Howling
7 ✶ Charlotte ✶ Encaminhada ✶
Não demorou para eu ser liberada a voltar aos meus afazeres.
Lavar o cabelo e trançar era uma tristeza. O que eu não daria para poder raspá-lo de vez.
Pelo menos Kane era uma profissional boa o suficiente para não deixar uma cicatriz no meu rosto.
Os olhares de desprezo e os comentários de "por que não a matam de uma vez?", "sorte dela ter um irmão tão influente na alcatéia" ou respostas como "até o irmão sabe a escória que ela é, nem ele gosta da vira-lata" já não me machucavam mais.
Pam estava mais estressada que o normal e quase tudo que ela fazia saía errado.
— É um mísero cupcake, sua imprestável! — reclamou dona Betty. Ela já ficava furiosa quando algo estava menos que "perfeito". Queimado então...
Pam não gostou nada das colheradas que recebeu na testa e passou o dia se certificando que eu estaria mais miserável que ela.
Após o almoço, eu fiquei encarregada de toda a cozinha enquanto os outros foram descansar. Dona Betty sentou-se na dispensa para ler um livrinho de romance que ela começara essa semana. Eu gostaria muito de ler alguma coisa também. Até um livro sobre física quântica me seria bem-vindo.
O cheiro agradável de Ethan denunciou a entrada dele na cozinha.
Dona Betty se apressou para fora da dispensa e o cumprimentou com uma reverência.
Ethan havia trago suprimentos. O que me deixou curiosa já que não era seu trabalho.
Ele gentilmente levou as bolsas pesadas até a dispensa e ajudou dona Betty a guardar tudo.
— Gostaria de um café, senhor Sorrow? — era estranho ouvir a velha sendo carinhosa.
— Já te disse que pode me chamar de Ethan. — sorriu meu irmão, evitando olhar muito em minha direção.
Dona Betty soltou uma risadinha que me deu calafrios.
— Sim, senhor Ethan. — ela fez um sinal para que eu preparasse o café. Seria a primeira vez que eu faria algo especialmente para ele e, ainda bem, que eu sabia que o quanto ele gostava de seu café bem forte com um leve toque de creme.
— Mama te mandou um abraço, Charlie. — disse Ethan sentando-se na bancada dos funcionários.
Escondi minha surpresa e reprimi um sorriso nervoso.
— Como ela está? — perguntei, meio trêmula. Ela estava com raiva de mim? Estava comendo bem? Estava aliviada de não me ter mais em casa?
Ethan sorriu enquanto eu lhe servia o café e pareceu pensativo. Ele me analisou brevemente e prendeu um suspiro.
— Emagreceu um pouco mas está ótima... o que... aconteceu com o seu rosto?
— Caí da escada. — respondi prontamente.
Dona Betty soltou um rosnado de protesto e Ethan bebericou o café com interesse superficial. — E papa...?
Antes que ele pudesse falar, Pam e Gavin entraram na cozinha conversando distraidamente.
— Senhor Sorrow. — Pam fez uma reverência, recuperando-se da surpresa.
Ethan, educado, respondeu com outra reverência.
— Não vou tomar mais o tempo de vocês. — respondeu, levantando-se. — Obrigado pelo café, estava ótimo. Charlie... — ele fez um aceno com a cabeça e se retirou da cozinha.
Engoli em seco, sentindo os olhos em mim. Eu queria tanto correr atrás dele e abraçá-lo! Chorar horrores e implorar por perdão.
— Tem certeza de que são irmãos? — perguntou Pam com um sorriso sarcástico. — Ele é tão bonito e carismático. Que presença, que aroma! Enquanto você... parece um saco de lixo nojento.
Revirei os olhos. Não éramos tão diferente fisicamente. Tínhamos os mesmos olhos e o mesmo cabelo. E aqueles dois vira-latas precisavam voltar mais cedo do almoço? Deusa, que falta do que fazer!
— Sem papo desnecessário. Vão arrumar o que fazer! A despensa está cheia! — dona Betty tossiu e sua voz subiu um tom. — Sorrow, termine de limpar o chão!
— Sim, dona Betty. — respondemos os três em uníssono.
Graças à Deusa, o Alfa e a Luna levaram Logan para uma viagem fora da alcatéia. Fiquei sabendo que esse tipo de viagem acontecia todo ano para reforçar as alianças em outros territórios.
