I Kissed a Girl
20 O melhor amigo dela
Notas iniciais
Atena mal acreditava na reviravolta que sua vida tivera em tão poucas horas.
Seu corpo inteiro doía, não era um exagero, parecia ter sido atropelada por um caminhão. Havia cortes por toda parte, Apolo junto com uma ninfa cuidava da deusa da sabedoria, ele já havia passado um sermão de exatos trinta minutos sobre como Atena fora maluca e irresponsável. Atena deu um sorriso com aquilo, quem diria que seu irmão mais novo lhe daria um sermão? E quem diria que ela, a deusa mais certinha do Olimpo, havia perdido o controle daquela forma?
Não importava o que acontecesse depois, ela estava feliz, tão satisfeita que mal ligava para a dor. Poucas coisas foram tão gratificantes quanto ver Ares no chão, ela havia cumprido sua promessa nunca realmente formulada, ou talvez não, não havia conseguido fazer Ares engolir uma lança, mas havia conseguido algo muito melhor, acabar com o ego e a marra do irmão. E mesmo que estivesse tão contente com aquilo não conseguia se concentrar em outra coisa que não fosse Afrodite.
A deusa do amor a salvara, mesmo que tivesse agido por impulso, seu grito deu tempo suficiente para que Atena conseguisse tirar Ares de cima dela e derrota-lo. No final de tudo aquilo Atena queria correr até a deusa do amor e conversar com ela, de repente havia gente demais ao redor, as pernas da deusa da sabedoria falharam e antes que ela desabasse Apolo a amparou.
Ela não desmaiou, muito pelo contrário, estava mais consciente do que nunca de todos a seu redor. Observou o entra e sai dos olimpianos em seu quarto, não fora levada para a enfermaria porque Apolo achou que era mais confortável cuidar de Atena ali.
– Tudo bem, Atena. Está quase pronta, ainda dói muito? – o deus do sol perguntou e ela balançou a cabeça negativamente. – Tem certeza?
– Uhum. – Atena murmurou, disfarçando a careta quando Apolo afagou suas costelas.
– Isso é bom, você não teve ferimento tão graves quanto pensei, você quase me matou do coração.
– Você é imortal. – ela lembrou.
– Você entendeu, nunca mais me assuste assim. – ele reclamou.
Atena sabia que nunca conseguiria agradecer a Apolo por tudo aquilo, por isso abraçou o irmão com um pouco de esforço o apertou. Uma das melhores coisas em abraçar Apolo era o calor, não só porque ele era quente (Apolo is hot ♥ ), mas também porque o abraço dele trazia as melhores coisas. Por alguns segundos ela conseguiu lembrar seus momentos mais felizes, e entre eles estavam os momentos dela com Afrodite, e Atena sentiu seu coração se encher daquela sensação boa.
Quando ele se afastou Atena bagunçou seu cabelo, estavam nesse momento “irmãos” quando a porta foi aberta e Poseidon enfiou a cabeça ali.
– Interrompo algo? – perguntou num tom provocante, fazendo Atena e Apolo rolarem os olhos.
– Pare de provoca-los. – a voz de Héstia surgiu atrás dele e ela o empurrou, entrando junto com o deus dos mares. — Apolo, precisam de você na enfermaria, as coisas estão tensas por lá.
– Droga. – o deus do sol levantou apressado, dando um último olhar de “cuide-se” para Atena antes de sair.
– Deveria ir com ele. – a deusa da lareira falou, dessa vez para Poseidon.
– Acho que sim, vão ser preciso muitos para segurar aquele bebê chorão, afinal o estrago foi grande. – Poseidon deu um olhar para Atena e ela não pode evitar rir, mas quando o deus dos mares se aproximou de Héstia e a beijou suavemente a deusa da sabedoria teve que conter seu queixo que por muito pouco não despencou até o tártaro. Quando ele se afastou deu um sorriso, não aquele sorriso cafajeste que era marca registrada de Poseidon, apenas sorriu e acariciou o rosto de Héstia. – Volto logo, prometo.
Ele saiu rapidamente do quarto, dando uma última olhada nas duas deusas sentadas na cama e aparatou para a enfermaria. Assim que a porta se fechou Atena virou para olhar Héstia, ela estava muito corada.
– Desde quando vocês...?
– Há alguns dias, é bem recente. – ela respondeu em uma voz fraca.
– Você e Poseidon? – Atena perguntou bobamente, seu tom demonstrando toda surpresa.
– Sei que parece um pouco louco, até para mim não faz sentido. – Héstia tentou dar de ombros, mas só conseguiu encolhe-los mais. – Ele já estava atrás de mim há um tempo, as coisas aconteceram de repente, num dia estávamos rindo na lareira da sala dos tronos e no dia seguinte ele estava me beijando diante do meu templo.
