Howling

6 ✶ Charlotte ✶ Colher de pau ✶


Meu reflexo no espelho denunciava o quão murcha eu estava.

Meus cachos, agora pesados sobre os ombros, denunciavam os meses que haviam se passado desde que eu me tornara prisioneira.

Meu pescoço exibia marcas de vários abusos que eu recebera de Logan durante minha estadia. Ali, provavelmente às três da manhã, eu estava na metade de trançar o cabelo em um doloroso rastafari.

Infelizmente eu havia sido ordenada a deixá-lo crescer para que eu parecesse mais feminina. No entanto, ninguém disse nada sobre tranças, então...

Vesti meu uniforme de forma silenciosa para não acordar minhas colegas de quarto e deixei a ala.

Quanto antes eu deixasse as coisas arrumadas para a cozinheira, melhor para mim.

A cozinha parecia mais a de um restaurante luxuoso. Era enorme e tinha um zilhão de coisas. Eu mesma levei semanas para gravar onde se guardava cada utensílio.

Não demorou muito para que a cozinheira chegasse.

Cumprimentei a velha rabugenta com uma reverência sutil. A mesma torceu o nariz, insatisfeita por não haver do que reclamar desta vez.

Basicamente todos os servos da Casa me odiavam. Alguns eu entendia que era por medo, outros era por prazer em ter alguém para descontar a frustração. Para o meu azar, dona Betty, a cozinheira, era do grupo dois.

— Bom dia, vira-lata. — cumprimentou ela, já se direcionando à bancada do chef. — Onde estão as cenouras?

Peguei rapidamente as cenouras, e já imaginando que ela iria fazer suflê, peguei também ovos, cebola e alho.

A velha torceu o nariz e, antes que pedisse, coloquei batatas em cima da bancada. Peguei agilmente o ralador e comecei a descascar as verduras. Gavin, um dos funcionários, geralmente cuidava dessa parte. Porém, quando descobriu que eu era uma das primeiras a chegar, gostava de me ver levando esporros e corelhadas de pau da dona Betty.

Era assustador quando a velha se irritava.

Dona Betty fazia questão de deixar claro o quanto desgostava de mim e me obrigava a acordar antes dos outros funcionários da cozinha. O que eu até gostava já que era menos tempo sem bullying. No entanto, ser a única a ter ordens de nunca deixar a cozinha durante o expediente me chateava um pouco.

Você deveria era agradecer! Da última vez que Logan te encontrou no jardim você perdeu dois dentes., murmurou Kiyaya.

Ficamos algumas horas em silêncio enquanto eu preparava as omeletes e ela os diferentes sabores de capuccino e vitaminas.

Depois de vários gritos da velha e talheres voando pela cozinha, eu finalmente estava pegando a arte da culinária.

Dona Betty inspecionou os omeletes minuciosamente e então provou um, soltando um rosnadinho insatisfeito. Se não jogou o prato em mim é porque dava para servir.

Escondi o sorriso bobo e fui fritar os ovos.

Quando já estava terminando os bacons e dona Betty uma vitamina bem cheirosa de abacate, chegaram o resto dos funcionários.

Eram três garotas e um garoto. Os quatro cumprimentaram dona Betty respeitosamente e me ignoraram.

Ajeitei rapidamente a mesa deles e servi os pratos recém-preparados.

— Bernie está na Casa. — disse a velha rabugenta, removendo o avental. — Sorrow, melhor comer com seus colegas hoje. Duvido que terá tempo de alguma refeição depois. Sejam rápidos e arrumem a mesa principal.

Com isso ela saiu. Tris, a mais velha dos quatro, rosnou me desafiando a sentar.

Me encolhi, oprimida, e resolvi lavar a louça.

Dona Betty gritava que um lobo faminto a atrapalhava mais ao invés de ajudá-la e não me deixava pular as refeições nem que eu tivesse que sentar num cantinho da dispensa para comer. Sem ela na cozinha, esse não seria um desses dias.

A Casa estava cheia de burburinhos sobre Bernard King. Ele raramente visitava e preferia ficar em um apartamento num bairro humano da cidade, cuidando dos negócios humanos da família. Sem um lobo para dar a louca de vez em quando, era muito mais fácil se mesclar na cidade.

Enquanto lavava a louça fiquei me lembrando de Aimèe e o quanto éramos felizes antes de Logan aparecer. Minha vida era tão boa e eu sequer sabia.

Gavin jogou os pratos, que apenas os funcionários usavam, bruscamente na pia e Kiyaya posicionou-se em alerta ao cheiro de Ethan.

