I Kissed a Girl
16 Escuridão na cidade luz - parte dois
Notas iniciais
Afrodite se culparia eternamente por não controlar a própria boca.
Ela sequer conseguia assimilar as coisas que estavam acontecendo, era demais para a cabeça dela, demais para uma manhã só. Sentiu o pânico a invadir lentamente, principalmente quando Atena a olhou, seus olhos cinza tão tristes e cheios de decepção, por que diabos ela havia falado aquilo?
– Atena. – Afrodite chamou, tentando seguir a deusa da sabedoria pra fora da sala. No entanto uma mão forte a agarrou pelo braço.
– Deixe-a para lá, a coruja só está tendo um piti.
Virou para encarar o deus da guerra, Ares sorria despreocupadamente, era disso que ele gostava, de ver Atena mal, e mesmo que não soubesse havia feito muito mais do que mal daquela vez.
– O que diabos você está fazendo aqui? – ela questionou.
– É bem óbvio, eu vim atrás de você. – Ares deu de ombros, tentou agarrar Afrodite pela cintura, mas a deusa se afastou rapidamente.
– Atrás de mim? Só pode estar brincando.
– Ouça Dite, eu senti saudade das nossas brigas, mas por que você não pega uma cerveja pra mim, a gente dá uns amassos no sofá e depois vamos pra cama.
Afrodite sentiu vontade de vomitar, o deus da guerra se jogou sobre o sofá e a olhou com curiosidade, esperando que fizesse o que ele havia dito. Ele realmente pensava que nada havia mudado, que Afrodite
– Não.
– o que disse? – ele perguntou confuso.
– Você não tem o direito de vir aqui e estragar minha vida. – Afrodite retrucou. – Depois de tudo o que fez acha que tem o direito de vir aqui, me beijar e agir como se nada tivesse acontecido?
– Ah não, Afrodite. – Ares resmungou e levantou, caminhando até a deusa do amor e a agarrando pela cintura. – Não vamos começar com isso quando temos coisas bem melhores a fazer.
– Tire suas patas sujas de cima de mim! – a deusa do amor se afastou rapidamente e encarou o deus. – Quem você pensa que é? Não tem o mínimo de vergonha na cara? Ou noção? Acha mesmo que está tudo bem? Você é um imbecil.
– Escute aqui, Afrodite... – o deus apontou o dedo para ela, mas calou-se diante do olhar.
– Não levante esse dedo para mim. – Afrodite falou num tom baixo e contido. – Não tente colocar essa banca comigo, você pode enganar todos, mas eu sei muito bem quem você é. Acho mesmo que viria e eu te receberia de braços abertos? Achou que eu esqueceria seus insultos? Onde está sua noiva?
– Ela foi um erro...
– Você também foi um erro, com certeza combinam perfeitamente. Não acredito que está aqui, depois de tudo o que disse, eu deveria te transformar em um animal! Ouça, Ares. E ouça bem. Você me destruiu completamente, fez com que eu me sentisse inferior, me traiu, me humilhou, desprezou todos os meus esforços por você. Esforços que você sequer merecia. Você me trocou por uma deusa ralé, por favor, Ares, trocar a mim por Nêmesis é algo que só uma anta como você faria.
– Eu realmente fiquei mal, fiquei completamente destruída, éons de dedicação a você para acabar humilhada, por isso eu quis ir embora do conselho, eu não suportava mais olhar pra sua cara de javali. E longe do Olimpo, em todos esses dias longe dos deuses e de você, eu descobri a verdade. Eu não te amo, Ares. Não amo. Nunca amei. Era paixão, louca, desenfreada. Desejo, tesão. Você era perigoso e proibido, vivia quebrando regras, se metia em brigas por mim, as garotas tem uma queda por badboys mas é só isso, uma queda. Nunca algo que possa ser levado a frente, porque por trás de toda essa marra você é só um garotinho. Eu descobri toda sua farsa. Você só flertou comigo porque sabia que eu era noiva de Hefesto, só permaneceu comigo pelo prazer de humilhar seu irmão e espalhar por aí que estava pegando a deusa mais gostosa do Olimpo. Então quando viu que eu estava divorciada você se apavorou, não podia me usar para humilhar seu irmão, e teria que me assumir como sua mulher, preferiu ir atrás de Nêmesis, mas notou que ela não é tão submissa quanto eu, assim como nenhuma outra que ficou com você durante esses dias é como eu. Eu sou única.
