Hurt
12 Acontecimento
Notas iniciais
Amooo vocês.
Acordei com o barulho do despertador. Ele parecia ter o som mais infernal do que de costume naquela manhã.
Parecia que meus olhos estavam carregados de areia. Dormi extremamente tarde na noite anterior. Gustav e eu conversamos durante horas ao telefone.
Nessas horas me arrependia de não ter ficado na casa dele, que era mais perto do meu trabalho o que me daria alguns minutos a mais de sono, como ele sugeriu. Ao invés disso voltei para meu apartamento.
No ultimo mês nossas conversas eram curtas e cheias de saudade. Horas os telefonemas eram interrompidos por algum compromisso da banda, em outras o fuso horário não ajudava muito, quase sempre o telefone acordava um dos dois, oque aconteceu na noite passada.
Eu já estava dormindo quando ele ligou, mas como Gustav estava com tempo de sobra quis aproveitar cada minuto de conversa.
Levantei da minha cama com passos pesados. Fui para o banheiro e quase não me reconheci quando olhei no espelho. As olheiras estavam realmente fundas contrastando com a minha pele visivelmente pálida.
Pensei em colocar a cafeteira para funcionar, mas a simples ideia de sentir o aroma do café preenchendo o apartamento fez meu estômago se revoltar.
Definitivamente não era eu mesma nos últimos dias, ficar sem Gustav estava me afetando de uma forma anormal.
Tomei um banho e fui para o trabalho sem comer nada.
Cheguei no trabalho e fui direto para o banheiro jogar água no rosto. O percurso de cinco andares que o elevador fez me deixou sem ar.
Estava debruçada sob a pia quando a porta do banheiro se abriu. Enquanto enxugava o rosto pude ver que era Anna.
Fiz amizades rapidamente em meu novo emprego, especialmente com Anna, uma simpática jovem estagiaria que mais parecia uma boneca do que pessoa. Pequenina e delicada, com os cabelos curtos.
-Você está péssima!
-Bom dia Anna.
Quando ela se aproximou mais foi quase inevitável. O perfume muito doce que vinha dela atingiu minhas narinas como um golpe de boxe.
Corri para um dos sanitários e vomitei compulsivamente. Não me lembro de alguma vez na vida tem me sentido tão mal, tampouco lembrava o que podia ter comido que causasse tamanho mal-estar.
-Karina, você está bem?
-Ainda não tenho certeza, me sinto enjoada desde a hora que levantei.
-Posso fazer alguma coisa.
Minha vontade era de dizer que ela pusesse fogo na roupa que vestia e consumisse com o cheiro daquele perfume. O perfume... Vomitei mais ainda ao lembrar o tal aroma.
-Não tá tudo bem, já vai passar.
Levantei-me e fui novamente para a pia.
Como quem não quer nada a pequenina teceu um comentário que me pegou desprevenida.
-Minha mãe sempre passava mal pela manhã quando estava grávida do meu irmão mais novo.
Sorri vendo onde a pestinha estava tentando chegar.
-Seria impossível! Eu tomo anticoncepcionais e...-Percebi que era muita informação para a menina que me fitava com os olhos curiosos...-Não tem como!-Disse por fim.
Voltamos juntas para o escritório. Falar nos anticoncepcionais me fez lembrar que havia uma chance de eu ter esquecido um...Quem sabe dois...Não houve nãoda mais importante para mim nos ultimos meses do que estar com Gustav,então manter o foco em qualquer outra coisa ,como o horário do medicamento,era uma coisa muito difícil de se fazer.Meu pensamento era dele vinte e quatro horas por dia.Se respirar não fosse essencial,provavelmente teria me esquecido disso também.
Menina perversa! Tinha que falar uma coisa daquelas. Quase não consegui me concentrar a manhã inteira,as palavras de Anna cavocando em minha mente e se alojando ali,não deixando espaço para que eu pensasse em mais nada.
Á tarde não pude suportar mais. Peguei o telefone e liguei para uma clínica marcando um horário com a minha ginecologista. A consulta ficou agendada para a manhã seguinte.
Parecia que aquele dia não ia passar nunca. Quando finalmente cheguei em casa, no fim da tarde ,minha cabeça parecia pesar o triplo.
Acomodei-me no sofá fechando os olhos, precisava pensar.
-Isso não está acontecendo-Falei comigo mesma.
Mais do que nuca queria que Gustav estivesse ali comigo. Provavelmente falaria algo extremamente doce que me tranquilizaria. Me abraçaria e faria eu me sentir melhor, como sempre.
Um bebe... Um filho. Estava totalmente fora de cogitação. Amanhã durante a consulta tudo ficaria esclarecido. No fim acharia graça de mim mesma, em como uma menina de dezessete anos podia encaraminholar minha cabeça com tamanha facilidade.
Pobre Anna.Com certeza não falaria nada que pudesse me afetar de propósito.Provavelmente se soubesse quem era o suposto pai, teria um ataque.
O telefone tocando tirou-me de meus devaneios. Atendi sem ânimo algum.
-Alô...
-Amor? Sou eu...O que foi ?Que voz é essa?
