I See You
23 Capítulo 23
Notas iniciais
O exército ia à frente em uma marcha ritmada e padronizada, e suas armaduras douradas reluziam o sol que se deitava no horizonte enquanto se despedia em um mar de cores que embelezavam o céu.
Thranduil seguia seu caminho com tranquilidade quando um barulho se misturou ao som da marcha e chamou a atenção de seus olhos azulados. Ele fixou sua visão em um ponto no interior da floresta e então seu rosto empalideceu, como se tivesse visto um fantasma.
— Algum problema, Majestade? — Nathrini se voltou quando viu o rei refrear sua montaria com uma expressão preocupante. O capitão aproveitou para dizer algo aos soldados e assim a grande movimentação foi interrompida. — Deseja fazer uma parada? — não recebeu resposta. — Meu senhor?
— Leve o exército para Valle — Thranduil exclamou com seus olhos ainda fixos em algo no meio das árvores. — irei logo em seguida.
Nathrini franziu o cenho.
— Meu rei, não compreendo.
— Esperem-me na entrada da cidade! — foi tudo o que ele disse antes de simplesmente agitar as rédeas do cavalo e cavalgar para dentro da escuridão que preenchia o interior da floresta.
— Manna lelyalyë? Hîr vuin! — era tarde, Thranduil já estava distante. Os olhos de Nathrini rapidamente se dirigiram à Eruwen, que o retribuiu. — Gwaem! — exclamou e então, deixando o grande exército para trás, ambos puseram-se a seguir os rastros do cavalo de seu senhor.
Ainda era o fim da tarde mas o breu já abraçava o interior da floresta e assim as árvores ganhavam um aspecto sombrio. Aquela era uma região desconhecida, fora da rota normalmente percorrida pelo povo da Floresta das Trevas ou qualquer outro. Os cavalos embrenhavam-se em meio ao território traiçoeiro e passavam por troncos cobertos de musgo que tornavam o caminho de difícil acesso. Répteis se estendiam pelo chão e, vez ou outra, os cavalos se assustavam com alguma sombra duvidosa.
— O que está acontecendo? — Eruwen indagou e sua voz ressoou como um eco pelo lugar.
— Algo que passou despercebido a nossos olhos, suponho. Nosso rei não abandonaria o exército por um motivo banal. — Nathrini ponderou enquanto olhava em volta. — Ele deve ter visto alguma coisa…
— Ali! — o outro elfo apontou para um lugar um pouco à frente de ambos e, após superarem a dificuldade com o trajeto, eles logo avistaram a montaria real.
— Alcarinquë! — exclamou Nathrini ao descer de seu cavalo e se aproximar do animal de pelagem extremamente clara.
— Ele o abandonou? — Eruwen fitava a cena com os olhos cerrados.
— Evidentemente. — o capitão respondeu e seu semblante sério deixava explicita a sua preocupação. — Onde ele está? — sussurrou para o animal e então suspirou pesadamente. Em resposta, Alcarinquë relinchou inquieto e precisou ser contido pelo elfo. — Qual o problema? — franzindo o cenho e inundado pela dúvida, Nathrini o montou depois de conter seu próprio temor. — Vamos, leve-nos até ele! — após o pedido, o cavalo simplesmente cavalgou para uma direção e Eruwen os seguia logo atrás.
.o0o.
Thranduil desviava dos galhos pontiagudos e pisava com dificuldade, pois o chão parecia querer se desfazer embaixo de si como areia e ameaçava engoli-lo a qualquer instante. O lugar era extremamente inóspito e até mesmo o ar entrava de forma pesada em suas narinas, como se desejasse sufocá-lo.
Ele voltou a erguer os olhos e se desesperou quando percebeu que o ser de cabelos cor de ouro se afastava de si rapidamente. Precisava se apressar, precisava anular aquela distância, precisava olhar em seus olhos cristalinos e ter a certeza de que não havia ficado completamente louco.
Seus lábios secos se comprimiam cada vez que o elfo se afastava de qualquer resquício de claridade ou calor, e aquele incômodo era o único sinal de que ele ainda estava no mundo físico.
— Legolas! — a voz dela ecoou como o canto dos pássaros em uma manhã de primavera quando esta voltou o corpo para Thranduil com os braços abertos.