– Eu precisava de você, Ares. Não pelo sexo, nem pela presença que nunca foi acolhedora, mas sim porque eu precisava me iludir, eu precisava fechar os olhos pras merdas que eu estava fazendo. Então eu estou aqui e você aparece, eu refaço minha vida, me coloco de pé e você acha que vai me rebaixar? Talvez se tivesse tentado antes eu permitiria que me iludisse, mas eu descobri que existem coisas melhores do que você, e que você, Ares, estava errado. O amor não é algo inútil, porque ele me curou, porque amar outra pessoa, uma pessoa que me curou, aceitou todos os meus chiliques e manias, alguém que realmente me completa. Essa pessoa não é você, nunca foi, e eu não vou perde-la por sua causa.
Ares piscou diante da enxurrada de palavras, ele queria dar um sorriso debochado e dizer que não havia ouvido nada do que ela havia dito, mas ele tinha, e as coisas começaram a se encaixar na mente dele. Afrodite nunca fora enganada por ele, enquanto ele era atraído por ela, ela apenas o usava para preencher espaço. Aquilo não o deixava furioso, mas sim as últimas palavras dela, afirmando ter encontrado alguém, nem por todos os titãs Ares entregaria Afrodite de mão beijada a alguém.
– Quem é o imbecil? – ele rosnou.
– Não, Ares. O único imbecil aqui é você. – Afrodite falou docemente. – Ela é a inteligência em pessoa, ela é a síntese de todas as coisas boas.
– Atena. – ele falou o nome assim que tudo se encaixou. – Espera aí... você está falando da coruja? Ela te odeia!
– Ela odeia você, não a mim. – a deusa balançou a cabeça. – Eu a amo, e tenho certeza de que ela está apaixonada por mim.
– Não seja tola, Afrodite! Atena veio atrás de você por causa da ordem do conselho, pra ela nada mudou.
– Tudo mudou, Ares.
– Vocês duas transaram. – ele concluiu. – Filha da mãe, você foi pra cama com ela?
– Fora daqui. – Afrodite o empurrou quando Ares fez menção de seguir o corredor até o quarto onde Atena estava. – Fora!
O deus da guerra estava mais do que furioso, mesmo assim uma parte sua já era acostumada a não reagir com Afrodite por perto, para não machuca-la fisicamente. E era aquela parte que estava permitindo que a deusa do amor empurrasse Ares até a porta.
– Será que você não enxerga? É tudo um plano! Ela está te seduzindo pra te levar de volta a Zeus.
– Atena tem caráter, coisa que você nunca teve.
– A ordem foi de fazer tudo, Afrodite. TUDO pra te levar de volta, acha mesmo que ela está ligando pra o certo ou errado? Acha mesmo que ela te ama? – ele riu.
– Estamos falando de Atena, não de você. Agora suma da minha vida seu javali supervalorizado. – a deusa do amor o empurrou no corredor e fechou a porta do apartamento.
Ares recuou alguns passos, pronto para explodir a porta e arrastar Afrodite com ele para o Olimpo. No entanto teve uma nova ideia um sorriso perverso se formou em seus lábios e o deus da guerra aparatou, tendo em mente apenas um lugar, a sala dos tronos.
Afrodite correu pela sala, indo direto para o quarto e entrando rapidamente, estava vazio, mas a porta do banheiro estava fechada. Caminhou devagar até lá, bateu suavemente na porta e escutou os soluços do outro lado.
– Atena? – Chamou baixinho.
– Vá embora. – a voz abafada respondeu antes de ser tragada por mais soluços.
– Não eu não vou, por favor, abre a porta. – Afrodite pediu.
– Não posso, me deixe em paz, por favor.
A deusa do amor se afastou da porta, ela precisava tirar Atena dali, precisava explicar pra ela, dizer que a amava e que Ares nunca a teria de volta. Começou a andar de um lado para o outro, ela podia simplesmente aparatar, mas Atena ficaria furiosa, e isso não seria bom.
