entendo… — a elfa balançou a cabeça. — você fala em liberdade, mas não tem coragem para lutar por ela.
— A questão não é liberdade — ele argumentou. — isso vai muito além do que eu quero, Luna!
— Como assim? — questionou já cansada de todas as voltas do amigo.
— Eu quero que você venha comigo! — o som de suas palavras ecoou pelo recinto e foi impactante.
Os lábios finos e rosados da elfa se entreabriram e seus olhos brilharam pela confusão em sua mente.
— O quê? — foi o máximo que ela conseguiu dizer.
— Lhe fiz esta mesma proposta hoje mais cedo, lembra?
— Sim, mas… não pensei que estivesse falando sério! — respondeu aflita enquanto passava uma das mãos no rosto.
— Pense em uma vida de liberdade, Luna! Sem ter de seguir ordens, patrulhas todos os dias, responsabilidades… — seu tom de voz era de entusiasmo. — longe desta floresta e de seus moradores!
— Mas, e Annchir?
— Ele não parece retribuir todo o amor que você o dirige! — Eruwen já estava irritado, e em tom de desistência exclamou: — Esqueça.
O loiro fez menção em se retirar mas foi impedido pela elfa.
— Nós temos tudo aqui!
— E ao mesmo tempo nada!
— Não seja ingrato, Eruwen! — repreendeu-o. — Como quer viver aventuras tendo em vista os perigos que o seu próprio povo enfrenta!
— Você não viria, não é? — fez-se um silêncio no lugar, um silêncio profundo e incômodo.
Os dois se fitavam nos olhos.
— Eu tenho deveres aqui, tenho um irmão… — iniciou ela. — mas, assim como você, desejo ir além de nossas fronteiras e conhecer o mundo que existe além dela. Um dia. — Luna fez uma pausa e respirou fundo. — Tudo tem o seu tempo, e o meu ainda não chegou. — finalizou inflexível.
Eruwen aproximou seu rosto do dela e aquilo a fez recuar, mas ele segurou seus dois braços e a manteve perto de si.
— Continue repetindo essas palavras e nunca verá beleza maior do que a do pico das árvores da floresta ou sons diferentes do resmungar de Annchir. — ele exclamou calmamente, mas com uma pontada de acidez. Os dois permaneceram em silêncio, em uma batalha de olhares.
Os olhos de mel, que antes fitavam os de Luna, desceram lentamente por sua face até chegarem a seus lábios. O ambiente estava tenso e a elfa já imaginava o que o loiro pretendia.
— Atrapalho? — o som grave e frio da voz do rei ecoou pelo recinto e Eruwen teve um sobressalto. Então, ele se afastou de Luna tão rápido quanto se aproximou.
Continua...
Fale com o autor