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32 Capítulo 32


Notas iniciais
Amorecos! >3>

— Eu quero o exército pronto antes do sol se pôr, sairemos assim que escurecer. — o soberano ordenou ao descer de sua montaria. Uma brisa suave e levemente fria os tocava quando a aurora alcançou os portões do palácio da Floresta das Trevas. — Elenor, envie um emissário à Lothlórien contando com riqueza de detalhes os últimos acontecimentos.

— Não pedirá auxílio? — Luna indagou.

— Não. — a expressão de Thranduil era enigmática. — Caso nossas forças venham falhar, é bom que o exército de Celeborn esteja intacto. — era difícil admitir, por conta de seu orgulho, mas ele não pôde deixar de considerar aquela possibilidade. — Eles não devem cair.

— E lorde Elrond? — foi a vez de Elenor questionar.

— Esqueçam! — Mithrandir tomou a palavra e apertou o cajado entre os dedos. — Por mais rápidos que venham ser os cavalos de Valfenda, Elrond não teria tempo de chegar até aqui. Principalmente por conta do caminho turbulento.

— Está dizendo que estamos sozinhos? — a voz do capitão soou com uma ponta de pesar.

— Não tema, Elenor. Há um longo caminho para nós antes do fim. — uma voz que saía de dentro dos portões foi ouvida e o príncipe logo alcançou a ponte, caminhando com firmeza e mantendo o olhar fixo em seu rei. — Vossa Majestade. — ele se curvou de forma respeitosa quando se colocou diante de Thranduil, este que acompanhava cada movimento seu com atenção.

— Legolas. — a expressão do rei permaneceu inalterada, mas ele estava surpreso. — O que faz aqui?

Elenor se pronunciou:

— Tomei a liberdade de mandar chamar o príncipe, Majestade. Tendo em vista nossa intenção em resgatá-lo, Sua Alteza seria de grande ajuda. A situação mudou, mas o auxílio ainda é necessário.

— Não há tempo para recepções. Legolas, o aconselho a se informar sobre os últimos acontecimentos. — Thranduil se voltou para o capitão. — Você tem suas ordens. — dizendo isso, ele marchou para dentro do palácio a passos pesados.

— Meu pai está preocupado. — concluiu o príncipe, conhecendo bem a personalidade do mais velho. — O que está acontecendo?

— O reino está sob ameaça de ataque. — Luna se pronunciou e logo os olhos cinzentos do elfo repousaram sobre si. — O ponto principal é Lothlórien, ao sul. Mas, para isso a Floresta das Trevas deve ser tomada. — ela foi objetiva, não havia tempo para detalhes.

— Por qual motivo, exatamente?

— Pela mesma razão que Thranduil foi capturado, meu amigo. — Mithrandir comentou ao menear a cabeça. — Lothlórien é um grande reino élfico, um símbolo. Caso pereça o inimigo terá a vantagem do medo por parte dos povos da Terra Média, e você sabe que este sentimento é um grande aliado quando se deseja vencer uma guerra.

O príncipe meditou sobre o que acabara de ouvir.

— Sendo assim, não temos tempo. A infantaria está pronta?

— Já estamos preparando os soldados. — Elenor esclareceu. — Formaremos o exército no território à frente da fronteira noroeste. Nosso adversário sabe que aquele é o único lugar em nosso reino que pode comportar uma batalha, acredito que levará seus Orcs para lá. Já os guardiões permanecerão em seus postos, como nossa última linha de defesa.

— Dáin ter enviado os corvos de Erebor para vigiarem os movimentos em Gundabad é nossa vantagem mais significativa… — o mago ponderou.

— Quando acha que ele chegará, Mithrandir? — Luna indagou com preocupação.