Atena lembrava como Poseidon parecia estar sempre atrás de Héstia, mas considerou que, uma vez que Héstia o havia rejeitado uma vez (juntamente com Apolo quando ambos os deuses foram pedi-la em casamento) e ter feito seu juramento perante Zeus, o deus dos mares tivesse perdido todas as esperanças. Mas ao que parecia aquela aproximação súbita dos dois pouco antes de Atena partir em busca de Afrodite era apenas um aviso do que estava para acontecer.
– Isso é chocante. – Atena comentou e Héstia riu nervosa. – Você o ama?
– Eu o amo, e acredite é bem mais fácil falar isso agora. Sempre o achei bonito, engraçado, seguro, mas eu só o via como irmão.
– Quando isso mudou?
– Nem eu sei ao certo, talvez quando ele estava mal pelo divórcio, ele começou a passar mais tempo aqui no Olimpo. Em algum momento todo aquele sentimento fraterno se modificou, então veio a nova guerra, a destruição dos juramentos, eu estava tão apavorada, ele foi meu único apoio. – Héstia contou apressadamente. – Eu tentei resistir, Atena. Mas ele estava sempre por perto e eu passei a estranhar quando ele não estava. Quando fiz meu juramento eu estava apavorada, pelo que Zeus fez com Métis, pela forma como os deuses tratavam suas esposas, pelo nascimento das parcas. Havia coisas dando errado por todos os lados, com a péssima sorte que tenho algo muito ruim aconteceria. Hoje vejo que eu me deixei levar pelo medo, mas não me arrependo das minhas decisões.
– Há três noites atrás ele me levou para o reino dele, é simplesmente incrível, embora estar cercada de água me deixasse um pouco desconfortável. Mas o palácio dele, as pessoas...
– Espera você esteve no palácio dele então... – Atena não completou, mas seu tom sugestivo fez Héstia corar mais ainda.
– Não, ainda não. — a deusa da lareira falou “ainda’’ num tom um tanto sonhador que fez Atena rir. – Ele quer que eu esteja cem por cento pronta para isso.
Atena pensou na sua primeira vez, na sensação de certeza que ela tivera no momento em que Afrodite a tocara. De repente sentiu-se feliz pelo fato de Poseidon ter decidido respeita-la, isso fez o deus dos mares subir um pouco em seu conceito.
– Fico feliz que ele esteja te fazendo bem, mas avise-me se ele aprontar, aí eu terei uma conversinha com ele, e levarei minha lança.
– Ah, por favor, preciso dele inteiro. – Héstia piscou e elas riram.
– Ainda bem, porque eu sou inteiramente seu.
Ambas olharam o deus dos mares que entrava, o olhar de Héstia mudou de timidez para adoração, Poseidon sorriu tranquilo, mas estava claro que ele adorava aquilo.
– Precisam de você na sala dos tronos, Hera está entrando em histeria.
– Ah meus deuses! – Héstia levantou num pulo. – Realmente tenho que ir.
Ela virou e abraçou Atena apertado, dando aquele sorriso de “Vai ficar tudo bem” e seguiu em direção ao deus dos mares. Atena se sentiu um pouco constrangida, principalmente quando ele beijou a testa de Héstia, era um gesto tão “eu cuido de você” que sua mente remeteu diretamente a Afrodite.
Assim que Héstia saiu Poseidon caminhou até a cama e sentou, parecia a vontade, considerando que nunca antes estivera no quarto de Atena.
– Então... – ele começou, mas logo se calou.
– Então. – Atena respondeu tranquilamente.
– Não estou afim de fazer um daqueles discursos clichês, deixo isso pro meu irmão, mas acho que você e eu deveríamos conversar.
– E por que acha isso? – ela desafiou.
– Porque você está desesperada para falar sobre o que sente por Afrodite sem que te julguem, o melhor amigo dela é o cara para essa missão.
Atena riu, normalmente ela odiava quando Poseidon a fazia rir, pela rixa entre os dois sentia que ele vencia sempre que a fazia rir de uma coisa boba, mesmo assim ela não se sentia pronta para falar.
– Não acho que eu consiga falar sobre isso.
– Tem bebida nessa casa? – Poseidon perguntou enquanto levantava, Atena assentiu e ele estendeu a mão, ajudando a deusa da sabedoria a levantar. — Onde?
– Tem um bar na cozinha, eu nunca uso, então continua tão lotado quanto antes.
–Bom você precisa de bebida, minha cara Palas. Isso vai desenrolar sua língua, e de quebra te distrair das dores que você escondeu de Apolo. Isso é um tanto masoquista, sabe?
Atena não respondeu, apenas deixou que ele a levasse para fora do quarto, estava perdida em pensamentos, talvez ela fosse masoquista, ela gostava de se torturar até que a dor a obrigasse a parar. Gostava de deixar que as lembranças dela e Afrodite vagassem por sua mente a noite inteira, gostava de fantasiar diálogos e cenas com a deusa do amor, trazia um alívio momentâneo. No entanto a dor voltava, fazendo com que Atena chorasse até o amanhecer, e todas as manhãs ela jurava a si mesma que não faria mais aquilo, mas a noite as lembranças simplesmente não a deixavam.
