Sábado

Tainá acordou com o barulho do despertador. Teve seu sono interrompido bruscamente na melhor parte. Sair da cama naquele dia nublado era uma verdadeira tortura, porém tinha de fazer, mesmo que sua vontade fosse se jogar naquela cama novamente.

O tempo virou completamente depois da tempestade durante a semana. Mesmo Tainá preferindo a energia do verão, ela admitia também apreciar dias mais soturnos.

Um banho a ajudou a afastar o sono, ignorando que depois de alguns minutos queria morar debaixo daquela água quente. Saiu antes que a mãe surgisse de algum canto reclamando da conta de energia. Cassandra abria a floricultura um pouco mais tarde nos sábados, devia estar no porão fazendo arranjos com a mesma concentração de um cirurgião:

—Oi, querida. –Disse Tainá a Lídia, a qual lhe observava de cima da geladeira com seus grandes olhos verdes. Era intrigante olhá-la, a gata parecia querer dizer algo.

A menina desviou o olhar e fechou a geladeira ao ver que não haveria nada que abrisse seu apetite. No mesmo instante ouviu um barulho estrondoso como uma grande coisa desabando ao longe, que fez o chão dar uma tremida. Não pensou muito, foi imediatamente para o quintal investigar, mas não encontrou nada.

Nada... A não ser a floresta.

Depois do quintal da casa da menina existia uma floresta, a qual Tainá era fascinada. Queria um dia adentrá-la e ver até onde chegava, a mãe e outros que ouviam seu desejo mirabolante sempre a censuravam dizendo que era muito perigoso, e realmente poderia ser, mas isso não impediria a menina de matar sua curiosidade.

A cerca elétrica que separava sua casa e a floresta não era tão grande e os poderes de Tainá a ajudariam, um bom salto e estaria do outro lado.

E foi exatamente o que fez. Esqueceu-se de todos os seus planos e seguiu em frente.

As árvores eram enfileiradas como se tivessem sido plantadas pelo mais metódico dos paisagistas, podia ouvir os pássaros cantarem anunciando o início de um novo dia. Havia chovido, Tainá se arrepiou quando um pingo d’água vindo das folhas molhadas das árvores caiu em seu braço.

Andou, andou até encontrar um riacho cortando a floresta. Não era tão largo, mas teria que dar mais um bom salto se não quisesse molhar seus pés. Foi então que ouviu um barulho vindo justamente do outro lado, um cervo surgiu da mata.

A luz que se espremia nos espaços vazios entre as árvores fazia seu pelo brilhar, era gracioso, forte e parecia delicioso. Delicioso, Tainá se sentia mal por desejar devorar aquele pobre animal. O que poderia fazer? Era mais forte que ela. Ela enfim saltou e o cervo logo fugiu.

Não era mais uma menina, era grande, com presas e cheia de pelos negros e brilhantes, não curtos e uniformes como os do cervo, mas cheios e desgrenhados, imponentes como a juba de um leão. Ela corria atrás do animal pela floresta, não desistiria de caçá-lo e ele de sobreviver.

Era ridículo, em questão de minutos estava prestes a abocanhá-lo. Por dentro torcia para que ele continuasse tentando, não queria que aquela sensação terminasse tão cedo. Correr, saltar os obstáculos, o vento balançando seu pelo. Excitante.

De repente Tainá foi desacelerando cada vez mais, o cansaço a vencia, enquanto o cervo continuou até sair do seu campo de visão. Sentia um misto de frustração e alívio por ele. Quando finalmente voltou à vida real começou a se perguntar onde foi parar. Não notara o quanto andou, talvez levasse horas até encontrar o caminho de casa.

Olhou para todos os lados a procura de uma pista que a levasse de volta para o lugar que veio, não conseguia avistar nem o muro de sua casa. Onde estava com a cabeça quando se atreveu a entrar na floresta?

Continuava na forma de fera, porém se sentia tão pequena quanto o cervo e ao contrário dele não era tão veloz. O medo a paralisou. Estremecia apavorada com qualquer barulho que a floresta emitisse.

Não se tratava de um medo bobo, sua paranoia logo se confirmou. Viu ao longe uma figura escura, idêntica a ela só que seus olhos eram de um vermelho vivo, quase como se brilhassem. Tainá queria gritar e o fez, mas o som não saía assim como não conseguia sair do caminho da fera vindo em sua direção como uma avalanche.

Pobre menina, dessa vez a presa era ela.