O cenário antes escuro e sombrio se transformou em algo belo e sereno, e logo o loiro pôde reconhecer o lugar como o belo jardim de sua rainha. Ele franziu o cenho, confuso, mas compreendeu o que se passava quando avistou seu filho — ainda pequeno — correr em direção à bela dama de cabelos cor de ouro para abraçá-la carinhosamente.
Thranduil sentiu seu peito explodir em um sentimento antigo e nostálgico, estando dividido entre a desconfiança e a felicidade.
— Não é real… — ele dizia para si mesmo, mas, o que fazer quando o desejo de acreditar é maior do que a própria incredulidade?
O elfo viu-a sussurrar algo para Legolas enquanto apontava para si e sorria de maneira cálida.
— Ada, tula! — a criança o chamou alegremente ao mesmo tempo em que erguia uma de suas pequenas mãos em um convite.
Aquilo era real demais para Thranduil.
— Melleth nîn… — Celebrian o chamou com uma voz aveludada. — govano ven!
Totalmente rendido para a profunda emoção que o tomava, o rei da Floresta das Trevas ergueu uma de suas mãos e foi ao encontro de seu filho e sua rainha. Ele sorria, sim, e era um sorriso puro e sem reservas, tudo enquanto seus passos tornavam-se mais firmes e prontos para anular a distância que o separava de sua família.
— Na vendui… — o elfo sussurrou para si mesmo quando lágrimas de alegria chegaram a seus olhos.
— ARAN NÎN! — Thranduil ouviu Nathrini gritar e toda a visão diante de si se dissipou como fumaça no mesmo instante. Sua esposa e seu filho foram substituídos por uma sombra escura e, pelo que ele pôde sentir, repleta de magia negra.
— Sevig thu van — o soberano exclamou após visualizar olhos cor de jade que se revelavam em meio à escuridão. — ingannen le orch!
Ele ouviu uma risada rouca e baixa como resposta.
— Cí orch im, dangen le. — as vestes negras de Gundabad cobriam seu corpo e o fétido cheiro de morte seguia seu rastro.
— Majestade! — o capitão fez menção em se aproximar.
— Noro, Nathrini! — Thranduil o impediu ao erguer uma das mãos enquanto seu corpo ainda estava voltado para o elfo traidor à sua frente. — Vocês dois, voltem para o exército!
Alcarinquë remexeu-se inquieta e logo todos se viram cercados pelos Orcs da terra amaldiçoada.
— Detesto ser o portador de más notícias, mas ninguém vai a lugar nenhum. — Annchir se pronunciou com a voz banhada pelo cinismo.
As criaturas fecharam o cerco e Nathrini se viu obrigado a descer da montaria para se aproximar de seu rei. Ele logo desembainhou sua espada e se colocou em posição de defesa, e Eruwen, que prontamente repetia todos estes gestos, estava a seu lado.
— Foi tão fácil atraí-lo, nem mesmo o grande e amargo rei da Floresta das Trevas é imune as artimanhas do amor. — Annchir disse com deboche. Um sorriso de escárnio pairou em seus lábios, mas este logo foi substituído por rigidez e malevolência. — A culpa pela morte de sua rainha ainda paira sobre seu coração ou minha irmã conseguiu fazê-lo esquecê-la com seu belo par de pernas?
O som das gargalhadas das criaturas desfiguradas foi ouvido e saiu ecoando pela floresta.
— Então, não satisfeito com sua natural inferioridade resolveu se aliar à forças destinadas ao fracasso? — Thranduil riu com sarcasmo. — Uma bela sociedade!
Annchir ergueu sua espada agora escurecida na direção do rei, esta que refletia toda a maldade em seu coração.
— Você está com uma evidente desvantagem, meu caro. Eu sugiro que controle a sua maldita língua e não ouse zombar de mim. — ele ameaçou.
— Acabe logo com isto! — uma das criaturas vociferou e fez com que a podridão de seu hálito preenchesse o ar.
Annchir fitou os três elfos diante de si e suspirou teatralmente, ele queria prolongar aquilo o máximo que conseguisse. Após baixar sua espada e erguer a mão livre, como um convite, ele abriu um largo sorriso e colocou sua carta secreta sobre a mesa.
— Eruwen, meu amigo, venha juntar-se a mim! — Annchir o convidou serenamente e Thranduil ainda pôde contemplar o perfil do loiro quando este passou por si para ir em direção ao inimigo.
