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14 Capítulo 14
Notas iniciais
O som do trotar de seu cavalo foi ouvido e, quando ela finalmente chegou ao centro do tumulto, a multidão passou a abrir caminho para que cavalgasse. O animal sob si batia suas ferraduras contra a rua de pedra e relinchava de maneira audível, o que abafava os murmúrios de irritação de algumas pessoas.
De longe, a elfa avistou Húrin e Elros postos um ao lado do outro. Já Dior e Bëor se encontravam mais próximos do povo, conversando entre si. E, enquanto se aproximava deles, Luna procurou pelo arqueiro.
— Veja, a elite da corja élfica se apresenta. — ela ouviu uma mulher sussurrar para outra no momento em que passou pelas duas, mas apenas ignorou.
A elfa desceu de sua montaria e olhou para os lados, analisando rapidamente o local, e então entregou as rédeas nas mãos de um dos soldados. Húrin a cumprimentou com sua habitual cordialidade assim que ela se aproximou, mas Elros apenas lhe dirigiu um olhar de indiferença.
Os burburinhos começavam a tomar proporções maiores e toda a agoniação acabou por causá-la uma profunda impaciência.
— Onde está Bard? — Luna indagou de um modo sutil.
— Ele disse que iria aos campos rapidamente, mas que logo voltaria. — Húrin a respondeu.
Ela franziu o cenho.
— Acha que aconteceu alguma coisa? — dessa vez ela indagou com os olhos cravados nos habitantes.
O homem riu suavemente.
— Não turbe o vosso coração, minha dama. — ele disse para tranquilizá-la. — Se algo realmente tiver acontecido, o que eu duvido muito, o arqueiro saberá resolver. Afinal, o sangue dos antigos nobres Senhores de Valle corre nas veias dele!
Luna se deu por satisfeita e voltou a ficar em silêncio. Minutos depois ela avistou Argon se aproximar e este a saudou com uma leve reverência antes de ouvi-la perguntar:
— Onde está Lúthian?
O elfo desviou os olhos para um ponto qualquer.
— Ele foi cavalgar pelas redondezas. Monitorará a cidade enquanto estamos aqui. — se limitou a dizer.
Luna demorou sua atenção sobre ele, pois ela sentia que algo estava acontecendo. Mas, logo teve seus olhos voltados para o meio da multidão quando murmúrios sobre o arqueiro começaram a se espalhar.
Bard estava com os cabelos soltos e as roupas completamente encharcadas quando se aproximou com seus filhos. Ele sorriu e disse alguma coisa para a filha menor, esta que retribuía com uma das mãos agarrada firmemente ao braço do pai. Bain vinha logo em seguida, estando ao lado de sua outra irmã, e todos pareciam conversar animadamente entre si.
Inesperadamente o arqueiro ergueu a cabeça e seus olhos se encontraram com os de Luna, e ela se sentiu extremamente constrangida com o modo que ele a fitava, tão constrangida a ponto de corar. Após perceber a situação inadequada em que ambos se encontravam, a elfa desviou o rosto e voltou a endurecer sua expressão.
— Perdoem a minha demora. — o arqueiro disse quando se colocou em frente à Húrin e Elros, enviando um rápido olhar para Luna.
— Vejo que teve um pequeno… problema. — Elros exclamou enquanto o analisava.
— De qualquer modo, vamos acabar logo com isso. — Bard desconversou e os três se voltaram para a multidão. Bëor e Dior se juntaram a eles e, por fim, o grupo estava completo.
— Por favor, minha senhora, tome a palavra. — o ancião se pronunciou enquanto olhava Luna de soslaio.
Húrin a deu passagem para que a mesma ficasse visível aos olhares que estavam fixos neles e, mesmo contrariada, a elfa fez como o sugerido. Ela ergueu a cabeça e se deparou com os semblantes variados do povo de Valle. Uns a fitavam com curiosidade, outros com indiferença e, enfim, os com total desprezo. Aquilo fez sua garganta fechar e seus batimentos acelerarem.