Sem ter muito o que fazer e nem muito de me preocupar em ser agredida do nada, dei uma volta por todo o lado de fora da casa.
Kiyaya observava aquela piscina enorme e sempre limpinha com uma ganância surpreendente. Já eu, tinha mais interesse no lago.
O que será que tinha depois da montanha?
O que poderia ser melhor do que abraçar meus pais?
A ausência da família King não pareceu diminuir os assédios, na verdade aumentou. A maioria se tornaram mais... físicos.
Muitos dos funcionários me davam empurrões fortes e tapas fortes. Kiyaya fazia questão de gravar cada um dos rostos para quando chegasse o dia da nossa vingança.
Eu tentava não arrancar essa esperança dela. Mesmo a probabilidade de uma volta por cima ser menor do que a de vermos minha família novamente. Volta e meia eu me pegava torcendo para uma visita surpresa.
Os dias correram calmos. Saphire surtava ocasionalmente e arranhava vários funcionários, mas ninguém a levava muito a sério. Eu ouvia rumores de que ela era idêntica a mãe tanto na aparência quanto na personalidade. Não deveria ser verdade, é claro, a Deusa jamais escolheria uma fêmea agressiva e sem qualquer empatia pelo próximo como a Luna de uma alcatéia tão grande quanto a nossa.
Até porque, parando para pensar, seria bem fácil simplesmente fazer do parceiro de Saphire o novo Alfa já que Logan era um incompetente e Bernard era absoluto na recusa de tal responsabilidade. Mas, para ser parceiro de alguém tão desagradável quanto Saphire, Lucca não deveria ser bom suficiente para ser Alfa.
Após um belo passeio de volta ao dormitório, ouvi Tris e Pam conversando sobre a volta da família King.
Tris rosnou com desprezo e Pam cuspiu pesadamente em mim ao saírem do prédio.
— Vira-lata! — disse uma das duas.
Ao entrar, encontrei dona Betty remexendo em uma caixa azul cheia de bugigangas.
Ela ergueu os olhos enrugados para mim e fez uma expressão de desgosto.
— Não deveria estar na cozinha, vira-lata?
Fiz uma reverência e mordi o lábio inferior para impedir uma resposta malcriada.
Kiyaya vasculhou o recinto atrás da colher de pau. Não fazia muito diferença. Ela podia descontar melhor quando chegasse na cozinha.
A velha fechou a caixa e olhou para mim.
— Deixe-me ver suas unhas. — aproximei-me insegura e estendi as mãos . — Que nojeira! Isso não são mãos de uma cozinheira. Sente-se aqui!
Dona Betty abriu novamente a caixa e tirou uma tesourinha. Ela fincou seus olhos de gavião em cada corte que eu fazia, sempre ordenando para que fosse tão curto que em um dos dedos eu me atrapalhei e me cortei. O filete de sangue fez o rosto da velha ruborizar de raiva.
Quando achei que ela ia me dar um tabefe, a velha tomou a tesourinha da minha mão e cortou minhas unhas ela mesma.
— Imprestável. Não consegue fazer o básico! O que seus pais andaram te ensinando, em? Que você não sabe cortar uma unha? Ou pentear um cabelo?!
Comprimi os lábios, chateada. Minhas tranças não eram tão ruins assim.
Sem pedir permissão, dona Betty levantou-se e começou a desfazer minhas tranças. Pegou alguns grampos na caixa azul e as refez em seguida.
— Firma a cabeça, Charlie! — respondeu ríspida a um choramingo meu enquanto puxava meu couro cabeludo. — Seus pais nunca pentearam isso daqui, não?! Parece um ninho, todo embolado!
Choraminguei mais um pouquinho, porém um pouco menos chateada. Era a primeira vez que a velha rabugenta me chamava de Charlie.
Fazia eu me sentir quase... confortável.
Tranças não eram obrigatórias e dona Betty podia apenas ter me ordenado a prender o cabelo em um coque, igual ela fazia com os fios brancos dela.
Assim que terminou, a velha guardou as coisas e me disse para voltar a cozinha depois de me limpar.
Respondi com um "Sim, dona Betty" e a assisti deixar o quarto.
Era bem raro eu ficar ali sozinha. Kiyaya se imaginou fazendo xixi na cama de Tris, me arrancando uma boa risada.
