I See You

34 Capítulo 34


Notas iniciais
Amorecos! >3>

No princípio o Ser Supremo, chamado Eru Ilúvatar, vivia sozinho nas Mansões Eternas de Eä. Até que, de seu pensamento, ele criou os Ainur, para serem sua companhia. — o elfo iniciou. Ele e sua filha estavam na copa de umadas grandes árvores da Floresta das Trevas, observando o sol se deitar no horizonte. — Os Ainur cantavam sozinhos ou em pequenos grupos, pois, de início, só compreendiam a parte da mente de Eru da qual haviam sido criados. Mas, eles passaram a compreender uns aos outros e se tornaram mais harmoniosos, então, Eru reuniu todos diante de si e propôs um tema.

Tema? — ela o fitou com curiosidade. — Com assim, ada?

Eles deveriam ornamentar este tema fazendo uma música, assim criaram Ainulindalë, a Música dos Ainur. — a criança parecia hipnotizada pelo que ouvia. — Contudo, o mais poderoso entre eles, chamado Melkor, provocou uma dissonância.

Mas, ada, Manwë é o mais poderoso dos Ainur! — ela se lembrou do que sua mãe lhe contara.

— De certo, minha filha. Entretanto, no início de todas as coisas este título pertencia a Melkor. — o elfo esclareceu calmamente. — Ele provocou uma dissonância, pois almejava fazer uma música própria, e alguns dos Ainur próximos de si começaram a se desviar do propósito inicial de Eru. Vendo aquilo, o Único se levantou de seu trono, ergueu sua mão esquerda com autoridade e sugeriu um novo tema.

Ada, Ilúvatar não se zangou com Melkor? — o mais velho sorriu, estando contente pelo interesse de sua filha.

Ainda não, contudo, o Ainu novamente entrou em dissonância com a música e aquilo transformou a expressão de Eru em uma visão severa. Este, após um longo tempo, ergueu sua mão direita e assim um terceiro tema surgiu. — os olhos azulados da criança o fitaram assustados. — Mas, apesar da clemência de Ilúvatar, a composição fútil de Melkor ainda persistia. E com uma expressão terrível, o Ser Supremo se levantou de seu trono, ergueu as duas mãos e a música cessou. — ele acrescentava um ar de mistério e suspense à narração, gesticulando com as mãos e mantendo sua expressão soturna somente para impressioná-la.

O que aconteceu? — a elfa indagou com espanto.

Para mostrar a Melkor que nenhuma música seria tocada sem ter Nele próprio a fonte mais remota, Eru desnudou diante dos Ainur a visão que, ornamentando seus temas, eles haviam criado ao cantarem. — o elfo lhe mostrou uma maçã e a ergueu até a altura de seus olhos. — Então, eles viram um globo dentro do Vazio, viram Arda, e ela era linda. Também viram os esplendorosos Filhos de Ilúvatar — tocou o rosto da menina e o ergueu levemente pelo queixo. — e Eru fez com que toda aquela visão se tornasse realidade dizendo “Eä! Que essas coisas existam!” — ele findou e mordeu a fruta, mastigando-a tranquilamente.

Tudo se tornou real, ada? — ela estava surpresa, e aquilo o fez sorrir entre as mastigadas.

Sim, sim! Alguns dos Ainur se enamoraram por Arda e puderam descer para cá, pois a visão ainda não era plenamente concreta e esta seria a sua missão; preparar o lugar para os que aqui despertariam. — o elfo fitou o céu rapidamente e então redirecionou seus olhos para a menor. — Desses espíritos que desceram para Arda, os mais poderosos foram chamados de Valar e os menos poderosos de Maiar.

Os Valar se tornaram os senhores de Arda? E Eru, ele permitiu? Ada, ada! — ela chamava freneticamente. — E Melkor, ele era um Valar?

As íris dele brilhavam pela euforia de sua filha, era quase impossível conter o seu espírito curioso.

Ei, calminha… — o mais velho riu com divertimento. — sim, os Valar passaram a governar Arda. Melkor era um deles, pois desceu junto, mas ele cobiçava o mundo em seu coração. E esse foi o início de Arda e da história dos Valar como seus governantes. — ele fez uma longa pausa para se deleitar com a impaciência da criança a seu lado, voltando a observar a paisagem e a apreciar a fruta em sua mão.

Ada! — ela exclamou e o mais velho gargalhou. Foi impossível para a pequena elfa não acompanhá-lo em sua risada, mas logo voltaram a conversar. — E quanto a nós, os quendi, quando fomos criados?