Luna respirou fundo, de um modo sutil, e então iniciou:
— Mesmo tendo conhecimento dos problemas que enfrentava, eu confesso que não esperava encontrar Valle no estado em que encontrei quando cheguei aqui. — a elfa proferiu com firmeza, dizendo tudo em alto e bom som. — Eu preciso deixar uma coisa esclarecida; nós, elfos, não estamos aqui para subjugá-los. Não estamos aqui para nos aproveitar de vocês. Nossa missão é ajudá-los, tentar trazê-los para a paz. Não somos seus inimigos!
Ela sentiu alguém se pôr a seu lado e percebeu se tratar do arqueiro.
— Olhem para seu lado, para a sua frente, voltem-se para trás. O inimigo está aí, no meio de vocês. — ele exclamou com seriedade. — Lobos disfarçados de ovelhas, espalhando dissensões, semeando a discórdia… e tudo para quê?
— LIBERDADE! — alguém gritou na multidão e logo várias exclamações de concordância foram ouvidas.
— Ouçam! — interveio Bëor. — Escutem o que vocês mesmos dizem, prestem atenção em suas próprias palavras e verão que, na verdade, elas não vieram originalmente do povo. É apenas o resultado de uma ideia compartilhada, uma ideia imunda e com duplo sentido! — seus olhos cansados se comprimiam com expressividade. — É algo que vai muito além da palavra liberdade. É uma vontade que nem mesmo se relaciona a ela. Uma vontade que se trata apenas de poder, e nada mais!
— TRAIDORES! — gritavam algumas pessoas ao fundo do grande aglomerado, e suas exclamações eram altas o suficiente a ponto de não serem abafadas pelos murmúrios do resto do povo.
— NÃO SOMOS TRAIDORES! — Elros esbravejou e toda a multidão se calou. — Os traidores estão aí, entre vocês — ele apontava para todos os lugares. — pessoas que se passam por amigos, irmãos… mas a verdade é que não veem a hora do próprio povo enfraquecer para que possam se autonomear senhores de tudo, mestres de Valle!
O som do vento batendo contra os muros da cidade era a única coisa audível, até alguém voltar a se pronunciar.
— Irmãos e irmãs, esta é a verdade: — Dior exclamou. — não há causa. Não há nem mesmo motivo para luta. Os anões, os elfos — ele ergueu a mão em direção à Luna e Argon, que estavam mais próximos. — não querem nos subjugar, eles querem nos ajudar. — explanou com veemência. — Os verdadeiros inimigos estão aí, como Bard falou; a seu lado, à sua frente… estão em volta de vocês, assim como todos aqueles que os apoiam. Eles os enchem de ideias, enchem seus corações de raiva, jogam uns contra os outros, e por qual motivo? Sem povo, não há resistência. — Dior fitou a elfa de esguelha após repetir a frase que a mesma havia dito na noite anterior. — Todavia, eu não peço que acreditem em nossas palavras, só peço que relembrem nossos feitos e que julguem por si mesmos a qualidade de nosso caráter. Peço que analisem e que depois tirem suas próprias conclusões. Porém, sejam sábios e não permitam com que outros influenciem o seu julgamento. — ele respirou fundo e se preparou para finalizar. — Se quiserem liberdade comecem obtendo-a em suas próprias opiniões. Não se deixem levar pela palavra suave e aprazível, pois, no fundo, esta não passa de um ato de manipulação.
— SÃO OS FILHOS DE TAMAR, ELES SÃO OS CULPADOS! — ouviu-se uma voz e logo os gritos começaram a se propagar.
Luna assumiu uma expressão de inquietação pelo som ensurdecedor do alvoroço e os soldados da tropa élfica logo interferiram, adentrando a multidão para conter a efervescente confusão.
— Não foi por isto que esperei. — Húrin exclamou irritado.
— Ao menos sabemos que os filhos de Tamar são os responsáveis, não foi uma total perda de tempo. — Elros comentou.
— Aqueles moleques não têm nem a capacidade de me convencer a comprar as peles dos ursos que caçam, quem dirá de colocarem na mente das pessoas tais ideias de rebelião. Podem ter participado, mas não foram os criadores disso tudo. — Dior retrucou de modo desaprovador. — Isto não pode se prolongar por muito tempo… — afirmou ao fitar a multidão que se agredia violentamente.
Uma boa parte dos elfos apartava os homens enquanto a outra protegia as mulheres e crianças. Os que não foram imobilizados pelos soldados agarraram um grupo de homens e então abriram uma roda para jogá-los no centro dela, como cães.
