Hurt

23 Gustav Schäfer


Notas iniciais
Sem mais delongas narrado pelo Gust.
Obrigado millll vezes pelos reviews!
Amo vocês!

-Gustav?

Por um momento minha atenção se foi ao perceber a porta da cafeteria se abrindo.

Georg ainda me olhava, provavelmente esperando pela minha resposta, de uma pergunta que eu sequer ouvi.

-Haham...-Foi tudo que consegui dizer voltando minha atenção para ele novamente.

Provavelmente enganaria qualquer um, mas nunca enganaria Georg.

-Não ouviu nada do que eu disse, não é mesmo?-Ele disse com uma sobrancelha meio erguida.

Não havia como negar.

-Desculpa- era tudo que eu poderia dizer.

Ele suspirou antes de continuar.

-Olha, já fazem quase cinco anos. Você ainda se dispersa toda vez que uma porta abre, atende ao telefone as pressas... Ainda espera que seja ela.

Não havia nada a dizer. Ele estava certo. Abaixei os olhos.

-Esta na hora... Você deve procura-la. Acertar as coisas...

Os últimos anos foram complicados para mim e um tanto estranhos. Minha relação com Tom nunca fora a mesma como antes. Georg era meu melhor amigo. Ficou ao meu lado sempre que pode, mas sempre parecia falar as coisas pela metade. Sempre se policiando como se fosse falar demais, como agora, “deve procura-la”. Por vezes me aconselhava a dar “tempo ao tempo “ e agora isso.

Fugi do assunto cormo era de costume, mas ele prosseguiu.

-Eu estava justamente falando de nossas férias. Você vai para Magdeburgo?

Da forma como ele me olhou nem dava para entender se fora uma pergunta ou uma afirmação.

-Ainda não tenho certeza, talvez não vá para lugar algum. — Como tenho feito nos últimos anos, pensei comigo mesmo. Viajar agora era uma coisa que eu fazia pesarosamente. No fundo ficava com medo de sair e ela voltar. Eu estava sempre esperando ela voltar.

Andava sempre com o anel que ela deixara, coloquei dentro da carteira ,como se dobrando a próxima esquina houvesse uma chance de ela aparecer, então eu o devolveria. Eu mesmo o poria no dedo dela novamente.

Já estava novamente perdido em devaneios, pensar nas mil formas de reencontra-la era como eu via meu dia passar, um após o outro.

-Gustav?

Olhei para Georg, agora um pouco envergonhado, vi seus olhos revirando-se enquanto ele exigia a minha atenção.

-Olha...Eu vou para Magdeburgo hoje à noite. Aqui está o endereço de onde provavelmente eu estarei.

Fiquei meio confuso enquanto ele me passava o papel com o endereço escrito. Ficava em nossa cidade natal, mas eu não conhecia.

-Seus pais se mudaram? Não vai visita-los?

-Apenas procure por mim lá, tudo bem?

Talvez passar uns dias com a minha família e com a de Georg não me fizesse mal, ao contrario, minha mãe ficaria agradecida, já fazia muito tempo desde a ultima vez que a vi.

-Tudo bem então. Mas provavelmente iriei depois de amanhã... Nos vemos por lá.

Talvez fosse somente impressão minha, mas ele realmente ficou feliz.

Acordei cedo naquela manhã. Tomei um banho e o café da manhã. Acomodei minha mala no carro ainda pensando se realmente gostaria de ir a Magdeburgo. Sentia de alguma forma que precisava ir.

Por fim bati a porta do carro dando a partida logo em seguida. As poucas horas que ficaria na estrada certamente me fariam bem, seria somente eu e meus pensamentos.

Havia muito tempo que não passava um tempo comigo mesmo. Por mim até preferia que fosse assim ,estar sozinho sempre direcionava meus pensamentos para um lado que eu não gostava. Tantos anos depois estar sozinho ainda significava pensar em Karina ,mesmo que eu não quisesse ou tentasse não pensar...No fim das contas era sempre ela.

Minha cabeça já havia deixado tudo para trás há muito tempo, mas meu coração virava algo minúsculo dentro do peito apenas em lembrar seu rosto.

Logo que ela me deixou sentia que ia morrer. Por vezes pensei em largar tudo e sair à procura dela, fazer com que reconsiderasse. Se não fosse por Georg eu o teria feito. Eu sabia que ela me amava, não poderia estar errado em relação a isso. Só nunca consegui entender de fato porque se foi.

Depois do choque inicial tentei colocar em ordem os pensamentos e principalmente os sentimentos. No primeiro ano o melhor que pude fazer por mim era simplesmente não pensar, afastar tudo que pudesse me lembrar dele. Era como uma crise abstêmia de algo que eu precisava para viver.

Depois tentei sair com outras mulheres, nunca fui dado à luxúria simplesmente, mas precisava daquilo. Não podia sustentar um amor que existia somente dentro de mim e não fazia parte de minha vida. Desisti fácil de encontrar consolo no sexo ou um novo amor... Eu tinha outros rostos diferentes, outros nomes, outros corpos, mas seguia sendo ela... Procurava sempre algum traço dela, um perfume, qualquer coisa que facilitasse me deixar levar... Queria encontrar em outra mulher a ilusão de estar com ela.