–Não tenho boas experiências com bebidas. – ela resmungou.
– Fontes seguras afirmam o contrário.
As bochechas de Atena coraram, não conseguia parar de lembrar a forma como ela e Afrodite se agarraram naquela noite, nem mesmo a névoa da bebida a fazia esquecer. Deu um gritinho quando Poseidon a ergueu nos braços e começou a descer as escadas, levando-a até a cozinha e a sentando no balcão.
Observou enquanto ele pegava uma garrafa de whisky e os copos, arqueou a sobrancelha quando ele empurrou em direção a ela.
– Vai fundo.
Atena encarou o líquido âmbar e respirou fundo, enchendo o copo de whisky e levando os lábios teve que fazer um esforço enorme para não cuspir aquilo, engoliu de uma vez e fez uma careta enquanto o liquido descia por sua garganta. Viu que Poseidon a encarava com curiosidade, devia estar se divertindo muito com aquilo, mas estava bebendo seu whisky tranquilamente.
– Sabe, eu estou orgulhoso de você. – ele comentou. – Pelo que fez com Ares.
– Está orgulhoso por eu ter me vingado? – Atena arqueou a sobrancelha e ele riu.
– Também, mas por você ter vingado Afrodite. Eu estava pensando se eu teria que quebrar a cara daquele imbecil por magoa-la.
– Então você também está planejando quebrar minha cara? – ela questionou e ele riu. – Eu a magoei.
– Não, sua mentira a magoou, eu sei bem o que você fez, Palas. – Poseidon sentou no banco diante dela e a encarou. – Na verdade acho uma completa idiotice vocês estarem separadas.
– Eu a enganei, Poseidon. Idiotice seria se Afrodite não me odiasse depois disso. – Atena encolheu os ombros.
– Acho que aquela mentira era destinada a Zeus para salvar a pele de vocês duas. – o deus dos mares deu de ombros. – E no fundo Afrodite também sabe disso, mas toda essa confusão aconteceu no pior momento.
– Está tentando justificar meu erro? – a deusa da sabedoria o encarou, incrédula.
Poseidon sorriu antes de encher novamente o copo dela, Atena pegou e bebeu rapidamente, mas dessa vez sem esvaziar prontamente.
– Não justificando, mas eu sou melhor amigo dela, sabe? Eu acompanhei durante todo esse tempo tudo o que ela passou com Ares, eu consolei cada choro, evitei cada surto, mas não consegui evitar que ela fugisse. Quando descobri sobre vocês duas não posso dizer que fiquei chocado, mas minha única preocupação era o quão magoadas ambas ficariam no final, e quer saber? Estão bem piores do que eu imaginei. – ele observou enquanto Atena se encolhia. – E por isso penso que, se estão tão mal assim, deveria ao menos tentar conversar.
– Poseidon, as coisas não são tão simples assim.
– Sabe qual é o grande problema das pessoas, Atena? – Poseidon perguntou e Atena balançou a cabeça negativamente enquanto bebia mais um pouco. – Elas se deixam dominar pelo medo. Estão sempre com medo de que as coisas não deem certo, mas não percebem que são elas que determinam isso. As parcas podem controlar o destino, mas nunca há só uma opção. Se você e Afrodite querem estar juntas, então fiquem juntas. Que se danem todos que forem contra.
– Chega a ser fofo você acreditar nisso. – Atena murmurou.
– É como as coisas são, minha querida sobrinha. Depois de tudo aquilo na sala dos tronos, você ainda tem medo do que pode acontecer? Você fez Ares parecer um moleque fraco, mostrou a Zeus e todos ao redor que apesar de tudo você ainda é Atena. Use essa coragem que tem para a única coisa que você realmente precisa, estar com Afrodite.
– Talvez se tivesse dito as palavras certas no momento certo... – ela fez uma expressão de choro e pegou o copo cheio de Poseidon e bebeu, fazendo o deus dos mares rir.
– E quem disse que esse não é o momento?
Atena deu um pequeno suspiro, ela queria acreditar que haviam possibilidades, tudo havia mudado tanto desde aquela tarde. Mesmo assim sua insegurança falava mais alto, e se Afrodite não a perdoasse? E se ela estivesse com medo de Atena? Tinha certeza de que não suportaria uma rejeição.
– Talvez eu deva tentar. – ela falou.
– Tem até o final da noite para decidir, combinado? – Poseidon havia enchido os copos e entregava a Atena, erguendo para um brinde.
– Combinado. – Atena brindou com o deus dos mares.
Enquanto a tempestade desabava lá fora os dois estavam conversando e bebendo, esquecendo o título de inimigos, Poseidon contava sobre seu namoro com Héstia enquanto Atena ouvia e assentia, mas no fundo só estava buscando coragem para sua maior batalha. Naquela noite ela iria atrás de Afrodite, já era hora de colocar as coisas no lugar.
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