I See You

15 Capítulo 15


Notas iniciais
:)

Duas semanas se passaram tão rapidamente quanto a chuva no verão e a cidade emanava um ar pacífico, quase sereno. Os soldados da Floresta das Trevas ainda não eram consideravelmente queridos, mas agora eram respeitados.

Luna fazia sua patrulha diária ao lado de Argon e Húrin quando eles ouviram um grande murmúrio e sons de cavalos batendo suas ferraduras contra o chão. Um grupo de elfos se aproximava. À frente deste cavalgava Eruwen que, após avistá-la, desceu de sua montaria e foi a seu encontro com um sorriso estampado em seu belo rosto.

Mellon nîn! — Luna o saudou antes de abraçá-lo suavemente. — Mo evínedh? — ela sorria feliz por revê-lo.

Farannem ‘lamhoth i udul o charad. Dagannem rim na Iant Vedui. — Eruwen disse com seu costumeiro tom afetuoso.

Ela franziu o cenho.

— Orcs? Vindos do sul?

— Não se preocupe, tais criaturas já não são mais um problema. — ele a acalmou enquanto tocava seu rosto com carinho. — Tenho saudade do brilho dos seus olhos…

Luna o abraçou mais uma vez, não se importando em parecer inadequada. Eruwen era seu melhor amigo, quase um segundo irmão, e ela o amava.

— Não teria saudades se tivesse vindo junto comigo. — exclamou com divertimento quando eles se afastaram.

— Nosso rei me enviou à Valfenda para comunicar Elrond da constante aparição de Orcs em nossas terras, e também para consultar Mithrandir em sua “suposta sabedoria”. — o loiro repetiu as mesmas palavras usadas por Thranduil.

— A missão de um emissário dada a um guerreiro… — a elfa ironizou. — deveria ter vindo comigo!

— Talvez esta não fosse a vontade de nosso rei, minha querida. — ele argumentou, ainda com o semblante sereno.

— Não vem ao caso. — Luna deu de ombros. — Como anda nosso reino? Desde minha vinda para cá não tenho notícias dos acontecimentos da Floresta das Trevas.

Eruwen ergueu uma das sobrancelhas e indagou:

— Não tem? — sua expressão se transformou em algo que ela não conseguiu decifrar. — Que curioso…

— Como assim?

— Não é nada, minha querida. — ele olhou em volta e desconversou. — Vejo que a missão está sendo bem cumprida. Quando posso esperá-la nas fronteiras de nosso reino?

Luna engoliu em seco.

— Não espere… — aquilo o fez voltar a fitá-la no mesmo instante.

— O que quer dizer com isso?

Antes da elfa ter a oportunidade de respondê-lo, Bëor — que atuava como líder da cidade até outro ser escolhido — se aproximou para cumprimentar os visitantes, e Bard o acompanhava.

— Que alegria receber mais amigos da Floresta das Trevas, sejam todos bem-vindos! — o ancião os saudou com um sorriso amigável.

— Mestre Bëor, este é Eruwen, filho de Elöhin. Um amigo de muitos séculos e irmão em todo tempo. — Luna o apresentou e os dois se cumprimentaram com um leve aceno respeitoso.

— E o que o traz à Valle? — Bard indagou calmamente, mesmo que não visse a presença do outro com bons olhos.

Eruwen percebeu sua antipatia e o fitou por alguns segundos.

— Depois de tantos dias sem vê-la, decidi visitar minha dama para aplacar a saudade em meu coração. Fiz mal? — o elfo estava sereno, mas um brilho de desafio iluminava suas íris.

E o arqueiro não gostou nem um pouco daquilo.

— Não, não fez.

— A chegada de amigos é motivo de alegria em nossa cidade! — disse Bëor. — Meu senhor, aceite ficar por esta noite e uma festa será organizada. Isto seria uma grande honra para todos nós!

Eruwen trocou olhares com Luna e viu expectativa na face da elfa. Ela conseguia convencê-lo como ninguém.

— Se esta é a sua vontade, que assim seja. — ele respondeu cordialmente e tanto o ancião quanto a elfa sorriram satisfeitos.

