I Kissed a Girl
9 Amsterdã
Notas iniciais
Quando anoiteceu Atena tentou sair sorrateiramente da cama, mas Afrodite a abraçava apertado, mesmo adormecida parecia ter medo de ficar só. De certa forma Atena compreendia o que ela sentia, Afrodite sempre foi protegida, mesmo nas piores guerras do Olimpo, raramente ela era machucada, embora fosse considerada um alvo fácil , e também sempre teve a proteção de Ares e Hefesto. É claro que foi idiotice da deusa do amor resistir ao assalto, mas Atena tinha o pressentimento de que se ela tivesse cedido algo pior aconteceria.
Sacudiu a cabeça para se livrar dos pensamentos obscuros e saiu da cama, Afrodite se mexeu, suas mãos percorreram os lençóis em busca da deusa da sabedoria, por fim ela abraçou o travesseiro e suspirou, fazendo Atena sorrir um pouco.
A deusa seguiu para a sala, estava inquieta, culpada, quase enlouquecida. Suspirou e tentou se controlar, não podia fraquejar naquele momento, Afrodite estava ferida por causa dela, porque ela fora mimada e intransigente, e agora tinha que com a culpa e a preocupação a torturando. Pensou em preparar o jantar, mas quando entrou na sala deu de cara com Apolo esperando-a ali.
– irmão? – chamou, confusa.
– Aí está você, pensei que não tivesse ninguém no apartamento. – o loiro a olhou com atenção. – Senti que algo estava errado, você está bem?
– Sim, eu estou bem, o problema é com Afrodite.
– O que houve com ela? – ele perguntou, alarmado.
– Venha, eu te explico. – Atena segurou a mão de Apolo e o puxou em direção ao quarto.
Deu uma rápida explicação sobre tudo que aconteceu, Apolo ouviu tudo em silêncio enquanto a seguia pelo corredor, quando mencionou o assalto e como aquilo fora em parte culpa dela, Atena baixou o rosto, sentindo-se envergonhada. Ao entrarem no quarto viram que Afrodite ainda dormia, o deus do sol caminhou até a cama e colocou a mão sobre a testa da deusa, fazendo-a estremecer e choramingar.
– Não foi um machucado grave, mesmo assim é bom tomarmos cuidado, é uma parte delicada, qualquer pancada forte pode ter consequências inesperadas.
– não sei o quão forte a bateram. – Atena contou.
– Por que ela não entregou a bolsa? – ele questionou, afastando o cobertor.
– Eu não sei, é Afrodite, não dá para saber. – ela rolou os olhos, mas paralisou ao ver Apolo levantar a camisa que a deusa do amor vestia. – Ei!
– O que? – Apolo olhou confuso. – Atena, eu tenho que examina-la.
– Ela não tem nenhum machucado pelo corpo, já verifiquei isso. – a loira retrucou.
– Pode ter lesões internas, nem sempre há sinais por fora. – ele rebateu e continuou a examina-la.
Atena virou o rosto e cruzou os braços, sabia que devia estar feliz por Apolo estar cuidando de Afrodite, mas não conseguia evitar o ciúmes que a dominava naquele momento. Pelo canto do olho viu as mãos de Apolo percorrem o corpo de Afrodite, respirou fundo e contou até dez, mas quando as mãos dele desceram até as coxas da deusa do amor, Atena perdeu a paciência.
– Isso está ficando intimo demais. – reclamou.
– Estou apenas checando. – Apolo a olhou.
– Acho que já deu para avaliar se ela está bem ou não.
– Você fica fofa com ciúme. – ele provocou.
– N-não estou com ciúme! – ela negou, corando.
– Claro, só está gaguejando, corando, estreitando os olhos e pronta para me bater. – o loiro indicou. – Se isso não é ciúmes, eu não sei o que é.
– Será que pode dizer se ela vai ficar bem? – Atena insistiu, impaciente.
– Vai ficar bem, pelo que eu pude ver ela levou uma coronhada, provavelmente de uma pistola semi-automática 9mm. A pancada foi forte, atingiu entre a área pré-frontal e a área pré-motora. Isso poderia ser um problema, mas você com certeza usou aquela pomada que eu criei. – ele a olhou e Atena assentiu. – Bem, isso impediu que a lesão se espalhasse ou que ocorresse uma hemorragia cerebral. Precisamos esperar ela acordar e avaliar os reflexos dela, movimentos, fala e visão.
