I Can't Feel You
11 XI. Dinner
Notas iniciais
O Nyah entrar em manutenção assim que eu acabo de escrever o capítulo? Culpa da perna, também u_u
Hope ya like it anyways :)
Círculos.
A impressão que se tinha ao perseguir qualquer das pistas que eventualmente apareciam era essa: correr em círculos, como cachorros perseguindo seu próprio rabo. Quem vê de fora percebe a idiotice da situação, mas, para o animal, realmente parece possível alcançar o objetivo.
Cada ligação recebida que trouxesse informações minimamente plausíveis seria investigada a fundo. Casas abandonadas, depósitos vazios, propriedades desertas. Sempre que alguém ligava comentando sobre uma movimentação suspeita, hábitos subitamente estranhos de um vizinho até antes perfeitamente normal ou casas para alugar onde as luzes foram acesas no meio da noite, era impossível conter a fagulha de esperança que se acendia dentro de cada detetive ou policial relacionado ao caso.
Nenhuma das buscas, porém, resultou em alguma coisa. Exceto, claro, o ponto de negociação de maconha descoberto com uma das denúncias.
Como se não bastasse, ainda haviam os bilhetinhos esporádicos que o bastardo psicótico fazia questão de mandar. Basicamente, comentavam “o quanto o sangue dela é fascinante enquanto escorre”, ou “não me surpreendo que a taxa criminal de Boston seja tão alta”, porque “o mínimo que se poderia esperar são policiais competentes”, que “façam o mínimo exigido pelo trabalho: capturar pessoas como eu”.
Mesmo quem não fora assignado para o caso tentava ajudar de qualquer forma que pudesse. Casos simples eram repassados, turnos eram estendidos indefinidamente, terminando madrugada adentro e começando assim que os primeiros raios de sol surgiam. A delegacia tornou-se a casa temporária de mais da metade dos detetives, que, muitas vezes, cochilavam nas próprias mesas, apenas para acordar um par de horas depois com olhos inchados e metade do rosto vermelha, loucos por café, mas ocupados demais revisando algum arquivo pela quinta vez para levantarem e pegarem um copo.
Kate, por sua vez, praticamente deslocara sua base para alguns andares abaixo, no necrotério. Mesmo na sede do FBI, ela tinha por costume se isolar a fim de pensar e ponderar possibilidades. Por isso que, assim que a legista-chefe disse que não teria problemas em “emprestar” seu escritório à agente, esta praticamente não saía mais de lá, a não ser que tivesse que perseguir alguma nova pista, sair em campo ou interrogar suspeitos. Numa das mesinhas de canto ao lado das poltronas, haviam sido alojados permanentemente os arquivos dos casos, e, mais à frente, um quadro de vidro transparente – trazido dos andares de cima – mostrava, a cada nova manhã, mais uma suposição escrita à maneira corrida em que a mente de Kate sempre trabalhara.
Maura, por sua vez, nunca tivera um escritório com tantas coisas fora do lugar. Os papéis empilhados de qualquer jeito, os lápis esquecidos nos sofás e o quadro com rodinhas tampando a visão de um de seus quadros realmente faziam o alarme do seu TOC soar, mas ela veementemente ignorava tudo isso, repetindo para si mesma mais do que seria necessário que, se a bagunça em seu local de trabalho fosse o preço a pagar para prenderem esse serial killer mais rápido, ela suportaria.
Ela sabia, sim, que essa não era exatamente a verdade. Mas mentir para si mesma nunca havia lhe provocado urticárias, de modo que ela continuava repetindo essa mesma história, na esperança de que se tornasse um pouco mais verdadeira a cada vez que era dita.
Ela não iria admitir que, na verdade, apreciava estar próxima de outro ser humano, mesmo que não se falassem. Ela não iria admitir que, ultimamente, apenas a companhia de Bass não estava sendo suficiente.
Ela não iria admitir que Jane lhe havia mal-acostumado. Que Jane a fizera não só aceitar, mas querer a presença de outras pessoas. De algum modo, ela abandonara a persona de Rainha dos Mortos, e começara a pensar que sim, sua inicial inaptidão social podia ser superada. Antes, não havia como sentir falta desse sentimento, apenas proporcionado pela proximidade de outros. Afinal de contas, não se pode sentir falta do que nunca se teve.
Ela não iria admitir que, recentemente, ser sozinha a estava deixando com uma imensa sensação de... vazio.
Já havia se passado uma semana desde o último assassinato e o envio do vídeo. Apesar das buscas rigorosas, nada fora encontrado. Os detetives se ocupavam com os homicídios corriqueiros, enquanto o FBI – Kate, especialmente – bolavam teorias e mais teorias, que fossem no mínimo plausíveis. Sem muito sucesso até então, também.
A agente, porém, descobrira na legista mais do que uma profissional dedicada que cede metade de seu escritório à primeira agente levemente desequilibrada que encontra esparramada no chão do corredor do necrotério.
Não, Maura Isles também era uma ótima pessoa para discutir e filtrar as milhões de ideias que passavam pela cabeça da agente. Não só por ser um gênio – Kate não precisara realmente perguntar para ter certeza. Ela, afinal de contas, perfilava criminosos para ganhar o pão de cada dia -, mas por realmente se interessar no que quer que ela estivesse falando, mesmo que fosse a coisa mais impossível e idiota do mundo inteiro.
