Howling
4 ✶ Charlotte ✶ Sentenciada ✶
Notas iniciais
Bati ritmamente meus dedos no beiral da janela do meu quarto.
No rádio tocava bem baixinho Brendan's Death Song de RHCP. Essa era uma das músicas que mais me acalmaram na minha infância perturbada.
Kiyaya estava estranhamente indiferente com a nossa situação. A primeira hora da manhã estava chegando e não havíamos pregado os olhos ainda.
Só espero que seja rápido., explicou ela bem interessada nas estrelas. A gente sempre quis isso.
Observei meu pulso. Eu tinha duas marcas verticais idênticas em cada um deles. Ter sobrevivido a isso foi a maior prova que poderíamos ter de que não merecíamos descanso algum. Nem eu que não suportava ter uma voz presa dentro da minha cabeça e nem Kiyaya que não suportava ser apenas uma voz presa dentro da cabeça de alguém.
Agora que estávamos no fim, parando para pensar um pouco, eu sempre soube porque Kiyaya não se transformava.
Não era porque ela não queria, como ela tentava transparecer, ou porque tinha medo. Era porque ela era incapaz.
Tanto eu quanto ela não éramos nada além de decepção. Esse era o propósito da nossa existência. Decepcionar quem quer que cruzasse nosso caminho.
Tem alguém na porta., informou Kiyaya desnecessariamente. Eu já havia sentido a presença de Ethan.
Abri a porta antes que ele precisasse bater e o segui silenciosamente escada abaixo. Meu coração batia tão forte que eu sequer notei a presença de mama na cozinha.
— O que fazem já acordados, meus filhotinhos? — indagou, já no início da preparação de um café da manhã. — Charlie? Você detesta acordar cedo, cheri.
Ela tentou esconder a empolgação e o prazer em me ver junto de Ethan.
— Fomos convocados à Casa Principal. — disse ele, esfregando a mão no alto de sua cabeça raspada.
— Oh, é mesmo? — minha mãe fechou a geladeira, surpresa. — Bom, pelo menos tomem um café. Eu sei que Charlie fica super estressada se não tomar um café bem preto.
Olhei para Ethan, que assentiu e sentou-se na mesa disfarçando a ansiedade.
Mama me deu uma caneca e serviu ela mesma o café de Ethan.
Como aquele era o meu último, enchi a minha caneca e aproveitei o máximo que pude.
Papa surgiu ajeitando a gravata e sentou-se com a gente.
— E então? — indagou a loba, curiosa. — O que Charlie teria para fazer na Casa Principal?
Embora Ethan fosse super engajado nas atividades da alcatéia, o resto da família tinha pouco interesse em participar. Como éramos beiristas, nossa presença geralmente era opcional. O que eu via como uma certa vantagem outros, como Ethan, viam como uma vergonha.
— Quando voltarmos eu te explico. — Ethan foi objetivo. Mama apenas assentiu e nos olhou com ternura.
Terminamos rapidamente o café e saímos os três juntos.
— Tenham um ótimo dia, crianças! — desejou papa cheio de afeto, enquanto entrava no carro.
— O senhor também. — respondemos educadamente.
Assim que seu carro sumiu na estrada, eu e Ethan nos viramos para a floresta.
Kiyaya passou o trajeto inteiro em silêncio assim como Ethan.
Não era normal lycans andarem pela floresta em forma humana, mas, como Kiyaya não dava as caras, Ethan preferiu manter Sóron na coleira.
— Se... Hãm... Talvez... Se você... for bem respeitosa... — começou ele, pausadamente. — Talvez haja um julgamento.
— Quais as chances de eu sobreviver a um julgamento? — indaguei, solene, desviando de um tronco médio.
— Baixas... — ele pareceu um pouco confuso com a minha calma excessiva.
O que eu não podia culpá-lo já que geralmente não havia calma nenhuma. Eu e Kiyaya estávamos em constante guerra.
A gente meio que infernizou meio mundo. riu Kiyaya, condescendente. Em qualquer outra situação esse fato teria me deixado furiosa.
Você viveu sua vida de mal humor., apontei.
Rá! E você viveu a sua estudando achando que ia a algum lugar., devolveu ela.
Suprimi um risinho.
Ethan me olhou, ainda mais confuso e eu dei dois toques na minha têmpora.
— Kiyaya está falando comigo.
— Achei que vocês ainda não se davam bem. — observou, um pouco surpreso.
— Bem, já que seremos a única companhia uma da outra na hora do fim. Não tem porque a gente brigar justo agora.
— Talvez... Talvez haja alguma saída. — pensativo, ele chutou um galho.
— Você teria de ser de um clã muito influente. — respondi quase risonha. — O clã Sorrow não é bem conhecido por ter sorte.
