Howling
9 ✶ Charlotte ✶ Visita ✶
Os bolinhos cheiravam maravilhosamente quando abri o forno para dar uma olhada. Quase pronto.
Cantarolei baixinho, lavando a louça que eu havia sujado.
Essa era uma das poucas vezes que dona Lilly me pedia para ficar e preparar alguma coisa quando o senhor King vinha.
Ele não parecia gostar muito de mim apesar de ser sempre bastante educado.
Eu procurava não olhá-lo nos olhos e me concentrava em não tremer quando lhe dirigia a palavra. Ele não era tão musculoso quanto Logan que embora fosse um idiota me dava medinho. O senhor King, me causava era arrepios. Ele podia até tentar ser gentil mas só a voz grave dele nas poucas vezes que resolvia falar me fazia tremer na base.
Eu preferia mil vezes quando dona Lilly descia para o apartamento dele e me liberava mais cedo.
Liguei o radinho e separei o vinho que a minha patroa tanto gostava. Procurei um canal que tocasse músicas leves e românticas. Manter dona Lilly feliz me deixava igualmente feliz. Era uma figura rara aquela mulher. E ainda cumpria suas promessas. Após alguns dias de intensa perturbação no Conselho, pude voltar para a escola. Infelizmente não podia ser a mesma, então eu tive que repetir a série. A regra absoluta era de que eu não podia chegar perto de Aimèe.
Em tom brando, chamei dona Lilly para experimentar meus bolinhos.
Ela apareceu pendurada no braço do senhor King, com um belo de um sorriso no rosto.
Kiyaya simplesmente adorava o cheiro dele. E também prestava máxima atenção nos detalhes do seu rosto. Ele realmente era muito bonito, embora eu raramente o visse sorrir. Sua barba rala, bem definida, e lhe dava uma aparência de maior seriedade.
Os dois pareciam recém-casados. Dona Lilly sempre carinhosa o enchia de beijinhos e abraços. Ele, sempre gentil, lhe retribuía com palavras doces. Ainda assim, dificilmente sorria. Parecia sempre tão... triste.
Minha patroa e o senhor King sentaram-se à mesa, lado a lado.
— Ai, meu pai! Esse cheiro está uma loucura! — suspirou dona Lilly, já enfiando um bolinho inteiro na boca. — Prova, amor! Chocolate com maracujá, que ideia sensacional! Não está uma delícia? — ela empurrou o bolinho à força na boca do senhor King, que tentou mastigar rapidamente para poder responder.
A mulher come igual um boi! Como é que não engorda?, Kiyaya analisou as pernas finas de dona Lilly.
Se chama academia, tonta.
Ela adorava quando eu aparecia com receitinhas novas e isso me deixava super feliz.
— Venha, Charlie! — chamou ela. — Sente-se.
Não era incomum dona Lilly me convidar para sentar à mesa, mas eu ficava emocionada toda vez.
Isso é que é mulher!, comentei., Imagina se ela fosse Luna, não seria incrível?
Talvez ela seja assim exatamente porque não cresceu na alcatéia.
O bolinho realmente estava delicioso.
— Charlie se superou dessa vez, não foi, querido? — Dona Lilly suspirou novamente.
O senhor King apenas concordou, silencioso como sempre.
As vezes me batia uma paranóia de que ela me dava atenção demais na presença dele. Eu não queria me meter no relacionamento de outro macho alfa. Já havia pago por isso. E irritar Logan com certeza não era nada comparado a irritar o senhor King.
Eu achava os dois um casal feito pela própria Deusa. Ele era mais fechado e dona Lilly tagarela, toda entrona. Simplesmente se completavam.
Será que algum dia teremos alguém assim também? Alguém que a gente ame de forma incondicional?, suspirou Kiyaya.
Acho que não dá pra gostarmos da mesma pessoa a não ser que seja nosso parceiro. E nós não temos um, lembra?
Eu podia lembrar de estar prestes a receber alta do hospital quando eu senti a dor excruciante no fundo peito. Kiyaya ficou dias sem falar e, quando voltou, estava muito mais amargurada e azeda.
— Gostariam de um vinho? — perguntei, proativa.
Dona Lilly abriu um sorriso bonito e eu me apressei em providenciar as taças.
