Howling

8 ✶ Charlotte ✶ Em casa ✶


Like I said you know I'm almost dead you know I'm almost gone... — cantarolei enquanto arrumava as poucas coisas que tinha em uma malinha improvisada.

Aquela velha safada... eu gostaria de correr e dar um beijo naquele rosto enrugado mas eu sabia que ela não iria gostar muito. E daí?

Dona Betty havia sido a primeira a deixar o dormitório, muito provavelmente para não me encontrar.

Entrei sutilmente na cozinha e a encontrei mexendo a sopa em uma panela gigante.
Sem medo de levar uma colherada, a abracei por trás.

— Que isso, menina absurda?! — rugiu ela, derrubando a concha dentro da panela.

— Obrigada! — soltei, com um sorriso enorme no rosto.

— Não seja tola! Só quis me livrar de você e das suas atrapalhadas! — respondeu, ríspida. — Vá-te embora e não deixe o motorista esperando. Não quero voltar a ver esse seu focinho de vira-lata.

— Sim, senhora! — respondi ainda sorrindo.

Eu ia sentir falta dela, constatei enquanto deixava o interior da Casa. Menos das pauladas.

Kiyaya estava igualmente empolgada. Caso eu estivesse sonhando, eu queria dormir para sempre.

Vamos torcer para que o relacionamento deles dê muito certo! Para nunca mais termos que voltar pra esse lugar assombrado.

Amém., completei a oração, quase soltando o riso. Tchau pra vocês, vira-latas!, cantei, fingindo não ver os olhares de reprovação e desgosto das pessoas que me assistiam entrar no carro., Vão se ferraaaar!!

Queria poder mandar um dedo do meio para eles mas né.. melhor não.

Kiyaya ria de não se conter.

Será que a gente pode ir ver mamá e papá primeiro?, quis saber, ansiosa.

Acho melhor não., me encolhi., Se a gente não irritar a senhorita Gutemberg, quem sabe ela não nos deixe visitá-los de vez em quando?

Kiyaya concordou.

O motorista encarregado de nos levar até a casa da senhorita Gutemberg era estranhamente simpático

Sossega a bunda!, reclamei para minha loba que mal conseguia se conter de contentamento. Eu até tava achando graça, nunca a havia visto assim.

Deixar a Vila principal me deixou um pouco mais aliviada. Minha inquietação fazia o motorista lançar olhares pelo retrovisor.

Olha, Charlie! Quanto será que mudou desde que vimos a luz do sol pela última vez?

Não exagera, Kiyaya!, revirei os olhos.

Até que é bem bonito aqui né?

A Deusa que me livre. Espero nunca mais colocar os pés nessa vila.

Balancei a cabeça só em cogitar a possibilidade.

Olhei fixamente para frente. Vamos nos concentrar no futuro. Talvez essa fosse nossa segunda chance. Óbvio que eu não ia desperdiçar!

Deu para ver apenas parte da floresta enquanto a contornávamos e quase nada da vila na beira mais próxima da cidade. A minha vila. Eu sentia falta até dos meus vizinhos barulhentos.

Ah, Dawson Dawson! Que saudades.

Infelizmente não passamos pelo centro. Só um vislumbre do restaurante de mama teria me feito ainda mais feliz.

Chegamos ao bairro onde os mais ricos da cidade residiam.

Os prédios eram imensos, as mansões eram imensas. Tudo era imenso. Eu ficava embasbacada a cada residência luxuosa que passava. Como alguns podiam ter tanto dinheiro e outros tão pouco?

Bem vinda à sociedade capitalista, princesa! A gente não tá tanto tempo assim fora da escola, sabia?

Cala a boca!, fingi irritação.

Estacionamos na frente de um dos maiores prédios do bairro.

O motorista destravou as portas.

— Andar 12, apartamento 07. — disse ele robótico. — Você já está sendo aguardada, senhorita.

— Sim, senhor...
— Fritz.

— Obrigada, senhor Fritz. Tenha um bom dia.— desci, ainda boquiaberta, do carro.

O senhor Fritz fez um cumprimento com a cabeça e partiu com o carro.

Quase me esqueci o que era alguém ser legal com a gente!

Não se anima tanto. Pode estragar o resto o dia. Vamos manter as expectativas baixas. Baixas.

Kiyaya concordou e se concentrou no magnífico prédio à nossa frente.

— Posso ajudar? — indagou o porteiro, observando meu uniforme.

— Estou aqui como funcionária da senhorita Lily Gutemberg... Uhm... apartamento 07 andar... 12.

