Gerard odiava chorar. Fazia ele se sentir tão fraco. Mas mesmo assim as lágrimas insistiam em cair. Ele olhou para o pedaço de vidro em sua mão. Já estava sujo de sangue seco, das outras vezes. Ele olhou para o seu antebraço esquerdo. Dava pra ver todas as suas veias, através da pele tão branca.

Ele enxugou as últimas lágrimas. Odiava se sentir assim, tão confuso. Na verdade, nem sabia o que sentia. Não sabia o que queria fazer, não sabia nem sobre o que estava confuso.

Um corte, rápido, curto e fundo. Ele já estava tão acostumado com a dor que nem a sentia mais. Logo o sangue começou a sair, colorindo a sua pele. Sorriu. Além de gostar da visão do próprio sangue, gostava do aspecto visual dos cortes. Era lindo ver a vida pulsando, ver o vermelho vivo no fundo da sua pele retalhada.

Um corte não foi suficiente. Nem dois, nem três. Continuou, rápido e fundo, até não haver mais espaço na pele do seu antebraço. O sangue pingava lentamente, mas logo coagulava. Seus dedos estavam sujos com o sangue, mas ele não se importava. Suspirou, aliviado. Gostava dos cortes, das marcas, das cicatrizes. Para ele cada uma era um troféu, significando sua vitória sobre a dor.

Seguindo o ritual de sempre ele limpou o sangue ainda molhado com papel e lavou as feridas. Rilhou os dentes ao senti-los arder com a água. Enxugou tudo de novo e observou os cortes recém-feitos, se misturando com os mais antigos. Gostou mais dos mais fundos. Sorriu. Botou uma blusa de manga comprida e deitou na cama.

Até alguém bater na porta do seu quarto. Era Frank.

- Gerard? Você tá aí?

Ele pensou por um momento em não falar nada e fingir que não estava, mas era Frank. Não conseguia esconder nada (quase nada) dele.

- Entra.

O amigo entrou, com um sorriso que não alcançava seus olhos. Se sentou no chão, já que Gerard ocupava a cama.

- Você quer fazer o que hoje?

- Nada. – Gerard falou com um toque de impaciência.

- Nada? – Frank ergueu uma sobrancelha. – Nem beber?

- Não. – ele falou seco, olhando para um canto do seu quarto.

- Credo, o que houve com você hoje? – Frank falou se sentando ao lado do amigo.

- Nada. Eu só to... indisposto.

- Indis.... – Frank falou, confuso. Até notar a blusa de manga comprida de Gerard e o calor infernal que tava o quarto. – Credo, como você não tá com calor?

- Eu... não to. – Gerard falou, puxando suas mangas instintivamente. Frank o olhou.

- Gerard.... – ele deixou a pergunta no ar.

Então Gerard se levantou de repente.

- Sabe, acho que quero sair sim. Vamos naquela lan aqui perto...

- Gee, não. – Frank falou com firmeza. – Você tá tendo uma as suas crises, né?

- Se eu estiver ou não, acho que não é da sua conta. Sem ofensa Frankie, mas nós já conversamos. Não há nada que você possa fazer.

- Gee... tem que haver algo que alguém possa fazer. – Frank falou suavemente. Gerard balançou a cabeça, contendo as lágrimas.

- Não. Você tem que entender, Frankie. Por favor....

Frank o olhou, derrotado. Então falou:

- Deixa eu ver.

- O quê?

- Os cortes. Deixa eu ver.

- Claro que não!

- Gerard.... – o olhar que Frank o deu era o típico “não seja um bebê”. Gerard bufou e levantou a manga. Frankolhou os cortes por um momento, antes de desviar o olhar, visivelmente incomodado. Gerard botou a manga ao normal novamente.

- Você pediu.

- Porquê, Gee? – Frank falou de repente. – Porquê você faz isso?

- Só quem tb faz entende. Eu não posso esperar que você, meu irmão, ou qualquer um entenda, e nem peço isso. Só peço que vocês me deixem em paz sobre isso, ok? Eu faço isso desde os 13 anos, nunca parei e nunca vou parar. Você sabe como é, minhas crises vêm e vão. Não tente...

Mas Frank nessa hora se levantou da cama, irritado.

- Você tem um monte de gente que te ama. Porque...

- Não tem nada a ver com vocês. Tem a ver comigo. Isso é problema MEU, Frankie. Só meu.

Frank o lançou um olhar magoado antes de sair do quarto. Gerard suspirou e levantou a sua manga novamente. Pegou o vidro e suspirou antes de escolher um lugar bom para o próximo corte.

***