I See You
33 Capítulo 33
Notas iniciais
Os elfos se fitavam intensamente; Thranduil com a fina esperança de que ela o compreendesse e Luna completamente pasma com o que acabara de ouvir.
A chefe da guarda não poderia ter previsto o rumo da conversa quando decidiu aceitar o desafio do príncipe. Tudo como se Legolas houvesse adivinhado que alguma coisa sairia daquele diálogo às avessas, fosse bom ou ruim.
— Eu não vou deixar você morrer. — Thranduil repetiu, e sua voz não passou de um sussurro. Ele se recompôs e desviou o olhar para um ponto qualquer. — Não poderei protegê-la, então, não vou arriscar a sua vida deixando-a se envolver nisso.
— Eu não preciso que me proteja!
— De quantas batalhas já participou?
— Não fale como se isto lhe importasse. — enraivecido, o loiro impulsionou o punho contra a parede do aposento, procurando um meio de conter seu furor efervescente. O furor que ela o provocava.
Luna teve um sobressalto.
— Me importa! — foi tudo o que Thranduil conseguiu dizer após suspirar pesadamente. — Estou cansado de tentar fazê-la entender, tão cansado… — ele curvou os ombros, deixando em evidência o quanto o metal da armadura o incomodava. — você me desenha como um monstro insensível e não sei se posso fazê-la mudar de ideia quanto a isto, pois talvez eu seja.
Ele queria se calar, sabia que deveria se calar. O rei não desejava cometer nenhuma estupidez alimentada pelo impulso, não desejava se sujeitar a nenhuma tolice depois de tanto tempo de resistência. Porém, estava farto, absolutamente farto de lutar contra si mesmo.
Seu reino estava em risco, seu povo estava em risco… apesar de manter o pensamento escondido, Thranduil estava receoso. Ele se via à beira de um penhasco que lhe era familiar, à beira de ver o resto de sua vida se esvair entre seus dedos, como água.
Uma péssima hora para ser pessimista, mas ele não se importava.
— Sabe qual foi o primeiro pensamento que tive quando você entrou em minha Sala do Trono na primeira vez em que veio à minha presença? — o elfo se voltou para Luna vestido de uma expressão que contradizia com a rigidez em sua voz, estava entristecido. — Ridículos — ela entreabriu os lábios, sem entender o que ele dizia, e Thranduil riu. — seus olhos, ridiculamente belos.
— Desculpe-me, acho que entendi errado… — a elfa balançou a cabeça em negativo e Thranduil nada respondeu, limitando-se a fitá-la profundamente.
— Por este simplório pensamento eu a odiei desde o primeiro instante, desde o maldito primeiro instante. — sua pronuncia fora tão lenta que ele quase soletrou. — Nada depois daquele dia foi como antes, e eu perdi gradativamente o controle de tudo em minhas mãos. Você me contestava, me afrontava, me desrespeitava…
— Atitudes que, apesar de irritá-lo, o atraíam. — Luna ironizou. Se ele voltaria para aquele assunto ela também jogaria suas cartas. — Pelo menos até saciar o seu fetiche.
— Pare de jogar as minhas palavras contra mim! — o rei esbravejou ao dar um passo à frente, com um ar enraivecido.
— Eu teria facilmente perdoado e fechado os olhos para o seu orgulho se o senhor não tivesse ferido o meu. Mas, não se contentou em apenas me dispensar, como uma meretriz, ainda fez pouco de mim! — ela rebateu.
— Será que você é tão estúpida a ponto de não conseguir assimilar o que estou tentando dizer? — Thranduil viu o olhar dela vacilar por um instante e se aproveitou da oportunidade. — Eu considerei os meus pensamentos como reflexo de minha natureza, algo puramente superficial e momentâneo. Tentei provar isto a mim mesmo, ali, naquela cama! — ele apontou para o objeto, que mais parecia um espectro assombroso pelas lembranças que o causava.
O soberano da Floresta das Trevas respirava com dificuldade, por conta da onda mista de sentimentos que o tomavam.
— Porém, quando eu abri os olhos e me deparei com o seu corpo em meus braços, quando amanheceu e o sol refletiu a luz na sua pele… — a face de Thranduil se contraiu pela descrença em si mesmo, pela descrença no que ousava contar. — eu senti — ele tocou o próprio peito, este protegido pela armadura. — senti paz, senti como se vivesse outra vez.
Luna não o respondeu, optando pelo silêncio absoluto.