Estava esperando esta pergunta. — ele admitiu com o olhar altivo, porém, com resquícios de sua diversão. — Dizem que no momento em que Varda encerrou seus trabalhos e, acredite, eles foram demorados — ressaltou com seriedade. — Menelmacar foi subindo pelo céu e a chama azul de Helluin cintilou nas névoas acima dos limites do mundo… — sua voz tornava-se suave, como se ele assistisse o momento que narrava, contagiando o espírito jovem que o ouvia. — nessa hora os Filhos da Terra despertaram, os Primogênitos de Ilúvatar.

A criança esperou mais um tempo, observando seu pai morder e mastigar tranquilamente a maçã em sua mão. Ele a fitou pelo canto do olho, como se adivinhasse o que ela queria lhe perguntar, e quase gargalhou pela indisfarçada inquietação de sua filha mais velha.

E Melkor, o que aconteceu com ele? — finalmente indagou.

O elfo molhou os lábios, ponderou e, após um longo e profundo suspiro, respondeu:

Por sua rebelião contra Eru Ilúvatar e seus irmãos, ele se tornou o Inimigo do Mundo e o Primeiro Senhor do Escuro, deixando sua condição de Vala. De Melkor passou a ser chamado Morgoth Bauglir — ele contraiu a face. Aquele não era um nome que costumavam pronunciar. — e declarou guerras contra os Valar ao extinguir as luzes do mundo, destruindo as Grandes Lâmpadas e as Árvores de Valinor.

Telperion e Laurelin!

Sim. — ele respirou profundamente, em uma pausa longa e pesarosa. Era uma tristeza para os Primogênitos relembrar as tantas desgraças causadas por Morgoth e, posteriormente, por seu servo. — Ele tentava, de todas as formas possíveis, roubar para si tudo que pudesse ver e quando não conseguia deformava ou destruía, tomado de inveja. Usava seus poderes e conhecimentos para seus fins, esbanjava força, violência e tirania, pois cobiçava Arda e tudo que nela houvesse. — desligando-se de sua narração, o elfo fixou suas íris azuladas nas de sua filha, que o fitava chorosa. — Minha Luna, qual o problema? — indagou suavemente.

A criança fungou, sendo amparada pelos braços de seu pai.

Ada, por quê? Melkor tinha tudo. O amor de Eru Ilúvatar e seus irmãos não era suficiente? — ela soou triste e inconformada.

Ah, minha querida… — Orodreth ponderou alguns instantes antes de respondê-la. — quando o coração está tomado pela escuridão, nem mesmo o mais forte e sincero dos amores pode salvá-lo. — ele acariciou seu rosto alvo e de bochechas levemente rosadas, tentando consolá-la. — Nenhum dos Valar poderia fazer as escolhas que cabiam à Morgoth. Ele decidiu o próprio caminho e dele teve de prestar conta.

Como assim?

Durante a Guerra da Ira seus poderes foram destruídos e ele foi expulso para além das Muralhas do Mundo. Morará para sempre no Eterno Vazio, onde é vigiado, e não poderá sair enquanto existirem os Valar ou enquanto não chegar a hora da Batalha Final.

Ada, que terrível! — Luna lamentou com compaixão. — Ilúvatar nunca o perdoará?

Os atos de Morgoth são imperdoáveis, minha pequena.

Mas, ele é e sempre será um dos Ainur, criado por Eru. — ela insistiu. — Por que não haveria de merecer clemência?

Orodreth suspirou.

Porque Eru Ilúvatar e os Valar amam Arda de maneira imensurável para deixá-la a mercê da maldade de Morgoth. — ele explicou pacientemente. — E, acima de tudo, prezam por nossa segurança. — se inclinou levemente para fitá-la nos olhos. — Luna, o mal nunca deve prevalecer, esteja ciente disto. Como futura guerreira de nosso reino deve sempre seguir o exemplo dos Valar; coloque o seu povo, a vida e a paz acima de tudo e de todos. Você entende, minha filha?

As íris de ambos, perfeitamente iguais, se fitaram por um longo tempo. A criança ainda não compreendia totalmente, mas assentiu da mesma forma.

Sim, ada…

Luna sentiu um movimento estranho de seu cavalo e logo foi sugada para a realidade, retornando de suas lembranças.

A trilha que levava até a fronteira noroeste tinha como cor predominante o dourado, por conta das armaduras resplandecentes dos soldados élficos estes que marchavam com uma impecabilidade admirável. O silêncio cortante só era quebrado pelo som de seus passos pesados, e os capacetes brilhantes e minuciosamente trabalhados escondiam seus semblantes soturnos.

Luna sentiu dor por cada um deles.

Pensar que nem todos retornariam, e tudo por conta da insensatez e cegueira de seu irmão, era sufocante. Se ela ao menos pudesse privar todos eles daquele destino cruel, certamente o faria. Contudo, a elfa sabia em seu interior que não havia relutância ou medo ali, todos estavam dispostos a darem suas vidas uns pelos outros e pelo reino. E aquilo a enchia de esperança, assim como a enchia de pesar.