— Eu gostaria, mas não poderei acompanhá-lo porque ainda devo terminar de patrulhar a cidade. Argon levará você e seus companheiros até a hospedaria dos elfos. — ela se dirigiu ao amigo e o viu concordar.

Minutos depois, Eruwen montou seu cavalo e então se despediu de Bëor com um leve cumprimento respeitoso. Ele também voltou os olhos para o antigo barqueiro e o fitou com um suave ar de superioridade, mas este torceu o nariz e o retribuiu à altura.

Em silêncio, todos observaram o grupo de elfos se afastar.

Húrin e Bëor foram os primeiros a se retirar, pois tinham compromissos em Erebor. E então, Bard e Luna estavam sozinhos outra vez. E os olhos escuros do arqueiro a fitaram de uma forma que ela não soube distinguir.

— Preciso ir, Lúthian me espera no sul de Valle. — ele exclamou e se retirou, sem sequer dá-la a chance de responder algo. A elfa fitou as costas do antigo barqueiro enquanto o mesmo caminhava para longe e, aos poucos, perdeu-o de sua vista.

Alguma coisa estava acontecendo e, quando tivesse a oportunidade, Luna o faria contar. Em todo tempo em que estiveram juntos ele jamais agira daquela maneira consigo, e a elfa sabia que algo muito sério perturbava o coração do arqueiro.

Deixando tais pensamentos de lado, ela prosseguiu com seu dever e voltou a caminhar por Valle.

Apesar de estar imensuravelmente feliz por tê-lo por perto, Luna devia admitir ter se assustado com a chegada de Eruwen. E tudo pelo fato de uma parte sua temer que este viesse a ser o portador de más notícias, fossem sobre o reino ou sobre Annchir.

Ela também sentiu um frio no estômago ao voltar a pensar na Floresta das Trevas, e a sensação apenas piorou ao se dar conta de que seu retorno a cada dia se aproximava. E esse era o grande dilema dos últimos dias; Luna não estava certa se gostaria de voltar para o reino.

A chefe da guarda havia se apegado ao ar do campo, aos sons vindos da montanha, aos jantares alegres na companhia dos anões, mas, principalmente, às longas conversas com o arqueiro.

Mesmo tentando se esquivar, os olhos de Luna sempre caíam sobre a figura de Bard; seu sorriso tímido a encantava e o tom sereno de sua voz a acalmava, como se nenhum mal pudesse atingi-la enquanto ela estivesse em sua companhia. Ele a passava confiança e esperança, e isso a fazia se sentir imbatível.

Mas Luna não era nenhuma tola e enxergava os sentimentos de Bard — que eram tão perceptíveis quanto a brisa da manhã — e isso a deixava confusa, demasiadamente confusa. Com o tempo e pela convivência, ela havia passado a apreciá-lo, porém, tudo estava tão complicado… tudo era tão complicado.

Thranduil…

Aquele nome a amedrontava, a assombrava. E se tornou impossível não compará-lo ao arqueiro nas mínimas ações, nos gestos mais detalhados, era quase natural. Com Bard não havia discussão, nunca, ele sempre fazia de tudo para que ela ficasse feliz. O que, evidentemente, era muito diferente de quando a elfa estava na presença de seu arrogante soberano.

Luna havia sido convidada para jantar na casa do antigo barqueiro e teve a oportunidade de ser formalmente apresentada a seus filhos, que haviam se mostrado crianças encantadoras. E aquela visão de uma família plena e feliz a atraiu, a fez se sentir desejosa. Todos sorriam e se alegravam, e Tilda era a mais animada.

Ela sorriu minimamente ao se lembrar da pequena.

A menina pedira que Sigrid, a filha mais velha, cantasse enquanto Bain a acompanhava em uma dança no centro da sala de sua casa. E ela logo largou o irmão para rodopiar com o pai pelo recinto, ambos entre risos.

Sentada ali perto e movimentando as mãos em um ritmado bater de palmas na tentativa de acompanhar Sigrid em sua cantoria, Luna se deleitou na visão do amor de um pai para sua filha. Aquilo a fez sentir uma felicidade desmedida em seu peito e, depois de tanto tempo, a sensação de fazer parte de uma família de verdade a atingiu outra vez.

Céus, eu estou miseravelmente dividida.