Esbarrou na poltrona ao lado da cama e derrubou a bolsa de Atena fazendo as coisas se espalharem pelo chão, revirou os olhos enquanto se abaixava e pegava as coisas, colocando-as de volta na bolsa.
Encontrou um envelope, talvez não tivesse despertado a atenção de Afrodite, se não houvesse o nome “Zeus” na parte externa. Sem pensar abriu o envelope, mais por curiosidade do que por qualquer outra coisa, a cada linha que ela lia, sentia seu coração partindo de uma vez só.
Pai,
Perdão, não imagina o quão envergonhada estou. Sua decepção é reflexo da que sinto de mim mesma. Eu deveria ter lhe dado noticias desde o inicio, mas Afrodite não facilitava as coisas, e eu poderia perdê-la se não fosse rápida o suficiente.
Devido ao escasso poder que me sobrou não posso levar Afrodite contra vontade, por isso dependo da decisão dela. Estou usando uma estratégia, algo a qual Afrodite não resistiria, não posso contar detalhes, mas ela está caindo na armadilha do que ela mesma representa.
Apenas peço que confie em mim, prometo que logo terá Afrodite de volta ao Olimpo e todos os problemas acabarão. Até o final da semana, eu a levarei até o senhor, só me deixe ludibria-la mais um pouco, assim poderei convencê-la, não se preocupe, tenho minhas armas contra Afrodite.
Atena
Armadilha.
Estratégia
Ludibriar.
Afrodite continuou encarando a carta como se ela estivesse num idioma desconhecido, aquilo não fazia sentido, nada fazia sentido, somente aquelas palavras. O que Ares havia falado no corredor voltou a sua mente.
“Será que você não enxerga? É tudo um plano! Ela está te seduzindo pra te levar de volta a Zeus.”
Era mentira, tinha que ser mentira. A porta do banheiro foi aberta e Atena saiu dali, paralisando no momento em que encontrou o olhar da deusa do amor, a carta estava na mão dela, sendo amassada aos poucos.
– Diga que é mentira. – Afrodite pediu num tom baixo. – Que nada do que está aqui é real.
A cor foi drenada do rosto de Atena, isso foi o suficiente para Afrodite rosnar furiosa e partir para cima da deusa da sabedoria, agarrando-a pelos ombros e a sacudindo.
– Como pode? Você me usou!
– Afrodite... ouça, isso é um engano, essa carta...
– Ares estava certo! Você só estava me usando para completar sua missão, só... só transou comigo para... você é tão cruel quanto ele.
– Você está entendendo tudo errado! – Atena gritou. – Não é assim, não dessa forma.
Afrodite se afastou, largando a carta no chão, virou para encarar Atena, a deusa da sabedoria tinha o rosto vermelho e em seus olhos cinza lágrimas brilhavam.
– Vá embora. – ela pediu.
– Não pode estar falando sério.
– Sim, eu estou. Vá embora. – Afrodite se esforçou pra falar num tom mais firme, ela precisava fazer aquilo, precisava de Atena longe. – Não quero mais você aqui.
– Por que você tem Ares de volta? – Atena perguntou.
– Mentiroso por mentiroso, vocês dois são iguais.
Atena respirou fundo, ela sabia que Afrodite tinha todo o direito de ficar furiosa, mas ela estava sendo irracional. Não, ela não era igual a Ares, porque ela havia criado aquela mentira para enganar Zeus, e não a deusa do amor, e porque ela a amava, e naquele momento as palavras estavam presas em sua garganta.
A deusa do amor continuou a encara-la, havia mágoa ali, mas acima de tudo havia decepção, sem nada dizer observou enquanto Atena pegava sua bolsa.
– É mentira. – a deusa da sabedoria falou um tom baixo. – eu menti pra Zeus.
– Tudo que vem de você é mentira. – Afrodite retrucou. – Agora vá embora.
Atena abriu a boca prestes a falar novamente, mas não houve tempo, Afrodite gesticulou rapidamente, fazendo com que ela aparatasse. E enquanto Atena desaparecia, a deusa do amor sentou na cama e chorou, abraçando o travesseiro que a outra usara horas atrás, horas que pareciam anos, uma época feliz que se foi.
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