I Can't Feel You
2 II. Blindness
Notas iniciais
-Eu simplesmente me recuso a acreditar que, de todas as horas, você escolhe justamente essa para expressar seu desgosto por Casey, Maura. – Jane disse finalmente, a voz abaixando.
-Não é... desgosto, Jane. – replicou a legista, derrotada. Acabara de acontecer, outra vez, o que acontecera quando Hope voltara a seu escritório. Os sentimentos conflagrados que acabaram resultando em palavras que, apesar de serem a verdade, não deviam ser faladas. Maura certamente não percebera a pilha de nervos em que se encontrava, ou então teria se retirado para ganhar tempo até voltar ao seu estado conciso habitual. Ela sempre tivera total controle sobre as palavras que saíam da sua boca, sempre conseguia parar e pensar antes de dizer qualquer coisa que fosse. Por que, afinal, essas “explosões” estavam acontecendo? Por que, de súbito, ela não parecia mais conseguir se controlar?
Maura, porém, guardou essa linha de pensamento para depois. Para quando chegasse em casa, no vazio solitário e monótono ao qual ela pertencia. Somente aí ela iria abrir de novo essa caixa de Pandora, e descobrir o que estava acontecendo consigo. Ela fora literalmente rude com sua própria mãe, e agora chegara perto, muito perto de colocar sua amizade com Jane num risco que ela decididamente não estava disposta a correr.
-O que é, então, Maura? Por que, do nada, você me vem com essa conversa de que ele está se suicidando e de que eu não devia dar tanta atenção a ele?
-Eu.. É que... Me desculpe se foi isso o que eu dei a entender, Jane. Provavelmente essa última carga de acontecimentos me afetou mais do que eu imaginara ser possível, e eu acabei falando sem pensar e me expressando mal.
Enquanto falava isso, Maura listava todas as razões por que o que acabara de dizer não era uma mentira. Ela estava se esquivando em torno da verdade, e sabia muito bem disso, mas era o necessário a se fazer.
Ela não podia, simplesmente, expor tudo o que sentia por Jane e enumerar todos os motivos pelos quais tinha certeza que seria melhor que Casey. Não, ela não sentia desgosto para com ele. Nem raiva, nem nada do gênero.
Maura nem se deu ao trabalho de negar que, na verdade, o que sentia eram ciúmes. E, talvez – por mais que ela abominasse tal sentimento – uma mínima fagulha de inveja de Casey.
Porque, mesmo ele a afastando, mesmo ele sendo um idiota com ela, mesmo ele tendo quebrado repetidamente o coração de Jane, ela sempre iria atrás dele. Não importava o que ele fizesse, ela arrumaria um jeito de voltar com ele.
Porque ela o amava.
Foi só nesse momento, porém, que Maura percebeu a complexidade e a imensidão do que, para ela, era um problema. Foi só aí que ela percebeu que, sim, Jane amava Casey. Não era uma paixonite, não era uma tentativa fraca de estabelecer algum laço com ele.
A legista poderia jurar que isso a atingiu com tanta força que quase gerou uma dor física.
Jane, por sua vez, estava visivelmente aliviada pelo que acabara de acontecer. A conversa que elas estavam tendo antes tinha feito-a começar a pensar que Maura não queria Casey ali. E não parecia ser somente porque ele era, nas palavras da própria doutora, um “canalha de marca maior”.
Por um instante, Jane se permitiu pensar que Maura estava com ciúmes de Casey.
Ela reprimiu a ideia na mesma hora, xingando a si mesma por ser tão idiota. Supor que Maura estava com ciúmes implicava dizer que, sim, a doutora sentia alguma coisa a mais que amizade por sua melhor amiga.
Jane sabia, por experiência própria, que esse não era o caso.
Não adiantava de nada nutrir essas esperanças de que o que ela sentia fosse recíproco.
Só ia machucar mais, no final.
