(Fase 2: Superfície)

V

Feiosa: O mesmo sonho da semana passada?

Você: Dessa vez pulei a cerca, quando estava prestes a entrar na floresta acordei

Feiosa: Estranho

Tainá reunia forças para se levantar. Estava acordada desde as cinco e como o sono não vinha e o celular estava bem ao seu alcance passou o restante da madrugada conversando com a amiga, que também devia ter perdido o sono. Ou não. Isso não vem ao caso.

Aquela era uma quarta-feira comum, sem feriados à vista, só a velha e chata rotina, portanto dia útil, ou seja, hora de levantar, mas ela não conseguia. Tainá já cursava a oitava série, depois da sexta todo ritual de enfrentar professores, trabalhos, provas e dramas de estudante começava a cansar e o pior era que estar na oitava série só significava o começo do fim, a menina já pensava com um tremendo frio na barriga nos três últimos anos que lhe aguardavam.

Só aceitou que não tinha saída quando a mãe bateu na porta. Checou as mensagens uma última vez e finalmente saiu da cama.

O banheiro estava ligado ao quarto de Tainá e o da mãe. Tinha azulejo cinza e o que dava um pouco de cor eram as toalhas e as embalagens dos produtos de higiene pessoal:

—Bom dia. –Cassandra já estava arrumada e inclusive maquiada, como preferia nada muito pesado; passava o secador nos longos cabelos para prendê-los num coque. Estava bem para a sua idade, tão jovial que passava fácil por uma irmã mais velha de Tainá, e os olhos... Magníficos. A menina queria ter tido a sorte de herdá-los.

—... Bom dia. –Tainá bocejou. Pegou a toalha no balcão e a pendurou perto do Box. Começou a despir-se.

—Pode me ajudar a pegar algumas coisas no porão?

—Aham.

A água estava no ponto, por mais que a banheira estivesse fosse convidativa uma breve ducha também a ajudava a recuperar as energias. Não podia não notar a mãe, que parecia obcecada pelo próprio reflexo. Sempre se portava e vestia como se escondesse algo, bem, era uma bruxa, mas a não ser a sua pele com pouquíssimas rugas nada nela levantava suspeitas e além do mais, era dona de uma floricultura e não CEO.

Tainá escovou os dentes e foi rapidamente até o seu quarto, pelo cheiro a mãe preparava o café. Vestiu sua velha calça jeans rasgada no joelho e a camiseta do uniforme, seu all star branco estava encardido, mas se a mãe ainda não notara não era hoje que o limparia. Por último, mas não menos importante colocou sua pulseira, anel de coquinho e os piercings no septo e na sobrancelha.

Debaixo de sua escrivaninha encontrou sua mochila, já tinha o caderno e o estojo, faltavam os livros que usaria no dia. Começou a procurá-los na bagunça que era seu quarto. Achou um na pilha de roupas na cadeira da escrivaninha, outro debaixo da cama e o último na gaveta da mesinha de canto junto com um cartão de presente que o pai lhe deu.

Completou dezesseis anos no começo de abril, não fez questão de festa, mas tinha uma pontinha de esperança que o pai desse uma visita. Estava aos poucos se acostumando com a ideia de que ele aparecia quando queria, nos momentos mais aleatórios. Bem, pelo menos o cartão veio acompanhado de dinheiro.

Ao atravessar o corredor já estava na cozinha para presenciar a mãe segurando a caneca com café numa mão e Lídia, uma sphynx preta na outra:

—... Nossa.

—O que?

—Isso é arte.

Cassandra riu e antes de soltar a gata beijou-a na cabeça:

—Tome seu café bem rápido, por favor.

—Pode deixar. -Ela pegou uma caneca no armário. -Ô Mãe?

—Fala.

—Você vai à festa junina da escola?

—Festa junina?

—Eu não me importo muito, só vou por causa do trabalho de educação física e a quadrilha.

