Howling

3 ✶ Charlotte ✶ O retorno de Ethan ✶


Notas iniciais
Ora, ora . Adivinhem quem se meteu numa enrascada?

Embora eu compreendesse Aimèe, ela ter me mandado embora partiu meu coração.

Se você ficasse lá, o cachorrão ia te matar., murmurou Kiyaya, cautelosa.

Silêncio era a melhor resposta. Eu não costumava lhe negar uma briga. Mas estávamos ambas apreensivas.

Sentada, fiquei um bom tempo encarando ansiosamente o celular jogado entre a bagunça de livros e canetas na minha escrivaninha. Eu já estava tão enlouquecida que não me restavam unhas para roer.

Horas haviam se passado e nada de Aimèe me mandar notícia. Ela havia se esquecido de mim? Havia aceitado Logan? Mas e a namorada dele? Aquilo tudo era um absurdo.

Você acha isso porque não temos um parceiro., alfinetou Kiyaya.

— Charlie! — Mama gritou lá debaixo, antes que eu pudesse responder, fazendo meus ouvidos doerem. Nossa audição era extremamente sensível, se ela sussurrasse eu a teria escutado do meu quarto. — Ethan vai chegar a qualquer momento, vem me ajudar!

Bufei.

Talvez realmente fosse melhor eu me concentrar em qualquer outra coisa. Tipo meu irmão que me odiava voltando pra casa após seis anos fora.

— Você acha que ele vem? — indaguei, mal humorada. — Vai ter uma recepção bem chique na Casa Principal.

— É claro que vem né, Charlie! Nós somos a família dele. — retrucou ela, disfarçando o nervosismo. — Tira o bolo do forno. Anda, Charlie, não fique parada!

Observei ela sair apressada até o jardim para colher algumas flores frescas.

Suspirei e procurei algum pano de prato.

Ethan havia saído de casa em péssimos termos com a família. Nós dois não nos dávamos bem desde que eu me lembrava.

Kiyaya surgiu muito cedo e bagunçou totalmente a nossa estrutura familiar. Eu surtava volta e meia com a sua voz irritante na minha cabeça. Ela parecia uma idosa. Estava sempre cansada e de mal humor, nada a satisfazia. E o pior era que nada fazia ela sair também.

Mesmo tendo aparecido cedo, a loba só assumia o controle para jogar algo para o alto ou fazer pirraça. Ela nunca se transformava e até hoje eu não fazia a menor ideia de como era estar na forma de lobo.

Como você acha que ele e Sóron estão? Será que ainda odeia a gente?

Embora Ethan realmente nos detestasse, Kiyaya e o lobo dele se davam surpreendentemente bem.

Já faz muito tempo. Ethan é um homem agora. E pelo que eu sei, já que o lobo de Bernard King sumiu, quem responde pela parte "física" dos assuntos do grupo é justamente nosso irmão. Duvido que ele seria tão infantil.

Eu poderia apenas imaginar o que ele passou no Sul. Lá era relativamente mais quente que aqui e as alcatéias guerreavam frequentemente por território. Embora Bernard King e seu grupo tenham viajado apenas para fazer política, naqueles territórios diplomacia pura era quase impossível.

Ele não vai precisar mais disputar a atenção com a gente., assegurei.

Kiyaya apenas resmungou tentando demonstrar indiferença.

Dei de ombros e voltei minha atenção ao bolo de chocolate que agora pousava em cima da pia. Era o favorito de Ethan.

— Arruma a mesa, Charlie. — pediu Mama, trocando o arranjo de flores da mesa de jantar.

Era meio óbvio que Ethan não ia jantar em casa. Se é que ele iria aparecer.

Desde antes de decidir acompanhar o ex futuro Alfa, ele se recusava a se juntar a nossa família.

Mas isso foi culpa sua. Você resolveu surtar no dia da condecoração dele.

Porque você apareceu do nada, sua vira-lata! Eu sequer tive preparo psicológico ainda para receber uma voz invasiva dentro da minha cabeça!

Ethan havia se esforçado muito para ser reconhecido na alcatéia. E quando foi, nossa família estava no hospital lidando com os meus problemas. Eu até me sentia levemente culpada, mas convenhamos né. Eu era uma criança. Não dava para aquilo realmente ser culpa minha.

Kiyaya bufou. Você ainda é uma criança então, já que acha que o mundo gira em torno de você.

A mesa já estava posta quando papa chegou do serviço. Claramente ansioso, ele pendurou o casaco e o chapéu atrás da porta, e deu um beijo na testa de mama.

— Você está linda. — ele sempre dizia isso enquanto esfregava gentilmente o nariz no rosto da minha mãe, inspirando deliciosamente o cheiro que ele dizia ser o melhor do mundo.