Tainá abriu os olhos. Sua pergunta foi respondida, o sonho (ou seria pesadelo?) terminava assim. Prontificou-se a gravar um áudio para Sabrina antes que esquecesse tudo num piscar de olhos. Contou o mais detalhado que conseguia, já imaginava a amiga surtando e criando mil e uma teorias e de todas que ela inventava essa era a que Tainá mais queria ouvir.

A menina levantou da cama rapidamente, nunca esteve tão disposta numa manhã de sábado. Se aquele fosse o início de um episódio de uma série tocaria “Don’t stop me now” do Queen ou um pop genérico com sonoridade dos anos 90. Ela não tinha sonhos com frequência, mas nenhum dos que teve até então a deixaram assim, dava boas colheradas no cereal com o mesmo olhar vazio de um peixe, só pensava na floresta, no cervo, no quanto era grande e na criatura que a atacou:

—Filha?-Ela se assustou com a mãe.

Cassandra ficava bem de vestido, mas não os usava sempre, naquele sábado abriu uma exceção e, além disso, trocou o coque por um rabo de cavalo frouxo com algumas mechas de cabelo escapando. Segurava um vaso de plantas vazio e as chaves do carro:

—... Que foi?-Disse Tainá.

—Que foi digo eu, aconteceu alguma coisa?

—Não.

—Parece que descobriu algo extraordinário e agora não sabe lidar com tanta informação.

—Olha... É tipo isso.

Cassandra riu.

—Eu estou de saída, você vem?

—Sim... –Tainá deu as últimas colheradas no cereal e lavou a tigela. –Me espera.

—Vou estar no carro. –Disse Cassandra já no corredor.

Tainá guardou o leite na geladeira e correu até o quarto para pegar o celular. Saiu com tanta pressa que quase passou por cima de Lídia, que estranhamente a olhava. A menina pegou a gata e a olhou diretamente:

—No que está pensando, Lídia?-Perguntou.

Esperou um pouco na esperança que recebesse pelo menos uma luz piscando ou algo do tipo, mas como seu lado realista suspeitava não teve nada disso e obviamente a gatinha não disse nada, então seguiu seu caminho antes que a mãe se cansasse de esperá-la.

Praga não tinha grandes construções, a escola que Tainá estudava talvez fosse uma das maiores, de resto havia prédios pequenos ou médios e o centro da cidade, um dos únicos lugares na cidadezinha para fazer compras. Um shopping era apenas uma promessa de anos, mas vivia no imaginário dos cidadãos, assim como supermercados, os alimentos vinham de mercadinhos, mercearias ou das feiras.

A floricultura de Cassandra ficava na Rua Comercial, seu nome falava por si só. Havia diversas lojas de roupas e sapatos, ópticas e lanchonetes, aquele lugar era antiguíssimo, o que refletia nas construções, as quais suas fachadas eram inclusive tombadas. Tainá sentia uma energia diferente quando estava ali, principalmente diante de um tempo nebuloso e úmido, imaginava quanta história pisou naqueles paralelepípedos centenários.

Cassandra trabalhava em uma dessas construções, por trás da fachada com influências europeias se escondia um espaço minimalista, onde os verdes junto do arco-íris de flores eram o destaque.

Tainá detestava a parte de arrumar tudo para quando os clientes chegassem e depois guardar, parecia à organização de uma festa só que sem a parte divertida. Entretanto ajudava sempre que podia, pois pensava na mãe fazendo tudo aquilo sozinha:

—A cliente vem buscar a encomenda daqui a pouco.

—Ok... Por que não contrata alguém para te ajudar?

—Não há tanta demanda assim e também... –O vaso com uma linda orquídea em cima do balcão antes de se espatifar no chão flutuou e voltou para onde estava. –Tenho meus truques.

—Às vezes nem parece que viveu a caça as bruxas.

—Ah, por favor, os humanos de hoje são cães que ladram, mas não mordem.

—... Acha que eles ficariam de boa se soubessem da gente?

—Com certeza nos jogariam numa jaula e nos testariam feito ratinhos de laboratório, mas ainda são muito egocêntricos para crerem fielmente na existência de criaturas tão complexas quanto eles.

—Mas alguns acreditam em extraterrestres... Espera, eles são reais?

Cassandra riu.

—Alguns. E esses poucos que acreditam são ridicularizados. E não, estes seres não existem... Não que eu saiba.

Antes que Tainá perguntasse algo sobre a última frase da mãe, a bruxa entrou na sala gelada que armazenava mais plantas, deixando a menina com uma pulga atrás da orelha.

Sabrina chegou quase no mesmo instante em sua bicicleta amarela, que estacionou do lado de fora. Ela entrou depois de uma mulher loira acompanhada de duas moças.

