Howling

2 ✶ Logan ✶ Parceira ✶


Assim que pisei no portão da escola, senti algo estranho.

Thunder estava inquieto.

O que foi?, perguntei. Sem responder, ele simplesmente se fechou.

Não era de hoje que Thunder estava agitado, o verão inteiro ele permaneceu silencioso e um pouco irritado. Nem com Tàlia, a loba de Pietra ele interagiu o mês inteiro.

Falando nela. A loba mais linda de toda a alcatéia se aproximou suavemente.

— Que foi, meu amor? — perguntou baixinho.

Pietra era incrível. Sua pele bronzeada era macia e firme, seu cabelo cor de ébano tinha um contraste sensacional com seus olhos azuis profundos e astutos. Ela era mais que aparência. Havia nascido para ser Luna e disso ninguém discordava desde que éramos apenas filhotes.

— Nada, minha Luna. — sussurrei de volta, dando um beijo delicado em sua bochecha.— É só esse lugar... está cheirando diferente.

Pietra bufou, embora adorasse quando eu a chamava assim.

— Devem ser os novatos. A escola cheira a lixo e gente baixa desde sempre. Não entendo porque devemos aprender sobre a vida dos humanos, não vamos usar pra nada. Apenas os beiristas deveriam ter que participar disso aqui, já que eles nunca vão servir de muita coisa na alcatéia.

Pude sentir Thunder se remexer ainda nervoso. Ansioso. Que diabos estava acontecendo?

— Todos nós temos um papel importante a seguir na alcatéia. Sendo da elite ou beirista. E nós, temos que estar preparados... sempre. Para qualquer coisa. — respondi com um sorriso.

— Você vai ser um ótimo Alfa. — disse ela, orgulhosa de mim. — Vamos, quanto menos tempo perdermos nesse lugar nojento, melhor.

Os corredores estavam salpicados de alunos e, realmente, haviam rostos e cheiros novos. Alguns dos membros da alcatéia que me conheciam, faziam uma reverência sutil e continuavam seu trajeto para as salas e outros voltavam a conversar com seus amigos.

A escola realmente estava normal, a única diferença era o cheiro. Um pouco mais forte que o da maioria. O cheiro era doce e fresco como o pomar lá de casa, porém mais suave e um tanto inebriante.

Era um cheiro que eu sabia que conhecia. Era de alguém da alcatéia, alguém que eu já havia visto e até tido contato. E quanto mais forte ficava mais eu tinha certeza que conhecia.

— Gente! — Tyler interrompeu meus pensamentos, se metendo entre mim e Pietra, e jogando seus braços pesados sobre meus ombros e o de minha namorada. — Fiquei sabendo que Bernie chega hoje. Vamos fazer uma festa?

Bernard, meu irmão mais velho, estava fora do território por anos desde que sua parceira morreu. Ele havia sentido a morte dela antes mesmo de a conhecer. Foi insuportável para todos nós. Ele ficou quase dois dias sem comer e seu lobo, Kai, havia se fechado completamente. Houve até uma tentativa de suicídio. Ficamos todos relutantes em deixá-lo ir fazer um "intercâmbio" ao sul do país, mas a escolha era dele. Continuamos apreensivos mesmo tendo notícias de que ele ia bem e não havia tentado fazer nenhuma besteira consigo mesmo. Após alguns anos, relaxamos mais e confiamos nele. Agora ele trazia duas alianças de sucesso com duas das alcatéias mais fortes do Sul.

— Eu acho uma ótima ideia. — Pietra se apressou. Nós dois decidimos gente namorar somente após a perda de Bernie. Eu não podia suportar pensar em perder minha parceira. Eu fui sortudo o suficiente para encontrá-la ainda filhote e ela ainda era parte da elite da alcatéia.

Continuamos nosso caminho até a sala de aula, Pietra e Tyler fazendo altos planos para comemorarmos a volta de Bernie.

O primeiro dia, depois das férias de verão, nunca tinha nada de muito novo. Os alunos estavam sempre agitados, dificilmente prestando atenção no que o professor dizia.

Era bem raro eu ter dificuldade em me concentrar em algo e eu me orgulhava disso. Porém, hoje, pela primeira vez, eu estava estranhamente distraído. O que me incomodou levemente.

Fechei os olhos e tentei me concentrar melhor.

Para minha surpresa, o que eu ouvi não foi a discursiva do professor sobre Sulfato de Desidroepiandrosterona. Eu ouvi uma voz diferente que estava em uma outra sala de aula e bem distante de mim.

Thunder se remexeu, estranhamente alerta.

— Você é esquisita, Charlie! — dizia a voz mais angelical que eu já havia escutado. — A Deusa sabe o que faz e ela sempre quer o melhor pra gente.