Após um instante, que era só deles, papa acariciou o alto da minha cabeça. Respondi com um resmungo. Ele sabia que eu odiava que me tocassem, além de não ligar também.

Sentamos os três na sala de estar, em um silêncio desconfortável. Era óbvio que volta e meia encarávamos a porta, um tanto ansiosos.

— Isso é besteira, ele não vem. — quebrei o silêncio, irritada.

— Não seja tonta, Charlie! — rebateu mama, tentando não pensar no assunto.

Papa suspirou.

— A gente devia comer logo. — continuei. — Eles com certeza fizeram um banguete na Casa Principal. Mesmo que Ethan venha, ele não vai querer jantar...

— Será? — perguntou minha mãe, apertando, preocupada, a mão de papa. Meu coração pesou um pouco, suavizando minha atitude.

E então eu senti o cheiro de Ethan. Eu só me lembrava porque suas roupas ficaram impregnadas com ele por bastante tempo.

Mama correu até a porta e papa apenas se mexeu nervosamente.

Ethan já havia entrado na propriedade e eu podia ouvir seus passos cautelosos vindo em direção à casa. Eram passos de quem já precisou muito esconder a própria presença.

Mama sequer esperou ele bater na porta e já a abriu, revelando seu primogênito totalmente surpreso.

Eu e papa nos levantamos rapidamente e Ethan sorriu ao receber um abraço de urso.

— Oh, meu filhote.. — suspirou Mama, apertando seu primogênito. — Que saudade! — sua voz estava tão carregada de emoção que me fez sentir uma pontada de ciúme.

Após conseguir se desvencilhar dos braços da nossa mãe, ele foi até papa e lhe deu um abraço rápido e sem jeito.

Então Ethan virou-se para mim. Eu já me lembrava de ele ser grande mas eu tinha certeza de ele estar maior, seus músculos pareciam querer rasgar sua blusa simples.

Pisquei um tanto ansiosa.

— Charlie. — meu irmão mais velho me deu apenas um meio-sorriso vacilante e um tanto frio.

— Eu preparei sua comida favorita. — apressou-se mama, guiando-o até a cozinha onde ficava a mesa de jantar. — Mas eu creio que já tenha tido algum tipo de ceia comemorativa na Casa Principal.

Ethan pousou suavemente a mão no ombro de mama e sorriu, acalmando-a.

— Não se preocupe. — disse. — Eu apenas pensei na sua comida a noite inteira.

Sentados à mesa, mama e papa faziam diversas perguntas à Ethan. As vezes ele sorria sem graça e detalhava alguns dos seus maiores feitos, mas sempre deixando claro que se não fosse pela liderança excepcional de Bernard King ele não teria conseguido nada daquilo. Sua lealdade era admirável. Ele realmente estava parecendo um membro maduro da alcatéia.

Foi um alívio não dirigerem a palavra a mim . Os holofotes estavam todos em Ethan e ele parecia muito satisfeito e feliz em estar ali, mesmo quando seus olhos pousavam em mim, seu semblante se tornava frio e indecifrável.

Ele realmente parece outra pessoa., observou Kiyaya., Muito mais agradável, só que continua não gostando muito da gente.

Capaz de se ele encarar mais um pouco, a gente congela., constatei, arrancando uma risada de Kiyaya. O que a incomodou brevemente.

E então, como se pudesse ouvir meus pensamentos Ethan virou-se para mim.

— O que houve com seu cabelo? — indagou, curioso. — E essa bermuda é minha, não? Bizarro, parece que tenho quatorze anos e estou me olhando no espelho.

Pisquei, meio nervosa.

— Eu tenho dezesseis e Mama e papa sentiam sua falta. — expliquei, tentando firmar a voz. Era a primeira vez que eu falava desde que Ethan chegara. — Era a única forma deles te terem de volta. — Ethan pareceu um tanto surpreso e eu dei de ombros. — E Kiyaya odeia.

Ethan soltou uma risada meio nervosa.

— Vejo que as duas ainda não se entenderam. — seu sorriso se apagou, levemente preocupado, e seus olhos percorreram meu pulso de forma sutil antes de voltarem para mim. — Espero que tenham parado com as maluquices. — antes que eu murmurasse um "não", notei que seu tom de voz saiu mais como uma reprimenda.

Olhei curiosa para Ethan e o mesmo desviou o olhar.

Ele estava escondendo algo? Ou ele sabia de algo?

Passamos o resto da noite jogando alguns jogos e conversando mais sobre a vida que levamos separados durante esses seis anos. Eu não conseguia interagir muito bem e meus sorrisos saíam, em sua maioria, desconfortáveis.