— Uhm... — senhor King murmurou. Ele preferia não falar muito pois era tão tímido coitado. — Talvez... talvez seja melhor a gente não...
Falei que ele bebeu de novo!, reprovou Kiyaya. Ela podia amar o cheiro dele, um pouco obcecada na verdade. Mas após um tempo, quando o coitado aparecia, cheirava a álcool e nicotina, o que a irritava levemente.
A Casa Principal não é o melhor lugar pra se viver., justifiquei, defendendo o homem.
Provavelmente era exatamente por isso que ele preferia morar em um apartamento, nesse mesmo prédio. Ele foi cavalheiro o suficiente para escolher um alguns andares abaixo onde não podia ouvir o que acontecia no apartamento de dona Lilly.
Mesmo não havendo muito o que escutar. Os dias ali eram geralmente muito tranquilos, dona Lilly passava a maior parte fora e eu ficava no escritório dela estudando.
— Que isso, querido. É só um golinho. — implorou, com doçura.
Servi o vinho e, mesmo incomodado, o senhor King cedeu. Por mais insistência da doce jornalista, fiz um pouco de chá de hortelã para mim. Agora eu era capaz de entender o porquê da mulher ser tão obcecada com um hortelã. Devia ser fetiche dos dois.
Dona Lilly ao mesmo parecia gostar de mim ainda mais e mais e adorava tanto quando eu ia trabalhar sem tranças que passou a me trazer delicados arquinhos da rua e vários acessórios de cabelo.
Logo os já estavam risonhos e trocando carícias. E eu me divertindo muito com as histórias dela sobre quando descobriu a existência dos Lycans e suas primeiras visitas dela à alcatéia Blood Fang, que era a mais poderosa do Sul.
Enquanto a garrafa ia esvaziando mais o senhor King evitava contato comigo. Eu já estava acostumada então normalmente ignorava.
Mas Kiyaya tinha que ser retardada e ficar muito irritada, tentando estragar meu fim de tarde.
Sabe que ele é muito mais velho né?, sibilei começando a ficar furiosa também. Dá um tempo!
Isso não tem nada a ver, Charlie!, defendeu-se ela., Eu só acho ele... exótico. Ele cheira tão bem! Se eu pudesse me aproximar só mais um pouquinho...
Não viaja, Kiyaya!, repreendi. Sossega e me deixa em paz! Cheia de ideia errada aí.
Dona Lilly soltou mais uma de suas gargalhadas altas.
— Você precisava ver, Charlie... — ela mal conseguia se segurar de tanto rir. — A cara do meu pai! Quando Bernie apareceu na frente dele para pedir a minha mão!
Senhor King acariciou o ombro dela com delicadeza.
Ah, eu podia ouvir a risada cativante dela para sempre.
Olha aí quem tá tendo ideia errada. Já superou Aimèe, foi?
Pelo menos dona Lilly é mais nova que o senhor King., rebati.
Um ano. Um ano mais nova que ele. E nove mais velha que você, tonta., Kiyaya ganhou a discussão.
Revirei os olhos, risonha.
Após algumas horas, finalmente o senhor King chegou no limite dele. Me cumprimentou com um murmúrio bem fraco e despediu-se de dona Lilly com um beijo doce.
— Ah, Charlie, querida! Está tão tarde, não prefere dormir aqui? — ofereceu a jornalista, sua voz arrastada denunciando que havia bebido demais.
— Não, dona Lilly. Muito obrigada. Eu prefiro ir andando. — cocei minhas tranças, um pouco tímida.
Ai, credo, você gosta dela!
E você gosta do velho sem um lobo!
Dona Lilly me deu um abraço, meio trôpega.
— Toma cuidado, viu, minha linda! — sorriu ela, encantadora. — Vou vigiá-la daqui.
Enquanto deixava o prédio, avistei dona Lilly acenando exageradamente da janela.
Você não gosta dela né?
Claro que não, tonta!
Alguns minutos de caminhada se passaram e eu resolvi perguntar.
Você gosta dele?
Não, né!
Que bom., suspirei aliviada., Porque isso seria muito estranho da nossa parte. Bem doentio, na verdade.
Sentir o cheiro de Ethan me fez disparar.
— Isso não pode ser verdade. — ouvi minha mãe entre soluços.
Parei quieta, curiosa.