— E por isso a odiei ainda mais, odiei por me sujeitar a este sentimento tão inconstante quanto as águas do mar e que aos poucos se tornava mais claro, mais evidente para mim. — Thranduil voltou à expressão desgostosa. — Eu sabia aonde aquilo tudo iria me levar e, pelos céus, não estava disposto a pagar o preço. — fez uma pausa. — Sou incapaz de sobreviver à dor que esta emoção iria me sujeitar.
— Está dizendo que me magoou daquela forma cruel para evitar a própria agonia? — a elfa se agarrava a tudo que pudesse fazê-la detestá-lo, pois ela via suas muralhas ruírem a cada palavra que seu senhor pronunciava.
— Sim. — Thranduil foi sincero, quase frígido. — Eu sou egoísta, Luna. Você, mais do que qualquer um, sabe disso. — ele parecia não ter vergonha de admitir, pelo menos não aquilo. — Eu quis afastá-la para aniquilar qualquer coisa que pudesse crescer em meu interior. Disse tudo aquilo sabendo que você iria me odiar, ainda mais. — os olhos dela o fitavam confusos, ainda relutantes em acreditar no que ele dizia. — São muitos os meus defeitos, nenhum compreensível ou perdoável. Meus sentimentos são involuntários e indesejados, mas, não se manifestariam por qualquer coisa. — Thranduil respirou fundo. — Então, para o bem do resto de minha sanidade; fique aqui, em segurança.
Luna o fitava de maneira inexpressiva, tentando absorver as palavras que acabara de ouvir. Ele estaria sendo debochado ou inventara tudo aquilo para convencê-la a ficar? Seria seu rei tão cruel a ponto de tentar enganá-la? A chefe da guarda mantinha suas íris fixas na face de Thranduil, procurando um traço, um detalhe, qualquer coisa que denunciasse uma mentira.
Nada.
No fundo, no mais profundo de sua alma, ela queria acreditar. E, talvez, acreditasse. Era o mesmo sentimento que havia sentido ao acordar da noite que tiveram juntos e ela foi tomada por uma imensa vontade de chorar, já podendo sentir as lágrimas preencherem seus olhos. Contudo, era necessário muito mais do que um mero convencimento parcial para fazê-la ceder, e Luna não desistiria até estar totalmente esclarecida.
— Vossa Majestade sempre me desprezou… — a elfa sussurrou entre um suspiro, mas sua voz ganhou força aos poucos. — por que, com o intuito tão evidente de me confundir, resolveu dizer que gosta de mim contra a sua vontade e até mesmo contra a sua razão?
— Pelos céus, Luna! — Thranduil já estava impaciente. — Eu me desfaço do meu orgulho e até por isso você me julga? — ele bufou e se aproximou. — O que queria que eu fizesse?
— Que o senhor não agisse como um louco que não sabe expressar os seus sentimentos — ela esbravejou. — e que fosse sincero quanto a seus entraves pessoais, pois não pode simplesmente me dizer barbaridades todas as vezes que desejar me afastar. — a voz de Luna soava chorosa pela mágoa que ela teimava em se desfazer.
— ESTOU SENDO AGORA!
— AGORA? — a elfa contraiu a face e então respirou fundo, procurando se acalmar. — Por mais convincentes que sejam as suas justificativas não significa que eu deva aceitá-las. — sua voz ecoou pelo quarto. — Eu sei o quanto seu passado o machuca, mas não pode machucar os outros para aliviar a sua dor ou evitar revivê-la.
O soberano da Floresta das Trevas apenas engoliu os argumentos que subiam sua garganta, sabendo que nada poderia mudar o que já estava feito.
— Eu sou péssimo com palavras ou demonstrações de afeto, mas, às vezes, tais coisas não importam. — Thranduil fez uma pausa, abandonando o resto de seu orgulho. — Nada é capaz de explicar o que sinto por você. — ele soava frio, quase cortante, mas nunca havia sido tão sincero. — Quando ordenei que Argon e Lúthian a vigiassem era o meu egoísmo falando por mim. A mandei para longe mas a queria perto, tudo fruto da minha loucura e inconstância. — ele engoliu em seco. — O destino é cruel, Luna, e eu tenho medo. Medo de deixá-la entrar e tomar conta do que restou do meu coração, tudo para depois ver a morte roubar você de mim. — ele a fitava profundamente. — Todas as loucuras que cometi, todos os deslizes e imprudências… tudo, foi por isto.
Thranduil se recompôs e partiu em direção à saída, mas foi barrado pelo corpo de Luna quando esta entrou inesperadamente em seu caminho. Ele a fitou com o cenho franzido e contemplou seu rosto corado. De seus olhos azuis transbordavam tantos sentimentos mesclados à certa relutância — e uma fina camada de esperança — que ele quase a beijou.
