I Can't Feel You
3 III. Inescapable
Notas iniciais
Assim que chegou em casa, Maura teve vontade de chorar.
Não derramar uma ou duas lágrimas, que podem ser contidas com algumas fungadas e um lenço de papel.
Mas sim deixar as minúsculas gotas salgadas correrem soltas, encharcar o travesseiro, equilibrar os níveis exorbitantes de noradrenalina e serotonina, chorar até esgotar-se e apagar, como um interruptor, deslocando-se para um limbo que devia ser relaxante e revigorante, mas acabaria não sendo.
Esse fato, em toda a sua vida, acontecera apenas duas vezes.
A primeira quando, em seu primeiro ano no internato feminino, seus pais não puderam ir visitá-la em seu aniversário. Assim que ela terminou a ligação que trouxe as desculpas que deveriam aliviar o fato de que eles não estavam nem iriam estar presentes naquele dia até então tão especial, Maura saiu correndo pra seu quarto e passou horas chorando.
No outro dia, levantara-se como se nada tivesse acontecido e nunca mais pensou no assunto.
Chegara à conclusão de que teria de se acostumar à ausência dos pais, e assim o fizera.
A segunda vez aconteceu muitos e muitos anos mais tarde, quando Ian embarcara para a África sem nem dizer um adeus.
Nessa época, ele era o amor da sua vida. Seu príncipe de contos de fadas, o cavaleiro na armadura brilhante, seu parceiro na luta contra um mundo injusto e desigual, onde a fome, a miséria e as doenças se espalhavam como pandemias.
Isso é, até ele ir embora.
Também dessa vez ela agiu da mesma maneira, e lidou com a súbita perda do mesmo modo que fizera quando criança.
Se permitiu chorar por uma noite, compartimentalizou suas emoções e voltou à sua vida normal. Como se nada tivesse acontecido. Como se um cara sair da sua vida sem nem dar satisfação fosse a coisa mais normal do mundo e acontecesse todos os dias.
Às vezes, ela pensava que isso era viver em negação. Ignorar o que sentia a fim de não se machucar.
Mas era realmente melhor viver em negação e se abstrair ao máximo de contato humano do que testar essas situações completamente desconhecidas para ela e acabar sofrendo. Duas experiências já deviam ter sido mais do que suficientes. Ela já deveria ter aprendido a não se apegar, a não se aproximar muito dos outros.
Mas, mesmo assim, mesmo se afastando de tudo o que poderia pender seu julgamento para um certo lado, parecia impossível, para ela, considerando-se o trabalho – e o subsequente convívio que ele trouxera – com Jane, simplesmente passar por ela e ignorá-la, fingir que não a notava, se fazer de invisível e passar despercebida.
Talvez ela até pudesse dividir sua vida em pré-Jane e pós-Jane.
O antes era organizado, prático, funcional e previsível. Ao mesmo tempo, porém, era apático, solitário, insensível, indiferente.
Jane simplesmente chegara e, sem pedir permissão, quebrara a ordem das coisas, bagunçara, confundira e desordenara tudo.
Mas Maura sabia que, se tivesse a oportunidade de voltar no tempo e escolher, faria tudo exatamente do mesmo jeito.
Mesmo que isso significasse passar pela dor que estava passando agora.
Ela não percebera que se jogara no sofá de casa imediatamente após chegar e praticamente não se mexera até sentir algo batendo em sua perna e ver que Bass havia se aproximado, efetivamente interrompendo seus devaneios. Esperou alguns segundos até que a circulação voltasse a fluir normalmente em sua perna – ela automaticamente cruzara uma perna por cima da outra ao sentar no sofá, e estava tão absorta que mal percebera a dormência – e se levantou, indo até a geladeira procurar os morangos ingleses dele.
Era tudo de que precisava, concluiu, do jeito metódico que sempre se aproximava de assuntos que mesmo vagamente lembrassem interações sociais. Voltar à sua antiga rotina, tentar minimizar o impacto da presença de Jane na sua vida. Se distanciar, se abstrair, se desprender o máximo para eficientemente evitar consternações futuras.
Falar e planejar, porém, se provou muito mais fácil do que executar.
E ela se achou, pela terceira vez, encharcando o travesseiro até se esgotar e cair num sono turbulento.
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Na manhã seguinte, Maura se utilizou, pela primeira vez na vida, da função soneca do despertador.