—Ah, vai se apresentar?... Talvez seu pai apareça.

—Uau, ele é tão presente, não é mesmo?

—Ei, mais respeito... Eu vou sim. E irei chamá-lo.

—Que seja.

—Eu sei que também faz questão.

A menina corou e quis enfiar a cabeça em um buraco por isso. Não queria sentir falta de uma pessoa que só era uns 15% presente em sua vida.

O porão ficava debaixo da garagem, Tainá só descia lá para ajudar a mãe com os vasos de planta. Cassandra ficava por horas ali, pois era onde fazia parte dos arranjos que vendia e cruzando uma porta havia sua “toca de bruxa”, o único cômodo da casa do qual Tainá nunca esteve.

A curiosidade da menina para ver como era o lugar crescia mais e mais, só que nunca fora convidada propriamente pela mãe para entrar nem tinha coragem de sequer falar sobre, sentia que se tratava de algo muito íntimo para Cassandra. A única que tinha passe livre além da bruxa era Lídia, que preferia ficar lá dentro quando as donas estavam fora:

—Não está esquecendo nada?

—Que eu saiba não... Ah! Eu volto mais tarde hoje. Ensaio para a festa junina.

—Ok... –E como já havia dito, Cassandra entreabriu a porta de sua “toca” para Lídia entrar antes de subir. A gata, que esperava na escada, adentrou em instantes. –Vamos.

***

Era estranho Cassandra ter que simplesmente ignorar o acontecido do dia anterior. Não é todo dia que descobrimos que nosso patrão é um vampiro. Foi seu primeiro contato com um e só de saber que vivia sob o mesmo teto que ele sua atenção redobrou. Por outro lado curiosamente sentia-se contente de ver outra criatura. A bruxa estava sempre cercada de humanos, Alexander era uma constante lembrança do que ela realmente era mesmo ele tendo outras peculiaridades.

Não podia e nem queria ficar o dia todo pensando no assunto, o trabalho felizmente a tomava atenção. Eleanor a esperava com o mesmo sorriso simpático de sempre. Se antes Cassandra tinha suas desconfianças a respeito dela não ser humana agora só fez piorar:

—Bom dia, Cassandra.

—Bom dia, senhora Hauser.

Ao mesmo tempo em que servia Eleanor, os olhos de Cassandra estavam atentos ao senhor Hauser, o qual mais uma vez lia à mesa e certamente não comeria nada a não serem tripas e corações acompanhados de litros de sangue. Como até o mais calmo e discreto dos homens poderia se transformar numa criatura tão grotesca sedenta pelo caos?

—Está bem?-Perguntou Eleanor e Cassie finalmente parou de dar ouvidos a seus pensamentos.

—Perdão, o que disse senhora?

—Perguntei se está bem.

—Oh, sim... Estou bem.

***

—Mãe?-Chamou Tainá.

Cassandra olhava para o nada com as mãos no volante, já estava no portão da escola da filha. Ela notou com espanto que mal se lembrava de ligar o carro e dirigir:

—Perdão... O que ainda faz aqui?

—Nossa, que grosseria!

—Não... Há quanto tempo estou parada aqui? Devo estar te atrasando.

—... Eu só queria dizer tchau e te dar um beijinho. –Tainá deu um beijo na bochecha da mãe. –Viu?

A bruxa desistiu de tentar entender o que lhe aconteceu, pois seu coração fora aquecido:

—... Tchau, filha, boa aula. –Disse com um sorriso bobo no rosto.

Estudar estava ficando cansativo por causa dos professores, dos trabalhos, provas, dramas de estudante e no caso específico (ou não) de Tainá outra coisa (além da questionável qualidade da educação): as malditas escadas.

Todo o santo dia. Tainá subia uns cinco ou mais lances de escadas para chegar a sua sala com uma mochila pesada nas costas, três para o pátio da escola. A menina sentia as pernas ficarem torneadas como a de um bailarino, o que até que não reclamaria. E como se não bastasse conforme passava de ano ficava um andar acima, esse ano estudava no quarto e último, ou seja, mais escadas.