— Em breve, espero. Deixamos bem claro o que tudo isto representa, não somente para a Floresta das Trevas, mas também para todos os outros reinos. Eles se apressarão! — o Cinzento a tranquilizou e então se voltou para Elenor. — Meu amigo, não busque um emissário. Eu mesmo irei à Lothlórien. — após dizê-lo, ele dividiu seus olhares entre Legolas e Luna, inclinou a cabeça e se retirou. O capitão também fez uma rápida mesura diante de seus senhores e seguiu o amigo, proferindo palavras de protestos para aquela afronta direta às ordens do rei.

O príncipe riu levemente e então voltou seus olhos para a chefe da guarda.

— Lórien me contou que meu pai foi capturado quando partiu para buscá-la em Valle. — Legolas agora estava sério.

— Com todo respeito, meu senhor, mas me culpa pelo ocorrido?

— Não, não culpo. Apenas questiono o fato da convivência dos dois ser tão conturbada. — ele a observava mais atentamente.

— Uma vez que não partilhamos das mesmas opiniões, creio que seja natural o constante desentendimento entre nós. — ela ergueu uma de suas sobrancelhas. — Não consigo compreender aonde Vossa Alteza pretende chegar com este diálogo.

O príncipe respirou fundo e aprumou a postura.

— Quando voltamos de Erebor, assim que o acordo entre os reinos foi refeito, o rei se tornou recluso. Eu o questionei, como faço com você neste momento, e ele se esquivou, como a dama também está fazendo. Em ambos os casos, isto apenas confirma as minhas suspeitas.

Luna franziu o cenho para logo assumir uma expressão de apatia, recusando-se a mostrar qualquer sinal de curiosidade diante daquilo — mesmo que por dentro estivesse interessada.

— Que suspeitas? — ela soou quase indiferente.

— Que ambos têm uma certa… — Legolas desviou o olhar de maneira rápida, procurando a palavra correta. — conexão. — ele esfregou o maxilar suavemente enquanto analisava a reação da elfa. — É terminantemente impossível que se odeiem tanto apenas por terem opiniões distintas.

— Peço que seja objetivo. — ela respirou fundo. — Estamos enfrentando um momento delicado em nosso reino e eu tenho obrigações a cumprir.

Legolas sorriu de lado e, por um segundo, os olhos de Luna faiscaram. Aquele era o mesmo sorriso de Thranduil.

— Eu a disse uma vez que meu pai é um elfo de muitas facetas… — ele foi interrompido.

— Não duvido disso.

— Os jardins de minha mãe são sagrados para ele, mas você entrou lá. — o príncipe meneou a cabeça e voltou a sorrir de canto. — Este fato já foi um problema entre vocês? — agora Luna havia assumido uma expressão de confusão. Em resposta, ela acenou negativamente e Legolas apenas assentiu, como se chegasse a uma conclusão óbvia.

— Isto não me diz coisa alguma…

Ele esperou alguns segundos antes de continuar, indiferente à teimosia dela.

— A última vez em que uma batalha aconteceu em nosso reino a vida de minha mãe foi tirada, mas quem realmente morreu foi ele. — Legolas fez uma pausa. — De um jeito convencional ou não, eu nunca vi tanta vida nos olhos de meu pai, não antes de você entrar em seu caminho.

— Meu senhor está equivocado.

— Estou?

— Alteza, por favor. — ela exclamou ao conter o nervosismo em sua voz. — Eu, mais do que todos, conheço o peso da frieza de vosso pai. Conheço sua rispidez e já provei até mesmo de sua crueldade. — o elfo respirou fundo ao ouvir aquilo.

— Você vê apenas o que quer ver, isso porque é tão orgulhosa quanto ele.

— Compreendo o real sentido de suas palavras e afirmo que meu senhor está absolutamente enganado. — Luna apenas continuou, ignorando a última fala do príncipe. — Sua Majestade jamais seria capaz de nutrir qualquer sentimento por mim que não seja de natureza negativa.

— Se está tão decidida a não acreditar em minha conclusão, por que não pergunta a ele? — Legolas prendeu uma risada quando Luna o fitou com espanto. — Ao que me consta, confrontá-lo nunca foi um problema para você. — ele fez menção em se retirar, mas deteve-se mais um pouco. — Como disse, a última batalha que aconteceu em nosso reino o trouxe tristezas que o assombram até os dias de hoje. Não o deixe seguir para guerra com o peso do desentendimento, já está mais do que na hora de vocês resolverem esta situação.

