I Kissed a Girl
18 A tempestade
Notas iniciais
Afrodite estava mais silenciosa do que o normal, mal era vista fora de seu palácio, e passava o dia no escritório do seu templo. Eram poucos que iam até ela, já que a deusa do amor se recusava a receber a maioria. Muitos diziam que ela apenas evitava encontrar Atena por aí, mal sabiam eles como estavam errados. Ela aguardava com o coração disparado o momento de cruzar com a deusa da sabedoria num corredor, e mesmo que seus olhares só se encontrassem por alguns segundos, era o suficiente para sua alma dolorida se curar um pouco.
E mesmo que aparentasse não ligar ela se preocupava, ouvia com atenção cada noticia sobre Atena, embora fosse obrigada a manter o olhar distante e a expressão impassível. Por vezes pensou em voltar para o mundo mortal, duvidando de sua capacidade de permanecer no Olimpo. Não ligava para os olhares venenosos de Zeus, nem para o fato de Ares continuar a procura-la.
O que realmente importava era saber que Atena não estava bem, o que importava foram as horas em que Afrodite ficou no corredor da enfermaria esperando Apolo trazer noticias da irmã, ou como ela se preocupava com o fato de Atena parecer mais magra e pálida.
Não, ela não estava definhando. Era o que Afrodite repetia para si mesma todos os dias, ela sabia muito bem como era morrer por amor, mesmo sendo imortal, era isso que ela suportava todos os dias desde o momento em que acordava até quando ia dormir. Atena havia mentido, muitas pessoas haviam mentido, brincado com o coração de Afrodite, ela não se importava, o que importava era o fato de que ela amava uma mulher que apenas a usou para completar uma missão.
Em pensar que todo aquele esforço não valera de nada, que apesar de todas as mentiras Atena não conseguiu o êxito que esperava, até onde a deusa do amor sabia a favorita de Zeus se recusava a falar com o pai, e todo o boato sobre elas duas foi abafado para que não causasse mais ira no senhor dos céus.
Por vezes Afrodite se pegava pensando em como as coisas seriam se ela não tivesse encontrado aquela carta, o que teria acontecido? Elas teriam conversado, Afrodite acabaria contando a deusa da sabedoria que a amava, e provavelmente doeria menos do que aquilo receber um “não” de Atena.
Qualquer coisa doeria menos do que aquilo.
Parou de caminhar pelos corredores, era uma tarde chuvosa lá fora, Afrodite sabia que encontraria poucas pessoas andando por ali. Só então se deu conta de onde estava, parada diante de uma porta simples de madeira, ela sabia muito bem que inconscientemente iria ate ali.
Abriu a porta devagar, agradecendo o calor que a tomou assim que entrou na pequena sala, Hefesto estava sentado diante da grande bancada que havia ali, encarando o fogo da lareira.
– Sabia que viria aqui uma hora ou outra. – ele falou sem olhar para trás.
– Acho que preciso de um pouco de calor. – Afrodite brincou e sentou ao lado dele.
– Então Apolo era a opção, não? – Hefesto deu um pequeno sorriso e virou para olha-la. – Você está péssima.
– Obrigada por sua sinceridade. – ela rolou os olhos.
– Se quisesse mentiras não teria vindo até aqui.
Ela permaneceu em silêncio, observando as chamas altas da lareira, aquela pequena sala era um refugio no meio do caos que ela estava vivendo, soltou um suspiro baixo quando o deus das forjas colocou diante dela uma xícara de chá.
– Chá de jasmim? – ela perguntou.
– Eu ainda sei do que você gosta. – Hefesto deu de ombros, voltando sua atenção para a deusa que tomava lentamente seu chá. – Está difícil para você, não é?
– Difícil é apelido. – Afrodite deu um pequeno sorriso e encarou a xícara diante dela. – Não pensei que fosse doer tanto.
– É a dor de um coração partido, logo você se acostuma.
– Como você se acostumou? – ela perguntou.
Hefesto soltou um suspiro pesado e tomou um pouco de café, ignorando o olhar fixo da deusa do amor.
– Talvez. Muitas vezes nós não temos opção, então o melhor é acostumar.
– Eu não sei, nunca foi tão doloroso assim.
– Você a ama de verdade, não é? – ele perguntou, olhando-a com atenção.
– Acho que sim. – Afrodite murmurou.