— Ah, por favor! – rebateu outra voz, provavelmente de Charlie, carregada de nojo. – Parceiros são tão superestimados, quero dizer, você encontra um parceiro e o quê? A vida continua um lixo. Continuamos presos nessa alcatéia gigante onde temos termos para separar seus integrantes socialmente e, olha que engraçado, a Deusa apenas conecta elites com elites e beiristas com beiristas. Se eu encontrar um parceiro, é certo que irei rejeitá-lo.

Eram fêmeas da minha alcatéia. Eu sabia porque éramos a única alcatéia nessa parte do país e éramos realmente grande. Nosso poder militar e político era invejável.

Enquanto ronronava para a voz angelical, Thunder rapidamente tomou desgosto pela segunda voz.

— Não é tão fácil lutar contra um Laço criado pela própria Deusa. – continuou docemente, a bela voz. – Rejeitar um parceiro é a mesma coisa que rejeitar metade de si mesmo. Os gráficos de mortalidade são altíssimos, sabia? Tanto para os que rejeitaram e os que foram rejeitados. É basicamente a mesma coisa de quando o parceiro morre. Os que não adoecem e definham até a morte simplesmente cometem suicídio. – uma pequena pausa. – Espero nunca ter que passar por isso. Espero que meu parceiro seja gentil e amável. Assim poderemos enfrentar, juntos, toda e qualquer dificuldade da vida.

Ela estava certa. Para um Lycan, um parceiro era tudo.

— Tudo isso é muito superestimado. – Charlie defendia sua opinião vigorosamente. E quanto mais falava, menos eu e Thunder gostávamos dela. – Há uma grande chance de nunca encontrarmos nossos parceiros, você sabe, né? Eles podem ter morrido em algum lugar, talvez em alguma guerra ou sequer terem nascido ainda. Ou, sei lá, nascerem em outro continente. – era como se ela não quisesse apenas vencer a discussão mas quisesse convencer sua amiga.

Eu e Thunder nunca fomos de virar a cara para alguém antes de conhecermos. Eu era um Alfa, não podia simplesmente decidir que não gostava de alguém da minha própria alcatéia. Era meu dever protegê-los e cuidar do seu bem-estar. Entretanto, ali estava eu, com mais uma primeira vez na vida, querendo fincar meus dentes no pescoço daquela fêmea que usava um tom tão possessivo. Quem ela pensava que era?

Uma mão apertou meu braço e eu rosnei em resposta.

Pietra me olhou confusa.

— O que foi? – questionou ela. – Você está distraído. O que houve, Logan?

Thunder reagiu com repulsa, afastando meu braço do toque dela.

Pisquei, um tanto aturdido. Ele nunca reagira assim com a Pietra. Muito pelo contrário, mesmo sendo um filhote mal humorado e difícil de lidar, ela era a única que Thunder jamais demonstrou hostilidade. Ela era nossa parceira. E, mesmo com tudo isso a considerar, havia se tornado raro Thunder tomar posse do meu corpo sem meu consentimento. Graças a Bernie, nós dois nos dávamos super bem e fazia bastante tempo que não precisávamos lutar pelo controle.

— Não sei. – respondi com sinceridade. – Thunder está nervoso.

Pietra riu, acariciando meu rosto e me dando um selinho suave. Eu quis recuar, mas me segurei.

— E quando que ele não é nervoso? Vamos todos adorar nos encontrarmos com Kai. Realmente precisamos do bom humor daquele lobo. – Pietra soou mais esperançosa do que convicta. Mesmo sendo um Alfa, ele era o lobo mais gentil, brincalhão, e mesmo tão novo, com o maior autocontrole que já se havia ouvido falar na alcatéia. Ele ajudara muito com Thunder. Porém, após a perda de sua parceira, Kai havia mudado drasticamente. – Vamos comer alguma coisa, você provavelmente não ouviu o sinal tocar, né?

Pietra me puxou suavemente. Seu toque me perturbar era uma surpresa.

Tentei ignorar a sensação ruim e fomos para o refeitório.
Sentamos na nossa mesa de sempre e Tyler nos alcançou rapidamente. Logo a maioria dos lycans de elite que frequentavam a escola já haviam se posicionado na nossa mesa.

Os mais novos ainda tinham um pouco de receio de se aproximar devido a minha estatura grande. O que não me incomodava porque eu sabia que assim que me conhecessem gostariam de mim e do meu lobo.

Julia, uma das filhas de um dos conselheiros da alcatéia desatou a conversar com Pietra sobre maquiagem e coisas de fêmeas.

Tyler, Bummer e os outros se concentraram na fogueira que queriam fazer para Bernie ao pé da montanha atrás da Casa Principal.

Thunder se agitou subitamente.

Ela estava aqui.

Aonde?