Os guerreiros cumpririam com o dever que lhes cabia, e ela teria de cumprir com o seu.

Luna havia compreendido o olhar que Mithrandir a lançara quando estavam em Erebor. Chegaria o momento em que ela deveria fazer uma escolha; a razão ou a emoção? A dúvida a massacrava, então, a memória de seu pai e de seus incontáveis conselhos retornou a sua mente. Ele a relembrava, mesmo após a morte, das suas duras obrigações.

— Minha senhora? Luna ouviu a voz de Elenor chamá-la quando este trouxe seu cavalo para perto da elfa, interrompendo seus pensamentos. Algum problema?

A chefe da guarda o observou com atenção, fixando seus olhos nas íris ônix do loiro e vendo a explícita preocupação em seu semblante. Ela respirou fundo, meneou a cabeça e então voltou seu olhar para a frente.

— Eu travaria esta batalha sozinha se pudesse, sem arriscar a vida de nenhum de vocês. exclamou enquanto analisava as costas de Thranduil. Ele estava consideravelmente distante, cavalgando à frente do exército, e Legolas estava a seu lado.

— Soube que não fez menção em visitar Eruwen. — Elenor comentou.

— Não há nada que eu deseje dialogar com ele a elfa respirou fundo. — mas confesso que ainda me pergunto quando tudo mudou. Lembro, como se fosse hoje, das horas que passávamos conversando sobre nossa vontade em conhecer o mundo além das fronteiras, de viver sem nossas responsabilidades… — ela meneou a cabeça.

— Acho que todos nós nos perdemos no meio do caminho, por algum motivo. o elfo iniciou calmamente. Uns conseguem encontrar a direção certa com mais facilidade do que outros, mas há quem não tenha êxito e é enredado pelos laços da escuridão que cobre este mundo. Acredito que foi o caso de Eruwen.

— Então, isto torna tudo circunstancial? Não, meu amigo… todos temos a luz e as trevas dentro de nós, o que nos define é o lado com o qual escolhemos agir.

— Muito sábio de sua parte.

Luna franziu o cenho de maneira imperceptível.

Ela, sábia? Muito difícil de ser associada a um termo como aquele, mas, talvez realmente o fosse em certos momentos, isso quando não se tratava de Thranduil.

— Sua Majestade não deseja sua presença nesta batalha, e eu também devo concordar, Annchir fará o possível e impossível para atingi-la. Isto torna as estratégias em campo dele explicitamente motivadas pelo emocional, inconstantes e dificílimas de serem previstas. a elfa revirou os olhos, entendendo o verdadeiro motivo da aproximação do capitão.

— Não se preocupe, meu amigo. Cuidarei para que isso não represente perigo para nós ou nossos aliados. Luna tratou de dizer, irritada com o fato de Thranduil querer afastá-la da batalha a todo custo. Ele certamente havia enviado Elenor para convencê-la. Se meu irmão armou toda esta situação por minha causa, creio que só se contentará quando estivermos frente a frente.

— E se acabassem em uma situação decisiva, a senhora seria capaz de pará-lo se tivesse a chance? a pergunta foi fatal, mas não mal-intencionada. Ou o seu amor falaria mais alto?

Luna sentiu um nó em sua garganta, porém, ela decidiu responder aquilo que seu pai aprovaria, aquilo que sabia ser o certo.

— Eu tenho conhecimento de meus deveres e eles são absolutos para mim. a elfa manteve sua áurea altiva, ainda que tudo não passasse de uma máscara para esconder seu desespero. Diga a Sua Majestade que irei a esta batalha para fazer o que tenho que fazer. como se sentisse sua menção, já que não poderia escutá-la com a enorme distância que os separava, Thranduil puxou as rédeas de seu cavalo e o voltou para trás.

O rei fitou toda a extensão de seu exército para, enfim, repousar seus olhos sobre Luna no final dele. Por sua vez, ela não conseguia perceber nada além de sua figura longínqua voltada para trás, mas podia sentir seus olhos de inverno pesarem sobre si.

— Com sua licença, minha dama. Elenor se despediu cordialmente, agitando as rédeas de Baranon e partindo para perto de seu soberano.

Ela voltou a suspirar, sem desfazer o contato visual com o rei. Aquele minúsculo momento foi tão forte e significativo que nem mesmo a distância o aplacou. Suas mãos suaram e ela se viu obrigada a baixar o olhar, temendo que ele enxergasse todos os seus receios.

Não é hora Luna, não é hora.

.o0o.

Ele observava os campos à frente com atenção, sentindo uma brisa refrescante soprar sobre si enquanto o sol se deitava no horizonte.

— Eu não vejo nenhum movimento. Legolas exclamou quando se colocou ao lado de seu pai. Sua expressão era séria e, em parte, ansiosa.