— Eu sinto muito, mãe.. o Conselho já está conversando sobre isso. Tudo...ela está aqui.
Entrei meio sem jeito e me deparei com mama e Ethan sentados na cozinha.
Os dois pareciam bastante apreensivos e mama mal conseguia olhar para mim.
— Que foi? — quis saber, ficando nervosa também.
Ethan sustentou meu olhar um pouco melhor. Ele apresentava uma barba rala também e seu cabelo estava maior do que ele costumava deixar.
— O conselho tem... averiguado um pouco mais a sua situação. — começou ele, cautelosamente.
— O quê? Achei que eles já haviam até se esquecido de mim.
Ia fazer um mês e pouquinho que eu não ouvia falar deles.
— Sim. Todos gostaríamos de encerrar o assunto mas... Logan te culpa pela falta de sorte com a parceira. E ele é um pouco persistente sobre esse assunto.
— Tá, mas onde estou eu não tô fazendo mal a ninguém. Eu não vejo Aimèe vai fazer quando tempo? Sete meses? Isso é loucura, Ethan.
— Eu e Bernard King estamos trabalhando nisso... — Ethan raramente chamava o senhor King de Bernie na nossa presença. — Você vai fazer dezessete em algumas semanas, não vai?
Mama tinha os olhos vermelhos e não os tirava do chão. Era óbvio que o Conselho não estava só conversando sobre mim. Haviam decidido alguma coisa, algo que a minha mãe não gostou nem um pouco.
Assenti para Ethan e este encerrou a conversa levantando-se.
— Não se preocupem. Vai dar tudo certo. É muito importante que Charlie continue discreta. — pediu ele. — Tenho alguns assuntos na Vila Principal... Evitem o máximo de contato com a alcatéia que puderem.. você principalmente, Charlie.
Dito isso, ele apenas saiu.
Tive sérias dificuldades para dormir. Minha cabeça estava a mil com as possibilidades de eu ter que voltar para aquele lugar maldito. Será que dona Lilly conseguiria me proteger?
Kiyaya me acordou ao ouvir um barulho
diferente.
O que foi?, indaguei mal-humorada. Certeza que não faz nem dez minutos, sua insuportável.
Assustada, olhei pela janela. Alguma coisa se mexia lá fora.
O que era?
É um lobo., respondeu Kiyaya tentando enxergar melhor.
Um lobo? Sóron?
Não.
Um exilado?
Não sei! irritou-se ela. Droga de vela aromática, Charlie! Por que foi brincar com aquilo?
Ah, cala a boca! Você estava tão curiosa quanto eu!
O lobo ganiu baixinho, interrompendo nossa discussão.
Charlie... ele está chamando., balbuciou, assustada., É melhor você descer e ver o que ele quer.
Vai você, tá doida?
Anda, Charlie!
Afastei o cabelo do rosto para procurar meus chinelos e os calcei rapidamente.
Tomando cuidado para identificar qualquer anormalidade no ronco dos meus pais, desci as escadas e abri cautelosamente a porta da frente.
O lobo moveu-se, ansioso e, em sinal de paz, deitou-se de barriga pra baixo na grama.
Me aproximei, insegura.
E então o que ele quer?
E eu sei lá, né, Charlie! Você sabe que eu não consigo me comunicar com ninguém. Ainda mais com ele, é um lobo louco.
O QUÊ?! Você me fez vir aqui fora por causa de um lobo enlouquecido?, paralisei incrédula.
Minhas pernas bambearam e o lobo parecia querer que eu chegasse mais perto.
Você é uma anta, não uma loba, sabia?!
Põe a mão nele., pediu ela, ansiosa.
Põe você, idiota!
O lobo rosnou levemente, ele era enorme e escuro.
Thunder?, perguntei aturdida.
Não, mas é feio igualzinho., Kiyaya torceu o nariz. E mais gordo. Ou.. peludo, sei lá.
O bicho era realmente parecido com Thunder, a diferença estava na cor do pelo- preto- e os olhos de um amarelo horripilante.
Olhei em volta. Não dava pra enxotar um lobo louco, eles eram imprevisíveis e bastante nervosos. Ainda mais daquele tamanho. Esse aqui podia entrar em casa e acabar lutando com meus pais.
Afastei a ideia, apavorada.
