I Kissed a Girl
15 Escuridão na cidade luz - parte um
Notas iniciais
Afrodite estava mais animada do que o normal naquela manhã, depois de acordar, e observar Atena dormindo pacificamente a seu lado, ela se viu pela feliz primeira vez em muito tempo. Tentou comparar as sensações que a tomavam, havia tantas diferenças entre o que ela sentia com Atena e o que sentia com Ares.
Naquele momento ela estava na cozinha, cantando uma música enquanto preparava omeletes. Havia plugado seu Ipod no aparelho de som da sala, estava admirada que apesar do barulho Atena não tivesse acordado, devia estar realmente exausta, e isso fez a deusa do amor sorrir maliciosa.
Atena estava sentada na cama, seu olhar focado na janela do quarto de onde tinha uma bela vista da torre Eiffel, ela adorava a arquitetura daquela torre, tinha ficado tão entusiasmada quando seu filho apareceu com o projeto. A deusa sorriu e se espreguiçou, ela conseguia ouvir o som que vinha da sala, foi ao banheiro, ocupando-se escovar os dentes e tentar arrumar o cabelo, parecia bem mais fácil domar os cachos quando Afrodite fazia aquilo.
Saiu do quarto, terminando de vestir a blusa, encontrou a cozinha vazia, a música havia parado. Atena olhou ao redor, onde a deusa do amor havia se metido? Encontrou um bilhete junto a uma rosa sobre a bancada da cozinha.
Minha doce Atena
Não fique brava por não me encontrar na cama, você estava tão tranquila, não tive coragem de te acordar.
Estou na sala de música, um andar acima, se quiser me encontrar lá, é bem vinda.
Você foi maravilhosa na noite anterior, e eu repito o que disse, sou sua.
Afrodite.
PS: Passei a mão na sua bunda.
Atena não pode deixar de rir, Afrodite podia ser pervertida, mas ainda assim fazia parecer tão fofo. Pegou a rosa e saiu do apartamento, agradeceu aos deuses por não encontrar nenhum vizinho enquanto caminhava rapidamente para o elevador.
A sala de música era um grande estúdio que ficava na cobertura do prédio, seu piso era de madeira envernizada, as paredes eram cobertas por espelhos e havia uma barra usada em algumas aulas de dança. Atena acreditou que Afrodite estivesse ali para tocar, no entanto a deusa do amor estava parada diante da barra, ignorando os instrumentos que haviam ali enquanto amarrava a sapatilha.
– Bom dia, querida. – ela cumprimentou a deusa da sabedoria assim que a viu. – Dormiu bem?
– Senti sua falta na cama. – Atena murmurou, fazendo a deusa do amor sorrir enquanto a puxava para um abraço apertado.
– Eu decidi dançar um pouco, acordei tão bem, preciso colocar essa energia pra fora.
– Adoraria ver você dançando.
– Que tal se você tocar para mim? – Afrodite indicou o piano e Atena assentiu, antes que ela pudesse se afastar, a deusa a puxou, beijando-a devagar e a soltando de uma vez, sorrindo quando a loira piscou confusa. – Você fica adorável assim.
Atena corou e virou o rosto, caminhando até o piano, sentou no banquinho. Arrumou as partituras, observou enquanto Afrodite se posicionava e em seguida começou a tocar.
Talvez houvesse um pouco de estranhamento na situação, elas tinham uma sincronia perfeita. Atena escolheu músicas alegres e tranquilas, Afrodite dançava suavemente, às vezes seus olhares se cruzavam, mas entre elas só havia a música e o ritmo.
Quando por fim a música parou, Afrodite sentou no piso e se espreguiçou, Atena sentou ao lado dela e sorriu.
– Como se sente? – perguntou.
– Sempre me sinto bem com você por perto. – a deusa do amor suspirou.
– Se sentiria bem em voltar comigo para o olimpo? – Atena murmurou, vendo o sorriso de Afrodite vacilar.
– Eu não posso, Atena. Depois de tudo o que eu contei, acha que eu iria suportar voltar para o Olimpo?
– Vou estar com você.
– Ares vai estar lá.
– Não vou deixar que ele se aproxime. – a deusa da sabedoria garantiu.
– A questão é que eu não sei se o quero longe. – Afrodite murmurou, baixando o rosto.
Atena permaneceu em silêncio, ela não ia sentir ciúme, não tinha direito, ao menos achava que não tinha. Ela entendia, ou ao menos tentava entender, mas não podia esconder que aquilo a magoava. A deusa do amor mordeu o lábio inferior, sentia que havia machucado Atena, mas ela não podia mentir, não é?
– Não fique brava. – ela pediu baixinho, sem ter coragem de encarar Atena.
– Está tudo bem, eu só estou faminta. – a deusa da sabedoria levantou rapidamente.
– Atena... eu... – Afrodite repetiu o gesto da outra.
– Realmente estou faminta.
Ela não encarou Afrodite quando falou aquilo, apenas seguiu para fora do estúdio e esperou a deusa do amor no corredor. Não estava irritada, não conseguia se irritar com Afrodite por ainda ter esperanças, ela era a deusa do amor, Ares sempre teria o seu coração.