Atena piscou, impressionada pelo irmão ter sido tão detalhista, mas concordava com ele, era preciso esperar que Afrodite acordasse para ter certeza que tudo ficaria bem.
– Tudo bem, vamos aguardar.
– Eu preciso conversar com você, e acho melhor que seja agora. – Apolo a puxou para fora do quarto.
Seguiram de volta para a sala, Apolo fez com que Atena sentasse e começou a falar.
– Eu andei investigando, prestando atenção nos cochichos das ninfas, e acho que descobri porque Afrodite foi embora do Olimpo.
– Pode falar. – Atena olhou com atenção.
– Faz umas três semanas que Ares e Afrodite estão brigados, no começo ninguém deu muita atenção, afinal sabe como esses dois são, eles brigam o tempo todo e por motivos mínimos. – Apolo falou e a deusa assentiu. – Mas dessa vez, a discussão foi séria, séria o suficiente para os dois romperem o romance de uma vez por todas.
– O que aconteceu? — a loira indagou.
– Ares está noivo. – Apolo contou e Atena ofegou. – É, eu sei, tive a mesma reação quando soube.
– Noivo? Mas de quem? E quando isso aconteceu?
– Nêmesis. – ele respondeu e Atena fechou os olhos. – Sabe, eles já ficaram juntos algumas vezes, mas Ares sempre voltava correndo para Afrodite, eu tenho quase certeza que tudo isso é a forma como ele achou de machuca-la.
– Ele sempre a odiou por não largar Hefesto. – Atena murmurou.
– Mesmo assim a atração entre os dois era mais forte, o que me confunde é Ares ter largado Afrodite logo quando ela se separou de Hefesto.
– Talvez ele gostasse do caso deles como era, sem compromisso, sem seriedade, apenas prazer. – a deusa sugeriu.
– Talvez, mas Ares foi cruel, segundo as ninfas que trabalham no templo de Afrodite, ela implorou que ele não a deixasse, dizendo que eles finalmente tinham uma chance de ficar juntos, que não teriam mais que dividir, ela seria toda dele. – Apolo suspirou. – Mas ele simplesmente disse que não queria mais estar com ela, que Nêmesis sim era o tipo de mulher certa para ele, que tentar algo mais sério com Afrodite seria perda de tempo.
– Ele é um cretino.
– sim, ele é. Então temos a explicação para o fato de ela ter ido embora, Afrodite não aguentaria permanecer no conselho, ao lado de Ares, depois de ele tê-la traído e rejeitado todo amor que ela sempre lhe dedicou.
– Foi demais pra ela, e eu ainda piorei tudo naquela tarde. – Atena baixou o rosto.
– Tenho que admitir que você ajudou a piorar tudo, mas no fundo é tudo culpa de Ares, desse lado egoísta dele. – Apolo afagou o ombro da irmã. – Atena, Afrodite precisa de ajuda, e você é a única que pode fazer isso.
– Eu quero ajuda-la. Estou disposta a tudo. – a deusa da sabedoria o encarou. – Realmente tudo para fazê-la ficar bem.
– Sei que fará um bom trabalho. – o deus sorriu e levantou. – Vamos, vou dar uma carona a vocês.
– Carona? – Atena perguntou enquanto levantava.
– Sim, vocês precisam ir para a próxima cidade da lista, e seria melhor para Afrodite acordar longe daqui. Esse apartamento tem muitas fotos dela e Ares, não faz bem a ela.
– Não sei se vai ser bom para ela aparatar.
– Meu carro está lá fora. – Apolo girou as chaves e piscou para Atena. – Vamos dar uma volta.
Atena rolou os olhos e deu um pequeno sorriso, seguiu Apolo até o quarto e se ocupou arrumando as pequenas malas que elas levavam. Pegou a bolsa de Afrodite, não a deixaria para trás depois do sacrifício da deusa do amor para ficar com ela, fez uma careta quando Apolo ergueu a deusa adormecida nos braço e eles saíram do apartamento.