Um deles se apresentou.
— Estes, mestre Dior, são os causadores de nossa desgraça e decadência em sabedoria. — ele apontou para o grupo no centro do cerco. — São aqueles que propagam a discórdia e, após terem sua tão amada dissensão, voltam como ratos para seus esconderijos. Digo isso pois também já lutei por sua causa, mas agora vejo que não passei de um mero peão de tabuleiro, pelejando por aqueles que na verdade queriam a minha cabeça, assim como a de todo povo.
Bëor os fitou minuciosamente, reconhecendo que se tratavam dos antigos servos do Mestre de Esgaroth.
— Há mais alguém? — Húrin indagou o povo. Não houve resposta.
— Sendo assim… — o ancião tomou a palavra e se dirigiu aos homens, estes que o fitavam com desprezo. — é uma pena, mas toda ação tem um resultado. Por terem como propósito a ruína de Valle e de todo o seu povo, por espalharem seu veneno pelos corações e atacarem nossos amigos da Floresta das Trevas, eu, como ancião da cidade, os condeno ao exílio. — os homens permaneciam humilhantemente jogados ao chão. — Que as vossas linhagens sejam sempre marcadas com sangue e que todos os tratem com desprezo por seu ato grotesco e imundo de traição. — Bëor ergueu os olhos para o povo. — E saibam; todo aquele que escolher seguir o mesmo caminho deve estar ciente de como ele terminará. Valle é uma cidade de homens dignos, não de servos da escuridão.
A multidão gritava ensurdecedoramente, gritos de alegria pelo retorno da paz e pelo fim do confronto de homens contra homens. Alguns elfos, que antes protegiam as crianças e mulheres, se dirigiram em direção aos exilados no centro do alvoroço após um aceno de Luna.
Tudo acontecia lentamente diante de seus olhos azulados, e se antes o som ensurdecedor a perturbava agora a elfa estava no mais profundo silêncio. Ela via seus soldados agarrarem os homens com rigidez para então arrastá-los dali, e estes gritavam e se debatiam desesperadamente. Um deles direcionou seu olhar à Luna e ela soube naquele momento que jamais se esqueceria de seu rosto, pois nele viu a mesma expressão que vira no de Annchir antes deste abandoná-la.
Ela foi tirada de seus devaneios quando Bard tocou seu ombro.
— Tudo bem? — ele indagou em um sussurro.
Ela acenou negativamente.
— Quero sair daqui. — sua voz era apenas um fio.
Bard nada disse, apenas rodeou a mão de Luna com a sua e a fitou nos olhos antes de levá-la para longe dali.
Argon observou os dois em silêncio até que sumissem de suas vistas.
.o0o.
O ar corria com liberdade pelo campo aberto, e Luna era agraciada com o toque suave do vento em seu belo rosto.
— Que lugar é este? — ela indagou ao olhar em volta.
— Uma espécie de refúgio. Trago meus filhos, às vezes. — ele a respondeu no momento em que se sentava à sombra de uma árvore. — Por isso me atrasei, estávamos aqui. Hoje Tilda completa mais uma primavera. Bain e Sigrid me encharcaram d'água com suas brincadeiras, apenas para divertir a irmã…
Um sorriso iluminou o rosto de Luna, sorriso que logo foi retribuído.
— Que bela notícia!
— A de que fui encharcado? — Bard quis soar divertido, e deu certo.
— Não, não… — a elfa riu e continuou. — que sua filha completa mais um ano de vida!
— Sim… — a expressão do arqueiro se tornou mais séria e ele passou a brincar com uma pequena folha em suas mãos. — na cidade, o que aconteceu?
Ela passou a observar o horizonte, ainda estando de pé. O sol da tarde ardia no céu e o calor só era aplacado pelo vento que percorria o campo.
— Apesar de ser guerreira e já ter visto muitas coisas, lutado em muitas batalhas e enfrentado diversos inimigos, não sou adepta de conflitos. O que houve hoje, na cidade… eu não aprecio. — ela fitou a grama sob seus pés. — Acredito na benevolência, compreensão e no perdão.
Luna se lembrou de seu rei e percebeu o quão contraditória sua frase havia soado, mas ela tratou de esquecê-lo e se concentrou na figura de Bard.