As três eram simplesmente lindas, a mais velha devia regular idade com Cassandra (ou devo dizer com o disfarce de Cassandra?), era tão jovial quanto, porém tinha um ar esnobe igual a da moça de cabelos escuros a sua esquerda, essa era a mais baixa delas e a qual mais chamou a atenção de Tainá, que também babava pela terceira, um verdadeiro clone mais jovem da mulher loira:

—Bom dia, querida.

—Bom dia, senhora...?

—Hauser.

Cassandra não ouvia esse sobrenome há um bom tempo, precisou conferir com os próprios olhos quem o disse, mesmo que seu coração já batesse forte e a voz dela já lhe trouxesse a mais terrível das nostalgias.

Dela. Eleanor. Deveria estar usando o mesmo feitiço de envelhecimento de Cassandra ou então a bruxa acabara de descobrir mais uma das mil facetas de um vampiro. Não importava a reconhecia de qualquer forma, assim que seus olhares se cruzaram lembrou-se de quando a conheceu na feira, sentiu um arrepio na espinha:

—Tainá, vamos conversar lá fora?-A voz de Sabrina surgiu como se alguém tivesse retomado um filme.

—... É... Você atende a cliente, mãe?

Eleanor olhou Tainá imediatamente quando ela disse aquela palavra. Mãe. Cassandra já imaginava a surpresa dela, seu estômago embrulhou. Desejou que ela não tivesse dito aquilo:

—Mãe?

—... Atendo, pode ir.

A menina apoiou a vassoura que segurava na parede, Sabrina praticamente a puxou para fora da floricultura.

***

Não conseguia acreditar que já fazia seis meses que trabalhava com os Hauser. Cassandra já conhecia o jardim do patrão como a palma de sua mão.

Enquanto estendia as roupas no varal Alexander examinava sua horta a procura de uma possível praga. Queria não sentir o vento gelado daquela manhã assim como ele, que mal tremia ou rangia os dentes. A presença dele não a intimidava mais, apesar de não confiar totalmente no patrão. Era como estar enjaulada com uma onça.

O que angustiava mesmo a bruxinha ansiosa era a demora em as coisas se realizarem para ela. Pensava que a essa altura já teria recuperado boa parte do que a mãe havia juntado, tinha um valor considerável, mas nem de longe o que planejava, via o sonho de comprar uma casa cada vez mais distante. Não duvidava da própria capacidade, porém nem a mais centrada das mentes se livra da autossabotagem.

Por outro lado, não era ruim estar onde estava, conseguia comprar roupas novas, gostava da comida (modéstia a parte) e, além disso, permitiu-se começar uma nova amizade, mesmo que as experiências passadas ainda ecoassem em sua mente. Sentia-se bem ao lado de Eleanor, ela fazia a vida da bruxinha menos maçante e solitária, ela e os livros, que Eleanor pegava escondido da biblioteca e trazia para Cassandra. Obviamente Alexander sabia os olhares que lançava a Cassie não mentiam, mas ela, assim como a senhora Hauser, se fazia de desentendida.

A casa era aconchegante, maior e certamente mais luxuosa que a que um dia adquiria. Perguntava-se se chegaria a viver tão bem quanto os patrões, se faria parte desse grupo tão seleto de criaturas que conseguiam bancar tudo aquilo:

—Obrigada, senhora. –Disse ao receber seu pagamento.

—Obrigada por cuidar de minha casa. Principalmente agora... –Eleanor acariciou a barriga de grávida. –Ainda não caiu a ficha. Acha que serei uma boa mãe?

—Oh, sim... Essa criança será muito amada.

—Fico feliz de te ter por perto durante todo esse processo, quem sabe não veja meu bebê crescer.

Cassandra arrepiou-se quando se imaginou ali quando o primogênito dos Hauser tivesse sua idade atual, não era só muito tempo, era uma vida toda. Talvez fosse a oportunidade perfeita para explicar sua situação... Ou cedo demais, definitivamente cedo demais, mas o desespero e o choque ao ouvir aquela frase falaram mais alto:

—O que foi querida? Ficou pálida.

—Senhora, eu... Minha mãe... –Respirou fundo. –Minha mãe sonhava com o dia em que tivesse sua própria casa, trabalhou duro só para isso, mas infelizmente não teve tempo de concretizar esse desejo. Quero fazer isso por ela, tenho parte das economias dela e comecei as minhas, pensei... Pensei que talvez pudesse me ajudar com um aumento, por menor que fosse já faria grande diferença.

