Híbrido
4 IV
Meses depois
Eleanor fora acordada pela porta da varanda abrindo bruscamente. Ela foi obrigada a se levantar para fechá-la, o vento gelado invadia o recinto, era talvez o começo de outono mais frio que ela já presenciara.
A senhora Hauser queria voltar para cama e ficar repousando mais um pouco, mas viu Alexander lá fora, observando os campos vazios de Praga além do terreno de sua casa. Pôs seu roupão e foi até o marido. O senhor Hauser não parecia sentir o frio que a fazia tremer e ranger os dentes, estava ali firme como uma rocha, mais parecia um fantasma:
—O que faz aqui, El? Volte para dentro.
—Queria te ver... Passa muito tempo sozinho.
Ele a abraçou. Era muito frio para aquecê-la, mas sabia que ela se sentia protegida de qualquer forma quando estava no conforto de seus braços:
—Não se preocupe comigo.
—Como não me preocupar? É a única família que tenho agora.
—... Sente falta de sua vida na superfície, não é?
—Se negasse estaria mentindo... Não me arrependo do que fiz, mas penso todos os dias no que deixei para trás.
—Peço perdão por isso.
—Alex, eu escolhi isso. O que me resta é lidar com as consequências.
Alexander beijou a esposa na cabeça, Eleanor o abraçou mais forte, fazendo-o se lembrar do frio cortante ao qual ela estava exposta. Ele a afastou com cuidado como se estivesse manuseando algo delicado, Eleanor o olhou sem entender, o senhor Hauser pegou a esposa no colo e a carregou para dentro.
Delicadamente ele a pôs na cama e depois fechou a porta da varanda. Eleanor cobriu-se e deu espaço para que ele se deitasse junto dela e assim ele o fez, sendo surpreendido pelos beijos suaves da senhora Hauser:
—Assim é melhor. –Disse ele quase num sussurro.
—É tão bom para mim, eu te amo... Até o resto de meus dias.
“... Até o resto de meus dias”. Estas palavras pareciam ecoar na cabeça de Alexander. Meu Deus, como pudera esquecer? Então esse era o preço de ser eterno, perder todos que ama? Não sabia se suportaria isso:
—Sabe que não precisa ser finita, certo?-Perguntou ele.
—Bem, eu não tenho escolha.
—Tem sim.
Ela ficou séria. Parecia bem simples, quem não queria ser imortal?
—Me aguentaria por toda a eternidade?
—Por toda a eternidade... Também é minha única família agora e a razão para continuar procurando algum sentido nessa vida.
—Isso não é verdade... Não pode viver desse jeito, dependendo de alguém.
—Não só posso como estou.
Eleanor respirou fundo e acariciou o rosto de Alexander. Tinha certeza que o marido faria tal proposta desde que se conheceram, não havia um dia que em certo momento não pensasse nisso:
—Está bem, deixarei que me transforme. –Disse ela. Não acreditava que aquelas palavras saiam de sua boca. –Porém, terá que esperar mais um pouco.
—E por quê?
—... Estou grávida.
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