Apesar de saber que aquele era um bom caminho a se seguir, que a faria se sentir bem — pelo menos por um tempo, algo no profundo de Luna ainda a incomodava. Todas as vezes que Bard estava consigo uma parte dela simplesmente se negava a reagir, se apagava. Uma culpa a invadia e a sufocava, como se ela estivesse fazendo algo que não devesse fazer.

A elfa foi tirada de seus devaneios após ouvir um dos habitantes lhe fazer uma pergunta na tentativa de puxar uma conversa. Alegre em ganhar a simpatia do povo de Valle, Luna suavizou sua expressão e o respondeu gentilmente.

Seus pensamentos confusos e inoportunos podiam esperar.

.o0o.

— Por algum motivo eu sabia que o encontraria aqui… — ela disse enquanto se aproximava a passos lentos.

Bard a olhou por cima dos ombros e então se voltou para a frente.

— Preciso encontrar outro esconderijo secreto. — ele usou um tom de divertimento que contradizia com seu semblante. — Achei que estivesse com seu amigo.

Luna revirou os olhos e se sentou a seu lado.

— Pude perceber que não se deram muito bem, apesar de ainda não ter compreendido o motivo.

— Algo no olhar dele não me agradou. — o arqueiro deu de ombros e então suspirou. — Perdoe a minha grosseria, estou sendo inadequado.

— Bard…

— Ele veio levá-la embora, não é?

A pergunta do arqueiro pairou no ar durante alguns minutos e a expectativa pela resposta o fez fitá-la profundamente.

— Não, ele não veio. E me surpreendo em saber que isto o perturba. — Luna afirmou com uma das sobrancelhas erguidas.

O homem sorriu envergonhado.

— Tilda gosta muito de você e ficaria triste se a visse partir tão inesperadamente — ele meneou a cabeça. — todos nós.

O coração da elfa passou a bater descompassado, ela não esperava por aquela afirmação.

— Não a deixe se preocupar com coisas tão supérfluas. Ter medo de algo que ainda não aconteceu não deve ser uma das características de uma criança.

Bard sorriu.

— Tem razão… — ele sussurrou e Luna o viu erguer uma das mãos para tocar seu rosto, seu gesto era lento e quase relutante. — sou eu quem não suporta a ideia de não poder contemplar os seus olhos todos os dias.

Ela não fez nenhum movimento para afastá-lo, tudo simplesmente paralisou.

O arqueiro se voltou para o lado e assim teve mais facilidade para se aproximar, e ele era tão lento e cuidadoso que a elfa se sentiu a joia mais bela entre tantas outras. Luna o viu se inclinar em sua direção e logo sentiu a respiração dele bater de encontro a seus lábios.

— É cedo e eu sei que sou somente um homem, um mortal. A sua beleza é eterna e a minha vida é finita, quase um sopro diante do seu furacão. — ele fez uma pausa. — Mas, sendo indiferentes a esses percalços insolúveis por apenas alguns segundos… me concederia a honra de poder beijá-la? — o arqueiro murmurou com seus olhos vidrados nos dela.

Luna estava atordoada, como caíra naquela situação? Mais uma vez um sentimento contrário a abateu e ela sentiu a necessidade de sair dali o mais rápido possível. A imagem de seu rei a beijando e segurando firmemente em seus braços a atingiu com a velocidade de uma flecha, e aquilo a irritou.

Até em momentos inoportunos Thranduil conseguia perturbá-la.

Em um ato desesperado para tirá-lo de sua cabeça, Luna consentiu com aquela proximidade e o arqueiro se inclinou ainda mais em sua direção. Ela sentia seu corpo estremecer pelo nervosismo e instintivamente fechou os olhos após senti-lo encostar os lábios delicadamente contra os seus.

Não era um beijo afoito e sim calmo, sereno. Aquela intimidade era tão cálida que Bard a considerou divina, como um momento sagrado. Ele aprofundou o recostar de lábios de maneira receosa e a elfa entrelaçou seus dedos nos cabelos dele, mostrando-o que estava tudo bem. Ela o aceitou com gentileza e carinho, sentindo-o beijá-la com tanto sentimento que quase a fez chorar. Era tudo tão doce e leve, como o roçar macio da brisa da manhã nas folhas das grandes árvores.