O silêncio de Eleanor fez o estômago de Cassandra embrulhar, queria voltar no tempo e antes de dizer qualquer coisa respirar fundo e deixar o trabalho de tomar decisões para a mente e não o coração:

—Não... Não estou menosprezando o que recebo da senhora, é só uma sugestão, aliás, não estou te pressionando para que a acate.

—Não se preocupe, entendo o seu pedido. Penso todos os dias com pesar no que passou até chegar nesta casa, sinto muito por a vida não ter sido tão generosa com uma criatura tão boa como a senhorita.

Ela deu uma pausa, andava lentamente em volta da escrivaninha passando as mãos na barriga de seis meses como se pensasse nas próximas palavras. A bruxa engoliu em seco:

—Admiro a relação que tinha com sua mãe e a homenagem que pretende fazer a ela, mas devo alertá-la que não será tão fácil quanto pensa. E digo antes e depois de conseguir a casa que tanto deseja. Há custos. Muitos custos... Até para as casas mais humildes, que temo que a senhorita não possa arcar, pelo menos não sozinha. Não posso lhe dar um aumento agora, mas tem todo o meu apoio e pode ficar aqui o tempo que precisar até conseguir a quantia necessária.

—Muito obrigada, senhora e peço desculpas pelo meu atrevimento.

—De forma alguma, não há nada com o que se desculpar. Está dispensada por hoje.

—... Com licença.

E saiu da vista da patroa. Antes que a tocasse a maçaneta girou e a porta se abriu, Cassandra deu de cara com Alexander, que trazia consigo uma pilha de livros. Ele deu licença para a bruxa passar e fechou a porta:

—Olá querido.

—O que aconteceu?

—É muito direto, Alex, gosto disso... Mas também detesto.

O senhor Hauser se dirigiu a uma das estantes de livros atrás da escrivaninha e começou a devolver os livros aos seus devidos lugares:

—Cassandra pediu um aumento.

—E então...?

—Neguei. Ela anda estranha. Inquieta.

—Quer sair daqui, não gosta mais de fazer o que faz, muito provavelmente nunca gostou.

—Não entendo Alex, a trato tão bem e pelas histórias que já ouvi devo ser a patroa dos sonhos.

—A questão não é essa, bruxas querem ter o seu próprio espaço, se isolar de tudo e todos.

—... Respeito a decisão dela, não concordo, mas respeito. No entanto não posso deixá-la ir, não agora.

—Tem sorte da empregada não ter a malícia de procurar alguém que a pague melhor.

Eleanor começou a refutar a afirmação do marido, mas o senhor Hauser não dava ouvidos, contemplava orgulhoso sua estante de livros. Ele sentiu um arrepio na nuca, olhou na direção da porta da biblioteca e sorriu travesso.

Cassandra não conseguia acreditar no que ouvia, sentia-se a mais tola de todas. Seguiu seu caminho quando se lembrou de que o patrão certamente sabia da presença dela ali.

—... É pelo bem dela e... Eu realmente gosto dela. –Concluiu a senhora Hauser.

O sorriso de Alexander logo se desfez:

—... Deixe a empregada em paz. –Disse num tom calmo, porém com certa amargura.

—Do que está falando?

Ele virou-se e olhou a esposa.

—Sabe muito bem.

—Não estou fazendo nada, Cassandra é minha amiga.

—É assim que ela te vê! Quanto a você, noto suas investidas.

—Isso não é verdade, só está com ciúmes!

—É inútil mentir para um vampiro.

—Prometeu que nunca leria minha mente!

—E você que nunca me decepcionaria dessa forma.

—Pare de jogar seus traumas nas minhas costas...!

Eleanor sentiu um mal estar, toda a fúria no olhar de Alexander sumira, dando lugar a um tremendo arrependimento por ter explodido com sua amada enquanto ela carregava seu tão sonhado primogênito no ventre.

Tomou-a nos braços e a levou até o quarto do casal.

***

—Então eu tive uma visão?-Perguntou Tainá a Sabrina.

—Uma espécie de visão, não irá acontecer exatamente do jeito que sonhou.

—Como tem tanta certeza?

—Quando te dizem que pode se queimar você não vai lá e põe a mão no fogo, certo?

—Há controvérsias.

Elas foram interrompidas pela mulher loira e as duas moças saindo da floricultura, não trocaram palavra alguma com elas, mas a presença das três chamava atenção. Cada uma carregava um arranjo de flores:

—Sabe quem são?

—Infelizmente não.

—E é melhor que não saiba mesmo. –Disse Cassandra de repente, encostou-se à batente da porta de entrada com uma das mãos na cintura. Tainá já sabia pela linguagem corporal da mãe que ou estava brava ou nervosa por ter sido surpreendida.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.