Hurt
14 A mentira
Notas iniciais
As noites mal dormidas tiveram um peso esmagador sobre mim. Podia jurar que estava acordando exatamente na mesma posição em que adormeci na noite anterior. Finalmente conheci o verdadeiro significado da expressão “dormir feito uma pedra”.
Espreguicei-me deliciosamente na cama ampla virando-me para ver seu rosto.
Corri os olhos tentando localizar Gustav em outra parte daquele quarto. Depois de ter certeza de que estava só, a única coisa que poderia explicar o seu sumiço era o pequeno cartão depositado sobre o lençol branco, ”volto logo” era a única coisa que estava escrito com sua letra.
Aonde poderia ter ido?Na noite anterior não houve tempo para que eu falasse do motivo de eu estar ali.
Sentia o corpo um pouco dormente, mas, finalmente, nada de enjoo naquela manhã. A tensão dos músculos diminuiria depois de um banho. Revirei minha mala ainda intacta, sequer sabia como ela havia parado ali, procurando o que precisava para um banho e uma muda de roupa confortável.
Mesmo depois dos longos minutos que passei no chuveiro, Gustav ainda não tinha voltado ao quarto. Sentei-me na beirada da cama, não havia muita a ser feita senão esperar. Instintivamente pousei a mão delicadamente sobre minha barriga enquanto olhava distraída pela janela que acabara de abrir.
A noite anterior vinha em memórias muito vivas em minha mente. Minha felicidade ao vê-lo novamente era ainda maior do que eu esperava. Quase me sentia sufocar com a lembrança de tê-lo novamente em meus braços.
Podia sentir minhas bochechas ruborizadas vendo o rumo que meus pensamentos me levaram. O som de batidas na porta me fez atravessar o quarto sorridente.
Abri a porta e Georg me fitava um tanto confuso.
-Espero não ter interrompido nada...-Ele disse malicioso, atento a minha expressão .-Então onde está o “papai”? Quero cumprimenta-lo...
-E eu quero dar a noticia a ele. Ontem mal pude falar alguma coisa...-parei de falar vendo que meu excesso de informações estava divertindo Georg. Pigarreei antes de continuar. -Quando acordei ele havia saído. Pensei que pudesse estar com você.
-Não...Dormi até agora a pouco.
Georg franziu de leve o cenho enquanto tirava o telefone celular do bolso. O numero parecia estar muito acessível, logo já estava com o aparelho no ouvido.
-Gustav? Onde você está cara?-Ele apenas ouviu por alguns instantes... -Estou indo ai então..-Falou por fim.
Está no quarto dos Kaulitz...É neste andar mesmo, quer ir comigo.
Dei de ombros e o segui pelo corredor. Poderia ter um encontro amigável com Bill e Tom, antes de ter uma conversa longa com Gustav. Quem sabe poderia amenizar o desentendimento passado.
O andar era enorme. Andamos alguns metros antes de pararmos diante de uma porta entreaberta.
Paramos meio pasmos escutando por alguns minutos, como crianças curiosas, as palavras ditas aos berros que vinham do interior do cômodo.
-Casar?!!Você só pode ter enlouquecido de vez mesmo!-A voz severa e ás pera de Tom Kaulitz era inconfundível.
-É um comunicado Tom ,não estou pedindo sua permissão...-Gustav parecia igualmente alterado.
Georg vez menção de tentar entrar no quarto, mas eu o impedi segurando-o pelo braço com força exagerada e lançando -lhe um olhar mortífero .
Podia setir sobre o que se tratava tudo aquilo, meu anel pesando em meu dedo .Saberia qual era o problema de fato ,nem que fosse detrás da porta .
Georg nem tentou mais se mover, apenas acenava para irmos enquanto eu sustentava o olhar que lhe dizia que eu não arredaria um passo sequer.
A discussão ainda era grande no quarto. A voz de Bill saia quase inaudível.
-Isso não muda nada não é Gustav ,quer dizer não afeta a banda em nada não é mesmo?....
Tom parecia ainda mais exaltado.
-É claro que nos afeta! Você acha que é só casar e pronto...Ela vai querer a atenção dele, logo será ela ou a banda!
Georg ,contra minha vontade, tocou levemente a porta fazendo que ela se abrisse quase que totalmente. Os três estavam em pé ,formando um semi- circulo no meio do quarto, estando Bill virado de costas para a porta. De longe ele o menos alterado, parecia estar ali mais para intermediar do que discutir.
Nenhum olhar em nossa direção. Estavam todos tão compenetrados na gritaria que sequer deram-se por conta de nossa presença. Ficamos somente ali parados, observando até que ponto aquilo tudo iria.
Gustav tinha o rosto cansado, a discussão deveria estar acontecendo a tempos. Por fim se dirigia a Tom com menos aspereza, suspirando, como se fosse repetir a mesma informação pela milésima vez.
-Não é uma questão de escolha Tom.
O outro pareceu se enfurecer ainda mais...
-Então porque você não é mais o mesmo? Não se concentra mais como antes?