Tomei um banho quente e relaxante. Meu corpo já não doía tanto mais. Até os roxos já haviam sumido.
Cheirosa e bem arrumada, fui para a cozinha.
O clima estava tenso na cozinha e ninguém falou comigo. Não houve piadas e nem gritos zangados. Contendo a curiosidade, me dirigi a pia. Kiyaya pulava ansiosa para que alguém comentasse alguma coisa.
Foram horas de silêncio desconfortável e concentração superficial até eu ouvir passos entrando na cozinha.
— Sorrow! — uma das servas que limpava os quartos principais me olhou com desgosto. Ela não era muito mais velha que eu, mas muito mais antipática. — Alfa Lincoln solicita a sua presença no escritório dele. — disse, retirando-se com um murmúrio "vira-lata" alto o suficiente para que eu ouvisse.
Uma hora eu ainda pego essa porca!, prometeu Kiyaya, tentando não pensar no que o Alfa Lincoln poderia querer com a gente.
— Vá, menina! Deixa que eu termino a macarronada. — dona Betty balançou a colher de pau.
— Sim, senhora. — retirei o avental e saí correndo.
Era a primeira vez que eu era convocada desde que eu havia sido aprisionada na Casa Principal.
Será que ele vai finalmente matar a gente?
Que seja rápido então., desejou a loba, mal-humorada.
Com aqueles dentes? Até pode ser rápido. Doloroso? Com certeza.
Saphire abriu a porta do escritório e saiu irritada. Me recuperei astutamente antes que a emocionalmente conturbada percebesse.
Ela me olhou com puro nojo e reprovação.
— Senhora King. — cumprimentei com uma reverência. A loba maldita cuspiu em mim e passou reto.
Essa daí também tá na minha lista., acrescentou Kiyaya.
Que mania irritante as pessoas tinham se cuspir em mim.
Entrei hesitante no escritório. Paralisei. A raiva me fez esquecer de bater.
— Senhorita Sorrow! — chamou o Alfa, que pareceu não se importar com o meu desrespeito. — Feche a porta por favor.
Obedeci e dei alguns passos inseguro à frente.
O escritório do Alfa Lincoln era tão grande e chato de arrumar quanto o do seu filho mais velho.
O lugar parecia mais um museu e a maioria dos itens ali me assustavam.
Alfa Lincoln, que estava perto da janela, gesticulou para que eu senta-se em um dos sofás mais próximos.
Pelo menos o escritório de Bernard King cheira melhor., comentou Kiyaya. Bem melhor ela queria dizer. Já que ficava o tempo inteiro distraída e quando acabávamos, não queria sair. Também, o cheiro forte de Ethan lá dentro era quase um sonho.
Sentei-me na cadeira e esperei, nervosa.
Os filhos dele eram quase sua figura escarrada. Alfa Lincoln era bem alto, musculoso e de pele bronzeada. Seus olhos verde-água tinham um contraste muito bonito com a sua pele.
Ele me olhou meio curioso.
— Você cheira a sangue. — disse após um certo silêncio. — Pelo visto ainda não aprendeu a descer as escadas.
— Perdão, Alfa. — fiz uma reverência, escondendo o sorriso.
Ele pareceu incomodado então resolveu ir direto ao assunto.
— A filha do Senador Gutemberg vai passar um tempo na cidade. — começou Alfa Lincoln, sem mover os olhos de mim. — Você estará encarregada de servir na propriedade dela.
— Na cidade... num bairro humano... senhor?
— Sim. Você foi apontada pela cozinheira por bom comportamento. O que me estranha já que não consegue se movimentar sem se machucar. — ele me observou e então concluiu. — O Senador tem uma parte muito importante na alcatéia, assim como sua filha. Qualquer reclamação de você será resultada em execução imediata, compreende?
— Sim, senhor Alfa.
— Ótimo. Está liberada.
Me levantei sem perder tempo e fiz uma reverência.
Eu não entendi. Por que eles são tão importantes assim?., Kiyaya estava novamente confusa.
Acho que para a gente burlar certas... autoridades... teríamos que ter alguns contatos humanos, não?, expliquei.
Faz sentido. Espero que essa Gutemberg não seja uma vaca.
Pessoas de patente alta geralmente são nojentas. Só de a gente não levar uns tabefe a cada trinta segundos já vai me deixar feliz.
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