E é claro que essa personalidade, que contrastava enormemente com a fachada de intocável e antissocial exibida pela legista na frente de outros – especialmente da detetive Rizzoli -, deixava Kate mais e mais interessada em descobrir alguma coisa sobre o que estava acontecendo. Alguma outra coisa, fora as fofocas que escutava no refeitório às vezes.
-Então, o assassino já foi classificado como psicopata, com um nível de QI alto e provavelmente algum trauma durante os anos de formação de personalidade, que acabou incutindo em uma obsessão com jovens loiras e atitudes metódicas ao ponto de beirarem a psicose. Ele quer estar no controle, e o modo com que captura, mas, mais que isso, tortura, trata, veste e despeja suas vítimas nos mostra contra quais demônios de seu passado exatamente ele luta. – Kate andava de um lado para outro, em cima do tapete do escritório da legista – ocupada demais preenchendo a papelada de uma morte acidental para reclamar sobre as passadas arrastando o tapete e tirando-o de seu ângulo paralelo ao sofá -, testando as teorias mais absurdas, murmurando-as para si. Parecia loucura, mas ela sabia que tinha de filtrar o que passava por sua mente se não quisesse, realmente, enlouquecer.
-Sem querer ofender, agente Connors – Maura começou, ignorando completamente o suspiro irritado corrigindo-a: “eu já disse para me chamar de Kate, Dra. Isles” – Mas essa campanha na qual você tem se aventurado pelos últimos... cinquenta minutos não parece ter rendido resultados satisfatórios até então. Isso, claro, pode ser devido à dosagem excessiva de cafeína consumida nesses últimos dias, associada à falta de uma rotina e poucas horas de sono, que provavelmente sobrecarregaram seu cérebro e...
-Eu sei, eu sei. Um menino de rua com medo da loira do banheiro realmente não faz sentido, mas eu preciso organizar minha cabeça, e essa é a única forma eficiente de fazer isso. A não ser que eu esteja atrapalhando, então, é claro, eu farei isso no corredor. – retrucou a agente, já se virando para ir em direção à porta.
-Não, não. Eu só percebi o quão... peculiar é a sua maneira de lidar com esse caso e testar as teorias – por exemplo, todas as noites algumas são anotadas no quadro transparente, mas a maioria é riscada de manhã. Só estava... curiosa, é isso.
-Ah, sim, isso. – Kate encarou a loira, que prestava total atenção nela, inquisição estampada claramente no rosto — Bem, culpe a baixa inibição latente e o enquadramento no grupo com QI de normal para elevado. Colocar essas teorias absurdas para fora geralmente é o que me faz achar a correta no meio da bagunça. Falando nisso, pode me dizer algum restaurantezinho aceitável nas redondezas? – falou, como se a mudança de assunto não fosse completamente brusca – já deve ter passado da hora de jantar. E, se não passou, deve estar próximo, e eu realmente estou com fome, não sei por que. Então, alguma sugestão? Você parece ter bom gosto para esse tipo de coisa. – completou, com um sorriso.
Maura apenas a encarou fixamente por alguns segundos, e finalmente atribuiu a ligeira hiperatividade ao consumo excessivo de cafeína e açúcar mais cedo e ao aumento de adrenalina no sangue que vinha logo antes de o corpo se obrigar a parar.
-Na verdade, há um estabelecimento indiano a umas poucas quadras daqui. Chama-se Ganesh, uma clara referência a um dos semideuses mais cultuados do hinduísmo, filho de Shiva e Parvati, e seu nome representa a junção de intelecto e sabedoria, por que... – Maura interrompeu-se no meio da frase ao observar que a agente parara e se dedicava exclusivamente a observá-la, com um sorriso no rosto.
A loira se virou e abriu uma das gavetas, enquanto se repreendia mentalmente por ter começado a listar factoides do nada. – Eu devo ter um mapa aqui em algum lugar, deixe-me ver...
-Não acho que eu vá precisar de um mapa, Dra. Isles.
-Não? – Maura levantou a cabeça, surpresa e confusa.
-Não. Porque a senhorita acaba de ser convidada para me mostrar esse restaurante indiano. – completou, o sorriso ainda maior, apaziguando o cansaço do rosto. E eu não aceito um não como resposta. A não ser, é claro, que apareça uma emergência, mas, pelo que vi do seu horário, hoje é sua noite livre.
Maura ficou pasma, completamente estática. Essa atitude poderia ser considerada invasiva, se o convite não tivesse sido feito com uma animação quase infantil. E a presunção que a agente parecia mostrar a lembrou quase instantaneamente de Jane.
-Estou venturando um palpite de que não tem nada mais interessante para fazer hoje à noite do que me acompanhar para jantar, Dra. Isles. Então, será que me daria a honra? – Kate completou, fazendo força para segurar a gargalhada.
A agente sabia que, provavelmente, esse tipo de brincadeira não surtiria o efeito desejado. A legista parecia ser uma pessoa calma e contida, mas, realmente, Kate não tinha culpa do dano que seu cérebro sofria (e causava) com uma overdose de açúcar.
Maura ainda ponderou por alguns segundos. Realmente, não havia nada de mais interessante para fazer depois que deixasse o necrotério, e nem mesmo Bass estava esperando por ela para ser alimentado.
Talvez ela realmente devesse se dar a oportunidade de relaxar por um par de horas, e tentar esquecer as complicações excessivas presentes em suas últimas semanas.
-Mostre o caminho, ag... Kate. – a legista completou, com um sorriso.
Com um pouco de sorte, essa noite a livraria de uma parte da tensão que carregava ultimamente.
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