O silêncio reinava absoluto entre os soldados, pois todos se encontravam atentos e preparados para o que estava por vir. Eles não sabiam quanto tempo a espera duraria, contudo, permaneceriam ali, de guarda, o quanto fosse necessário. O reino não seria atingido, e nenhum Orc destruiria o lar dos elfos silvestres outra vez.

Thranduil se permitiu fitar sua chefe da guarda, esta que se encontrava a leste do extenso exército, e ela estava tão concentrada no horizonte quanto qualquer um. Fitando-a daquela forma, seus pensamentos só conseguiam dizê-lo para rodeá-la com uma tropa e mandá-la de volta para o palácio…

— Eu tomarei conta dela. — Legolas exclamou em tom de compreensão, como se lesse seus pensamentos, e assim o rei voltou os olhos para a frente.

— Luna não precisa que se dê ao trabalho.

— Então, por que ainda assim se preocupa? — Thranduil suspirou ao ouvir aquilo. Apesar da evidente sutileza, ele havia entendido o real sentido na pergunta do príncipe. Legolas sorriu gentilmente. — Não precisa responder, eu sei.

— Não me venha com suas errôneas conclusões agora, criança. — proferiu com rispidez ao assumir uma postura intimidante. — Eu não estou disposto a debater sobre aquilo que você pensa saber.

— Pai. — o mais novo o repreendeu, ainda que não estivesse desprovido de sua paciência. — Eu poderia enumerar as várias situações que me fazem acreditar firmemente nas minhas errôneas conclusões. — foi a vez de Legolas respirar fundo. — Compreendo que não é de seu desejo que isto se torne público, o que justifica suas reações negativas quanto ao que sei sobre o que se passa entre vocês dois, mesmo que ambos neguem.

— Isto é insignificante neste momento.

— O fato de futuramente não conseguir se concentrar na batalha por saber que ela estará em perigo desvalida a sua afirmação. — o príncipe retrucou, obstinado.

Thranduil bufou.

— Cale-se, Legolas! — ele ordenou impassível ao cruzar os olhos com os de seu filho, que agora o fitava sem a suavidade de antes.

— Não espere que uma fatalidade aconteça para que venha finalmente ter coragem de expor aquilo que sente, meu senhor. — o loiro puxou as rédeas de seu cavalo, fazendo menção em se afastar. — Eru lhe deu mais uma chance, saiba aproveitá-la. — dizendo isso, ele cavalgou para longe e se juntou aos soldados mais atrás.

Thranduil não poderia considerar o conselho de seu filho fora de contexto, mesmo que já tivesse exposto aquilo que sentia. Porém, ele havia perdido tempo demais voltando sua atenção para Luna quando devia se focar no que realmente importava no momento:

Seu reino.

.o0o.

Ele colocou a magnífica coroa sobre a cabeça e sentiu a armadura pesar sobre seu corpo. Seus dedos grossos e calejados rodearam o cabo de sua espada, embainhando-a de maneira lenta, enquanto apreciava os detalhes característicos dos anões na lâmina austera e afiada.

Dáin não tinha muito em seus pensamentos, talvez nada. Todas as vezes que ele estava diante da possibilidade de uma batalha sua mente esvaziava e assim tudo se tornava mais fácil, mais propenso a bons resultados.

O anão dirigiu seus olhos para fora da varanda de seus aposentos, contemplando o cinzento que se erguia das ruínas de Valle. Aos poucos a cidade era reconstruída, mas, ainda assim, as vidas tiradas jamais seriam recuperadas.

Sentiu furor.

Por mais que respeitasse Luna, Dáin tinha sede do sangue de seu maldito irmão.

O Rei Sob a Montanha ouviu a porta de entrada ser aberta abruptamente e logo viu os irmãos Balin e Dwalin adentrarem o recinto, ambos apressados.

— Dáin! — o mais velho estava exasperado.

O ruivo franziu o cenho.

— O que aconteceu?

— Os corvos que enviamos para vigiarem as saídas de Gundabad retornaram. O exército de Orcs está marchando para a Floresta das Trevas. — adiantou-se Dwalin, cruzando os braços a espera de uma ordem.

— Preparem os nossos guerreiros, vamos nos juntar à fadinha da floresta!

— Alguns cavaleiros da Cidade de Valle se ofereceram para nos acompanhar. — informou o conselheiro.

— Que venham! Dáin exclamou enquanto marchava a passos pesados para a saída. — Aquele elfo estúpido pensa que pode fazer o que bem entender? Vou ensiná-lo a pensar duas vezes antes de mexer com os protegidos de Dáin II Pé de Ferro, Rei Sob a Montanha.

Notas finais
Grande ajuda do site Valinor e Wikipédia no inicio do capítulo, e frase de Harry Potter!