— Precisamos de um líder, se você quiser se candidatar… — ele disse casualmente e a fez rir. Foi impossível não acompanhá-la naquele momento de felicidade.
— Quem escolheria uma elfa como líder de uma cidade de homens? — ela indagou com divertimento ao se sentar ao lado do arqueiro, tomando a folha que ele segurava de um modo brincalhão.
Bard não a respondeu de imediato, apenas se concentrou em observar os detalhes do rosto de Luna.
— Eu escolheria. — ele estava sendo absolutamente verdadeiro.
A elfa se sentiu envergonhada e baixou o olhar.
— Então, você é um tolo! — exclamou com divertimento.
— Deve estar certa, devo ser o homem mais tolo que você já conheceu — Bard sorriu e Luna o acompanhou. — mas, pelo menos, sou um tolo sincero. — aquilo a fez revirar os olhos. — Agora que tudo volta a sua normalidade, quanto tempo ainda pretendem ficar?
Ela ignorou o tom de inquietação na voz dele e voltou a fitá-lo.
— Logo… — iniciou calmamente. — mas, não agora. Ainda temos que ajudar a escolher um novo Senhor de Valle, lembra? — Luna viu um sorriso de canto se formar no rosto do homem e então se voltou para o campo, observando a grama verdejante. — E, nos igualando em sinceridade, — ele sorriu. — eu gosto daqui. É um bom lugar para se viver…
Ambos ficaram em silêncio e se dedicaram a observar o sol irradiar o céu. O tempo corria tão lento e ao mesmo tempo tão rápido que, em certo momento, eles não souberam mais defini-lo. Contudo, a noite acabou por chegar e a lua subiu aos céus, justamente o momento em que os dois voltaram para junto de seus amigos.
Luna indagou Argon o fato de Lúthian ainda não ter retornado e, mais uma vez, recebeu uma desculpa que não a convenceu.
O que estava acontecendo com seus conselheiros? O que eles escondiam?
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Nenhum dos presentes dizia qualquer palavra. Pai e filho permaneciam em silêncio e o único som audível no recinto era o de seus movimentos ou dos objetos à mesa. E os olhos de Legolas descansavam sobre a figura do rei entre um movimento e outro, este que permanecia com sua áurea de indiferença intacta.
Seu soberano — e pai — não havia dito uma única palavra desde a chegada de Erebor, e era desnecessário dizer que todo aquele silêncio era extremamente incômodo.
Legolas bebeu o líquido em seu copo e engoliu o alimento com suavidade, se preparando para dizer algo:
— Tauriel fez uma boa escolha, Luna é uma elfa excepcional. — o príncipe comentou e assim conseguiu capturar a atenção de seu rei. — Ela se mostra bastante sábia em sua liderança. Acredito que esteja satisfeito, meu senhor.
Thranduil passou a fitar o cálice de ouro à sua frente e não fez a mínima menção em respondê-lo. Legolas riu internamente antes de continuar:
— Apesar das circunstâncias serem complicadas, imagino que logo ela resolverá os problemas que assolam a cidade dos homens… — ele completou ao fingir uma expressão ponderativa.
— Sinto que você quer me dizer algo, então vá logo ao ponto. — o soberano quebrou o silêncio de dias e se voltou para o filho.
E aquilo era tudo o que Legolas desejava ouvir.
— O rei que deixei quando parti não é o mesmo rei sentado comigo, neste momento. — o elfo fez uma pausa. — O rei que conheci antes de partir jamais permitiria com que alguém, além dele mesmo, adentrasse os Jardins da Rainha. Jamais permitiria o insulto de ser deixado para trás por sua própria tropa, e jamais pararia sua companhia inteira apenas para fitar uma elfa da floresta, por mais bela que ela fosse. — Legolas meneou a cabeça. — Perdão se estou sendo desrespeitoso…
— Você está. — Thranduil respondeu prontamente e seu olhar cortante quase fez o príncipe se arrepender do que havia dito. — Mas, continue.
O mais jovem cerrou os olhos, como se fizesse uma avaliação profunda do estado de seu pai.
— Sua alma está inquieta, eu vejo no seu rosto — ele disse ao assumir um semblante sério e ponderativo. — e talvez eu saiba o porquê.