Depois de um tempo eles se afastaram e Bard encostou sua testa à de Luna.

É melhor do que imaginei… ele disse serenamente e sorriu como ela nunca havia visto.

Luna fechou os olhos enquanto a respiração do homem ia de encontro a sua, sentindo-o inundá-la de calma e tranquilidade. Ela nunca desejou amar alguém como desejava amar Bard, na verdade, aquele pensamento jamais lhe passara pela cabeça. Mesmo que o amor dos dois fosse algo contrário a sua própria natureza a elfa teria lutado por ele com todas as suas forças, todas elas.

Mas, um grande mar separa o desejo da verdade dilacerante, e Luna conhecia a sua verdade; ela não amava Bard.

Um ruído de folhas secas sendo pisadas os chamou de volta de seus devaneios e os fez levantar de forma abrupta. Os olhos azuis da elfa varreram o local enquanto o arqueiro se mantinha de prontidão, logo atrás de si.

Nada a vista.

— Acho melhor voltarmos. — ela disse ao baixar a guarda.

— Algo errado? — Bard indagou e então procurou o olhar de Luna, mas ela não o fitou de volta.

— Não… eu… — a elfa contraiu a expressão. — eu só acho que devemos voltar. — se limitou a dizer e caminhou para longe dali, para longe dele. Em todos os sentidos.

.o0o.

— O que está achando da cidade? — ela indagou enquanto o amigo observava a pequena comemoração.

— Diferente do que pensei, e essa é a melhor definição que eu posso lhe dar.

Tudo foi feito na casa de Dior, algo simples, apenas para receber os visitantes do reino da Floresta das Trevas. Somente os mais nobres homens de Valle compareceram e o ambiente não poderia ser mais calmo e amigável.

— E como as coisas andam em nossas terras? — Luna voltou a questionar.

O estranho silêncio entre eles a incomodava. Eruwen parecia recluso em sua presença, quase indiferente.

Ele respirou bem fundo, como se pensasse na melhor resposta para aquela pergunta.

— Não há nada interessante a dizer.

— A sua resposta foi infinitamente esclarecedora. — Luna ironizou e então bebeu um pouco do vinho em seu cálice.

O elfo riu suavemente e voltou os olhos para seu rosto.

— Perdoe-me, minha querida, mas eu fui sincero no que disse. Não se zangue com o meu irritante praticismo. — ele tocou o rosto da elfa com a leveza das flores, como se tivesse medo que ela sumisse ao mínimo roçar de seus dedos.

Os lábios de Luna se abriram em um sorriso cálido.

— Senti sua falta… — sussurrou para o amigo.

— E eu a sua! — Eruwen manteve seus olhos fixos nos dela por longos minutos, mas acabou cedendo a tentação de dirigir o olhar para o outro lado do recinto. Luna o imitou e percebeu que o loiro fitava Bard, este que estava alheio aos dois. — Então, aquele é o famoso Matador do Dragão? Não me parece tão surpreendente. Um tanto grosseiro, devo dizer. E é amigo de anões. — ele exclamou ao assumir uma expressão desgostosa.

— Anões são uma boa companhia, se souber apreciá-la. — Luna os defendeu.

— Quando voltar para nosso reino não ouse dizer isso, você provavelmente será exilada… — Eruwen exclamou com divertimento e o semblante da elfa se endureceu no mesmo instante. — algum problema, minha querida?

Ela hesitou antes de responder.

— Eu gosto daqui. — aquilo o fez erguer uma das sobrancelhas. — Me sinto bem.

— Este não é o seu lar, Luna. Não é onde você deve estar. — o amigo alertou com tranquilidade, como se estivesse conversando com uma criança.

— E onde é o meu lar, Eruwen? O que a palavra lar significa para você? — ela indagou retoricamente. — Pois digo que lar é onde nos sentimos queridos, bem-vindos, onde nosso coração se sente leve e nossa alma é livre. E eu me sinto desta maneira em Valle.

— As pessoas daqui têm algo a ver com este pensamento? Alguém em particular? — Luna sentiu um tom diferente na voz do elfo.