— Opiniões distintas. — ela o corrigiu com rispidez.

— Chame como desejar. — o semblante de Legolas era gentil e sereno. Ele se inclinou respeitosamente e então caminhou para longe.

Luna observou o loiro se afastar enquanto seus pensamentos se transformavam em um turbilhão.

Ela estava, no mínimo, ofendida. Ouvir Thranduil taxá-la como estúpida já era algo costumeiro, agora, o príncipe? De forma sutil ou descarada, ele certamente o havia feito.

Como ousava dizê-la tais coisas? Do que ele sabia? Luna tinha plena consciência de que seu rei jamais nutriria emoções daquela natureza por si, mas o desafio sutil ainda martelava-lhe a mente. E decidida a provar que Legolas estava errado, a chefe da guarda partiu para dentro do palácio.

.o0o.

— Onde está Sua Majestade? — Luna indagou assim que alcançou o arco que a levaria até o quarto de Thranduil.

— Preparando-se para a batalha. — o soldado que guardava a entrada respondeu de imediato. — Minha senhora, não pode entrar aí… — ele protestou quando a viu passar por si para atravessar o corredor e marchar em direção à grande porta dos aposentos reais.

No momento em que se viu diante da entrada imponente, a elfa a abriu e sua habitual falta de cerimônia fez com que sua entrada soasse estrondosa.

Uma serva erguia duas espadas para o rei, esperando que ele as guardasse em suas bainhas, e esta fitou Luna com olhos assustados quando a viu adentrar o recinto tão inesperadamente.

— Você precisa parar com esta mania. — Thranduil exclamou quando tomou as espadas e as embainhou, tudo sem lhe dirigir um único olhar. Exatamente como da primeira vez em que a elfa esteve presente em seus aposentos. — Poderia simplesmente bater.

— Podemos conversar? — Luna ignorou seu tom informal e respirou fundo. — Creio que necessitamos resolver certas questões antes de partimos para a batalha.

Thranduil ergueu os olhos rapidamente, desinteressado e orgulhoso, mas logo retornou sua atenção para si próprio. Ele afivelava a capa e checava sua armadura.

— Você me pareceu firme quanto a suas opiniões e agora quer conversar? — foi irônico. — Sua inconstância é desprezível.

— Podemos conversar? — Luna insistiu, determinada a não deixar suas emoções sobreporem-se ao protocolo. Ao menos, não na frente dos súditos de seu senhor.

Estando devidamente arrumado para a batalha, Thranduil acenou com uma das mãos para que a serva se retirasse e esta assim o fez. Depois disso, ele caminhou calmamente para um dos extremos do aposento e se ocupou em observar o lado de fora da varanda que lhe dava visão de seu reino, ou, pelo menos, uma grande parte dele.

— Você diz que precisamos conversar, todavia, todos os nossos diálogos acabaram se mostrando ineficazes em extinguir qualquer dúvida ou problema entre nós, e tudo por conta da sua teimosia e tolice. — ele a fitou por cima dos ombros. — O que a faz pensar que eu voltaria a insistir nisso?

— Meu senhor, escute… — ela deveria ser tolerante para que aquela conversa não se tornasse mais uma de suas inúmeras discussões.

— Não, escute você. — Thranduil soou ríspido. — Eu não estou aberto a diálogos, Luna. Logo teremos que marchar para uma batalha e eu sinceramente não desejo passar minhas últimas horas de paz debatendo qualquer assunto que você esteja disposta a iniciar. — se voltou com o olhar gélido. — Seja lá o que quer conversar, creio ter sido claro ao lhe dizer para pensar o que quiser.

— Sim, mas, Legolas disse… — foi interrompida.

— Esqueça isso e saia daqui! Saia! — ele ordenou.