Se Bernard King estava na Casa, meu irmão também estava. E o cheiro sutil de mama e papa nele me deixava ansiosa.

Ah, se eu soubesse que aquela manhã seria a última que os veria. Teria os abraçado tão forte e gravado melhor cada detalhe. Agora, me restavam apenas as memórias.

Logo senti o cheiro gostoso de Bernard e então o cheiro suave de Ethan entre as guloseimas do café da manhã que estava sendo servidas na sala ao lado.

Kiyaya implorou por uma espiadinha. Abri uma frestinha da porta silenciosamente só para dar uma olhadinha rápida.

Luna Scarlett e Alfa Lincoln estampavam sorrisos afáveis no rosto enquanto conversava com Bernard e Logan. Saphire e seu parceiro, Lucca, trocavam carícias modestas.

Lucca era um guerreiro de alta classe na alcatéia e estava sempre trabalhando, o que deixava a vaca da parceira dele com tanto mal humor que ela descontava em todo mundo pela frente. Eu mesma já tive o infortúnio de levar uns arranhões.

— Um casamento? — gritou Saphire, empolgada. — Oh, Bernie, meus parabéns! Mas vai ter que deixar pra depois do meu, é claro. Mal posso esperar para ser marcada.

Revirei os olhos, que mania aquela vaca carente de atenção tinha de fazer todo assunto se voltar para ela.

Isso me lembra alguém., sussurrou Kiyaya.
Ignorei. Por mais incrível que pareça, fazia tempo que não brigávamos. Estávamos igualmente infelizes e sem forças para ficarmos uma contra a outra.

— A alcatéia não ficaria insatisfeita com isso? — a voz de Logan interrompeu Saphire, totalmente desgostoso. — Afinal, ela é uma humana.

— Acredito que isso seja um detalhe importante a ser considerado. — concordou Luna Scarlett.

— Lilly Gutemberg é uma peça importante para a sobrevivência da alcatéia. — Alfa Lincoln era naturalmente autoritário. — É de interesse nosso fortalecer nosso relacionamento com os humanos. Podemos ser uma raça superior, mas são eles que dominam o mundo. Não vejo o porque de uma oposição. Tendo pessoas poderosas como o senador Gutemberg ao nosso lado só nos torna mais fortes. Um laço entre Bernie e a sucessora dele vai nos abrir mais caminhos e mais oportunidades para expandirmos nossas terras. Acredito que tenha sido uma ótima jogada.

Bernard King sorriu sem jeito. Ele provavelmente não havia noivado com a humana apenas para fins políticos. Ele gostava dela. Porém, ter seus pais ao seu lado era um empecilho a menos para se preocupar.

— E você, Loggy? — Kiyaya riu com o apelido ridículo. — Como estão as coisas com Aimèe?

Logan torceu o nariz, irritado, e seus olhos, antes cor-de-mel como os da mãe, chamuscaram em um tom de cinza.

Bernard desviou os olhos. Aquilo era resposta o suficiente.

Ethan que apenas beliscava os omeletes que eu havia feito, ergueu a cabeça com um leve protesto. Agora sim o assunto havia tomado um rumo delicado que ele não parecia gostar muito.

Para o desprazer de Kiyaya, tanto meu irmão quanto seu inseparável amigo, Bernard, estavam de costas para mim.

— A sua incapacidade em dominar a própria parceira está gerando comentários pela alcatéia. — Alfa Lincoln demonstrou sua insatisfação. — Quanto mais tempo ela passa distante mais fácil é uma rejeição. Um Alfa rejeitado é pior que um Alfa sem uma Luna.

Kiyaya quase uivou em júbilo. Era raro ouvirmos notícias de Aimèe. Os funcionários que tinham maior contato fora da Casa evitavam falar dela na minha presença. Saber que Logan não tinha sucesso em conquistar minha querida lobinha me deixava irremediavelmente feliz.

— Pelo menos é melhor do que um Alfa cuja Luna é humana. — Bernard tentou disfarçar a preocupação.

— Você ainda não a marcou. — considerou Luna Scarlett. Ela não tinha escrúpulos em demonstrar sua preferência por Bernard. — Conheço algumas moças da sua idade que também perderam o parceiro e se adequariam à posição de Luna.

— Me recuso. — Bernard expressou sua determinação.

— Quanto mais tempo passo na posição de Alfa tendo um filho que já deveria, há anos, ter assumido meu posto, pior é para alcatéia. — não parecia uma reprimenda ou uma insistência do Alfa Lincoln, parecia mais... uma decepção. — O fato de Logan ser incompetente em seu relacionamento com a própria parceira torna nossas terras vulneráveis à rebelião de outros clãs e ataques de outras alcatéias.