Tainá agradecia que era o último ano. O último ano naquela escola pelo menos. Depois passaria mais três anos em uma das escolas perto do centro de Praga e aí... Não fazia a mínima ideia. Ainda tinha um tempinho para pensar, entretanto pensar no futuro sempre deixava Tainá nervosa. No fim, o que botava seus pés no chão era justamente cair na rotina e perceber que havia muito a fazer:

—... Alguma pergunta?-Perguntou o professor de biologia, recebendo como resposta um silêncio desconcertante. –Tudo bem, as questões estão na página vinte, a aula já está acabando, mas podem começar.

Logo que o cochicho (que em minutos provavelmente se tornaria uma algazarra) começou Tainá pegou livro, caderno e estojo e foi sentar-se junto da amiga, a tal “feiosa”:

—Ai, ai, eu vou me foder na prova dele. –Disse a menina coçando a cabeça com o lápis.

—Você não entendeu nada também?

—Sabrina, eu já saquei essa sua psicologia reversa, tá? Sua safada!

—Oxe!-A menina de riso fácil olhou Tainá sem entender.

—Você vem com essa cara de desesperada, com esse papinho de que não entendeu nada, “mano do céu, eu vou tirar um zero” e quando a gente vê... PEI! Maior nota da sala.

—Que isso!

—‘Cê’ acha que eu não sei, EU TE CONHEÇO!

—Doida!

—Ridícula! Vai, vamos tentar fazer a lição.

—Pera, mas e o seu sonho, nenhuma novidade?

—Não, né? Ainda não tive a oportunidade de dar uma cochilada.

—Olha se quiser... –Sabrina olhou para os lados e baixou o tom de voz, como se alguém naquele zumbido de quarenta vozes fosse ouvir justamente a conversa das duas. –Posso tentar alguma coisa para ver se a gente consegue descobrir o que é isso aí.

—Ah, não vou servir mais servir de cobaia pra bonita, não.

—Ah, Tainá!

—Da última vez quase deu ruim e minha mãe deu a maior bronca em mim.

—Mas você não quer saber o que o sonho quer dizer?

—Lógico, mas já que aos poucos eu vou descobrindo o que acontece, prefiro deixar minha mente agir no tempo dela.

—Cagona!

—Ai, até parece que tá preocupada comigo, só quer testar o seus poderes.

—Ei, fala baixo, doida!

—Ninguém sequer desconfia Sabrina, relaxa!

—Shhhh!

Tainá revirou os olhos. Ser uma criatura sobrenatural e viver num mundo de humanos poderia ser solitário, antes de conhecer Sabrina a menina até cogitava que ela e os pais eram os únicos em Praga com peculiaridades, quando conhecera a bruxinha em ascensão passou a não se enxergar mais como um peixe fora d’água e sim como apenas uma criatura sobrevivendo.

Os professores estavam inspirados naquele dia, aproveitaram o máximo que puderam dos cinquenta minutos que tinham. Ao mesmo tempo em que se sentia inebriada com tanta informação Tainá ficava feliz por eles conseguirem trabalhar, mesmo que uns fizessem de forma mais empolgante que outros. Entretanto, o centro das atenções era a festa junina. As barracas das comidas típicas eram erguidas no pátio perto da quadra, onde aconteceriam as apresentações. As tradicionais decorações estavam por toda parte.

Como se não bastasse passar vergonha uma vez na frente dos pais, o professor de educação física queria uma segunda, mas Tainá faria. Tudo por uma nota. Era aquilo na verdade uma metáfora para a vida adulta?

—Gente, que parte da coreografia vocês têm mais dificuldade?-Perguntou Sabrina. O professor cedeu aquela aula para os grupos ensaiarem, a turma estava toda espalhada na quadra, uns ensaiavam de fato, outros fingiam.

