I Cant Clean Off The Blood
2 Capítulo 2
Frank descia as escadas, irritado. Aquele era o seu melhor amigo, e ele estava se ferindo, e Frank não podia fazer nada. E odiava admitir, mas Gerard estava certo. Ele não entendia como era, então era impossível poder falar qualquer coisa ao amigo. Mas Frank só queria... ajudar, mesmo que não soubesse como.
- Frankie, espera.
Ele parou ao ouvir a voz de Gerard. Se virou e o encontrou na porta do seu quarto, o olhando.
- Gee, se você não....
- Sobe logo. – Gerard falou, com um sorriso mínimo. Frank suspirou e subiu, entrando novamente no quarto. Gerard estava sentado na cama, encostado na parede.
- Então. – falou, sereno. – Vai ser assim: Você faz as suas perguntas, eu faço as minhas, então você faz o seu discurso e aí eu faço o meu.
- Tá bom. – Frank sentou na cadeira, olhando para Gerard. – Eu começo a perguntar, né? Ok. Porquê você faz isso?
Gerard sorriu. Já tinha escutado tanto aquela pergunta que já tinha a resposta pronta:
- É o meu jeito de lidar com dor, com depressão, com todas as merdas que acontecem comigo.
- Sentindo mais dor?
- Não. A dor é o de menos. É tudo uma simbologia. Quando eu vejo os cortes cicatrizando, me faz sentir que as minhas feridas internas também podem cicatrizar, e isso me faz sentir mais forte. Faz me sentir vivo.
- Isso... – Frank queria falar que aquilo não fazia o menor sentido, mas pensou melhor. – Mas.... como você faz?
Gerard o olhou e pegou o seu kit debaixo da cama. Uma caixinha de metal discreta. Lá dentro tinha uma agulha, um estilete, e o pedaço de vidro quebrado sujo de sangue, e um pedaço de pano tb sujo de sangue. Frank olhava aquilo levemente nauseado.
- No momento eu só uso o vidro. Corta mais fundo. – e completou ao ver a expressão de Frank. – Ei, você perguntou.
- Tá, tá. Você pergunta agora.
- Tá. – Gerard olhou para Frank. – Porque você se importa tanto? Não é a sua pele, nem a sua dor.
- Porque você é o meu melhor amigo, e eu me importo com você.
- Mentira. Você pode ser o meu melhor amigo, mas você não se importa comigo tanto assim. Você só não quer que eu seja tão “esquisito”.
- Isso não é verdade e você sabe. Próxima pergunta.
- Era só essa.
- Ok. Então é a minha hora de falar. Gerard, como você.... – ele parou, horrorizado, ao perceber que não tinha nenhum argumento bom o suficiente. Ficou calado e Gerard sorriu.
- Eu entendo a sua preocupação. E agradeço. Mas realmente é problema meu, e de mais ninguém. Sem ofensa Frankie, você sabe que eu te adoro. Mas por favor não se meta nisso. – Olhou em volta displicentemente. – Acho que acabamos, né? Você quer fazer alguma coisa agora? Você conseguiu aquele cd do Nirvana, o...
Frank se levantou, confuso. Não podia ignorar aquilo. Ele era seu amigo, e fazia aquilo... mas o olhar de Gerard falava “não se meta”, e algo dizia que era melhor obedecer.
- Eu.... tenho que ir. A gente se vê amanhã, ok?
- Frankie, você não precisa ficar com medo de mim, nem me olhar com essa cara. Credo, você tá agindo como da primeira vez que você viu...
- Eu sei, eu sei. – Frank abaixou a cabeça. – Mas é difícil pra mim, você sabe. Amanhã eu vou estar normal. Te vejo amanhã, Gee.
- Tá. Eu vou com você até o fim da rua, tenho que ir na casa do Bert. – falou, enquanto os dois saíam do quarto.
- Bert?
- É, você conhece ele. Um cabeludo, mais freak ainda do que eu.
- Ah. – Frank falou, desgostoso. Algo no fundo do seu estômago se moveu desconfortavelmente. – Ok. Legal.– se viu na rua já. Ele e Gerard eram praticamente vizinhos, só tinham que andar um pouco pra chegarem na casa um do outro.
- Eu vou pro outro lado, ele mora um pouco mais longe que você. Tchau.
- Ah. Tchau.– Frank deu um sorriso breve e se virou. Enquanto andava para casa pensava em Gerard e Bert.... e continuava sentindo aquela sensação na boca do estômago.
***
Gerard bateu na porta do quarto do amigo. Música alta soava de lá. Alguém abriu a porta, o olhou e o deixou entrar. Ele botou a mochila num canto do quarto de Bert e se sentou no chão. Bert estava deitado na cama, de barriga pra cima.
- Como está sendo o seu dia? – Perguntou. Gerard suspirou.
- Frank foi lá em casa e viu os meus cortes.
- Quais?
- Os de hoje.
- Você fez novos? Deixa eu ver. – Bert falou, se virando na cama pra ver Gerard. Este mostrou o braço. – Legal. Esse aqui ficou bem fundo, né?
- É, vai fazer uma cicatriz legal.
- Esse meu tá ficando estranho. – Bert mostrou o seu braço, onde havia um corte amarelado.
- Infeccionou. É só você esperar e não mexer nele que cicatriza normal.
- Pô cara, esses meus da perna tão coçando como a porra.
- Ainda tão vermelhos?
- Tão.
- Então não coça, não mexe neles. – acendeu um cigarro e suspirou. – Droga.
- Que foi?
- Tudo. Tudo que tá acontecendo, e hoje o Frank veio com a ladainha do “porquê você faz isso?” e tal.
- Ah, admite, você adora. – Bert sorriu.
- Adoro o quê?
- Que ele se preocupe com você.
- Eu gosto e não gosto, porque sim, é bom saber que ele se preocupa, mas é ruim ter que ouvir o discurso, e o olhar... Bert, você não acredita no olhar que ele me deu.
- Acredito sim. Pode ter certeza. Mas é só dizer que você não quer falar sobre isso que eles calam a boca.
- Seilá... a minha vida tá uma merda tão grande que eu nem sei mais de nada.
- A vida de todo mundo é uma merda, meu caro. Mas nós somos os únicos que sabemos lidar com isso. – Bert falou e jogou um estilete para Gerard.
- Você sabe que eu não faço mais com estiletes. Eles não deixam marca nenhuma. – tirou da mochila o seu próprio kit e pegou o pedaço de vidro.
- Você que sabe. – Bert falou pegando o seu próprio estilete. Os dois subiram as mangas.
***
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