Todos engoliram em seco e os olhos de Lincoln recaíram-se sobre Ethan que balançou a cabeça ávidamente.

— Ãhm... eu não acho que esse seja o melhor local para discutirmos sobre isso. — disse ele. Ah, como eu gostaria só ter um vislumbre de seus olhos castanhos. — Acredito que esse não é um assunto a ser discutido aqui.

Uma ardência nas nádegas me fez dar um pulo.

Dona Betty balançava uma enorme colher de pau com o olhar de censura.

Envergonhada, fechei o tantinho da porta que eu havia aberto.

O café da manhã seguiu com conversas mais leves e risadas ocasionais. Para a minha infelicidade, Ethan não participou muito.

Fiquei um pouco mais decepcionada ao perder o rastro do perfume que era o cheiro de avelã e terra molhada. Era uma característica que, curiosamente, ele e Bernard compartilhavam mesmo não sendo da mesma família.

Ethan não havia saído de casa com esse cheiro e, aparentemente, ambos o haviam adquirido no Sul. E quando estavam juntos, eu podia jurar estar no meio de uma floresta chuvosa. Os dois combinavam naturalmente até no aroma que exalavam.

— Eu não lhe falei para comer alguma coisa? — a retórica furiosa de dona Betty me arrancou de meus devaneios.

— Ãhm... eu acordei um pouco sem fome. — uma grande mentira já que o café da manhã era minha refeição principal.

A velha rosnou insatisfeita.

— Você não passa de um estorvo, sua vira-latazinha. Assim que terminarmos de fazer o almoço, vá comer! Não quero mais trabalho desnecessário. O que será que eu fiz à Deusa para te designarem à cozinha, hein? — protestou, rabugenta.

Gavin soltou uma risadinha que foi logo reprimido pelo olhar furioso de dona Betty e todos retornaram aos afazeres.

Eu não podia imaginar o porquê de serem tão imaturos. Tris deveria ser quase da idade do meu irmão, Gavin não era tão mais velho assim que eu e as outras duas, Pam e Selena, eram da idade de Saphire.

Saphire também é uma criançona mimada., apontou Kiyaya.

Dei de ombros e lavei a louça do jantar o mais rápido que pude. Não vi e nem ouvi mais Bernard e Ethan, pelo visto só tinham passado aqui de manhã para trazer notícias de um casamento.

— Vá, garota! — enxotou-me dona Betty. — Vá antes que o senhor Logan apareça aqui e me quebre mais coisas. Ele e seu lobo estão um verdadeiro caos hoje.

Que bom! Que Aimèe continue ignorando aquele cachorro feioso.

Deixei a cozinha rapidamente. Contrariar a velha não estava nos meus planos. Ela ficava monstruosa quando irritada e eu ficava com as pernas roxas de tanto levar colherada de pau.

A brisa gelada do fim de noite acariciou meu rosto.

Ela gosta de você., comentou Kiyaya.

Eu sei., respondi.

Captei um cheiro desagradável no ar e logo fiquei tensa. Logan. O que ele estava fazendo aqui?

Fui rápida em me esgueirar por entre algumas flores, sem esmagá-las, e entrei na sala leste da Casa segurando a vontade de correr para alcançar o prédio dos funcionários.

Tentando acalmar meus batimentos cardíacos, fingi caminhar de forma natural. Se aquele bicho idiota cheio de raivinha me encontrasse eu com certeza ia perder mais dentes.

Um rosnado me paralisou.

— Fugindo de mim, vira-lata? — Logan me alcançou mais rápido do que eu esperava.

Assim que virei-me para cumprimentá-lo, recebi um soco no queixo.

Kiyaya se fechou imediatamente. Ela simplesmente odiava quando isso acontecia e ele realmente estava tomado por cólera.

Uma gota de sangue pingou no chão e eu levei um tempo para me recuperar da supresas antes de levantar.

Ficar no chão geralmente não era uma boa ideia, significava que eu receberia vários pontapés até perder a consciência.

Quando eu estava a meio caminho de me levantar completamente senti o joelho de Logan atingir a boca do meu estômago.

Arfei, subitamente sem ar. Ele me segurou pelo maxilar, antes que eu caísse novamente no chão, fazendo meu rosto explodir ainda mais de dor.

— Você acha que pode se esconder de mim, é? Na minha própria casa? — rosnou ele, furioso. A cor cinza dos olhos de Thunder brigando com o mel dos de Logan.