—A gente vai dançar essa música mesmo?-Perguntou Denise. Ela era “novata”, Tainá se lembrava de estudar com ela na pré-escola, depois de anos ela voltou no sétimo ano transferida de outra escola. Deve ser por isso que conseguiu se enturmar fácil.

—Aham. Achei que não ia rolar, mas ele deixou.

—Mas vocês não acham que vai dar ruim?

—Como assim?-Perguntou Tainá.

—... Sei lá.

—Ah, entendi. Tá com vergonha porque vai ter que rebolar.

—Gente, isso já não tava resolvido?

—Eu disse que sim porque achei que o professor não ia deixar.

—Dê, nós duas só vamos fazer o passinho e aquele negócio com o quadril, só quem vai fazer o quadradinho é a Sabrina e o Luan.

—O Luan vai dançar miga!

—Mas o Luan é o Luan, todo mundo já tá acostumado com ele dançando.

—É só uma apresentaçãozinha, Dê, ninguém vai prestar muita atenção.

—E a gente é o primeiro grupo, se der merda pelo menos no final da festa todo mundo esqueceu. –Disse Luan, ele via o passo a passo da coreografia no celular. Tainá se aproximou dele no sexto ano e desde então ele, Sabrina e Denise formam sua panelinha. A menina se odiava por só ter conseguido construir relações tão fortes quando o monstro do ensino médio estava prestes a afastá-los.

—Ah, mas tem que dar certo sim porque eu enchi o saco do professor pra ele liberar essa música!

—Olha, por mim nós dançávamos É o Tchan no Egito. –Disse Tainá.

—Gente, É o Tchan era bem melhor!

—Você prefere encarnar a Carla Perez a dar só uma reboladinha? Coragem, miga!

O professor apitou e como um bando de suricatos todos olharam para ele:

—Sentem nas arquibancadas um minutinho, o diretor quer dar um recado.

O diretor, um homem alto, de cabelos grisalhos e semblante sério atravessou a quadra. Usava camisa e sapatos social com calça jeans, parecia mais um engenheiro. Por anos Tainá não entendia porque sentia uma energia ruim ao redor dele, depois que seus poderes de lobisomem afloraram descobriu: Borges era um vampiro:

—Bom dia turma, não sei quantas vezes passei esse mesmo aviso no dia, mas foram muitas, então prestem atenção. Como todos sabem acontecerá a festa junina aqui na escola, vocês irão se apresentar e desde já os parabenizo por isso, mas há uma baixíssima demanda na venda de rifas.

Borges foi interrompido pelo cochicho dos alunos:

—Nem me lembrava desse negócio. –Disse Tainá a Sabrina.

—Eu não consegui vender nada.

—Eu vendi uma pra minha mãe e só, só é a gente lá em casa e eu não vou ficar indo de casa em casa pedindo.

—Vende pro seu pai.

—Até ele responder já passou a festa junina.

—Pelo menos ele te responde. –Disse Denise. Tainá e Sabrina riram com respeito.

O professor apitou novamente reestabelecendo a ordem:

—... Como estava dizendo, há uma baixa demanda na venda de rifas então cancelamos. Peço que vão até a coordenação e devolvam as cartelas e no caso de quem conseguiu vender haverá a devolução do dinheiro.

O diretor se despediu brevemente e antes mesmo dele se retirar a turma voltou ao que fazia como se ele nunca tivesse aparecido. Era uma sombra, só aparecia de vez em quando, mas estava de olho em todos. O trabalho perfeito para um vampiro.

Quando foi descer da arquibancada Tainá o avistou na porta da secretaria, olhava diretamente para ela, pelo menos era essa a impressão da menina, que o encarava de volta sem entender:

—Tainá?-Chamou Luan.

—Que foi?

—Você vem ensaiar?

—... Sim.

Ela olhou novamente para Borges e como imaginava ele havia sumido.