– Ninguém tem mais certeza sobre sentimentos do que você, Dite. – o deus das forjas riu baixinho. – Ainda lembro de você parando na minha frente e dizendo “sei que está apaixonado por mim, deveria falar logo, atitude é tudo”.
– Eu era tão tola. – a deusa riu e suspirou. – Tão fútil, me iludia com coisas pequenas.
– E o que mudou? Ou melhor, o que Atena modificou aí?
– Não acho que tenha sido ela, sabe? – o olhou por alguns segundos até que ele assentiu. – É como se ao invés de ela me mudar, eu tivesse decidido mudar por ela, mas eu sequer notei essa decisão. De repente Atena era uma de minhas certezas, meu mundo virou de pernas pro ar. O cara por quem pensei estar apaixonada era só mais um qualquer que nem sabe o que é amor, a mulher que eu considerava uma irritante-sabe-tudo é a única que me faz feliz, e agora eu estou confessando isso para o meu ex-marido a quem eu fiz mal, traí, enganei...
– Águas passadas, Afrodite. – Hefesto colocou a mão sobre a dela e segurou com cuidado. – O sofrimento modifica as pessoas, não sei o que estávamos tentando fazer ao ficarmos juntos. Provar que a atração entre os opostos se completam? Que a beleza e a feiura podem ficar juntas? Não era bem assim, acho que nós nos perdemos. Principalmente você se perdeu. E está fazendo isso novamente.
– O que? – Afrodite lhe lançou um olhar confuso.
– Sei que você evita falar sobre ela depois de tudo o que aconteceu, mas nunca vai conseguir lidar com isso se não falar. – ele falou tranquilamente. – Sei que acredita que Atena a enganou, mas se isso fosse verdade, por que ela estaria daquela forma?
– A culpa tem efeitos devastadores nas pessoas. – a deusa do amor murmurou.
– Ter seu coração partido de uma forma tão brusca várias vezes em tão pouco tempo também. Ouça, não estou dizendo isso por Atena ser minha irmã, você sabe como ela é, acha que pode fazer tudo sozinha, que pode se curar sozinha, mas ela não pode. Dessa vez não. – o deus virou totalmente para encarar Afrodite. – Não entendo por que estão fazendo isso. Se a ama, por que diabos não está com ela? Você enfrentou Zeus por ela, destruiu sua ilusão com Ares, e agora parece um fantasma, repetindo os mesmos passos, apenas um eco frágil do que você já foi.
– Esta dizendo que eu sou fraca por estar sem ela? – perguntou na defensiva.
– Estou dizendo que você enfraquece sem ela, assim como ela definha sem você. Não percebe toda a logica da coisa? Vocês são como duas peças do mesmo sistema, tem funções diferentes, mas uma precisa da outra para funcionar. – Hefesto soltou um suspiro cansado, como se tivesse falado aquilo milhares de vezes. – Quantas vezes enfrentou Zeus por Ares? Ou por mim? Você sempre fez o que bem quis, Afrodite. Não se metia diretamente nas brigas, e dessa vez se colocou na linha de tiro pra defender ela, apesar de estar magoada. Uma vez você me disse que amor era isso, enfrentar os maiores perigos, suportar as maiores dores, deixar ir quando não se pode mais prender.
– Exatamente por isso eu a deixei ir. – Afrodite voltou a encarar seu chá. – Ela não me pertence, Festo. Ela só me usou para completar a missão.
– Atena não iria pra cama com você por uma missão, ela pode não ser tão justa, mas não é tão cruel. E ela não discutiria com Zeus se você não significasse mais do que isso.
– Ela discutiu com Zeus? – a deusa do amor perguntou.
– Uma discussão infernal, diga-se de passagem, mas até onde se sabe ela deixou claro pra o papai não bater de frente com ela.
– Essa é Atena. – murmurou a deusa.
– Pense bem, Afrodite. Tente enxergar através da dor. – ele deu um pequeno sorriso. – Ela conseguiu em poucos dias o que eu não consegui em éons, Atena já está impregnada em você, o que você tem que fazer é enxergar, talvez ela apenas estivesse mentindo para Zeus, talvez você tenha se precipitado. De qualquer forma nenhuma das duas está certa, e se você insistir em guardar rancor só se destruirá pouco a pouco.