Se a gente ficar aqui um pouco talvez ele vá embora., sugeriu Kiyaya. Ele não está parecendo tão hostil assim.
Ou talvez ele queira ficar pra sempre., retruquei me recusando a acreditar na loucura dela.
Tem outra ideia?
Sentei-me cuidadosamente na grama. Não queria fazer qualquer movimento brusco e desencadear uma reação agressiva no lobo.
Mas também não queria encostar nele. Se eu ficasse... ligeiramente perto talvez eu pudesse acalmá-lo e mandar o bicho embora.
Para minha surpresa, ele pareceu satisfeito e deitou a enorme cabeça no meu colo.
Bom... Vai ver ele gosta de brincar com a comida., respirei fundo.
Ou gosta de você.
Observei o lobo. Seus olhos, até que muito bonitos, não demonstravam nada de quase-humano como os lycans. Ele realmente estava louco.
Embora eu nunca tivesse ouvido falar da parte humana suprimir a parte lobo, o lobo suprimir a parte humana não era tão raro. Geralmente acontecia quando o lycan perdia o parceiro e a pessoa deixava o lobo, que geralmente enlouquecia, procurando algum jeito de morrer.
O monstrengo preto piscou me observando quase... contente.
Tombei a cabeça, curiosa, e tentei esconder o máximo de cabelo possível atrás das orelhas enquanto o vento insistia em espalhá-los pelo meu rosto.
O lobo soltou um ronco suave e esfregou a cabeça gentil mente na minha barriga, depois ergueu-a e esfregou o focinho no rosto. Seu rabo balançava conforme ele me farejava.
Ele ronronou? Ele ronronou, Kiyaya, olha só. Você não tá no cio, tá?
Claro que não, tonta!
Então qual é a desse cachorro?
Eu sei lá, Charlie! Só.. mantém ele feliz. Ninguém vai querer ver isso daí zangado.
Ele me lambeu suavemente arrancando uma risada de mim.
— Ahh.. se você não é um amor? — tomando coragem para acariciar o rosto enorme do lobo. Seus pelos eram tãaao macios. — O que tem de feio tem de bonzinho, né? — minha voz afinando, como se eu estivesse falando com um filhotinho. — Quem é o bom menino? Quem é?
O lobo balançou o rabo mais ávidamente e eu soltei outra gargalhada.
Olha, Kiyaya, que coisa fofa., chamei sabendo que ela não estava gostando nada.
Aham, os dentes dele são bem fofos também, né não? Brinca com eles.
Estraga-prazeres., bufei.
— Você só tá perdido, não é? — indaguei, baixinho ainda fazendo vozinha fina. O lobo pareceu concordar. — E tá cansado também, não tá?
Pergunta se ele tá com fome!, riu Kiyaya.
Loba escrota.
— Quer que eu cante pra você? — continuei ignorando-a propositalmente. — Uma musiquinha de ninar pro neném dormir? O que acha?
Ah, Charlie..., choramingou Kiyaya como se estivesse sendo torturada.
Irritá-la tornava tudo muito mais divertido!
Passei meu braço direito por cima do pescoço do lobo e apoiei minha cabeça no alto da cabeça dele. O lobo era tão macio que esfregar meu rosto entre seus pelos me fazia surpreendentemente bem. Era quase terapêutico e Kiyaya podia até negar mas ela estava gostando tanto quanto eu.
Suavemente comecei a cantar Brendan's Death Song de RCH, era uma das músicas que fizeram parte dos meus piores momentos, e que Kiyaya também fingia que não gostava.
Cantarolei os versos um pouco fora de ordem e um pouco fora de tom.
O lobão ronronava suave igual um gato. Eu podia jurar que, apesar do tamanho assustador, aquilo era muito fofo. E me tranquilizava de certa forma. Ele se remexeu gentilmente como se pudesse ler meus pensamentos. Um centavo para saber no que ele pensava estava pensando.
Ah, essa é fácil, você canta mal. Deve tá torcendo para que cale a boca.
Depois de terminar a música, um pouco perdida entre as estrofes, eu fiquei mais um tempo deitada sobre ele. A noite estava incrivelmente gostosa e eu não queria sair dali nem tão cedo.
Até o vento bagunçando meu cabelo já não me incomodava mais.
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