— Meu senhor não pode despejar tudo isso sobre mim e sair assim, como se acabássemos de conversar sobre o tempo. — ela exclamou. — Eu me dediquei tanto em odiá-lo, mas agora não sei o que pensar.
— Não tenho mais nada para lhe dizer. — Thranduil tentou se desvencilhar dela, contudo, foi impedido mais uma vez.
— Sendo assim, vai me escutar!
— Luna… — ele foi cortado.
— Naquele dia eu estava tão confusa. Quando acordei e não o encontrei confesso que me senti aliviada, não conseguiria fitá-lo depois de tudo. — ela abaixou a cabeça. — Foi tão estranho — disse ao observar as próprias mãos com um súbito interesse. — uma parte de mim estava irritada e envergonhada por ter desonrado minha família, mas, a outra… a outra estava absorta em um mundo tão distante e mais bonito que o nosso. — Luna sorriu tristemente. — Eu me perguntava se o elfo que me abraçou, me tocou e me olhou tão íntima e profundamente era o mesmo que sempre me repudiava, usando seu título de rei para tal.
— Eu… — ela não o deixou continuar.
— Antes disso, em Valle, tive sonhos tão estranhos e sem sentido. Neles o senhor me machucava com seu desprezo, com palavras cruéis e, no final, me aprisionava. — Luna ergueu o olhar, séria, e foi a vez de Thranduil se sentir confuso. — Com o tempo eu consegui entender o significado de tudo isso. Percebi que meu senhor havia me prendido em uma teia de mágoa e orgulho, tudo por ter machucado a minha alma e o meu coração.
Luna fez menção em erguer a mão para tocá-lo, mas se deteve.
— Talvez no início eu não o odiasse, não realmente. Desde o primeiro instante em que o vi posso afirmar que as suas maneiras me convenceram de que o senhor era pretensioso, amargo e devotado a maior indiferença pelos sentimentos dos outros. E esta impressão foi tão profunda que constituiu o alicerce sobre o qual os acontecimentos subsequentes elevaram uma forte antipatia, mas não passava disso; antipatia. — Luna se relembrava das inúmeras brigas que tiveram por conta das opiniões distintas quanto ao reino. — Contudo, após me dizer aquelas palavras torpes nasceu o ódio. Venenoso, ele me corroeu. Tudo porque, por minutos, o senhor conseguiu me fazer acreditar para depois jogar o resto da minha honra na lama, afinal, eu não servia. — ela ergueu a mão após vê-lo fazer menção em protestar. — Me deu esperança, tirada de um lugar que até eu desconheço, para depois pisá-la. Partiu o meu coração…
A elfa sorriu minimante, mas o que veio em seguida foi contraditório à sua expressão. Lágrimas rolaram pela face de Luna, lágrimas de tristeza.
— Eu jamais me interessaria por alguém como o senhor. — ela exclamou com a voz embargada e Thranduil recuou um passo. — É tão cruel, arrogante, tão… inalcançável. — ela fez uma pausa. — Arruinou a minha vida, ou grande parte dela, e tudo isso me fez querer acreditar que Vossa Majestade seria o último ser que eu poderia amar em toda Arda. Porém, quanto mais digo isso a mim mesma, quanto mais repito, soa como uma mentira. — ela respirou fundo e engoliu um soluço. Ele quis ampará-la, mas teve receio. — Eu não me permito pensar nisso porque tenho tantos motivos para detestá-lo que é loucura cogitar o contrário.
— Eu mereço a sua raiva. — o loiro admitiu, inexpressivo.
— Merece. — Luna concordou de imediato. — Mas, reconheço as feridas em seu coração e sei que foram elas que o levaram a tão errôneas atitudes, e por isso o senhor não merece o meu desprezo.
— Não seja complacente.
— Não, estou sendo justa.
Eles se fitaram por longos minutos.
O rei sentia como se um peso fosse tirado de seus ombros e, por mais estúpido que pudesse parecer, ele não se importava. A falta de vontade em querer se mostrar forte e impassível denotava o desaparecimento, temporário ou não, de sua vaidade. E apesar de não saber como explicar suas emoções — ou sequer classificá-las a si próprio — Thranduil havia usado o máximo de sinceridade que conseguira, havia se deixado levar e não voltaria atrás com suas palavras.
— Sei que é generosa demais para fazer pouco de mim. Talvez seja este o motivo que me fez contá-la tudo o que se passou em meu interior durante todo esse tempo, apesar dos protestos do meu orgulho. — ele se aproximou dela e, lentamente, desceu os olhos para seus lábios. A tentação de prová-los mais uma vez o atingiu, uma última vez. — Em vão venho lutando comigo mesmo, nada que pudesse cessar os seus efeitos sobre mim.