Sua mente sabia que devia acordar, devia iniciar sua rotina do mesmo jeito que o fazia todos os dias.
Mas seu corpo, apesar de não ter passado por nenhum desgaste físico extenuante no dia anterior, simplesmente se encontrava fraco demais para levantar assim tão cedo.
Boa parte desse cansaço se devia ao fato de ela ter, na noite anterior, demorado muito a pegar no sono, seu cérebro hiperativo por demais para parar de bombardeá-la com pensamentos por tempo suficiente para dormir. A outra parte, com certeza, se devia ao acúmulo de fadiga das últimas semanas. Como se não bastasse todo o drama pessoal envolvendo Hope e Cailin (que agora parecia decidida a ignorar todas as palavras grossas que dissera antes), ela ainda fora “presenteada” com o duplo homicídio do caso de Jane e mais tantos outros corpos que precisavam de uma autópsia, fora um depoimento seu que fora necessário no julgamento de um pedófilo que abordava especialmente meninos ruivos e os estuprava e mutilava, enquanto ainda vivos. Somente as imagens e as evidências desse caso em especial já a atingiam com certa força, mas reviver todas as autópsias, o caso como um todo... Fora simplesmente demais para seu equilíbrio.
Então, nessa manhã, Maura simples e inconscientemente decidiu se presentear com uma merecida hora a mais de sono, suprimir seu tempo dedicado à yoga matinal e simplesmente utilizá-lo para o que parecia ser a ação mais proveitosa em que já pensara: dormir.
Talvez uma pequena parte de si ainda tivesse a esperança de que as últimas semanas, conturbadas e cheias de transtornos, não fossem passar de um pesadelo. Talvez, se ela apenas esperasse mais um pouco, conseguiria acordar e ver que tudo não passava de uma imaginação fértil demais.
E, mesmo sabendo que era infantil demais se permitir ter essa linha de pensamento, foi exatamente isso que ela fez. Ainda num estado semi-inconsciente, programou novamente o despertador para a hora em que estaria terminando seus exercícios, virou-se para o outro lado, agarrou um travesseiro e, em questão de segundos, dormiu de novo.
Pareceram apenas minutos, mas o despertador já estava tocando outra vez.
Maura, muito a contragosto, se levantou e passou por sua rotina matinal de um modo quase automático.
Pelo menos, não tinha acontecido nenhum homicídio que demandara sua presença durante a madrugada. Interinamente, ela agradeceu a qualquer força superior existente que a permitira essa pequena folga. Ela não estaria preparada para encontrar Jane no meio da madrugada, com seus pensamentos interrompidos e um sono incompleto.
Se pudesse contar com um pouco mais de sorte, ela conseguiria passar a manhã trabalhando na papelada que se acumulara perigosamente em pilhas na sua mesa. Com o horário corrido do qual saíra, ela não tivera chances de sentar e preencher os arquivos.
O segundo pensamento positivo do dia foi que, provavelmente, Jane também estaria com a mesa lotada de fichas para preencher e casos para fechar, o que consequentemente diminuiria a frequência de suas aparições no necrotério.
Ela simplesmente precisava de um tempo afastada da detetive, a fim de conseguir remendar suas muralhas, proteger-se novamente de pessoas em geral e assumir sua fachada fria e insensível.
No momento, a proximidade com a morena a estava machucando. Muito. Não só por causa de todos os problemas com Casey, mas também porque Maura não se achava sensivelmente equilibrada o suficiente para continuar apoiando as decisões da outra e empurrando-a e incentivando-a a tratar a situação desse ou daquele modo.
Ela simplesmente não estava para dar conselhos, ou sair de sua bolha, ou simplesmente se aproximar de pessoas no geral.
Ela precisava de tempo para se preparar e colocar seu plano em ação. Somente assim ela poderia ser a melhor amiga que Jane precisava sem correr o risco de, num acesso de raiva repentino, expulsar todos os sentimentos que reprimia em forma de palavras.
Ela precisava de tempo para forjar a armadura da qual sabia que ia precisar, quando Jane começasse a discutir a cirurgia de Casey e pedisse sua opinião, ou quando comentasse esse ou aquele fato da história dos dois.
Do mesmo jeito que se treinara para acostumar-se à ausência dos pais, do mesmo jeito que aceitara a súbita partida de Ian, ela iria se programar para aceitar a presença de alguém – no sentido romântico da palavra, claro – na vida de Jane.
Alguém que não fosse ela própria.
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