I Can't Feel You

10 X. Deeper into nothing


Notas iniciais
Nem deu uma semana dessa vez o/

Pequeno aviso sobre o final: ele é levemente pesado. You've been warned u_u

Não se precisava de um título de detetive para perceber a tensão entre os detetives quando receberam o chamado para a segunda cena do crime. A segunda vítima do serial killer que agora escolhera Boston como palco de seus crimes. Tensão, irritabilidade, cansaço; todos eram sinais comuns quando se lidava com situações desse gênero.

Já tendo ideia do que esperar, Kate e os membros de sua equipe avisaram aos outros o que, exatamente, procurar. Não que evidências fossem comuns nesse caso em especial — o assassino era extremamente cuidadoso, a um nível obsessivo até. Nunca havia sido encontrado nenhum resíduo que pudesse ser usado para sua identificação.

O MO estava gravado a ferro e fogo na mente da agente, e, até agora, fora seguido à risca todas as vezes. O primeiro assassinato era cometido, e, quando reportado no banco de dados nacional, o FBI entraria em ação. Dois dias depois, a segunda vítima era encontrada, e, com ela, uma mensagem provocativa, desde a primeira vez adereçada à agente. Então, vinha a pior parte: esperar. O intervalo do segundo para o terceiro assassinato era de exatamente três semanas. Três semanas de buscas infindáveis por pistas que nunca apareciam, três semanas de pressão dos chefes e da imprensa. Três semanas de mais mensagens sádicas, que sempre acabavam indo parar nas mãos da destinatária, e nunca tinham nenhuma prova conclusiva, fosse no papel ou no envelope. Nenhum digital — completa ou parcial -, nenhuma gota de qualquer fluido, nada. Os envelopes eram sempre amarelados, daqueles tipos que se encontram em qualquer livraria de esquina, e, dentro, a mensagem vinha em uma folha de ofício, escrita em letra de forma com caneta esferográfica comum preta.

Por experiências anteriores, não foi exatamente surpresa quando as pistas encontradas ou não tinham nada a ver com o caso ou levavam do nada ao lugar nenhum. A falta de respostas, as perguntas cumulativas, nada disso ajudava a dissipar a preocupação que se instaurara sobre cada um que estava envolvido, por menos que fosse, no caso.

Havia, porém, uma pequena discrepância no quadro que Kate analisara.

A tensão entre as duas únicas mulheres do BPD não parecia ter nada a ver com o assassinato.

A agente presenciara o que acontecera na cena do crime. Afinal de contas, fora treinada para primeiro captar o maior número possível de informação ao seu redor, e só depois passá-las por um filtro. Ela fora quase programada a notar tanto a cena do crime quanto tudo que estava ao redor dela: o trânsito na rua adjacente, os repórteres que se aglomeravam em volta da fita de isolamento, o modo com que cada um dos presentes na cena agia.

Uma das vantagens de se ter baixa inibição latente, ela pensava, era conseguir absorver todo tipo de informação.

Por isso, foi automático para ela notar que a detetive Rizzoli e a Dra. Isles estavam agindo de modo extremamente estranho para duas colegas de trabalho. Ela ouvira de relance, no dia anterior, enquanto tomava um café sentada em uma das mesas do refeitório, alguém comentar algo parecido, que elas pareciam estar no meio de uma crise. Depois o assunto mudou para uma aposta envolvendo um possível relacionamento das duas, e depois os dois homens se afastaram e ela não pôde ouvir mais nada.

Assim como acontecia com todo e qualquer tipo de coisa, essa informação foi armazenada em seu cérebro, mas colocada em segundo plano para ser analisada depois.

Havia coisas mais importantes para serem analisadas no momento, como, por exemplo, o fio de cabelo retirado das roupas da vítima. Esse fio era escuro, o que descartava a possibilidade de ele pertencer à garota morta, e isso serviu para dar um pouco de esperança aos detetives. Mas, fora esse pequeno detalhe, a cena do crime estava impecavelmente limpa como sempre. Nada de sangue derramado, nem pegadas, nem nada.

Nada, exceto pelo bilhetinho já esperado por Kate. A surpresa foi que, dessa vez, ele não fora endereçado a ela, e sim à detetive Rizzoli.

Sim, o assassino sabia exatamente quais botões apertar para causar o caos. No momento, nenhum parecia fazer mais efeito do que atormentar Jane Rizzoli.

A pergunta que martelava Kate, porém, era outra: como ele sabia, com tanta precisão, o que estava acontecendo? A mídia ainda não havia divulgado muito do caso — certa surpresa até então -, o que descartava essa possibilidade. Quando recebera os primeiros recados, ela pensara em alguém de dentro passando informações, algum agente corrupto, tentando esconder a psicopatia com o trabalho. Era um fato comum, na verdade: psicopatas muitas vezes buscam empregos que os permitam observar suas vítimas pelo "outro lado", do ponto de vista daqueles que devem procurar o assassino. Uma busca completa e minuciosa pela vida de cada um dos envolvidos, porém, envolvendo até câmeras e microfones escondidos, provou que nenhum dos agentes tinha alguma coisa que o enquadrasse como criminoso.

Quando o clima na delegacia ficou insuportável — ninguém estava completamente livre do stress de um serial killer que não deixava pistas, Kate desceu até o necrotério. Havia, nos fundos, um corredor vazio e silencioso; a agente ficou indo e voltando, de um lado para o outro, sua mente um turbilhão. Nessas horas, ela não conseguia controlar seus pensamentos, e invariavelmente acabava com milhões de teorias, algumas prováveis, outras impossíveis. Nenhuma delas, porém, se provara viável até o momento, nem fornecera algum insight para o fechamento do caso.