Ethan concordou, taciturno.
As casas na Vila Principal eram uma mistura de modernidade e idade média, preservando parte da cultura antiga. Vários lycans caminhavam em suas formas humanas e formas de lobo tranquilamente pelas ruas de terra. Crianças e lobinhos de elite brincavam correndo atrás de bolas e pulando amarelinhas e cordas despreocupadamente.
Atravessamos alguns parques ricamente construídos revelando casais apaixonados sentados em bancos de marfim, fazendo piqueniques e enormes lobos brincando de pega.
Era uma visão que eu teria apreciado se não estivesse caminhando em direção à forca.
Andamos pelo que me pareceu mais meia hora até nos depararmos com um gigantesco portão de ferro maciço, que foi aberto rapidamente por dois guardas como se fosse de madeira.
Um deles vestia um terno preto e óculos escuros o outro optara por por uma bermuda simples e um colar preenchidos com os dentes de suas presas sobre o peito nu. Alguns dos dentes eu poderia jurar que eram humanos.
Tentei não encarar muito e, enquanto atravessávamos, ambos fizeram uma reverência à Ethan.
Ethan também se vestia com simplicidade, bermudas largas e uma camisa confortável.
Era a minha primeira vez na Casa Principal desde muito nova. Não pude deixar de perder o fôlego com a construção massiva. Parecia um palácio incrivelmente moderno mas que preservava sua identidade histórica.
A estrada que levava à porta de entrada era toda feita de pedra. Nas laterais, a grama estava muito bem aparada.
Não importava para que lado eu olhasse, a propriedade parecia que não tinha fim. De um lado havia árvores espalhadas e entradas provavelmente para jardins. Do outro, haviam poderosas esculturas de mármore talhando enormes lobos dilacerando pessoas, ursos e outros tipos de bicho.
Toda aquela grandiosidade fez meu estômago afundar. Ethan parecia estranhamente ainda mais nervoso do que eu quando abriu a grande porta de madeira.
Embora eu esperasse que o lado de dentro fosse tão incrível quanto o de fora, a realidade me pegou desprevenida.
Não pude evitar me surpreender com o encaixe histórico do palácio na modernidade atual. Haviam ricas esculturas de mármore espalhadas pelo hall, o tapete vermelho era de veludo e as paredes pareciam se fundir entre madeira e vidro. Tudo esquisitamente limpo ao extremo. Até o candelabro gigante de ouro parecia brilhar mais do que deveria.
Vai ver eu só estava estressada.
— Senhor Ethan! Alfa Lincoln os aguarda na sala de conselho. — uma serva bem uniformizada me pegou de surpresa. Ela fez uma reverência especificamente para Ethan e gesticulou para que a acompanhássemos.
Os corredores eram imensos e ricamente detalhados.
Kiyaya choramingou encolhida como um cachorrinho amedrontado.
Minhas pernas bambeavam quanto mais íamos adentrando no palácio. Eu podia dizer o quanto eu quisesse a mim mesma que eu estava pronta para morrer. Mas não estava. Eu não queria. Nenhuma de nós duas queríamos.
Ethan respirou fundo pousando a mão na enorme porta de madeira. Ele me olhou, como se fosse falar algo, e então desistiu, abrindo a porta.
Entrei cautelosamente, me curvando em uma reverência ao avistar Alfa Lincoln e Luna Scarlett em seus enormes tronos. De cada lado deles haviam ainda mais três tronos um pouco menores.
Do lado do Alfa os três tronos estavam preenchidos pelos anciões da alcatéia-dois idosos e uma idosa, do lado da Luna estavam uma versão mais velha e um pouco mais esguia de Logan King, que cheirava quase idêntico, ao lado dele estava uma mulher que também cheirava igual além de ser fisicamente parecida, e finalmente Logan King. Este último me olhava com tanta sede de sangue que fez meu coração palpitar.
Ethan ajoelhou-se respeitosamente e eu repeti o gesto.
— Levantem-se. — ordenou o Alfa. Embora minhas pernas tremessem e vacilassem, sua autoridade era incontestável.
Eu realmente estava em um julgamento. Parecia um tribunal.
Parece um circo., zombou Kiyaya.
Os lycans se vestiam diferente um do outro. Enquanto os idosos e o próprio Alfa usavam roupas culturais, com cacifes e cordões de presas afiadas pendurados sobre seus peitorais nus, a Luna e sua filha, Saphire, usavam vestidos negros de seda bem elegantes. Bernard, o primogênito, usava um terno polido e Logan, usava suas roupas relaxadas de um mero adolescente moderno. Todos os King continham uma feroz expressão de autoridade no rosto. Saphire, Logan e Luna Scarlett tinham os mesmos olhos cinzas e assustadores. Já os olhos do Alfa Lincoln e seu primogênito, Bernard King, eram verdes um tanto... melancólicos.