Ela queria poder dizer a Maura que Casey era o jeito covarde de sair da situação em que subitamente se achara presa. Queria confessar que, na verdade, a pessoa que realmente queria estava bem ali, sentada no sofá da sua sala de estar, arrumando uma saia já impecável, visivelmente perturbada por alguma coisa que a detetive não sabia realmente definir.
Mas Jane nunca, nunca, nunca correria o risco de dizer a Maura o que sentia. Não porque, aí então, ela seria o retrato estereotipado de todas as coisas de que fora xingada por tantos anos. Não porque ela temia as repercussões que um relacionamento com sua melhor amiga pudesse trazer. Não porque ela não se achava o suficiente.
Seu único motivo era o medo.
Medo de que Maura não sentisse o mesmo (e aí linhas como “é bom que você não seja o meu tipo” atacavam com toda a força), medo de que a amizade delas acabasse por uma coisa tão boba de sua parte, medo de que alguma coisa desse errado e ela perdesse a pessoa mais importante que já aparecera em sua vida.
Perseguir essa relação com Casey era apenas um jeito seguro de continuar, apenas uma esperança de que, se ela se convencesse de que o amava, essa coisa que sentia pela legista iria, finalmente, acabar.
O plano, até então, não dera muito certo.
Jane pigarreou antes de falar, tentando de algum modo extinguir o silêncio que se instaurara, pesado, sobre elas.
-Eu te entendo, Maura. Essas últimas semanas atingiram todo mundo com força, e não há porque você ser exceção.
Ela pôde ver o alívio brilhar no rosto da outra.
-Na verdade, Jane, o que eu vim te dizer é que... — Maura parou para respirar, revisando rapidamente o que ia falar em sua cabeça antes de dizê-lo em voz alta. Ela teria que manipular os vocábulos como uma mestra para que não mentisse, ou Jane perceberia a urticária. — O que eu queria dizer é que Casey provavelmente está pensando que não é o suficiente para você, que ficou completamente inválido porque perdeu o movimento das pernas. Isso está levando-o a tomar riscos que, numa situação normal, ele não tomaria.
-Então o que você sugere? – perguntou a morena.
-Fale com ele. Convença-o de que não vale a pena arriscar a vida numa cirurgia como essa. Mostre a ele essa pasta, se você quiser. Você... você disse que o ama, Jane. Mostre a ele que isso não depende da capacidade dele de andar ou não.
Subitamente, Maura se viu sendo envolvida pelos braços que sempre lhe passavam a mesma sensação de segurança. De calma. De pertencimento.
Mas não dessa vez.
Dessa vez, alguma coisa faltava.
Ela retribuiu o abraço da melhor forma que pôde, mas não o deixou durar muito tempo. Não era inteligente, na condição em que ela estava, com os sentimentos à flor da pele, manter qualquer tipo de contato físico com Jane por muito tempo.
-É melhor eu ir para casa, agora. – disse a legista, enquanto se desvencilhava do abraço. – Bass deve estar faminto e eu estou realmente cansada.
Maura deixou o arquivo que trouxera em cima da mesinha de canto, acariciou atrás das orelhas de Jo Friday e se encaminhou à porta.
Antes de sair, porém, ela se virou, e procurou os olhos castanhos mais uma vez.
-O que foi, Maur?
-Só... Me faça um favor, Jane. Na verdade, eu gostaria que você me prometesse uma coisa.
-Qualquer coisa. – veio a resposta numa voz aparentemente mais rouca que o habitual.
-Não deixe ele te tratar de qualquer jeito só porque você o ama. Lembre que alguém que te ama não vai embora, não te despreza, e, independentemente do que aconteça, te trata como prioridade. – Exatamente como eu faço, apesar de você não ver, pensou a legista. – Por favor, Jane, não mude quem você é para ficar com ele. E não aceite nada menos do que você merece, que é alguém que te ame com todas as forças.
Com essas palavras, Maura saiu do apartamento, fechando cuidadosamente a porta atrás de si.
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