Kate acordou de sobressalto, praticamente pulando da poltrona em alerta por causa de um pesadelo. Eles não eram incomuns, e se tornavam mais recorrentes todas as vezes que a agente tinha de se focar nesse caso em especial. A cada vez que se forçava a observar mais uma cena do crime – mais uma tela sórdida na qual o assassino pensava estar criando uma obra de arte com seres humanos, jovens garotas que mal tiveram tempo de viver antes de serem pegas por um maníaco e torturadas até a morte -, os pesadelos voltavam mais vívidos, mais consistentes, mais reais.

Nos primeiros segundos, ela estranhou o lugar em que se encontrava. Então reconheceu a poltrona levemente desconfortável e o escritório parcialmente escuro, o que serviu para desacelerar um pouco o ritmo de sua respiração. Esperou mais um pouco a fim de espantar os vestígios de sono que quatro noites mal dormidas haviam deixado em seu corpo, e levantou. Não precisava olhar as horas para saber que o que era para ser um cochilo acabara durando muito mais do que o previsto.

Ao sair do escritório praticamente às cegas e com cuidado redobrado para não tropeçar em nada, Kate piscou algumas vezes para se acostumar novamente à claridade.

A sala de autópsias estava silenciosa e vazia, exceto pela Dra. Isles, que lia um arquivo, sobrancelhas franzidas e postura ereta, parecendo extremamente concentrada – a chegada da agente, apesar de não ser barulhenta, devia ter ao menos chamado a atenção da loira.

Kate esperou mais um pouco, e, como a outra ainda não parecesse tê-la notado, pigarreou levemente.

-Não devia estar lendo isso no escritório, Dra. Isles? Digo, não devia ter que estar aí em pé só por minha causa, afinal de contas é seu local de trabalho.

Maura deu de ombros. –Só estou revisando as notas da última autópsia. Esse legista adjunto foi recentemente contratado, o que aumenta a possibilidade de haver algum erro de digitação ou coesão no relatório. Não havia a necessidade de incomodá-la e possivelmente interromper seu ciclo de sono fazendo barulho e acendendo a luz, agente Connors.

-Pode me chamar de Kate. – a morena retrucou, um pequeno sorriso no rosto. – As pessoas geralmente ganham o direito de usar o primeiro nome depois que eu durmo no escritório delas. Principalmente quando essas pessoas apagam a luz e fazem questão de não interromper e transformar um cochilo em – as orbes azuis olharam de relance para o relógio na parede à sua frente – cinco horas de sono. Horas essas que deviam estar sendo usadas para tentar resolver um caso, diga-se de passagem.

Se não fosse pelo sorriso de canto de lábio e pelo tom extremamente exagerado na ironia, Maura provavelmente teria pensado que a agente ficara com raiva por tê-la deixado dormir. O que só seria mais uma pecinha para piorar um dia que já havia sido deveras ruim.

Kate não esperava realmente alguma reação extravagante, ou mesmo muito visível. Pelo que notara da personalidade da legista, ela parecia ser reservada e sempre pensar antes de fazer qualquer coisa. Por isso, a agente não estranhou a falta de reciprocidade na conversa, nem o tratamento muito mais formal que o habitual, ou mesmo as respostas concisas, que não desviavam em absolutamente nada do necessário. Mas, tendo sido treinada para ler expressões corporais e faciais há tanto tempo que já fazia isso como sendo de sua natureza Kate não pôde deixar de notar que a outra parecia levemente... chateada, talvez, ou um pouco desequilibrada. A loira fazia questão de transparecer impassibilidade, mas, para alguém que olhasse minuciosamente, ficava claro que alguma coisa estava errada.

-Aconteceu alguma coisa, Dra. Isles?

Maura, por sua vez, estancou ao ouvir a pergunta. Não, o dia até então absolutamente não chegara nem perto de bom, e o maior de seus problemas pessoais parecia apenas aumentar cada vez mais. Para piorar a situação, ela ainda se encontrava sobrecarregada com tudo o que vinha acontecendo. Sua válvula de escape, Jane, que a escutava e a aconselhava e sempre fazia tudo parecer que ia ficar bem, se encontrava, no momento, extremamente irritada com seu trabalho e ainda fazendo questão de se importar com Casey. A segunda pessoa com quem Maura poderia conversar era Angela, mas não era como se a legista fosse simplesmente dizer à mãe – católica – de sua melhor amiga que estava apaixonada por sua filha. E que Casey Jones, dispensado com honras do exército americano, a estava tratando como um capacho, e Jane sequer se dava conta disso. Sim, porque Maura sabia que Jane não havia contado mais nada a Angela, e não seria correto para com a morena denunciá-la. Além de ser uma atitude egoísta, é claro.

Então Maura continuaria guardando tudo para si, e tentando pensar numa resposta parcialmente verdadeira para a pergunta extremamente direta da agente que, agora, se encontrava parada à sua frente, encarando-a atentamente.

-Não, nada importante aconteceu em nenhum dos casos. As últimas autópsias foram de rotina.

-Eu não perguntei me referindo estritamente aos casos. Algo pode ter ocorrido e não ser exatamente relacionado ao trabalho.

É claro que a agente notara a resposta evasiva. Maura, por sua vez, chamou um dos assistentes e disse para ele levar o relatório que acabara de corrigir para a delegacia, e fizesse questão de entregá-lo ao detetive responsável pelo caso. Essa atitude não tinha outro fim que não comprar-lhe um pouco de tempo, mas mesmo isso não deu muito certo, porque Kate ainda lhe lançava um olhar inquisitivo.

Não havia saída que não dizer a verdade. Ou parte dela, ao menos.

-Na verdade, algo aconteceu, sim. Mas não é um assunto sério, e, além de pessoal, ele envolve outras pessoas. Não quero ser rude, mas ainda não a conheço o suficiente para compartilhar esse tipo de informação, e não é do meu feitio desabafar, como se diz por aí, com estranhos. – Maura sentiu o pescoço começar a esquentar. “Não é um assunto sério”? Mentira, claro que era.

-Imagino. Me desculpe se eu fui intrusiva demais. – disse a morena, em tom de desculpas. — É só o costume de interrogar sempre as pessoas que acaba invadindo todos os aspectos da minha vida.

-É natural para as pessoas nessa profissão desenvolverem um maior senso de proteção, especialmente mulheres. Aprecio o sentimento, mas não há nada que nenhuma de nós possa fazer, na verdade.

Kate ainda pensara em retrucar, mas seu telefone tocou. Antes mesmo de atender, ela já suspeitava qual seria o assunto da ligação, de modo que respirou fundo duas vezes antes de aceitar a chamada.

Dito e feito, alguns minutos depois, ela e a legista subiram o elevador, cada uma em direção a seu automóvel, mas ambas com o mesmo destino, outro beco onde fora encontrada mais uma vítima.

E, se as previsões anteriores se mostrassem corretas e o assassino continuasse no mesmo padrão que desenvolvera das outras vezes, dessa vez haveria um bilhete junto ao corpo.

Porque, realmente, tudo de que eles precisavam eram provocações e comentários sádicos de um maníaco psicopata que sabia exatamente quais botões pressionar para esgotar todo e qualquer um que estivesse trabalhando no caso.

O clima de tensão no departamento de polícia de Boston estava prestes a piorar exponencialmente. Sem previsão de melhoras.