Minutos depois Atena estava sentada no banco traseiro do carro do sol, Afrodite dormia tranquilamente, o rosto apoiado no peito da deusa da sabedoria. Apolo dirigia em silêncio, seu olhar encontrou o de Atena e ela assentiu, encostou-se no banco e fechou os olhos, apoiou o rosto no cabelo de Afrodite e adormeceu.
Parecia que havia acabado de fechar os olhos, mas quando Atena acordou notou que não estava mais no carro, olhou ao redor e viu um quarto com paredes claras e bem mobiliado. Suspirou e sentou na cama, só então viu Afrodite parada na porta, olhando-a com atenção, isso fez Atena corar.
Ela ainda vestia a camisa, estava de braços cruzados, mas não parecia irritada, apenas atordoada. Havia acordado naquele quarto, totalmente estranho para ela, mas ainda mais estranho foi perceber que estava agarrada a Atena, que dormia tranquilamente a seu lado. Encontrou o bilhete de Apolo explicando como ela havia chegado ali, isso não foi de muita importância, estava se sentindo segura, ou talvez fosse só o efeito dos braços de Atena a seu redor.
Sorriu enquanto caminhava até a cama, sentando ao lado de Atena, entregou uma caneca com café a deusa. Permaneceu em silêncio, encarando a loira, Atena ergueu o olhar e encarou Afrodite.
– Desculpe. – ela murmurou e a outra arqueou a sobrancelha. – Por tudo o que eu disse.
Afrodite continuou tomando o café, seu olhar focado em Atena, mesmo assim sabia que a outra ainda tinha muito para falar.
– Fui mimada, intransigente, e paguei caro por isso. – Atena continuou. – Ver você ali, caída, ferida, por um momento eu senti que seria capaz de morrer, nunca fiquei com tanto medo.
– Eu estou bem. – a deusa do amor murmurou.
– Mas você não estava! Um livro não valia tudo aquilo, não valia o desespero, o choro, nada daquilo! – a loira choramingou. – Tantas coisas ruins podiam ter acontecido.
– Mas não aconteceram, estou aqui, segura. – Afrodite tirou a caneca da mão de Atena e a colocou no criado-mudo junto com a sua, se aproximou devagar e segurou as mãos da deusa da sabedoria. – Graças a você eu estou bem.
– Você se feriu graças a mim, eu fui culpada, eu ...
– Atena. – a morena interrompeu. – Me ouça.
Atena assentiu e encarou os olhos amendoados da deusa do amor.
– Ouvir você dizer que me odeia foi absurdamente doloroso, porque no fundo sei que dou motivos para que isso aconteça, e normalmente espero que as pessoas me amem mesmo sem motivos. Mas como dizem tapa trocado não dói, só que dessa vez doeu, eu não queria seu ódio, não sabia lidar com ele. – ela respirou um pouco e voltou a falar. – Mas quando eu estava no chão daquele beco, escorregando pra inconsciência, eu me culpava, dizendo que aquilo era a recompensa por meu comportamento.
– Afrodite... – Atena murmurou.
– Então eu ouvi sua voz, e vi seu desespero. Apesar de me odiar, você se importava. E quando eu acordei e vi você se afastando, eu tive medo de ficar só, de que você voltasse a me odiar. Caramba, eu sei que não estou falando muito claramente, mas não sei como explicar. Naquele momento, e mesmo agora, saber que você se importa fez com que eu quisesse ficar bem. Então por favor, pare de se culpar.
Atena a encarou em silêncio, antes que Afrodite falasse mais ela a abraçou apertado, fazendo a deusa do amor ficar surpresa, mas logo sorriu e retribuiu o abraço.
– Trégua? – Afrodite perguntou e Atena riu baixinho.
– Trégua.
Quando se afastaram ainda sorriam, Afrodite se aproximou devagar e acariciou o rosto de Atena, a deusa fechou os olhos e suspirou. Inconscientemente se inclinou em direção a deusa do amor, se aproximando lentamente até os lábios dela se unissem. Dizer que Afrodite estava chocada era pouco, mesmo assim ela deixou que Atena iniciasse um beijo lento, era simplesmente impossível resistir aos lábios macios da deusa da sabedoria.