— A sua franqueza me assusta. — Luna confessou sua insegurança. — Diga que não está debochado de mim…
— Pelos céus! — Thranduil esbravejou. — Sou completamente sincero e você ainda duvida?
— Não espere que eu simplesmente aceite esta nova visão quando tudo a que estou familiarizada é a sua arrogância e indiferença!
— Dei-lhe os motivos que me levaram a tais atitudes.
— Mas não me deu o tempo que necessito para pensar. — ela fugia mais uma vez.
Thranduil mantinha os olhos fixos no rosto da elfa, e ele pareceu receber a resposta dela com um ressentimento indiscutível. O seu rosto tornou-se pálido de cólera e a perturbação era visível em cada um dos seus traços. Ele lutava para aparentar serenidade e não ousou se pronunciar tão subitamente, temendo piorar o que já se mostrava catastrófico.
A pausa era insuportável para Luna, mas, finalmente — e numa voz que se esforçava para manter a calma — ele disse:
— Então, pense. Só não espere que eu ainda carregue a culpa por meus delitos quando já os expliquei a você. Não posso ser mais sincero que isso. — Thranduil respirou fundo. — Considere o fato de ser a primeira, em séculos, a ver mais de mim do que o título que carrego e então chegue à conclusão de que tanto necessita. — ele caminhou a passos pesados até a saída e bateu a porta com força quando se retirou.
Luna esperou algum tempo até desabar sobre o chão, chorando todas as dores despertas e agora remexidas.
Ela esperava acordar daquilo, fosse um sonho ou pesadelo. Desejava desesperadamente por isto. Seu coração se apertava dentro de seu peito como se estivesse prestes a explodir e as lágrimas desciam freneticamente, dificultando sua respiração.
Você não serve para mim, Luna…
Ela ainda conseguia ouvi-lo pronunciar.
Não há mais ninguém neste mundo que possa me fazer sentir algo outra vez…
Mentiras, mentiras… ele mentia, fingia, tudo para se esconder atrás de sua muralha. Sua maldita muralha. Mesmo que precisasse corromper corações, parti-los. Como havia partido o dela, impiedosamente, apenas para ser privado de amá-la e assim sofrer.
Contudo, Luna não poderia negar que também tinha sua parcela de culpa em toda aquela tragédia, que também havia construído a sua proteção, e aquilo os igualava.
Eram cúmplices, cúmplices dos erros cometidos por serem ambos orgulhosos. E se ele estava errado, ela também estava. Cinco séculos de existência não ensinaram Luna a compreender tamanha complexidade e ela queria fugir para um lugar distante, bem longe de todas as perguntas que martelavam em sua mente.
A elfa sentiu um formigamento em suas mãos; estava com medo. Medo do futuro, medo do desconhecido. Estava dividida entra a realidade a que era habituada e aquela diante de si. Então, ela desejou não ter ouvido Legolas, desejou não ter ido aos aposentos de Thranduil. Apesar das verdades que encontrara naquela conversa, Luna não sabia se estava preparada para o que aquilo desencadearia.
Era tudo incerto demais para arriscar e nem mesmo o rei parecia disposto a tal já que escondera seus dilemas por tanto tempo, permitindo-a odiá-lo sem tê-la esclarecido detalhadamente os motivos para sua crueldade.
Contudo, a questão principal e que martelava a mente de Luna era; aquilo que o elfo sentia, seu sentimento incompreendido, poderia ser amor?
Seu corpo pesava, mas Luna reuniu forças para se levantar — ainda que com certa dificuldade. Os olhos vermelhos destacavam o azul de suas íris e qualquer um perceberia que ela havia chorado, o que não lhe importava.
A chefe da guarda caminhou até a saída e alcançou a porta, mas, antes de se retirar, ela se voltou para trás e fitou a cama no centro dos aposentos. Grande e imperante, como seu dono. Ela viu o rei e a si mesma deitados ali, com os corpos unidos pelo desejo e pela lascívia, ou era o que pensara. Em vista de suas descobertas, aquilo fora muito mais do que a mera consumação do anseio físico.
Luna quase pôde sentir os beijos sôfregos e os toques bruscos de Thranduil. Fora o mais próximo que chegara de amá-lo, sim, onde sua áurea desprezível e audaciosa havia sido substituída pela sensualidade e paixão. Aquele Thranduil ela saberia amar. Mas, e quanto ao elfo calejado, amargurado e cínico? O de alma apodrecida e coração poluído? Ela conseguiria?
Com este pensamento, Luna se retirou. Precisava se preparar, pois, apesar da ordem explícita para permanecer no reino, ela iria ao encontro de seu irmão no campo de batalha.
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