Luna engoliu em seco, sentindo-se desconcertada em estar ali. Ela estava certa quanto a que tipos de sentimentos seu rei nutria por si, afinal, aquilo era explícito na maneira como ele a tratava.

Quanta tolice a minha…

O príncipe estava totalmente enganado, como ela havia suposto, e Thranduil tinha razão; não havia nada a ser esclarecido.

A elfa se preparava para fazer como o ordenado, quase o dando as costas, quando seus olhos caíram sobre um grande arco posto em um pedestal de ouro. Ele era feito de prata, com palavras em quenya escritas por toda sua extensão, e sua corda estendia-se do início ao fim com todo o viço.

Luna o reconheceu de imediato.

— O arco do rei Oropher… — ela se ouviu pronunciar, estando totalmente encantada com a arma. Aquilo era uma relíquia. — pensei que havia se perdido na Batalha da Última Aliança.

Thranduil crispou os lábios, incerto quanto ao que dizer.

— Eu o encontrei. — ele foi educado, apesar de estar incomodado com aquilo. Luna deu um passo à frente, no intuito de chegar até o pedestal, mas foi parada pelo olhar frio de seu senhor.

Seu pai a contava das lutas cheias de bravura e heroísmo, contava sobre as batalhas onde ele e o pai dele lutaram ao lado do rei. Aquele arco era o mais próximo que ela chegaria daqueles acontecimentos, o mais próximo — além de seu sangue — que chegaria de seus familiares falecidos. Luna queria pedir para tocá-lo, como se aquilo fosse fazer com que a memória de seu pai voltasse com mais clareza à sua mente, mas ela refreou aquela vontade.

Thranduil descobriu seu entrave apenas por fitar sua face extremamente expressiva.

— Vejo que sabe muito sobre meu pai… — ele precisou comentar.

— Bastante. — Luna engoliu em seco. — Sobre ele, e sobre meu senhor.

O elfo sorriu com desdém e ergueu uma de suas sobrancelhas.

— Eu duvido.

Luna se sentiu ofendida pelo deboche de seu soberano, mas decidiu ignorá-lo.

— O meu pai me contava da jornada até a Grande Floresta Verde, esta que foi liderada por Oropher; o mais justo, corajoso e honrado dos lordes sindar. Ele também falava sobre o senhor, que centralizou o reino ao norte para proteger o povo das contínuas aparições de criaturas malignas. — Luna se relembrava das expressões de seu pai ao lhe contar cada acontecimento. — Dois grandes reis, ele dizia. Jurou segui-los até a morte, e foi o que fez. — ela sorriu de lado e apontou para a arma. — Ele me contou muitas histórias sobre este arco, são as memórias mais vívidas que tenho dele. O arco e os portões do palácio, sim, meu pai era fascinado pela magia dos portões…

Thranduil se sentiu comovido, mesmo que sua expressão aparentasse desinteresse e sua voz soasse com indiferença.

— Eu protegi este povo construindo os salões e os portões magicamente selados. — ele também se permitiu mergulhar em suas memórias. — Os fiz como Menegroth… de uma forma um tanto rústica, talvez, mas transformei este lugar em um lar para todos os meus súditos. Como meu pai desejava.

Luna assentiu em concordância e logo um silêncio se instalou entre ambos. Ao contrário de outros momentos, não era desconfortante ou amedrontador, era um silêncio necessário — quase um bálsamo. E Luna rapidamente se esqueceu dos motivos tolos que a levaram até ali. Mas, um pensamento de dúvida logo povoou sua mente e rompeu aquele minuto de paz.

— Se meu irmão conseguir invadir a floresta com seu exército, acha que nossos portões resistirão? — havia um fundo de receio em sua voz, mas Luna preferiu camuflá-lo com um tom questionador.

— Apesar de terem me falhado uma vez, eles se mostraram bem eficientes até aqui. Não há como seu irmão invadir o palácio.