“E o meu coração?” Atena pensou, logo afastou aquele pensamento, que tolice. Ela estava bem, ficaria bem.
Quando entraram no elevador Atena notou que Afrodite encolhia os ombros e encarava o chão, soltou um suspiro cansado antes de estender o braço e puxar a deusa do amor para mais perto. Afrodite se agarrou a loira, erguendo o rosto, encarou os olhos cinza e nebulosos de Atena, ela nunca seria capaz de conquistar a deusa da sabedoria, já que era impossível saber o que se passava na mente e no coração da deusa.
– Sinto muito. – murmurou.
– Não, está tudo bem. – Atena deu um sorriso fraco, conseguia sentir a deusa do amor trêmula em seus braços, ela odiava deixar Afrodite assustada daquela forma.
Voltaram ao apartamento, Afrodite insistiu que elas tomassem café da manhã antes de ir para o banho. Atena estava mais silenciosa, tentava colocar as coisas em ordem em sua mente, mas nada acontecia, não conseguia abafar aquele ciúme em seu peito, tão pouco conseguia controlar aquela sensação que a percorria a cada vez que Afrodite a tocava.
Depois de deixarem a cozinha limpa seguiram para o quarto, Afrodite estava preparando a banheira. Minutos depois a deusa do amor voltou ao quarto e arrastou Atena para o banheiro, tirando lentamente a roupa da deusa da sabedoria, sorriu quando Atena a abraçou apertado e a olhou.
– Você é tão complicada.
– Eu sei, não acho que possa mudar isso.
– Também não sei se quero que mude. — Atena falou, fazendo a deusa do amor sorrir.
Entraram juntas na banheira, Atena estava distraída com seus pensamentos, era tirada frequentemente de seus devaneios ao sentir as mãos de Afrodite deslizando por seu corpo. Não era preciso ser um especialista em romance para saber que o banho compartilhado por amantes era um momento extremamente sensual, principalmente quando se está com a deusa do amor. Apesar de todas as caricias e provocações elas não passaram disso, apesar do jeito afoito de Afrodite, Atena queria simplesmente abraça-la.
Quando voltaram ao quarto, Afrodite ajudou Atena com o cabelo cacheado, a deusa da sabedoria estava corada por estar nua diante do espelho da penteadeira.
– Será que eu posso ao menos me vestir?
– Você está bonita assim. — Afrodite balançou a cabeça.
– Mas você está vestida. — a deusa da sabedoria protestou.
– Eu sei, mas eu gosto de te admirar, já que não posso te provar agora. — a morena arqueou a sobrancelha.
– argh.
Afrodite riu baixinho e passou a escovar lentamente os cachos loiros, notou que Atena fazia um bico, era adorável, assim como ela corava a cada vez que encontrava o olhar a deusa do amor focado em seus seios. Assim que recebeu “permissão” para se vestir Atena o fez o mais rápido possível, nem mesmo sua resistência era o suficiente, ela precisava se concentrar em outra coisa que não fosse no corpo da deusa do amor. Quando por fim voltou sua atenção para Afrodite encontrou a morena dando voltinhas diante do espelho, avaliando o vestido que havia escolhido.
– Eu estava pensando na sua proposta. – falou de repente, fazendo Atena olhar confusa.
– O que?
– Eu posso voltar ao Olimpo com você. – a deusa do amor sugeriu num tom inocente, rindo quando a loira ficou de queixo caído.
– Ah Afrodite! – Atena foi até ela, abraçando-a apertado. – Obrigada.
– O que eu não faço por você?
A deusa da sabedoria sorriu, encheu o rosto de Afrodite de beijos, mas quando a morena tentou agarra-la, Atena se afastou. Deu um sorriso provocante.
– Ah não, você não vai ter mais.
– Claro que vou. – Afrodite protestou, tentando agarra-la, mas Atena escapuliu.
– Então vai ter que me pegar. – Atena cantarolou antes de correr para fora do quarto.
Afrodite saiu correndo atrás de Atena, conseguia ouvir a risada dela, seguiu até a sala, a deusa da sabedoria continuou a correr.
– Palas Atena, pare de fugir. — ela gritou.
– Me obrigue! — Atena respondeu.
Elas haviam chegado a sala, Atena desviou para a esquerda segundos antes de Afrodite quase agarra-la, a deusa do amor arqueou a sobrancelha, agora era questão de honra agarrar a deusa da sabedoria. Saltou em direto em direção a loira, Atena deu um gritinho, correndo para perto da janela, se viu encurralada num canto.
A deusa do amor sorriu perversamente enquanto se aproximava devagar, Atena se encolheu ali, seus olhos cinzas tentando desesperadamente encontrar uma forma de escapar.
– Ora, acho que eu venci. – Afrodite se gabou.
– Vai se enganando. – Atena tentou escapulir, mas as mãos de Afrodite a agarraram pela cintura enquanto a deusa do amor se aproximava mais.
– Ah não, corujinha. Eu capturei você, e tenho direito a um beijo.