Tudo só parecera piorar nas horas consecutivas. O fio de cabelo se provara tão útil quanto qualquer outra prova que já tivessem achado até então — como fora cortado e não arrancado, não havia raiz e, consequentemente, não havia DNA. Depois, houve o desentendimento (briga, talvez? Se é que assim podiam ser classificadas palavras ácidas jogadas contra outra pessoa) entre a detetive Rizzoli e a Dra. Isles. Kate, de novo, armazenou esse fato para analisar no futuro.

Para melhorar a situação, chegara um pacote não identificado, endereçado a "quem quer que esteja no comando do meu caso". Ao saber disso, Kate se preparou mentalmente para mais coisas ruins e potencialmente estressantes.

Depois de ser examinado pelo esquadrão antibomba e ser classificado como seguro, o embrulho chegou à delegacia. Era um envelope pardo, o endereço escrito na mesma caligrafia do bilhete de mais cedo. Ao ser aberto, verificou-se que seu conteúdo não passava de um case de dvd. Um dos detetives do BPD — Frost, Kate se lembrou segundos mais tarde — o colocou no reprodutor, enquanto os agente do FBI e os detetives de Boston se aglomeravam em volta das telas para ver o que seria mostrado.

A filmagem começou sem foco, e permaneceu assim por mais alguns segundos, fixa numa parede convencional de alvenaria branca. O chão era de cerâmica da mesma cor. Então, a câmera foi levantada, balançou algumas vezes, e finalmente se estabilizou, dando foco ao que o assassino queria: amarrada e amordaçada em uma cadeira, estava uma jovem loira, pálida, já com hematomas se formando em vários lugares — eles eram completamente visíveis no corpo desnudo da moça. Mais uma humilhação para ela, pensou Kate, o pesar se instalando sobre si.

Uma voz artificial soou, tirando todos do transe em que pareciam se encontrar.

"Pensei que seria útil dar uma pequena ajuda a vocês", começou o assassino, o tom sádico inconfundível mesmo com o filtro de voz. "Já que não parecem ser capazes de me encontrar sozinhos". Ele riu, o som entre um grasno e um grunhido. "Mas, mesmo com essa facilidade toda, eu duvido muito que haja algum progresso. É o que acontece quando se lida com a incompetência."

A jovem amarrada tentou futilmente se soltar e emitir algum som, mas tudo o que saía de sua boca era abafado pela mordaça de pano.

"Essa é Jessica Nichols" a voz voltou a dizer, no mesmo tom de escárnio. "23 anos, professora de jardim-de-infância. Mas acho que todos já somos íntimos o suficiente para chamá-la de Jessie, não é mesmo?" ele se aproximou da garota, e uma mão enluvada de preto acariciou seu rosto, quase cuidadosamente. "Eu resolvi dar a vocês o privilégio de assistir meu trabalho em primeira mão. Ou uma parte dele, pelo menos."

A câmera foi movida e apoiada em alguma superfície, e finalmente o assassino apareceu em frente a ela. Estava, porém, completamente coberto de preto. Tinha uma máscara de esqui no rosto — só dava para se notar dois pequenos buracos para respirar-, e, sobre ela, um par de éculos escuros. Tinha estatura mediana, e fizera questão de se cobrir com aquele tipo de agasalho mais grosso, completamente cheio de lã, o que o deixava gordo, e abria a possibilidade de ele o ser realmente ou não. Se fosse analisado pelo tamanho da cadeira, tinha altura mediana. Mas realmente não dava para se tirar muitas conclusões, visto que não havia sequer um centímetro de pele descoberta.

Ele se encaminhou para uma mesa, e voltou com uma lâmina numa mão e uma seringa na outra.

"Não se preocupem muito com isso", ele falou, enquanto pressionava a agulha contra o pescoço da garota e apertava o êmbolo até o fim. "Isso é só um composto que vai garantir que ela fique acordada até o fim. Não queremos que ela perca a diversão, não é mesmo?"

Lenta e deliberadamente, ele levantou a lâmina e fez um corte da base do pescoço até o meio do colo. A menina gritou e esperneou, os movimentos limitados pelas cordas que a prendiam. Sangue começou a fluir lentamente pelo corte, depois escorrendo mais e mais abundante, enquanto o maníaco apenas observava.

O silêncio na delegacia era sepulcral.

Outras e outras vezes, ele repetiu o procedimento, às vezes mexendo no corte com a mão, a fim de provocar mais dor. Após isso, acendeu um cigarro e, mal passara um segundo, pressionara a ponta em brasa na barriga da vítima, que urrou de dor.

Pelos próximos vinte minutos, tudo o que se ouvira na delegacia foram os gritos apavorados, abafados e desesperados da garota. Até que ela parou para tomar fôlego, e o assassino parou para focar a câmera no rosto inchado, suado, empapado de sangue e lágrimas de sua vítima.

"Eu quero que você grite, ouviu bem? Eu quero que grite alto o suficiente para que eles ouçam."

A câmera foi então virada em sua direção, e o rosto se mexeu visivelmente mesmo por trás da máscara de esqui.

"Tentem achá-la. Antes que eu a despeje, é claro."

Com isso, o vídeo foi cortado.