O senhor da Floresta das Trevas se pôs de pé e passou a caminhar calmamente pelo recinto. Seus passos eram elegantes e sua postura estava ereta, quem quer que o fitasse naquele momento não poderia duvidar de que ele pertencia a realeza.
— Diga logo o que quer dizer, Legolas. Sua falta de habilidade em ir direito ao ponto é algo lamentável e desanimador. — suas palavras eram moldadas pela rispidez, mas o elfo conhecia o próprio pai. Ele sabia que aquele era o seu modo de se proteger.
— Eu vejo que se esquiva, como se não desejasse falar sobre Luna. Se é algo circunstancial ou não, eis a questão, mas, percebi que o senhor não é o único a ter tais enigmas. Ela também me pareceu ter problemas com isso. — Legolas fez uma pausa. — Só não consigo classificar essa postura como algo bom ou ruim… talvez os dois.
Thranduil permanecia atento a cada palavra, como se elas o perfurassem e o massacrassem mais do que adagas em sua garganta. Ele parou sua movimentação por um momento e dirigiu suas íris azuladas ao filho.
— Falou com ela?
— Muito pouco. — o príncipe se levantou e caminhou na direção de seu rei, sem pressa. Seus passos espaçados e milimetricamente calculados logo o colocaram diante da figura imponente de seu pai. — Porventura, tem algo que queira me contar?
Thranduil o fitou como quem fita uma criança.
— Quanto a algo que eu supostamente queira contar não estou certo, mas, certifico de que existem muitas coisas das quais você não necessita saber. — ele foi impassível e teria sido mais cruel se um guarda não houvesse adentrado o recinto no mesmo momento.
— Vossa Majestade, o senhor é esperado em sua biblioteca particular. — o elfo informou após uma leve reverência.
Thranduil apenas assentiu e lançou um último olhar para o filho, dando aquele assunto por encerrado. Ele disse alguma coisa para o guarda e então ambos se retiraram dali.
Legolas permaneceu parado no mesmo lugar, fitando o vazio que antes era ocupado pela figura do senhor da Floresta das Trevas.
Não restava nenhuma dúvida, mas ele preferiu não nomear a situação. Havia sido divertido ver seu pai fugir de suas perguntas ao dá-lo tantas respostas esquivas. E ainda que o príncipe houvesse perdido o jogo de complexos, ele acabou conseguindo exatamente a resposta que tanto ansiava: seu pai e Luna tinham uma estranha conexão.
Legolas notou perfeitamente o olhar desdenhoso que o rei havia lançado para a elfa na saída do território de Erebor, assim como percebeu o tom debochado com que ele se referira a ela. Com a dama não era diferente, já que esta demonstrara tamanho desgosto ao mencionar seu senhor… nada que o loiro considerasse verdadeiro.
De qualquer forma, aquilo tudo o divertia em demasia, mas havia um sentimento que ele não poderia enclausurar em seu peito; a dúvida. Aquilo era algo novo demais, inesperado demais. O príncipe temia, não por seu pai e sim por Luna. Não havia ninguém que conhecesse o rei como seu filho, e ele sabia que Thranduil vivia através de extremos, da intensidade.
Bem ou mal, era dever do destino decidir.
Internamente, Legolas desejou que algo bom pudesse ser extraído dos possíveis pensamentos do rei, algo que valesse a pena. Senão, ele verdadeiramente deveria temer pelos futuros acontecimentos. Afinal, nunca havia visto seu pai agir daquele modo, nunca sequer o havia visto fitar alguém da mesma forma que fitara Luna. Era algo profundo, destrutivo… assustador.
Incomum.
Para seu próprio bem, o príncipe desejava que a elfa fizesse um bom uso de sua sabedoria — tratando-se do rei. E com esses pensamentos ele foi em direção à ala principal do palácio, pois havia decidido que retornaria para sua missão naquela mesma noite.
Ele fitava os lugares por onde passava com atenção e tudo parecia tão escuro, sem vida. A áurea de seu pai estava afetando o espírito do reino e ele internamente sentiu pena do povo, pena da natureza, mas, principalmente, pena de Luna.
Sim, ela não conhecia Thranduil Oropherion.
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