— Eu confio nos portões de meu reino, Majestade, sei que eles resistirão… — ela suspirou pesadamente. — não me julgue pela preocupação em demasia, é apenas precaução. Sei que, como eu, existem soldados que darão a vida para que nenhum Orc chegue a metros de nossas entradas.

— Você estará muito ocupada protegendo o povo do lado de dentro para se preocupar com o que acontece do lado de fora do palácio. — a elfa franziu o cenho, sem entender o que ele dizia. — Você não vai lutar, Luna. — o rei explanou após perceber sua confusão.

— O quê?

— Já está decidido. Se bem conheço seu irmão, ele usará todas as forças disponíveis para atingi-la e eu simplesmente não quero que você seja o ponto principal desta batalha.

— O quê? — ela voltou a repetir, ainda mais atônita.

Thranduil revirou os olhos.

— Se nossas forças falharem, eu preciso ter a absoluta certeza de que alguém cuidará do povo. — ele argumentou.

— O senhor acabou de falar que os portões são fortes o suficiente, como pode me dizer algo como isso agora? — Luna estava indignada. — Para um lorde que jamais permite com que fraqueza e Floresta das Trevas estejam presentes na mesma frase, vejo-o bastante pessimista quanto à força de seu povo.

— Não posso ignorar a possibilidade de tudo dar errado. — Thranduil despejou. — Legolas estará ao meu lado, lutando junto a mim. Abaixo disso só resta você, com a maior patente.

— Eu não vou me esconder! — a elfa retrucou com o volume de sua voz alterado. Ela parecia uma criança tola e mimada agindo daquela forma, o rei pensou. — Simplesmente não posso, não consigo! Foi para isso que treinei a vida inteira, foi em prol disso que fiz meus juramentos!

— Jurou proteger o reino. — a indiferença de Thranduil a irritava ainda mais, era cortante.

— Não atrás de portões!

— Mas jurou. — ele era impassível. — Isto não altera em nada o peso de suas responsabilidades.

— Quer que eu lide com o fato de que tudo que conheço pode ser destruído enquanto eu não faço nada? Acrescentando que terei o dever de liderar um povo e mantê-lo em segurança até a chegada de um milagre? — a face de Luna se contraiu em um misto de expressões. — Tem ideia do que isso significa para mim?

— Não mais do que para mim.

A chefe da guarda balançou a cabeça em discordância e suspirou pesadamente, por que tudo entre eles era tão complicado? Ela aprumou a postura, cruzou os braços e, para sua própria surpresa, foi iluminada por uma ideia.

Aquele não seria o seu melhor argumento, mas poderia funcionar.

— Meu pai me contava que, há muito tempo, nossos ancestrais vieram para a Terra Média, exilados de Aman.

Houve silêncio.

— É descendente dos noldor. — Thranduil concluiu sem muita dificuldade.

— Sim. — Luna assentiu. — A maior parte da história o senhor deve saber. Após a queda de Doriath, o povo sindar dispersou, assim como os noldor que se estabeleceram ali após sua chegada de Aman. O pai de meu pai, Arvellas — Thranduil se lembrou desse nome. — partiu sozinho, preferindo se apartar dos remanescentes e da própria família. Ele vagou como um nômade por toda Eriador, até o dia em que encontrou um povo alto e cinzento, como a névoa que cobre a terra antes da alvorada. E eles tinham um olhar altivo, como o de reis exilados de seu reino, contudo, eram seus corações os verdadeiramente nobres… — ela repetia as palavras que um dia ouvira de seu pai.

— Não consigo compreender o motivo de ter me contado tudo isso. — Thranduil confessou.

— Quero dizer que durante toda a história de minha linhagem, o meu povo fugiu da destruição em vez de lutar contra a ruína, em vez de resistir. Primeiro em Aman, onde aconteceu a destruição da aliança e se iniciou o rancor que durou séculos, este que quase ocasionou a total destruição do meu povo, não fosse a compaixão dos Valar. Depois em Doriath, onde simplesmente fugiram como covardes.

— A cidade estava perdida, Luna. — aquela era uma verdade, ele estava lá.