Afrodite permaneceu em silêncio diante daquelas palavras, percebeu que Hefesto sabia melhor do que ela mesma sobre aquela situação, ele tinha uma longa experiência com dor.
– Sinto falta dela. – admitiu. – Tem sido difícil, mas eu não consigo perdoar uma traição desse nível.
– Ninguém está livre de ser traído, Afrodite. Somos mais parecidos com os mortais do que você pensa, erramos como eles, sentimos como eles, mas eles tem uma vantagem sobre nós, são só mortais, um dia a vida deles acaba e todo sofrimento também, nós não, somos imortais e passamos o resto da eternidade sentindo.
Ele estava certo novamente, Afrodite sabia como um coração partido era ruim, mas quando se é imortal era muito pior. Lembrou-se de Ártemis, da dor nos olhos dela a cada vez que observava a constelação de Órion, e Apolo, seu choro desesperado pela perda de Dafne. Eles não haviam superado aquilo, podiam ter colocado outras coisas como prioridade, mas a dor era eterna. Ela não queria aquilo para si mesma, mas principalmente não queria aquilo para Atena, não conseguia suportar a ideia de vê-la sofrendo.
– Ela pode superar. – murmurou, apesar de seus pensamentos tinha que se manter firme em sua decisão.
– Vocês não vão superar, não vão conseguir ter paz enquanto não resolverem isso. – Hefesto colocou a mão sobre o ombro dela. – Pense, não agora, tem coisas demais em sua cabeça. Prometa pensar depois, prometa ser a Afrodite que sempre acreditou no amor, aquela que acredita que tudo pode ser resolvido, basta querer. Reflita, você é a deusa do amor, ninguém pode lhe enganar quando o assunto é um coração, nem mesmo a deusa da sabedoria.
– Você me coloca como mais do que eu sou. – ela o olhou e o deus das forjas sorriu.
– Talvez.
Afrodite riu e encostou seu rosto no ombro de Hefesto, no fundo ela sabia que poderia contar com o ex-marido, quando ergueu o rosto o encontrou a olhando com curiosidade.
– Obrigada, Hef.
– De nada, rainha da beleza. – ele provocou e se afastou um pouco. – Quando foi a última vez que você comeu?
– Chá conta como refeição? — ela perguntou, encolhendo-se diante do olhar irritado de Hefesto.
– Que ótimo, vou ter que te levar até Deméter? — ele resmungou enquanto levantava. – Vamos.
– Vamos aonde? — Afrodite levantou e seguiu o ex-marido, pegou o grande casaco que ele lhe oferecia e vestiu enquanto saía, encolhendo-se diante do vento frio que lhe açoitou enquanto caminhavam pelo corredor.
– Até a sala dos tronos, preciso buscar algumas coisas lá, e depois para o meu palácio.
Afrodite fez uma careta com a ideia de ir a sala dos tronos, era um lugar que evitava desde que voltou ao Olimpo, por motivos mais do que óbvios. Mesmo assim tinha que ir, não podia ficar se escondendo como uma garotinha assustada, não ligava para os olhares irritados de Zeus, nem pras investidas de Ares.
Havia esperança, sempre havia, e toda a esperança se concretizou quando ao entrar na sala dos tronos junto com Hefesto, Afrodite avistou a única pessoa que realmente importava no meio de todo aquele inferno, Atena.
No entanto a deusa do amor não teve tempo de admira-la, ou até de construir sua expressão vazia para que todos não notassem o que sentia, pois mal havia passado pelas grandes portas e ouviu Ares falando a plenos pulmões.
– Você perdeu, Atena. Perdeu tudo o que tinha, e tudo o que desejou. Perdeu para mim, porque não pode tomar o que é meu, porque Afrodite pertence a mim, como sempre foi e sempre será.
– Eu mandei calar a boca. – Atena gritou, levantando de seu trono e partindo para cima de Ares, segundos antes seu olhar cruzou com o de Afrodite, tão cheio de mágoa e rancor, mas se tornou um aviso claro para a deusa do amor não interferir.
Afrodite não sabia de quantas formas podia continuar resistindo a tanto inferno, quando a confusão na sala dos tronos estourou ela não pode fazer nada a não ser encarar em choque, embora sua mente gritasse para que ela interferisse naquilo. No entanto ela não conseguia, e por isso deixou que Hefesto tomasse sua frente, tentando inutilmente protege-la da cena que se desenrolava ali.
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