Gustav! Este homem deve ter um sensor que avisa quando eu preciso dele. Como era bom ouvir sua voz.
-Não é nada, ou melhor, é o cansaço....- Menti descaradamente! Não iria preocupa-lo ainda.
-Queria poder estar ai com você, sinto tanto a sua falta...-Pude ouvir o suspiro do outro lado da linha antes que ele continuasse-Está com ele?
Olhei para minha mão fitando o anel. Sempre que Gustav ligava, perguntava se eu estava com o anel.Como se eu precisasse dele para estar totalmente comprometida.
-Você sabe que sim...Como poderia tirá-lo.
-As pessoas precisam saber que você é uma mulher oficialmente comprometida, que está noiva.
Revirei os olhos ao ouvi-lo. Quando ele se referia a pessoas, queria dizer especialmente os homens. Centenas de fãs gritando pela banda e ele era que sentia ciúmes.
Pude ouvir seu nome sendo chamado no fundo da ligação.
Karina...
-Eu sei, precisa ir.-Interrompi enquanto ele falava-Eu te amo muito.
-Eu também te amo, tchau.
-Tchau amor.
Coloquei o telefone novamente no gancho. Esta definitivamente foi uma das conversas mais breves que tivemos. Sequer perguntei onde estava, ou por Georg...
Meu estômago roncava. Não havia comido nada ainda. Decidi preparar qualquer coisa e ir dormir. Amanhã seria um dia estressante assim como a noite que viria pela frente.
Chuva na Alemanha era quase tão natural quanto oxigênio. Acordei com os barulhos dos pingos fortes batendo na vidraça. Olhei para o relógio e vi que não eram nem quatro horas da madrugada. Provavelmente não conseguiria dormir mais.
Por um instante deixei a ideia de ter um filho tomar espaço em minha mente.Um pedaço do homem da minha vida crescendo dentro de mim. Com a ponta dos dedos toquei meu ventre sem volume algum.
Afugentei o pensamento. Não que eu não quisesse, apenas e definitivamente, não era o momento certo.
Quando por fim adormeci sonhos confusos povoaram minha mente até que finalmente o despertador me acordou .
Cheguei ao consultório com meia hora de antecedência com os nervos em frangalhos. Quando finalmente chamaram o meu nome já não tinha certeza se entrava para a consulta ou corria até não poder mais. Juntei toda coragem que pude e entrei no consultório.
-Karina! Como vai?
-Olá doutora.
A jovem médica já havia me visto outras vezes ,logo ficou fácil perceber pelo meu estado de espírito que aquela era uma consulta diferente.
Sorrindo, talvez na tentativa de me encorajar ela continuou.
-Posso fazer alguma coisa por você hoje? Algum problema?
Minha cabeça dava mil voltas. Um nó na garganta parecia cortar o oxigênio, impedindo que ele chegasse aos pulmões. Engoli a seco e tentei ser o mais objetiva.
-Bom é que...Eu suspeito que possa estar grávida.
Grávida. Falar a palavra em voz alta tornou a possibilidade ainda mais real.
Para a médica ouvir isto centenas de vezes ao dia deveria fazer parte da rotina, tanto que seu semblante, antes preocupado foi aos poucos relaxando.
-Entendo... Bom ,a boa notícia é que saberemos se é só uma suspeita ou não.
Ela me orientou a vestir o avental e conduziu-me para o exame inicial. Enquanto o exame era feito mais uma vez supliquei baixinho por Gustav. Neste momento seria bom poder segurar em sua mão.
Novamente vestida com minhas roupas, observava aflita a médica escrevendo qualquer coisa em meu prontuário enquanto falava.
-Bom ,o seu útero parece um pouco dilatado o que é uma característica da gravidez. O que realmente pode comprovar é um exame de sangue. Você pode fazê-lo agora mesmo e saber o resultado em meia hora.
Podia ver em seu rosto que ela tentava ser o mais cautelosa possível. Entrei em outra saleta e sem reação nenhuma ou sequer pronunciar uma palavra coletei meu sangue e me dirigi para a sala de espera da clínica.
Precisava desesperadamente falar com alguém. Embora em meu pensamento estivesse o tempo todo no rosto de Gustav ,peguei meu telefone e procurei por outro número.
Alguns toques e ele atendeu.
-Alô.
Senti um bom alívio ao ouvi-lo.
-Georg...Sou eu.
-karina!Tudo bem?
-Disso eu não tenho certeza...Ele está com você?
-Não, não...Algum problema ?Você está bem?
-Georg...-Respirei fundo cerrando os olhos com força .Alguma coisa no rosto da médica me dizia que não haveriam surpresas no exame de sangue ,eu estava realmente grávida...-Eu estou grávida ,falei por fim.
Um breve silêncio do outro lado da linha. Georg me conhecia o suficiente para saber que não era exatamente uma notícia que eu estava comemorando.
-Você já contou para o Gustav?
-Na verdade eu preciso saber onde vocês estão...Eu preciso vê-lo. Não posso contar ao Gustav que ele vai ser pai pelo telefone.
-Bom, neste caso espero que você goste de Nova Iorque.
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