— Há muitos traidores na casa de Thranduil! — Nathrini esbravejou e cuspiu no chão. — Então foi por isso que você escolheu esta rota, estava tramando com este renegado o tempo todo! Você traiu o seu rei, você traiu os seus irmãos!
— Ora, Nathrini! — Annchir gargalhou extasiado. — Quantas exclamações! — ele voltou a redirecionar suas íris. — Por que não deixa seu rei falar por si mesmo? Ou será que Thranduil Oropherion, rei soberano do reino da Floresta das Trevas, é covarde?
— Traidor imun… — o capitão foi interrompido.
— Farn, mellon nîn. — Thranduil se pronunciou com os olhos ainda fixos nos de Annchir. — Eu sugiro que você controle a sua língua, criatura jovem e estúpida, ou eu terei de cortá-la fora.
Sem aviso prévio, o rei élfico retirou sua espada da bainha e a ergueu contra Annchir, este que foi rápido e conseguiu recuar um passo antes de ser atingido pela lâmina prateada. No mesmo instante todos os Orcs ao redor avançaram na direção dos dois elfos, para proteger seu líder, e Thranduil só conseguia avistar armas negras indo a seu encontro.
— THRANDUIL, VÁ EMBORA! — Nathrini gritou enquanto se defendia com dificuldade, o inimigo estava em maior número e seu exército estava longe demais naquele momento. Porém, indiferente a toda desesperança que insistia em pairar sobre seu coração, ele ainda tentou abrir caminho para que seu rei fugisse dali.
Por sua vez, o filho de Oropher batalhou bravamente e derrotou muitos inimigos antes de perceber que aquela luta não poderia ser ganha. Em algum momento daquele entrave pela própria vida, ele se voltou e não viu mais o amigo. Seu desespero o impeliu a ser mais firme em seus ataques enquanto seus olhos tentavam reconhecer Nathrini no meio do aglomerado negro de Gundabad, e somente quando desviou sua atenção para o chão ele pôde perceber o corpo inerte de seu capitão, este que havia sido cruelmente derrotado pelo número de inimigos.
Agora todos estavam concentrados nele e não havia escapatória, Thranduil estava encurralado.
— Como se sente agora, Vossa Majestade? — Annchir indagou estando devidamente acomodado em sua montaria, e o outro elfo não conseguiu ignorar o tom sarcástico com que o irmão de Luna pronunciou seu título. — Eruwen, ego! Já sabe o que fazer. — ele ordenou para o loiro e então sorriu abertamente, como se tivesse uma ideia. — E vá montado em Alcarinquë, só assim a piada estará completa.
Eruwen fitou o cavalo do rei com desconfiança, temendo que a teimosa criatura o derrubasse. Alcarinquë parecia entender o que estava acontecendo, como se conseguisse sentir o odor da traição. Ele não permitiria que o elfo o montasse tão facilmente.
— Não seja covarde, suba logo! — Annchir exclamou impaciente e os Orcs gargalharam.
Eruwen se deteve por alguns segundos e então arriscou. Como esperado, Alcarinquë tentou rejeitá-lo e quase o fez cair, mas o elfo era um bom domador de cavalos e, minutos depois, ele partiu para concretizar parte do plano de seu aliado.
— Que reviravolta impressionante, não acha? — um sorriso de escárnio moldou os lábios de Annchir. — Abaixe a espada.
Thranduil não fez menção em obedecê-lo.
— Acha que vê-lo montado tão altivamente sobre esse cavalo enquanto todas estas bestas o rodeiam me causa alguma espécie de medo? — ele indagou com ironia. — Não me importo com seus soldados e não me custaria muito matar cada um deles até chegar a você. Na verdade, seria um prazer indescritível para mim lhe ensinar da pior maneira a não desafiar o seu soberano.
— Você não é meu soberano! — Annchir retrucou de imediato. — Mas, vamos mudar o rumo do diálogo… — ele sorriu falsamente. — melhor, vamos fazer um acordo.
O rei ergueu o queixo.
— Eu não faço acordos com traidores.
— Renda-se, Thranduil. — os olhos cor de jade o fitavam com certa obsessão. — Desta forma, tudo pode terminar bem para você.
— Acha mesmo que consegue me vencer?
— Vencê-lo? — Annchir questionou com cinismo. — Em matéria de inteligência eu creio que empatamos. Contudo, em matéria de força bruta… eu receio não ser um bom representante da espécie, não em comparação a você.