Papa ainda trabalhava como advogado em um escritório da prefeitura e o restaurante de mama no centro da cidade já tinha três estrelas.
Ethan pelo visto havia sido promovido na alcatéia, ele ainda faria parte do grupo de Bernard King mas não o seguiria diplomaticamente. Seu talento era na guerra. E, sem seu lobo, King tinha pouco interesse em lutar.

Após algumas risadas e todos concordarem que já estava tarde, nos recolhemos.

Do meu quarto, eu podia escutar meus pais sussurrarem numa felicidade contagiante até caírem num sono pacífico. Mesmo após horas ouvindo seu ronco, eu e Kiyaya ainda estávamos inquietas demais para dormir.

Ethan permanecia na varanda, observando o céu enquanto fumava.

Ele deve estar tentando pensar em como contar à mama que não vai ficar em casa., considerou Kiyaya.

Será? Me remexi na cama. Mama ia ficar muito frustrada e triste sem ele em casa.

Após alguns instantes, um rangido nas escadas denunciou a subida de Ethan.

Como seu quarto ficava ao lado do meu, esperei ouvir o barulho da sua porta abrindo. Mas, em vez disso, ouvi uma batida na minha.

— Entra. — sussurei surpresa.

Ethan entrou, um pouco desajeitado e eu me endireitei na cama, sentando-me, e o convidando a se sentar na cadeira da minha escrivaninha.

Ele aceitou o convite e me observou. A expressão contida em seu rosto era perturbadoramente indecifrável. Ele analisou rapidamente meu quarto pequeno e voltou-se para mim.

Fechei as mãos sobre o meu colo e esperei, pacientemente, ele me informar o motivo da visita. Era inegável o susto que Kiyaya eu tomamos. Mesmo que Ethan estivesse muito mais maduro agora, uma visita apenas para jogar conversa fora no meio da noite estava fora de cogitação.

Ele limpou a garganta e coçou a nuca, como se estivesse decidindo qual seria a melhor forma de falar.

— Houve uma reunião... — começou pensativo. — hãm... Logan aparentemente achou a parceira dele e não é Pietra. — ele pigarreou, tentando não deixar transparecer preocupação. — Mencionaram certa... participação sua ... entre Logan e sua parceira.

Eu sabia aonde ele queria chegar e nenhum dos dois estávamos muito felizes com isso.

Meu silêncio serviu de confirmação e Ethan continuou a falar, abaixando um pouco o tom de voz.

— Um membro que tenta impedir outro membro de estar com seu parceiro é considerado um ato grave na alcatéia. Charlie, sua atitude está sendo encarada de forma criminosa. — Ethan me encarou, seu semblante beirando a nojo. — Eu não entendo. Você despreza tanto assim a sua própria família?

Arquejei, descrente. — Óbvio que não!

— Então, por quê? — sua voz saiu em um rosnado. Não era comigo que ele estava preocupado e sim com nossa reputação. — Logan pediu a sua execução. Isso vai destruir os nossos pais.

— Não é justo! — rebati em meio às lágrimas. — Aimèe é minha amiga desde sempre! É a única que tenho, é a única que me entende. Como eu poderia simplesmente deixá-la ir assim?

— Você não mudou nada. — observou, com desgosto, controlando seu ódio e indignação. — Você pensa apenas em si mesma. Você sequer cogitou o que a "sua amiga" pensa sobre o assunto ou nas consequências de se desafiar um alfa pela parceira dele. Levá-la embora? Charlie! Se você queria exílio, você deveria tê-lo buscado de outra forma. Desse jeito, tudo o que conseguiu foi machucar a nossa família. Já seria ruim o suficiente ter um exilado na família. Agora teremos um traidor executado. Não há ofensa maior do que tentar roubar a parceira de um alfa.

As lágrimas escorriam impiedosas pelo meu rosto. Eu estava furiosa. Era tudo injusto. A situação era injusta. Eu deveria ter algum direito. Embora não concordasse comigo, Kiyaya optou por não falar nada. O que era incomum da parte dela.

Ethan levantou-se com um suspiro.

— Não foi fácil conseguir consentimento para te informar eu mesmo. Jamais te perdoaria caso mama e papa fossem obrigados a te testemunhar ser arrastada daqui por um vira-lata qualquer. — disse ele, pesaroso. — Você é aguardada na Casa Principal assim que bater o primeiro horário da manhã. Peço que não faça nenhuma besteira pois fui instruído a caça-la e executá-la eu mesmo, caso fuja. — seus olhos percorreram a sala com ansiedade. — Boa noite. — disse rapidamente antes de deixar o quarto.

Boa noite?

Notas finais
Espero que tenham gostado até aqui. Mal posso esperar para saber o que vai acontecer com a nossa Charliezinha.