Gustav não proferiu sequer uma palavra, apenas escutava como se não pudesse negar o que Tom acabara de dizer. O gêmeo aproveitou-se do silêncio para prosseguir com suas acusações, aproximando-se de Gustav.
-Porque você não faz o que qualquer outro faria em seu lugar...Divirta-se com ela e vá embora.
Vi no rosto de Gustav uma fúria formando-se, quase que alterando sua fisionomia. Saí do estado inerte em que me encontrava quando ví seu punho erguendo-se ameaçando Tom.
-Parem... -Gritei pondo um fim em tudo aquilo.
Atônito Gustav abaixou lentamente o punho, finalmente dando-se por conta da minha presença e de Georg.
I hurt myself today
To see if I still feeLL
I focus on the pain
The only thing that's real
The needle tears a hole
The old familiar sting
Try to kill it all away
But I remember everything
-Karina... -Sua voz saiu entrecortada ao pronunciar meu nome.
Georg me olhava e tentava balbuciar qualquer coisa. Sob o olhar daqueles quatro pares de olhos virei de costas andando rapidamente, quase uma corrida, de volta ao quarto.
-Karina!...-Podia ouvir Gustav a poucos passos atrás de mim.
-Deixa ela ir Gustav, deixe que ela veja o mal que nos causa...-Tom não se dava por vencido e ainda gritava atrás de mim.
Cheguei o mais rápido que pude no quarto e logo comecei a juntar aquilo que havia pegado, devolvendo a pequena mala. Ouvi Gustav batendo a porta adentrando o quarto.
Meu coração era a fonte de calor excessivo que incendiava meu corpo inteiro. As lágrimas densas não eram mais controladas por mim e vagavam livremente por meu rosto. Um tremor incontrolável passava por mim fazendo que eu tivesse dificuldades em guardar o que faltava, fazendo que eu tivesse dificuldade inclusive de raciocinar.
-Pelo amor de Deus oque está fazendo?-Gustav levou a mão nervosamente aos cabelos ao me ver cuidando da mala .-Você acabou de chegar, olha pra mim...
Ele me afastava pelos ombros de perto da mala enquanto falava.
-Aquilo não quer dizer nada...Se fosse uma escolha ,oque não é, seria você ...Seria mil vezes você.
Aquelas palavras passaram longe de me acalmar, muito pelo contrario, nunca poderia vê-lo abrir mão de nada por mim. Pensei como o fato de eu estar grávida pesaria no que ele estava falando.
Não, não contaria a ele. As palavras de Tom ecoando em minha cabeça “deixa que ela veja o mal que nos causa”.
Precisava falar alguma coisa, qualquer coisa que o impedisse de pensar daquela forma.
Cerrei os olhos com a maior força que pude impedindo novas lágrimas de se formarem.
-Tom tem razão...-comecei com a maior frieza que podia- não tem como isso dar certo.
Como se tivesse entrado em choque ele começou a soltar suas mãos de meus ombros. Balançando a cabeça negativamente, os olhos miúdos estudando minhas reações.
-Está mentindo... -A voz tornando-se mais grave, dando certeza a aquela afirmação.
Precisava mentir da melhor forma possível.
-Foi por isso que vim... Não posso aceitar me casar com você, não é isso que eu quero pra mim...Eu vim pra terminar Gustav.
Tentei sustentar a firmeza da voz ,precisava disso. Por mim e por ele.
Parecia que não seria fácil convence-lo. A cabeça balançando negativamente, os olhos fechados como se tentasse organizar alguma coisa dentro dele.
-Não...Ontem...
-Ontem foi um engano, uma coisa que sequer deveria ter acontecido!
Seus olhos agora eram chocados nos meus, então ele não pode falar mais nada. Peguei a mala e comecei a dar passos certeiros em direção da porta .Passando por ele sentindo seu calor mais uma vez, olhei em seus olhos vermelhos.
-Adeus Gustav.
What have I become?
My sweetest friend
Everyone I know
Goes away in the end
A medida que a porta se aproximava eu alargava os passos, queria sair dali o mais rápido possível .Alguns metros para fora do quarto e Georg vinha ao meu encontro.
Ele olhou para a mala em minha mão depois para mim. Nos olhos uma aflição solidária a mim.
Na frente dele não havia o que esconder, podia sofrer a vontade.
-Acabou Georg...-Os soluços atrapalhando minha fala.
-Mas como e o bebe...
Pus minha mão o mais rápido que pude em sua boca, calando-o. Ele parecia apavorado então.
-Karina você contou a ele não contou?
Balancei a cabeça negativamente.
Georg levou o punho aos lábios olhando na direção de onde eu vim. Era como se eu pudesse ler os seus pensamentos.
-Você também não vai contar. -Apertei o botão chamando o elevador-Você prometeu que ficaria do meu lado.
Pude ver o arrependimento por ter proferido aquelas palavras se formando em seu rosto. Ele somente assentiu com a cabeça.
-Vou ligar pra você assim que chegar a Alemanha, eu vou precisar muito de você Georg...
O elevador se abriu e eu entrei me despedindo de meu amigo. Meu melhor amigo.
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