Farejei o ar, procurando a dona daquele cheiro maravilhoso.

Meus olhos pousaram em uma das mesas mais afastadas, onde ficavam a maioria dos humanos e lycans beiristas. Os beiristas se sentiam mais confortáveis longe de mim e dos de posição mais alta na alcatéia, sendo mais jovens ou não. O que não me agradava muito, mas eu já havia aceitado que qualquer tentativa de conversa sempre resultava em olhos baixos e murmúrios desconfortáveis tipo "Sim, Alfa", e olha que eu nem era Alfa ainda.

Thunder quase assumiu o controle quando a encontramos. Resisti penosamente, arrancando um ganido doloroso dele. Mas que diabo?

Era uma visão de outro mundo. Como era linda a garota. Combinava perfeitamente com seu cheiro.

Ela era surpreendentemente pequena e de pele clara. Lycans não eram tão brancos e nem tão pequenos assim. Os olhos dela eram de um azul hipnotizante e seu cabelo, de um amarelo desbotado, lembrava tímidos raios de sol de uma tarde nublada. Tão delicada e tão cheirosa.

Desviei os olhos antes que ela ou qualquer outro lobo no recinto me notassem, mas mantendo-a em minha visão periférica.

A garota parecia inquieta e falava sem parar, volta e meia seus olhos vinham em minha direção e então ela balançava a cabeça tentando afastar o que quer que estivesse pensando.

Mesmo com tanta gente rindo e brincando pelo refeitório, consegui apurar os ouvidos para escutar apenas a sua voz doce.

— Duvido você pensar assim quando der de cara com o seu parceiro. – pelo visto elas ainda estavam no mesmo tópico.

— Eu não tenho um parceiro. – retrucou a outra, Charlie, rapidamente. Essa outra fêmea já era mais comum. Era alta, esguia e morena. Fora seu cabelo que tinha um corte diferente, com cachos castanhos extremamente curtos e o macacão que escondiam suas curvas femininas. Se não estivesse atento, eu poderia facilmente confundi-la por um humano macho comum.

— Você não sabe disso. Se soubesse teria passado o mesmo que o filho mais velho do Alfa Lincoln. – continuou a bela, insistente. – Você tinha que ter ouvido os uivos dele, coitado. A cidade inteira ficou desesperada com a possibilidade de um ataque de lobos. Eu mesma nunca tinha ouvido algo parecido.

— Olha aí as vantagens de se ter um parceiro. – sussurrou Charlie com escárnio. – A alcatéia inteira aclamava o Alfa maravilhoso que ele seria. Agora, sem uma Luna, ele não pode sequer lutar pela posição. Um parceiro te faz fraco e não forte. Como eu disse antes, essa história toda é muito superestimada.

Embora ela tivesse abaixado a voz a menção "alfa" era o gatilho para que todos os lobos prestassem atenção nas duas.

— Talvez ele ainda seja o Alfa, oras. – rebateu a outra, oblívia aos lycans atentos. – Mesmo Logan King já tendo uma parceira desde cedo, também não significa que a Deusa os escolheu como Alfa e Luna. Não se aprende a governar. Requer talento. Um lobo já nasce com uma posição escolhida pela Deusa...

Um rosnado suave subiu da garganta de Pietra e a loira se interrompeu subitamente.

Antes que eu percebesse, já estava encarando as duas. Thunder queria pular em cima de Charlie. Uma mistura de ódio e desconforto se aflorava no meu peito. Quem aquela tomboy pensava que era para atrair tanta atenção indesejada? Os lycans do refeitório todos exalavam raiva e medo. Elas estavam falando de seus Alfas. Estavam falando da nossa cultura e não de uma forma positiva. A tensão no refeitório era palpável.

Ambas me encararam um tanto abaladas e surpresas.

Os olhos da loira ao se prender nos meus, mudaram rapidamente de medo para descrença enquanto ela farejava sutilmente.

Thunder uivou, desesperado, finalmente me deixando saber o que o incomodava o dia inteiro. Era ela. Ele queria era.

E a queria com uma força surpreendente.

A forma que Charlie puxou a minha parceira pelo braço e a arrastou para longe de mim fez meu peito inflar em fúria.

Thunder se descontrolou e eu não consegui impedi-lo de tomar posse. Eu não queria impedi-lo.

A mesa voou, espalhando pratos e comida pelo chão sebrassaltando todos no refeitório.

Tyler tentou me segurar, mas Thunder o afastou em um empurrão poderoso.

Estalando meu ombro e quebrando minha costela, Thunder estava fora de si. Pronto para assumir sua forma enquanto saíamos pelo pátio seguindo o cheiro da minha parceira.

Era a primeira vez, desde que éramos filhotes, que deixávamos a fúria nos dominar.