O tempo correndo de monstros e tendo minha vida por um fio me deixou bem acostumada com o medo, mas quando Reyna me encarou e disse que gostaria de falar comigo, congelei.

A caverna do grupo de resistência era simplesmente impressionante. Paredes firmes, iluminação artificial eficaz e túneis organizados.

- Atualmente, somos em duzentos e noventa semideuses, entre romanos e gregos – disse-me Reyna enquanto caminhávamos pelos túneis – Não há mais inimizade entre nossos grupos, uma vez que estamos a beira da extinção. Os túneis foram projetados por filhos de Hefesto e Vulcano, a iluminação vem dos filhos de Atena e Febo.

- E como vocês se alimentam? – perguntei – Fazem expedições para dentro das cidades?

- No começo, sim – respondeu ela – Mas perdemos muitos semideuses com essas expedições. Agora, demos uma função útil para os filhos de Deméter, Ceres e Pomona.

Paramos a frente de duas portas imensas de vidros e Reyna abriu-as. Fiquei fascinada com o que vi. Um campo imenso de trigo, árvores de frutas, hortas de vegetais e arbustos de frutinhas doces enchiam todo o lugar. Era realmente um lugar enorme. Mais separadamente, vi algumas vacas leiteiras e galinhas ciscando no chão.

- Uau – escapou dos meus lábios.

Reyna sorriu satisfeita.

- Foi uma grande vitória, de fato – ela concordou – Fazemos pão com o trigo, sopa com os vegetais... De vez em quando, podemos até arriscar um bolo para aniversariantes. Todos os moradores das nossas cavernas devem trabalhar e ajudar na resistência, ou aqui ou em outra função.

- Fantástico – falei – Meus parabéns.

- Obrigada – ela me conduziu para fora dali – Agora falaremos sobre o assunto pelo qual requisitei uma conversa particular. Você deve saber quais foram os Sete da Profecia, não?

- Sim, mas não tive a oportunidade de conhecê-los pessoalmente – falei.

- Eu os conheci no dia em que o Argo II desceu no Acampamento Júpiter, e no dia que Octavian jurou guerra com os gregos – ela fechou a mão em torno do punho da espada – Ele era um maldito tolo influente. Guiou-nos para a morte. Se tivéssemos nos juntado com os gregos desde o começo... Tudo poderia ser diferente.

Olhei de relance para ela. O rosto de Reyna permanecia firme, mas seus olhos transmitiam o pesar e a dor. Claro que ela está assim. Ouvi histórias de que Reyna um dia fora apaixonada por Jason Grace, o filho de Júpiter que morreu para Gaia despertar. E o pior de tudo: Jason morrera junto à outra garota, Piper Mclean, uma filha de Afrodite. Ver seu amor morrer nos braços de outra garota deve ser uma facada no peito.

- Não foi sua culpa – falei.

- Não quero seu consolo, obrigada – Reyna respondeu resoluta – Desculpe-me se isso soou rude, mas é a verdade. Enfim, o passado e como deveríamos ter agido antes não importa, o que importa é que estamos aqui, agora. Antes de levá-la ao seu irmão, quero lhe dar algo.

Chegamos a outro salão, menor do que os anteriores. O espaço era constituído por um pátio de treino com armaduras e armas jogadas pelos cantos e um pequeno galpão azul claro. Entramos no galpão. Estantes empoeiradas com arcos, aljavas, espadas, lanças e várias outras armas.

- Uma réplica do galpão de armas do Acampamento Meio Sangue – deduzi – Porque me trouxe aqui? Eu já tenho minha própria arma.

- Não esta – Reyna pegou uma adaga de uma estante e a estendeu para mim – Pegue. Eu não poderia estar lhe dando esta adaga, ela é um patrimônio da nossa resistência. Mas também é amaldiçoada e especial, quero que seja sua.

Peguei a adaga. Era de bronze celestial, com cabo de couro e uma lâmina afiada. Meus dedos formigaram em contato com o metal frio.

- Porque ela é tão especial? – perguntei ainda olhando para a lâmina.

- Essa adaga foi recuperada do Tártaro – encarei-a com horror – Exatamente, Carollyn. Esta é a adaga de Annabeth Chase. Uma arma com uma história longa e triste. Passou pelas mãos de heróis e traidores. Agora, é sua.

- Por quê?

- Só existem dois filhos de Hécate nesse mundo. Seu irmão já fez sua parte para tentar tornar esse mundo bom, mas você e seus amigos vão vencer onde os Sete da Profecia falharam – ela disse com um brilho no olhar – A oráculo grega, Rachel Elizabeth Dare, também sobreviveu. Uma garota esperta, aquela. Ela me disse, a duas noites atrás, que sete semideuses surgiriam para nos libertar do domínio de Gaia.