— Não compreendo aonde você pretende chegar com isso…

— Sim, você compreende. E preste atenção no caminho sob seus pés, Luna. Nós sabemos que este arranjo é impossível. — Eruwen proferiu com sua serenidade intacta. — A vida que foi concedida a ele se passará tão rapidamente que vocês não terão nem mesmo o privilégio de descobrirem a felicidade juntos.

— Não diga asneiras, por que eu teria tais sentimentos por Bard? Por que não posso desejar ficar ao lado dele por amizade? — ela indagou com um misto de insegurança ao se lembrar do ocorrido de mais cedo. — Ele é como você, me faz ter a mesma sensação. Não atropele as coisas.

A risada baixa e profunda do loiro a causou certa irritação.

— Já lhe disse uma vez e vejo que terei de repetir; você não consegue mentir, não para mim. — o elfo exclamou e então deu uma golada em seu vinho. Minutos se passaram e suas próximas palavras soaram com uma malícia que não o cabia. — Peço perdão por mudar drasticamente de assunto, mas, onde está Argon? Não o vejo desde que me deixou na hospedaria pela manhã.

— E por que o procura? — Luna indagou de forma arisca, ponderando sobre a estranha postura de seu amigo.

— Apenas acho espantoso que um de seus líderes não esteja aqui, se alegrando conosco. E, dos dois, Argon me parece o mais agradável para se ter um diálogo. Pelo visto não temos a honra da sua presença, aonde ele poderia estar? — seu tom era tão calmo e sereno que não levantaria suspeitas, mas Luna o conhecia bem e sabia que Eruwen estava insinuando algo.

Seguindo seu conselho, a elfa se despediu e foi em busca de Lúthian para questioná-lo sobre o sumiço de Argon. Ela já vinha desconfiando de que algo acontecia debaixo de seu nariz, porém, não conseguia imaginar o quê. Volta e meia um de seus conselheiros desaparecia e suas justificativas para tal eram inúteis. Eles saíam sem serem notados e voltavam quando já não eram mais aguardados. Lúthian era quem o fazia com mais frequência, deixando para Argon a tarefa de explicar o que tinha acontecido.

Luna saiu da residência e avistou seus dois conselheiros conversando em frente à casa, mas Argon montava em seu cavalo. Ela apressou o passo e se aproximou dos elfos, observando as expressões de espanto que estes assumiram com sua aparição repentina.

— Minha senhora. — Lúthian a cumprimentou ao tomar a frente.

— Onde estava? — ela o ignorou e se dirigiu à Argon.

— Minha… — foi interrompido.

— Responda-me — Luna ordenou de maneira ríspida. — e não ouse tentar me enganar.

Os olhos de seu conselheiro a fitaram com uma leve surpresa e ele ponderou profundamente antes de voltar a falar.

— Orcs têm andado pelas terras depois de Esgaroth. Mais precisamente falando, após o Lago Comprido. Mesmo com a distância que nos separa, temíamos que isso representasse algum perigo para os homens de Valle. Com tais criaturas nos rondando dessa forma não pudemos evitar pensar que talvez fosse outra tentativa do inimigo de investir contra a montanha.

— Exatamente, minha senhora. — Lúthian veio em seu socorro e recebeu um olhar desconfiado da elfa. — Não a comunicamos pois a dama já tem muito com o que se preocupar em relação à cidade. Achamos que poderíamos resolver este problema, ou, pelo menos, estar preparados para qualquer imprevisto.

Um silêncio se formou enquanto Luna meditava sobre o que ouvira. Seria um absurdo dizer que as afirmações não haviam sido convincentes, na verdade, elas cumpriram o seu papel com excelência. E tudo teria se resolvido ali mesmo se os olhos da elfa não tivessem repousado sobre a capa de Argon.

— Se o que diz é verdade — ela se aproximou da montaria e capturou uma folha pequena e parcialmente negra que repousava sobre o tecido bem trabalhado. — diga-me, como a folha de uma árvore que só cresce no território da Floresta das Trevas veio parar na sua capa?

O elfo ficou estático no momento em que viu a folha traiçoeira nas mãos de sua senhora, e ele não mostrou resistência quando ela o puxou por sua capa e o fez cair do cavalo. Em um movimento rápido e bem calculado, Luna se agachou até a altura em que este se encontrava e o segurou pela gola de suas vestes.