Logo ela estava deitada na cama, com Atena sobre ela enquanto se beijavam, o toque de lábios delicados se tornou intenso e exigente, a coxa de Atena estava entre as pernas da deusa do amor, roçando em sua intimidade, fazendo que com aquele simples toque ela ficasse molhada. Um gemido baixo escapou dos lábios de Afrodite, mas antes que Atena recuasse, ela a agarrou, mantendo seus corpos juntos enquanto mordiscava o lábio da loira.
Quando Atena abriu os olhos não pode evitar o pequeno suspiro, Afrodite a olhava de um jeito que Atena não conseguia definir. Devia estar com vergonha pelo que fizera, mas as mãos da deusa do amor em sua cintura a distraiam de qualquer culpa. Fechou os olhos e deixou que Afrodite a abraçasse apertado, em silêncio, e ficaram assim por um longo tempo.
– Eu tenho que te assustar mais vezes. – Afrodite gracejou. – Se eu ganhar um beijo a cada vez que isso acontecer.
– Não tem graça. – Atena fez bico.
– Eu sei, querida. – a morena a acariciou devagar. – Mesmo assim, por esse beijo, valeu a pena.
– Você deve ser maluca. – a deusa sentou na cama, fazendo Afrodite rolar os olhos e sentar diante dela. – Não devia ter reagido! Por que não entregou a bolsa, Afrodite? Só porque era de marca não valia a pena.
– Não foi pela bolsa, Teninha. – Afrodite rolou os olhos e saiu da cama, pegando a bolsa, sentou novamente e retirou dali o conteúdo. – Foi por isso aqui.
Colocou o livro diante de Atena, pode ver cada emoção passando pelo rosto dela. Surpresa; confusão, raiva; culpa; tristeza; e por fim as lágrimas se acumularam nos olhos da deusa.
– Atena? – Afrodite chamou, preocupada.
– Você... – Atena respirou fundo e falou. – Você resistiu ao assalto por causa desse livro?
– Sim.
– Mas é só um livro... Deuses, eu me sinto o pior ser do planeta.
– Não se sinta assim. – a deusa se aproximou e segurou a mão dela.
– Você se machucou só para ficar com esse livro.
– Eu me machuquei porque não fui rápida o suficiente para me livrar daqueles homens, eles me machucariam de qualquer forma.
– Mas... é só um livro.
– Não é só um livro! – Afrodite protestou, fingindo estar ofendida. – É um exemplar de As Crônicas de Nárnia primeira edição com dedicatória do autor! Chama-lo de livro é um insulto!
Apesar da imitação barata de Afrodite, Atena riu baixinho e pegou o livro, alisou a capa e olhou a deusa do amor.
– Obrigada. – ela murmurou.
Afrodite apenas sorriu, satisfeita que, apesar de tudo, havia feito a coisa certa. Lentamente foi até a loira, tirando o livro das mãos dela com cuidado e o colocando de lado. Atena a olhou com atenção e não se afastou quando Afrodite segurou seu rosto e a beijou devagar.
Logo estavam agarradas, dessa vez Afrodite estava por cima da deusa da sabedoria, beijando-a com carinho, Atena estremecia e retribuía o beijo com aquela mistura de exigência e timidez que a tornava única. Enquanto se beijavam, as mãos de Afrodite foram até a blusa de Atena, tocou os seios da deusa devagar, fazendo Atena gemer baixo. Colocou a coxa entre as pernas da loira, roçando contra a intimidade dela, as mãos de Atena apertaram os ombros de Afrodite e a deusa entendeu isso como um “vá mais devagar”.
Quando se afastou, não era possível dizer qual das duas estava mais afetada. Atena piscou atordoada pelo beijo e pelas sensações, mas não hesitou em abraçar a deusa do amor que sorria bobamente.
– Nós temos que conversar sobre isso. – Atena murmurou.
– Eu sei, na verdade sobre muitas coisas. – a morena concordou.
– Agora?
– Não, sabidinha. – Afrodite segurou o rosto dela. – Agora temos coisas mais importantes para fazer.
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