— Luna jamais admitiria não conseguir me enfrentar! — o rei o provocou de maneira venenosa. Ele sabia jogar aquele jogo como ninguém.
— Ela jamais enviaria um exército de Orcs à Floresta das Trevas para destruir tudo o que um dia conheceu. — Annchir retrucou e aquilo abateu completamente a áurea altiva de Thranduil. — O que o sentimentalismo não é capaz de fazer? Ah, você estava tão decidido a trazê-la de volta para debaixo do seu olhar que tirou todo o seu exército do reino e o deixou desprotegido. Tsc, tsc, tsc… — ele finalizou com um tom de reprovação.
— Mentiroso!
Annchir revirou os olhos.
— Mentiras, mentiras… todos nós somos mentirosos! — ele estreitou os olhos. — Mas, eu não me daria ao trabalho de montar toda esta situação se não tivesse a certeza de que sairia vitorioso, não acha? Como disse, em um combate físico creio que nenhum de nós seria capaz de vencê-lo. Eu não sou tolo. No entanto, se a situação envolvesse o seu precioso reino…
— Vá direto ao ponto. — o rei proferiu com frieza.
— Renda-se, é simples. Se o fizer pouparei a sua casa, pelo menos por esta noite.
— A rendição de um rei por apenas uma última noite de paz em seu reino? — Thranduil indagou enquanto contia todo o ódio que o consumia.
— Eu não disse que seria a última, disse? — Annchir sorriu abertamente. — Vamos lá, você vai permitir com que meu exército destrua o seu lar apenas pelo orgulho? Por não aceitar que, na condição de realeza, deva passar pela humilhação do jugo do inimigo? Nem mesmo pelo seu reino, Thranduil? — o loiro balançou a cabeça negativamente, simulando uma falsa decepção. — Talvez minha querida irmã tenha razão sobre você.
— Não ouse mencionar Luna, criatura imunda! — em sua testa minúsculas gotículas de suor se formavam. — Ela é tudo aquilo que você nunca foi e jamais será!
— O tempo está passando… — Annchir cantarolou sarcasticamente.
Thranduil pensou em tudo o que poderia fazer até conseguir aceitar a maior verdade daquela situação miserável; suas alternativas haviam se esgotado. Visivelmente enojado, ele olhou em volta e encarou as criaturas horrendos que o fitavam com um ódio estampado enquanto esperavam por sua resposta.
“O bem-estar do seu povo para um verdadeiro rei é muito mais importante do que a sua honra.”
Foi o que ele disse a Luna em uma de suas inúmeras discussões, e a frase não poderia ser mais verdadeira. Seu povo era sua prioridade e uma grande parte de seu tesouro mais precioso. Thranduil o protegeria com a própria vida se fosse necessário.
— Você e Luna são mais parecidos do que eu pensei, apesar das circunstâncias. — Annchir exclamou após assistir o outro elfo soltar a espada e se pôr de joelhos, em sinal de rendição. — Vá e diga ao capitão da tropa que o ataque está cancelado, mas que devem ficar de prontidão. — o Orc ouviu a ordem e logo partiu.
Após ouvir o ataque ser cancelado e em um último resquício de esperança, o rei da Floresta das Trevas fez menção em empunhar sua espada para se levantar, porém, ele sentiu uma grande dor na parte de trás de sua cabeça e aos poucos se viu imerso em uma escuridão.
Havia sido golpeado.
— Bons sonhos, Majestade… — Thranduil ainda ouviu Annchir exclamar ironicamente e então veio o silêncio, o mais absoluto e pacífico silêncio.
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— Que lugar é este, Eruwen? — a elfa indagou enquanto fitava a terra arenosa com desconfiança. — Não é o caminho para nosso reino e sim para… — foi interrompida.
— Gundabad? — ele completou com um sorriso.
— Pare o cavalo, agora! Estou desarmada mas ainda posso enfrentá-lo em um combate físico. — Luna ameaçou entredentes.
— Não seja tão violenta, minha querida. — ele a repreendeu com uma pitada de humor. — Estamos na mira de muitas flechas, acredite, e eu não sou considerado um inimigo por aqui. Não posso dizer o mesmo de você, então, aquiete-se e tenha paciência. — tudo em Eruwen exalava uma tranquilidade que alimentava a ira de Luna. — Eu disse que a levaria até nosso rei, não disse? Bem, estamos quase lá.
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