Ela nunca havia sido tão áspera com um semelhante.

— Fui clara ao dizer que não deveria ousar me enganar, e eu não costumo brincar com as minhas ameaças. — sussurrou rispidamente. — Agora sei que você esteve na Floresta das Trevas e algo me diz que esta não foi a primeira vez. Só preciso saber o que o induziu a ir até lá já que nenhuma ordem foi dada, ao menos, não por mim.

Os olhos de Argon estavam levemente arregalados quando ele os direcionou para Lúthian, este que fitava a situação totalmente estupefato e indisposto a ajudá-lo.

— Diga! — Luna ordenou ao fechar ainda mais o aperto de sua mão na gola de seu conselheiro. — Agora!

O elfo se viu sem saída.

— Foi uma ordem de nosso rei! — a voz de Lúthian soou trêmula quando ele finalmente se manifestou. Luna o fitou por cima dos ombros, sinalizando que estava ouvindo. — Nós deveríamos vigiá-la e assim deixá-lo a par de suas ações. Todos os passos, cada mínima decisão, tudo sem que a dama desconfiasse.

O quê?

— Ele tem se mostrado bastante interessado nos acontecimentos. — Argon tomou a palavra e sua dificuldade em respirar se tornou explícita. — Principalmente depois que o comunicamos que minha senhora… — hesitou.

— O quê? — Luna indagou impacientemente. — Continuem!

Ambos estavam receosos, mas já haviam dito demais e estavam perdidos de qualquer forma.

— Que minha senhora anda demasiadamente próxima do arqueiro. — Argon disse de uma vez.

Ela sentiu a fúria crescer em seu peito, sua respiração estava visivelmente pesada.

— Por que ele faria isso? — questionou mais para si mesma do que para os dois.

— Seguimos apenas ordens, minha senhora. — respondeu Lúthian. — Agora, por favor, se acalme.

Luna soltou Argon abruptamente e o outro correu para acudi-lo.

Sua razão havia se recolhido por completo e suas ações estavam sendo dirigidas pela ira, e foram necessários apenas alguns segundos para que a elfa montasse o cavalo de seu conselheiro e começasse a cavalgar para o sul, na direção da Floresta das Trevas.

O animal corria com rapidez, mas não era suficiente. O ódio nos olhos de Luna a havia transformado em uma figura distorcida do que ela era, e agitar as rédeas parecia a melhor maneira de aplacar todo aquele sentimento. A pobre montaria não tinha outra opção a não ser tentar ser mais veloz do que realmente conseguia.

O coração de Luna palpitava forte e descompassado, como se estivesse prestes a explodir.

Sua razão despertou por alguns minutos e ordenou severamente que ela desse meia volta e retornasse para a cidade, para a paz daquele lugar. Mas o lado insensato e imaturo apenas a incitava a prosseguir, como uma força magnetizante… algo fora de seu controle.

Como ele pôde usar o mais baixo e terrível ato de traição? Desconfiar dela? Que sentido havia nisso? O que Thranduil pensava?

Ele a estava vigiando como se ela fosse uma qualquer, uma criminosa. Monitorando seus passos como se Luna fosse capaz de apunhalá-lo pelas costas, coisa que jamais faria — ainda que ele merecesse. Seu caráter era tão mal visto assim pelo rei? E o pior, seus próprios soldados — os mesmos que juraram lealdade a ela — haviam sido ordenados a ajudarem-no em sua vontade sórdida e descabida de controlá-la. De transformá-la em um animal pequenino e submisso diante de seus olhos penetrantes.

Thranduil a perseguia de todas as formas, fosse pela constante presença em seus pensamentos ou a vigilância que ordenara a Argon e Lúthian, mas ela não sabia o porque. Por que tanta raiva? O que ela havia feito? Desde o primeiro dia, deste o maldito primeiro dia, ele agira da pior maneira possível.

Isso não ficaria assim, Luna estava cansada do modo prepotente e arrogante de seu rei. Definitivamente, aquele era o seu limite.

Basta.

Notas finais
(Conversa de Eruwen e Luna) — Meu amigo! Por onde andava? — Nós fomos caçar um bando de Orcs que veio do Sul. Matamos muitos próximo a última ponte! ...