— Não, senhor. — respondi rapidamente, sentindo a dor se espalhar mais pelo meu rosto. Sempre que Thunder emergia assim eu acabava com mais ossos quebrados.

Logan mostrou seus dentes de lobo, ligeiramente transformados, em um rosnado amedrontador.

Fechei os olhos. Não tinha mais o que eu pudesse fazer.

Logan me jogou no chão, fazendo minha cabeça bater violentamente no piso. Minha visão ficou imediatamente turva e tudo girava. Meu cérebro levou um momento para identificar a dor ritmatica que eu recebia na lateral do corpo. O lobo com sérios problemas de insegurança me desferia vários chutes na barriga.

Bem a cara de um alfa., pensei comigo.

Eu não sabia dizer realmente que horas aquele sádico havia parado de me bater ou ido embora.

Sempre que alguém me encontrava jogada em algum canto da casa, não precisavam perguntar o que aconteceu ou quem foi. As vezes me levavam até ala hospitalar, as vezes iam chamar algum segurança mas a maioria me abandonava ali e fingia que não havia me visto.

Eu não conseguia sentir nenhum cheiro além de sangue para identificar quem havia me encontrado. Mas o rosnado irritado era inconfundível.

Dona Betty me ergueu em completo silêncio.

Ela passou um dos meus braços por cima do próprio pescoço e me carregou um bom tempo até a ala hospitalar.

— Onde dói? — perguntou a enfermeira Kane, desgostosa, acendendo uma lanterninha para analisar os meus olhos. — Mais uma concussão só esse mês! — indignou-se. Eu não entendia por que ela estava brava comigo. Fazia uma semana que eu não vinha aqui, o que era um recorde meu. — Bora, senhorita, Sorrow. Preciso saber onde você sente dor para que eu possa aplicar a anestesia caso necessário. Nunca vi alguém dar mais trabalho que você!

Estava um pouco difícil falar mas dei meu melhor. A enfermeira analisou meu maxilar e depois as minhas costelas.

Kane era especialmente desagradável, me odiava de graça. Talvez não de graça, né, já que ela era obrigada a desperdiçar seus materiais comigo e vivia reclamando que não tinha o suficiente.

Dificilmente me dava analgésicos ou anestesias. Dizia que, se eu me acostumasse com a dor, viria menos vezes.

Uma grande de uma vaca. Basicamente como quase todo mundo na Casa. Sádicos nojentos.

Doutora Kane estalava a língua, zangada, e me aplicou algumas injeções. Senti minhas pálpebras pesarem enquanto ela costurava algum corte no meu queixo.

— Qual será o pecado que estou pagando para ter que trabalhar nesse lugar? — perguntou para si mesma.

Eu não sabia exatamente quanto tempo eu dormi. Observei a sala branca e deixei um suspiro escapar. A dor me deu um leve susto.

Fiz um tour pelo meu corpo, eu realmente estava toda quebrada.

Ainda bem que a gente se cura rápido., procurei Kiyaya que respondeu com um resmungo mal humorado. Já devia estar acostumada, tonta.

Acostume-se você, tonta!, rosnou ela.

Um risinho que escapuliu da minha garganta logo se transformou em um gemido de dor.

— E eu ouvi dizer que você não se dava bem com a sua loba. — observou a doutora.

— É o que me faz seguir em frente. — ri de novo.

Pensar em Aimèe e nos meus pais também. Ouvir Kiyaya chorar de saudade à noite me dava mais pena dela do que de mim. Nenhuma de nós duas havíamos escolhido nascer. No mínimo isso eu entendia.

— Pelo menos parece que você vai ter sorte essa semana.

Alguns dias sem trabalhar não significava que eu teria sorte. Significava mais noites mal dormidas e trabalho acumulado.

Dei de ombros e fechei os olhos. Eu só queria desaparecer.

Kiyaya me enviou imagens do lago que tinha na ala oeste. Sabíamos que o lago daria para algum lugar através da montanha. Fora da propriedade. Ficar fazendo planos de fuga que jamais seguiríamos nos ajudava a manter a sanidade.

Os dias que se seguiram foram bem entediantes e dolorosos.

Dona Betty geralmente aparecia com a expressão carrancuda. A velha rabugenta se esforçava em frizar que eu podia morrer na sarjeta como o cachorro sujo que eu era e ela não ia nem se importa, que só trazia comida para mim porque era o trabalho dela. Como se a Casa tivesse funcionários o suficiente para ela precisar levar comida para alguém.

Eu podia entender o lado dela. Seria problemático se a vissem que me tratava bem. Poderiam puni-la ou me encaminhar para um setor onde poderiam me maltratar com algo pior do que uma colher de pau.