Encarei-a descrente.

- Como você espera que nós cheguemos à Grécia? – perguntei.

- Não, não – ela negou com a cabeça – Esqueça a Grécia, esqueça Roma. Todo o poder agora se concentra no Empire State. Mortais acreditam que lá se encontra a atual base de poder dos militares, e não estão totalmente errados. Quando Gaia acordou, dividiu o poder entre Crio e Saturno, ou Cronos, tanto faz. Cronos governa do Monte Olimpo, com Gaia sussurrando em seus ouvidos, e Crio governa do fundo do mar, em uma caverna protegida. Se matarmos Cronos e Crio, Gaia adormece, os deuses saem do Tártaro e nós voltaremos a nossa vida normal.

Era bom demais para ser verdade. Bom e difícil demais.

- Como mataremos titãs? – perguntei – Eles são imortais, Reyna.

- A imortalidade dos titãs é equivalente a uma pessoa mergulhada no Estige – ela explicou – Se achar o ponto fraco, o titã morre e sua essência vai para o fundo do Tártaro.

Assenti com a cabeça.

- Entendo que isso é demais para tão pouco tempo – Reyna colocou a mão no meu ombro – Mas a vida de um herói é recheada de dor e sofrimento.

- Que sorte a nossa – prendi a adaga no cinto.

- Venha, hora do almoço – saímos do galpão – Vocês e seus amigos terão, no máximo, cinco dias para ficar em nossa caverna e prepararem-se. O destino do mundo está em suas mãos.

E olha que não deu nem meio dia ainda.

** *

O Refeitório era outro salão imenso esculpido em pedra. Mesas de pedra, cadeiras de pedra, bancadas de comida de pedra... Tudo de pedra. Até mesmo as estátuas em homenagens aos Heróis do Olimpo eram de pedra cinzenta.

- Alabaster! – chamou Reyna.

Ele estava mais velho e mais alto agora, devia estar com dezoito anos, ou algo próximo disso. Da última vez que vi Alabaster Torrington, ele era um garoto pálido, magrelo, com sardas nas bochechas, cabelos pretos lambidos e olhos verdes escuros. Agora tinha uma aparência séria e esbelta, sem ser musculoso. Mas o abraço que me deu foi tão forte que quase quebrou minha coluna.

- Carollyn – ele disse quando me soltou – Você cresceu!

- Nada que uma vida no meio da guerra não faça – falei dando de ombros.

- Me desculpe, deuses, me desculpe – ele disse segurando minhas mãos – Guiei nossos irmãos para morrer por Cronos e...

- Eu sei – respondi – Eu estava lá lutando, Al. Mas você compensou bem aqui. Feitiços de proteção, uh?

- E de leves de confinamento – respondeu sorrindo largamente – Agora que a nossa resistência tem dois filhos de Hécate, poderemos deixar os feitiços ainda mais poderosos. Fico muito feliz em saber que você sobreviveu, Carol.

Olhei de relance para Reyna. Seu olhar respondeu minhas dúvidas. Alabaster ainda não sabia sobre a nova profecia, e que eu provavelmente não vou ficar viva por muito mais tempo.

- Igualmente – dei um soquinho amistoso em seu braço.

- Praticando muitos feitiços?

- Hoje de manhã explodi um estacionamento com uma serpente de fogo.

- Legal – ele sorriu – Bem, não vou ocupar mais o seu tempo. Vamos nos ver mais frequentemente conforme você se estabelecer na caverna. Vá almoçar com seus amigos. Até mais.

Fui até a bancada de comida, peguei dois pães, um pedaço de queijo e suco de laranja. Sentei-me a mesa onde estavam os outros seis.

- Ei – disse Caleb mastigando – O que a pretora queria contigo?

- Perguntar nossas intenções e coisas do tipo – menti. Contarei a eles hoje à noite, não estragarei o almoço – O que acharam do lugar?

- Legal – Troian prendeu os cabelos ruivos em um coque mal feito – Gostei muito da área de treinamento.

- Gostei de rever alguns dos meus irmãos – disse Peter.

Ficamos em silêncio por alguns minutos.

- Isso é tão estranho – falou Anne de repente – Digo, nos conhecemos ontem a noite e agora, dezesseis horas depois, estamos almoçando num grupo de resistência sem nem mesmo nos conhecermos direito.