Não. Os olhos de Bernard eram melancólicos, os de Lincoln... um pouco mais enfurecidos.
— Como se chama, garota? — perguntou a Luna me analisando sombriamente.
— Ch-Charlote Sorrow, senhora. — gaguejei amedrontada.
— Meu filho e futuro Alfa desta alcatéia reportou que você tentou levar embora sua parceira e futura Luna. Como você se declara? — sua voz tomou um tom de fúria no final.
Minhas pernas tremeram e eu engoli seco.
Qual foi, eles não estão vendo que você é só uma criança? Mal você conseguiria sair daqui quanto mais levar alguém?, protestou Kiyaya.
— Como você se declara? — rugiu ela, impaciente.
Antes que eu pudesse proferir qualquer coisa, Ethan limpou a garganta fazendo um barulho intencional.
— Solicito uma audiência particular com o conselho. — disse ele tão firme que impôs um surpreendente respeito através da sala.
Todos os olhos se moveram para ele, um pouco irritados, porém não surpresos.
— Consentida. — respondeu um Alfa após um silêncio que me pareceu eterno. — Guarde a garota do lado de fora. — ordenou.
Uma mulher de porte atlético, claramente uma encarregada da segurança da alcatéia, fez um sinal para que eu a seguisse porta afora.
Assim que ela fechou, até o cheiro dos que estavam lá dentro se dissipou no ar.
Os minutos se passaram dolorosamente. Eu tremia e suava frio, as coisas pareciam rodar em minha cabeça. Eu quase podia ouvir uma balada funerária tocando. Pensei na música de hoje cedo e cantarolei silenciosamente.
Idiota., comentou Kiyaya.
Os olhares de desprezo que a segurança me lançava me deixavam ainda mais nervosa.
O que quer que Ethan quisesse impedir que fizessem comigo, não me parecia que ia funcionar.
Ele deve estar pedindo para que não te executem de forma humilhante., disse Kiyaya., Para não desonrar ainda mais a nossa família.
Revirei os olhos.
Grande coisa, nosso clã vai ficar marcado para sempre.. eu vou entrar para o livro de história da alcatéia. É impossível que eles não me executem de forma dolorosa.
Eu não disse que não seria doloroso, eu disse menos humilhante.
Normalmente eu diria um cala a boca. Mas eu sabia que ela só estava tão assustada quanto eu.
Quantos mais tempo se passava mais eu perdia qualquer esperança que eu nem sabia que estava alimentando.
A situação era injusta demais.
Como será que ele vai contar à mama e papa?, fiquei curiosa de repente.
Sei lá, tonta, pensa em outra coisa!
Kiyaya tentou se distrair de forma inusitada. Ela começou a visualizar Bernard King e seus olhos verde-água.
Tá doida é?, protestei. Eu não queria passar meus últimos momentos pensando num lycan sem lobo.
Um alfa., corrigiu Kiyaya.
É, um alfa, que sequer foi capaz de proteger a própria parceira. Nem encontrá-la antes de perder ele conseguiu.
Kiyaya deu de ombros e continuou analisando seu rosto imaginário.
Reparando melhor, Bernard era um pouco diferente de Logan.
Sua expressão era mais suave porém bem mais sombria, seus olhos pareciam pesar em uma tristeza profunda e melancólica. Eu até teria um pouco de dó dele se eu não estivesse em uma situação que exigia toda a dó para mim.
Você sempre tá nesse tipo de situação, Charlie. Porque você é egoísta e egocêntrica.
Cala a boca, sua vira-lata!
A segurança se remexeu, me dando um leve susto, e abriu a porta para que eu entrasse novamente.
Todos me olharam fixamente por um instante até o Alfa quebrar o silêncio.
— Agradeça à Deusa pelo irmão que ela te concedeu. — sua voz ecoou, rancorosa, pelo ambiente. — Sua sentença é uma vida de servidão. A partir de hoje, você irá servir à Casa Principal, sem qualquer contato externo. Reunião encerrada.
Logan não pareceu nada satisfeito, Saphire levantou-se entediada e Bernard-novo interesse principal de Kiyaya- estava completamente indiferente.
— Obrigado, senhor. — Ethan ajoelhou-se e gesticulou para que eu fizesse o mesmo.
— O-obrigada, senhor. — repeti, ajoelhando-me também, mantendo meus olhos no chão.
Isso é hortelã ou eucalipto?, indagou Kiyaya, curiosamente interessada em Bernard King.
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