– Só um? – a deusa da sabedoria murmurou, provocante.
– Milhares. – Afrodite sorriu, segurou o rosto de Atena, estava prestes a beija-la quando a campainha tocou e a deusa da sabedoria se assustou.
– Tem alguém na porta...
– Ignore, deve ser alguém da portaria.
– Eu vou ver quem é. – Atena escapuliu dos braços da deusa do amor, caminhando rapidamente até a porta.
– Depois disso eu preciso de um banho no polo norte.
– Você é absurdamente fogosa.
– Você me deixa assim. – a morena piscou enquanto ia a cozinha e pegava um morango coberto de chocolate.
Atena rolou os olhos, estava feliz demais para se incomodar com as provocações de Afrodite, na verdade pensava como seria estranho se a outra não a provocasse. Estava ouvindo a deusa do amor cantarolando atrás dela, abriu a porta pronta para despachar quem quer que fosse, mas quase caiu para trás ao reconhecer o homem alto e musculoso parado ali.
– Ares? — perguntou incrédula, como se não o reconhecesse.
– Quem você esperava, coruja? O gato de botas? – o deus da guerra ironizou e olhou o apartamento, entrando sem pedir licença e sorriu ao ver a deusa do amor parada no meio da sala. – Aí está você, docinho.
Afrodite quis ter uma reação no mínimo normal, mas quando viu Ares caminhando em sua direção e a agarrando pela cintura, foi incapaz de se mover. O deus da guerra deu um sorriso perverso, completamente satisfeito pelo corpo dela reagir da mesma forma de antes, baixou o rosto enquanto a puxava para mais perto e a beijou com força. Talvez o beijo durasse um pouco mais, já que não havia resistência da deusa do amor, mas algo puxou Ares para trás com força, e de repente a deusa da sabedoria estava entre os dois.
– O que você está fazendo aqui? – Atena questionou.
– Vim atrás da minha mulher, agora saia da frente sua fedelha.
– Afrodite não é sua mulher.
– Acho que não é você que tem que me dizer isso. – Ares deu um sorriso convencido e os dois olharam a deusa do amor que os encarava de volta assustada. – Por que não atendeu minhas ligações, docinho? Sei que está brava, mas podia evitar o drama.
A deusa do amor ainda estava parada em silêncio, quando viu os dois virarem para olha-la, sentiu-se como uma pessoa no meio de uma briga dos três grandes, e de alguma forma aquilo era tão ruim quantos, os mais poderosos filhos de Zeus estavam quase se engalfinhando naquela sala.
– Eu... o que está fazendo aqui? – perguntou numa voz fraca. – Como sabia onde eu estava?
– Não preciso de uma lista idiota para seguir você.
– Afrodite. – a deusa da sabedoria chamou. – Posso coloca-lo para fora agora mesmo.
– Qual é o seu problema, fedelha? – Ares encarou a irmã.
– Afrodite. – Atena chamou, ignorando o irmão.
– Não, eu não quero que ele vá.- Afrodite murmurou.
Atena precisou respirar fundo e assimilar aquilo, Afrodite não queria que Ares fosse embora? Mesmo depois de tudo o que contou, a deusa do amor continuava completamente encantada pelo deus da guerra.
“A questão é que eu não sei se o quero longe.” Não, decididamente Afrodite não o queria longe.
– Com licença. – a deusa da sabedoria falou numa voz embargada e correu para o quarto.
Nem mesmo os protestos de Afrodite a fizeram parar, Atena estava desesperada, precisava ficar um pouco só, por isso ao entrar no quarto foi diretamente ao banheiro e se trancou lá. Deslizou pela parede até sentar-se no chão, ela estava tão furiosa, a raiva queimava dentro de si, mas o pior de tudo eram as lágrimas que deslizaram sem aviso por seu rosto.
Ela havia sido tola, é claro que Ares apareceria para estragar tudo, essa era a função da vida dele, atrapalha-la. Estava tão perto, quando finalmente conseguia seu objetivo, seu irmão maldito aparecia.
Afinal o problema não era a missão, há muito ela havia deixado a missão de lado, então por que ainda negava a si mesma o real problema? Ela iria quebrar se pensasse naquilo, mas já não havia quebrado o suficiente? Talvez fosse o momento de encarar tudo o que ela havia se negado a ver.
Ela estava apaixonada por Afrodite, isso era bem óbvio, sabia exatamente onde havia acontecido, em Roma. No entanto era só paixão, passaria logo, não era? O ciúme era normal, mas e aquela maldita dor no peito? E o desespero ao imaginar que naquele exato momento Afrodite estaria se reconciliando com Ares? Ela seria esquecida, havia se entregado demais, feito tudo, não por causa da missão, mas sim porque ela queria dar tudo a Afrodite, ela queria ser da deusa do amor.
Porque ela amava Afrodite.
– Oh meus deuses. – ela ofegou, todo o choro que controlava antes simplesmente saiu, seus soluções nada silenciosos não a importavam, apenas aquela revelação que esclarecia tudo.
Ela amava a deusa do amor, e agora estava arruinada.
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