- Cada um faça um resumo da sua vida – ordenou James – Eu começo. Nasci na Califórnia, morei com a minha mãe e meu padrasto até os doze, então fui para a Casa dos Lobos ser treinado por Lupa. Entrei para a legião aos treze, depois de salvar um garoto de um monstro. Eu voltava para a casa da minha mãe durante os meses de aula, agora nem sei o que aconteceu com ela ou com o meu padrasto. Uma vida normal de semideus.

- Basicamente a minha história – disse Troian.

- A minha também – disse Caleb.

- Nasci em Seattle – disse Peter – Eu morava com o meu pai no mesmo bairro em que está a maior biblioteca da cidade, onde meu pai trabalha. Meu sátiro era meu melhor amigo da escola, cheguei ao acampamento aos onze. Fui reclamado naquela noite. Lutei na Batalha de Manhattan e lutei contra os romanos que tentaram invadir nosso acampamento, depois fugi para viver por conta própria quando a deusa da terra despertou.

- Nasci na Nova York de 1933 – contou Damon – Nunca conheci de fato minha mãe nem meu pai. Fui rudemente arremessado ao Hotel e Cassino Lótus aos quinze anos por uma Fúria. Cheguei a conhecer Bianca e Nico Di Ângelo por alguns dias, ou seriam décadas? O tempo é tão confuso lá. Quando Gaia assumiu o poder, seus servos arrombaram as portas do hotel e mataram todos os semideuses. Consegui escapar e me esconder em um esgoto, que foi onde encontrei Anne. Juntamos nossas forças enquanto Anne me explicava tudo o que estava acontecendo.

Todos olharam para mim, esperando minha história de vida. Ergui os olhos do meu prato.

- Não vamos estragar um almoço com uma história desagradável – respondi tomando um gole de suco.

- Vamos, nos conte – insistiu Peter.

Suspirei.

- Tudo bem, mas se alguém me der um olhar de pena, perde os olhos – ameacei, eles assentiram – Nasci no Queens, mas meu pai era romeno, ou pelo menos era isso que as moças do orfanato me diziam.

- Então você é uma semideusa grega com nacionalidade romana? – perguntou Anne franzindo a testa.

Dei risada.

- Sim, acho que sim – confirmei – Enfim, eu fui posta no orfanato quando tinha um ano, nunca soube onde meu pai foi parar. Cresci lá, com aquelas criancinhas infernais sempre zombando de mim e me batendo, e as empregadas do orfanato não eram muito melhores – coloquei minha perna em cima do banco e levantei a barra do jeans até o joelho – Veem isso? Ganhei essa cicatriz aos dez anos, quando fui picada por uma cobra. Os dentes dela ficaram presos na minha perna. Corri o mais rápido possível até a enfermaria e bati na porta, chorando e implorando para a enfermeira. Ela só olhou para mim e disse “Bem, torço para que a cobra seja venenosa. Se você morrer, é uma boca a menos para alimentar” e fechou a porta na minha cara. Tive que arrancar os dentes com um garfo.

Eles me encaravam horrorizados. Fiquei com a minha cara de paisagem, mas incomodada. Odeio quando me olham como se eu fosse um cachorrinho abandonado na chuva.

- Isso... Isso... – James perdeu as palavras e só acenou com a cabeça, perplexo.

Troian tocou a cicatriz na minha perna. Tinha o tamanho do meu polegar e era de um tom claro de marrom.

- Maldita sortuda – a ruiva resmungou – Teve muita sorte da cobra não ser venenosa, de não pegar tétano com o garfo ou outra infecção e, principalmente, por não ter que amputar a perna.

Coloquei a perna no lugar novamente.

- E, para finalizar a história da minha vidinha, meu sátiro salvador chegou aos onze anos – terminei – Quando soube que era uma semideusa, não perdi tempo e corri para o Acampamento Meio Sangue. Lutei no lado de Cronos na guerra, sim, todos os filhos de Hécate lutaram. Todos morreram. Eu só sobrevivi porque desertei e traí meu próprio sangue quando chegou a notícia que Cronos havia sido derrotado por Percy Jackson. Voltei ao acampamento e, para minha surpresa, fui até bem recebida.

Falei tudo com toda a naturalidade do mundo, mas minhas entranhas estavam se contorcendo. A culpa me assola até hoje. Eu deveria ter morrido com meus irmãos ou fiz a coisa certa ao fugir? Carollyn, aonde você vai? Alabaster foi exilado do Olimpo e do Acampamento, esse teria sido meu destino também?

Terminamos o resto do almoço em silêncio. Já ouvimos coisas ruins suficientes por um dia só.