No fundo eu podia sentir que havia alguma coisa errada, só não sabia dizer ao certo o que era. O que mais doía era não ter a mínima ideia de onde estaria. Como pode... Encontra-la de um modo tão casual era como ter achado as respostas para tudo em minha vida, e agora ela era minha maior dúvida. Onde estaria, se era feliz, se havia encontrado um outro alguém...Pensar nisso era como ter uma chama ardendo ,me queimando e consumindo .Ainda era ciúme.Balancei a cabeça afastando aquele pensamento...

Liguei o radio do carro. Já havia nele um cd do Metallica para estas ocasiões... Adiante via somente a longa estrada retilínea. Aumentei o volume tudo o que pude e deixei o som fosse tão alto a ponto de dominar o interior do carro e abafar minhas ideias.

A viagem foi relativamente curta. Quando cheguei a Magdeburgo retirei do bolso o papel com o endereço. Hesitei por um momento pensando se ia até ele ou para a casa de meus pais.

Decidi procurar por ele, inexplicavelmente aquilo parecia mais importante. Tinha uma noção de onde ir, conhecia a cidade muito bem, mas realmente não me lembrava de ninguém que poderíamos ter em comum que morasse naquela região.

Depois de rodar alguns minutos estava disposto a ligar para Georg e perguntar-lhe onde estava. Foi quando avistei uma casa, estacionei o carro e conferi o numero. Era ali mesmo. Aquele lugar era praticamente deserto, começava a me confundir quando o vi o carro de Georg estacionado mais adiante. Desliguei o motor e desci. Não chamei por ninguém apenas andei em direção a casa. Subi o curto lance de escadas, não sabia ao certo qual o motivo, mas neste momento meu coração palpitava acelerado no peito.

Parei na porta que estava aberta, o dia era demasiado quente... Avistei Georg brincando descontraidamente no meio da sala. Adentrei e pude sentir uma confusão formando-se dentro de mim, ele brincava com uma criança, um menino que rolava no chão junto a ele. Dei passos vagarosos em direção a ambos fazendo-os notar minha presença.

-Georg...

Ao ouvir aquela voz pude vela vindo de um outro cômodo adiante de nós .Não podia ser real...Era Karina diante de mim ,os olhos espantados tão quais os meus.

Engoli a seco por um momento. Georg havia levantando-se se postando em pé junto ao menino. Olhei em direção dos dois indagando meu melhor amigo.

-Acertas as coisas não é mesmo?...Minha voz saia entrecortada, quase em um sufoco.

Então meu solhos caíram sobre o menino... Tentava de alguma forma reconhecer aquele pequeno rosto. .Os traços em sua face deram-me uma única certeza, ele era de Karina... A mesma boca, o mesmo olhar...Talvez fosse isso que me desse a impressão de ver semelhanças nele ,com alguém que eu conhecia. Novamente olhei para Georg que tinha um sorriso estranho no rosto, alguma coisa parecida com alivio. Precisava saber urgentemente qual era o papel dele naquela casa... Não queria deixar crescer em mim a ideia do que parecia ser...

Então foi inevitável, precisava olhar para ela novamente. Nossos olhares encontraram-se por um instante antes dela fechar os olhos com força, deixando uma lagrima rolar pelo rosto. O esforço que fiz para não andar ate ela e enxugar-lhe o rosto foi sobrehumano. Como podia estar mais linda ainda? Não havia mudado nada verdadeiramente, exceto pelos cabelos que eu adorava que agora pendiam pela cintura. Os mesmos lábios pareciam a meu ver mais carnudos... Ela usava um short branco e uma blusa também clara que a deixavam exuberante, havia um contraste entre a cor da roupa e a da pele que parecia bronzeada.

Georg começou a movimentar-se pelo espaço, sempre na companhia do menino.

-Vamos lá amigo, desenhe alguma coisa para mim... Estes dois tem muito que conversar.

Poderia soqueá-lo naquele momento.

-Vou fazer um desenho lindo pra você mãe.

-Que bom querido... -Certamente aquilo esclarecia alguma coisa, ela era mesmo a mãe.

.A minha cabeça doía confusa. Precisava entender tudo aquilo. Aquela família poderia ter sido minha... Realmente poderia o menino não deveria ter mais do que três ou quatro anos...

-Klaus... -A voz dela pronunciou-se meio trêmula, atingindo-me como um chicote ao ouvi-la... -Não está esquecendo nada?

Por um momento parecia que ter ouvido aquelas palavras não passava de um fruto de minha imaginação. Klaus...Como eu.

Eu acompanhava o menino com os olhos, contrariado ele pegou os pequeninos óculos de grau de uma mesa ajeitando-os no rosto partindo com Georg pelas escadas com um muxoxo.

-Você sabe que precisa deles, tente não esquecer por ai... -A voz de Georg tornando-se cada vez mais fraca.