Ele franziu o cenho. Devia ter aproximadamente uns cinquenta anos de idade e tinha expressão rígida.

— Você não é muito nova pra isso? Quantos anos...?

— Dezoito. — menti, apressada.
O porteiro me olhou, ainda desconfiado, e então liberou a passagem.

Fiquei na dúvida se os funcionários daqui também não eram autorizados a usar o elevador então optei por subir as escadas.

Cheguei no andar doze quase sem ar.

— Pra que... — ofeguei. — tão... alto?

Me arrastei até a porta sete.

Preparada?, perguntei retóricamente, me esforçando para recuperar o fôlego.

Após alguns minutos de tensão, toquei a campainha.

A porta se abriu rapidamente e uma moça esguia com lindos cabelos louros e olhos verdes me cumprimentou com um belo sorriso.

Uaaaal.,

Shh!!

— Senhorita Gutemberg? — tentei não fazer contato visual. — Meu nome é Charlotte Sorrow, sou sua nova serva. — fiz uma reverência respeitosa.

A senhorita Gutemberg me analisou desconfortavelmente.

Pisquei, sem jeito.

— Oh, desculpe minha falta de etiqueta. — ela abriu a porta e se afastou. — Entre, entre, menina! Ãhm... poderia me informar a sua idade?

— Tenho dezesseis, senhorita.

— Dezesseis? — seus olhos se esbugalharam em choque. — Oh, meu Deus! Não me disseram que você era tão nova assim! Não deveria estar na escola agora, querida?

— Eu não frequento a escola, senhorita Gutemberg.

— Como assim? — ela fechou a porta e me conduziu pelo corredor até a sala de estar, luxuosamente decorada. — Sente-se, querida.

O sofá era incrivelmente macio e confortável.

— Eu tive que sair da escola para trabalhar na Casa Principal. Lá... exige muito tempo, senhorita Gutemberg.

— Santa Maria! — exclamou, esfregando as mãos no vestido. — E seus pais? — seus olhos azuis direcionaram-se para minha pequena mala improvisada.

— Eles... nós... — balbuciei. Eu não sabia o quanto haviam contado a ela e o quanto eu podia revelar. Mas ela pareceu entender.

— Você é só uma criança, gente, que loucura! Fique aqui, eu acabei de preparar um chá. Você gosta de hortelã? E raspas de laranja? Tá, tá.

Ficamos um bom tempo conversando. A senhorita Gutemberg falava muito e Kiyaya só observava em absoluto silêncio. Depois de um tempo ela pediu que eu a chamasse apenas de Lilly. Sem se importar muito com a minha opinião, a moça decidiu que eu voltaria a escola e disse que ela mesma conversaria com Alfa Lincoln sobre isso e não aceitaria um não como resposta.

Eventualmente, ela começou a me mostrar a casa. A cozinha não era tão grande como na Casa Principal mas era bem aconchegante e estilo americana, tinha uma bancada com assentos onde ela adorava tomar um drink. A sala de jantar consistia em uma mesa pequena com quatro assentos e uma lareira de mármore.
Seu quarto parecia um sonho. A cama king-sized estava repleta de almofadas de seda cor de rosa e a colcha de um veludo gostoso. A janela era enorme e dava para uma varanda com vista do bairro inteiro e até uma boa parte do centro da cidade.

Após me apresentar cada cômodo e me informar sobre todas as suas manias, a senhorita Gutemberg começou a falar sobre si mesma. Ela tinha vinte e cinco anos e era formada em Jornalismo. Seu signo era de Áries e ela tinha um Instagram onde gostava de postar fotos do seu gato que só chegaria na próxima semana.

Na hora do jantar, ela me deu detalhes de como gostava da comida. Tudo tinha que ser muito bem cozido e ter uma aparência ótimo. E ainda frizou sua aversão a Sazón.

Após preparamos tudo e já estarmos bem alimentada, tomamos mais um chá.

— Charlie, querida! Já está ficando tarde. Você mora muito longe daqui?

Sua pergunta me pegou de surpresa. Senti minhas mãos suarem levemente.

— E-eu... Eu posso? Eu posso ir pra casa? — gaguejei, descrente. — Eu posso ir pra casa, dona Lilly?

— Mas é claro! Não se preocupe. Vá para casa, qualquer coisa deixa comigo! Venha amanhã cedo que eu vou cuidar do resto.

Com uma reverência de pura gratidão me despedi de dona Lilly.

Eu morava relativamente longe mas queria caminhar até em casa. A sensação de se estar indo para casa... Essa eu iria guardar pelo resto da vida.