— Não há causa perdida enquanto restar um único tolo que lute por ela. — a elfa retrucou. — Além do mais, meu povo estava tão decadente que a cidade foi devastada pelos filhos de Fëanor.

— Não fale como se isto significasse algo para você. Sua família também pertencia a Casa dos Noldor, assim como os filhos de Fëanor e o próprio. — Thranduil comentou com amargura. — Um segundo Fratricídio para com os meus parentes não deveria lhe importar muito, deveria?

— Não use isto como motivo para me diminuir, pois minha família considerava Doriath seu novo lar. Depois, com a união de meu avô e minha avó, que era sindar, veio meu pai. Este, por sua vez, se casou com a filha de um dos elfos silvestres, minha mãe. O sangue das duas Casas corre em minhas veias, então não ouse dizer que tais acontecimentos não me importam. — Luna exclamou com rispidez. Ela não permitira que ele a ofendesse.

Thranduil respirou fundo.

— Apenas continue. — ele estava intimamente interessado pela história. As origens de sua chefe da guarda se mostravam cada vez mais profundas, e, mesmo relutante, o rei deveria admitir que Luna não era uma mera elfa da floresta.

— Vossa Majestade pode ver a minha lealdade ao reino apenas como uma atitude respeitosa ou como o cumprimento de um juramento, mas não é apenas isso. — ela o fitou com suas íris profundas e vistosas, tentando fazê-lo entender. — A Floresta das Trevas é o meu lar, e se ela cair eu também cairei. Não há outro lugar para mim, agora entendo isso. — Luna fez uma pausa. — Não serei como meus antepassados. Eu não quero apenas sobreviver, eu quero viver! E se não puder ser aqui, então prefiro ter uma morte honrada e assim partir para os Salões de Mandos.

Ele primeiramente revirou os olhos, mas, no fundo, sabia que Luna não se daria ao trabalho de contá-lo tudo aquilo se realmente não estivesse tentando apaziguar a constante discordância de ideias entre eles. Ao menos, ela não estava o contestando tão diretamente.

— Luna… — foi cortado.

— Que fique bem claro que eu não estou pedindo a sua permissão, estou apenas justificando aquilo que meu senhor já sabe que farei. — Thranduil voltou a endurecer sua expressão. Pelo visto, estava enganado. — Não pode me afastar desta batalha, ela também me diz respeito.

O rei estalou a língua entre os dentes e passou a caminhar de um lado a outro de seus aposentos. O peso da armadura apenas piorava sua crescente irritação. Um vento frio soprou do lado de fora, batendo com rigidez nas folhas das grandes árvores, e o som produzido preencheu o silêncio que havia se formado entre os dois.

Ele parou um segundo e tocou na parte superior de seu rosto, como forma de aliviar a dor que martelava sua cabeça.

— Você me deve obediência. — Thranduil não conseguiu pensar em nada que pudesse fazê-la ceder, então, resolveu ser apelativo.

— O senhor me trata como uma súdita qualquer quando lhe é conveniente — Luna proferiu com ressentimento, sem se atrever a dirigir o olhar para o leito real. — mas, quando deseja algo que vai além de minhas obrigações com o reino é gentil. — ela havia sido injusta, sabia disso, mas não ia voltar atrás. — Não me lembre do que já tenho plena consciência. Sim, eu sei que lhe devo obediência. — sua voz era pura raiva.

— Então, é uma insuportável desobediente por livre e espontânea vontade? — o rei esbravejou ao se voltar abruptamente para ela, deixando de lado sua sensatez.

Seus olhos faiscavam.

— Agora sou insuportável? — a elfa riu com sarcasmo. — Ao menos compartilhamos a mesma característica.

— EU NÃO VOU DEIXAR VOCÊ MORRER! — Thranduil exclamou enfurecido, perdendo todas as estribeiras, e logo o silêncio engoliu os dois.

Continua...

Notas finais
Menegroth - Capital de Doriath, lar do rei Thingol e sua rainha Melian.