Tudo ficou tão claro como água. Levei meu punho fechado para a boca mordendo levemente, como se a pressão pequena mordida exercia, pudesse me acordar se fosse necessário. Era a mim mesmo que via no rosto do pequeno... Klaus era meu filho, podia sentir em meu peito com tamanha força que não me deixava sequer uma dúvida.

Meu olhar a ela deve ter passado alguma informação. Ela sabia... Conhecia-me como ninguém... Podia ver aonde me levaram minhas conclusões.

-O quarto dele fica no fim do corredor... -Murmurou baixando o olhar, desviando-o do meu.

Postei-me a subir as escadas enquanto ela ficava atrás de mim. Dava passos lentos em direção ao quarto do fim do corredor como Karina havia me orientado.

Quando cheguei à porta a empurrei de leve fazendo com que se abrisse.

Georg estava sentado, na cama que só poderia ser de Klaus. Ele voltou o rosto na minha direção ao ver-me entrando.

-Não se mexa muito tio Georg, ou então não conseguirei desenha-lo... -Ouvir a voz dele era como se ouvisse a minha canção favorita. Olhei em volta, estudando o quarto amplo da criança. Para minha surpresa havia alojada no canto uma bateria. Provavelmente ela parecia gigantesca diante do menino... Como era para mim quando tinha a idade dele.

Queria ouvi-lo novamente.

-Você gosta da bateria?...Perguntei indicando rapidamente o instrumento. Qualquer coisa para ouvi-lo falando.

-Tio Georg deu-me uma no natal... Eu gosto, mas acho que não sou muito bom... -A vozinha suave saindo em um murmúrio, nem por um momento ele tirava os olhos do desenho que fazia... Uma criatura descabelada que ele dizia ser Georg.

Pude sentir meus olhos marejarem ao ouvi-lo. Tinha um filho e minha cabeça dava mil voltas pensando no que falar para conquista-lo.

Respirei fundo, deixando o ar inflar meus pulmões, acalmando a cortina de água querendo transbordar em meus olhos.

-Eu posso ensina-lo se quiser... -Disse dando de ombros tentando parecer relaxado diante dele.

Neste momento Klaus desviou os olhos rapidamente do desenho.

-Jura?...-Indagou ele desconfiado.

-Claro, quando você quiser... -Estava feliz por tê-lo falando diretamente a mim.

Não podia sequer imaginar o que ele faria. Ele inclinou-se em minha direção abraçando-me com força.

-Obrigado papai... -Logo em seguida saiu correndo... -Mamãe! Papai prometeu-me ensinar a tocar bateria... -A vozinha doce ficando cada vez mais distante sinalizando que havia descido as escadas. Meu coração era uma maquina a mil no peito...

Olhei para Georg que não pronunciou uma sequer palavra até aquele momento, em mim havia um misto de confusão e puro encantamento. ”Papai” ainda ecoava em minha cabeça...Aquilo significava que não seria uma questão de conquista-lo e sim recuperar o tempo perdido.

-Ele sabe quem você é... -Pegou um porta- retratos atrás de si, passando-o para mim... O mesmo porta retratos que antes ficava em minha casa onde eu e Karina sorriamos contentes...-Karina sempre ensinou a ele quem era o pai. Ele tem quatro anos... Você entende o que significa?

Pigarreei tentando formular a frase.

-Ela já estava grávida quando... -Interrompi a mim mesmo brigando com as palavras... -Quando ela me deixou. Como pôde esconder isso de mim?...-Meus sentimentos em relação a Georg oscilavam naquele momento. Era obvio que Klaus tinha apego por ele, isso queria dizer que ele lhe era familiar... -você sempre soube?

-Foi a forma que eu encontrei de garantir que este encontro um dia acontecesse... -pela primeira vez em anos Georg falava claramente.

Agora era fácil entender o porquê de tantas idas a Magdeburgo ,tantos telefonemas interrompidos com a minha presença...Era fácil entender por que tantas frases ditas pela metade.

-Tia Mandy chegou... -Novamente Klaus entrava no quarto dando pulinhos e visivelmente feliz.

Quem era Mandy?

-Eu vou leva-lo para passear... Não vou pedir que me desculpe ,se tivesse sido diferente você provavelmente nunca o conheceria .Menti por vocês três, não menti para você.

O menino era verdadeiramente esperto para a idade, logo franziu a testa e nos indagou.

-vocês estão brigando?... -Parecia seriamente insatisfeito e ficaria mais se a resposta fosse um sim.

Georg tomou-o em seu colo.

-De jeito nenhum... Só estou tentando convencer seu pai de que você deveria tocar baixo.

O menino soltou uma gargalhada gostosa e estendeu seus bracinhos para mim.

-Eu quero bateria tio Georg... -Falou ainda rindo perfeitamente acomodado em meu colo, como se não fosse a primeira vez a estar ali.

Georg atirou os braços no ar fingindo-se derrotado

-Bateria então... Dei um baixo a ele também... Está no baú de brinquedos agora.

Fui obrigado a sorrir enquanto ele saia pela porta acompanhado de mim com meu filho nos braços.

Notas finais
Sem tortura com certeza é a minha frase!