Gostei dela., Kiyaya deleitava-se com a brisa gelada.

Eu também., concordei.

Assim que cheguei no portão me bateu o desespero.

Fiquei ali paralisada.

Vai, tonta, entra!

Será que eles vão gostar de ver a gente? Será que eles me odeiam? Será que eles não desejam que eu tivesse sido executada?

Kiyaya estava tão preocupada quando eu.
Dava para sentir mama na sala de estar. Estava esperando? Estava me esperando entrar?

Abri o portão delicadamente e caminhei hesitante até a porta. Antes que eu batesse ela se abriu.

— Má Chérie! — e essa foi a segunda vez que vi minha mãe chorar. Ela me envolveu em um abraço tão apertado que as minhas costelas estalaram.

— Mamá. — choraminguei. Mama passou os dedos pela minha cabeça trançada e me analisou profundamente, como se quisesse guardar caso traço meu. — Você cresceu. Eu não acredito. Oh, Deusa, eu tive tanto medo... — chorou ela. — Me disseram que eu nunca mais a veria. Você... Você não fugiu, não é?

— Não. — assegurei. — Fui designada para trabalhar na casa da senhorita Lilly Gutemberg, noiva de Bernard King.

— Oh, a filha do Senador? A humana?
Assenti.

— Ela disse que eu podia voltar pra casa. E frequentar a escola. — expliquei, tentando secar as lágrimas insistentes de mama com meus dedos trêmulos.

— Oh, pela Deusa, que mulher abençoada! — agradeceu Mama. — Venha, entre, entre, má chérie. Está muito frio. Oh, Deusa, eu não posso acreditar. Mon bébé. De volta pra mim!

Mama quase não conseguia tirar suas mãos de mim enquanto eu a descrevia o quão bem tratada havia sido na Casa Principal.

Mentirosa., resmungou Kiyaya.

Eu contei sobre dona Betty, a cozinheira mal humorada que nunca, nem uma vez, me deixarar dormir com fome independente do que eu "aprontasse". Minha mãe me pediu para lembrá-la de levar um belo ensopado de carneiro para essa dona Betty.

Após umas boas horas ajudando-a a preparar o jantar eu senti o cheiro de papa.
Desta vez quem correu para a porta fui eu.

Ele pareceu hesitar.

Deve estar se perguntando se enlouqueceu., sugeriu, Kiyaya.

E então papa girou a maçaneta e abriu a porta. Eu pulei igual um gato nos braços dele.

Ele arquejou surpreso e me segurou firme. Ficou assim um bom tempo, em silêncio, me cheirando delicadamente.

E então ele me soltou, um pouco a contragosto, e me encarou. Exatamente como mama, absorvendo cada expressão em meu rosto, preocupado.

— Tudo bem, papá. — sussurrei, acariciando seu cabelo grisalho. — Estou com passe livre.

Papa riu e me deu um beijo na testa. Eu gostava de ser quase do seu tamanho.

— Eu te amo, Belle. — murmurou me olhando com toda ternura do mundo.

Kiyaya quase explodiu de alegria.

Eu soube exatamente como Ethan se sentiu no dia em que retornou. Minha barriga estava cheia e eu não conseguia parar de comer.

A comida de dona Betty era maravilhosa mas a de mama... Incomparável.

Tive que recontar a papa tudo o que havia contado a mama, dessa vez com ela dando opiniões e me lembrando de detalhes.

Após meu banho, Papa se ofereceu para tirar minhas tranças que estavam emaranhados.

Sentei-me no chão, ao pé do sofá e apoiei a bochecha na perna dele.

Foram muitas risadas e choros fingidos até ele conseguir desembolar tudo.

— Acho que você deveria lavar isso. — murmurou, bagunçando meu cabelo novamente.
— Você disse raspar? — brinquei. — Bom, eu não estou autorizada a cortá-lo de qualquer jeito.

— Você está linda, má chérie. — sorriu papa, bondoso.

Parecia que se passaram séculos desde a última vez que eu vestira meus pijamas. Era bom demais. Estar na minha cama era bom demais. Estar no meu quartinho abarrotado de livros espalhados era bom demais. Eu podia ler um livro, qualquer livro! Quão decepcionante era não ter autorização para entrar na biblioteca da alcatéia.

Agora eu me sentia a pessoa mais sortuda desse mundo.

Kiyaya regojizava-se revendo várias e várias vezes as lembranças de mama e papa nos abraçando com tanto amor.

Abracei meu travesseiros, aspirando o cheiro do amaciante favorito de mama e adormeci em meio a uma prece de agradecimento à Deusa da Lua.