Houseki
2 1: Seu Despertar / 2: Sua Maldição
HOUSEKI
Petit Ange
Capítulo 1: Seu Despertar.
Koibito no you da ne motto dakishimete
(Abrace-me mais forte, como se fosse meu amor)
Os orbes esmeraldinos dançavam de um lado para o outro, sem jamais se fixarem realmente em nenhum lugar. Delicadas louças alemãs, peças francesas ainda mais inermes, coloridas de escarlate, exibindo uma nova paleta totalmente intrigante de mistura de cores, num último esforço do sol de brincar uma vez mais com os reflexos que produzia nas superfícies vítreas, antes de pôr-se totalmente e dar lugar ao índigo profundo que já começava a macular o céu dourado.
Uma suave melodia do vento brincava com sua audição, fazendo-o imaginar se alguém não estava na entrada, bisbilhotando as velharias. Não, provavelmente não, já que se estivesse, o sininho teria tocado. Mas ele tinha de admitir que aquele objeto tinha um som tão delicado e límpido quanto. Aquela parte da cidade, apesar de ser apenas uma cicatriz de civilização, parecia mesmo ter o ar mais puro.
Suspirou pesadamente, passando a mão pelos cabelos cor-de-fogo. O fim da tarde era sempre o período que mais odiava. Era tão estranhamente melancólico.
Antigamente, lembrava-se que ficava brincando o dia inteiro, e não se lembrava de nada, mas quando a noite começava a reclamar seu espaço, cobrindo lentamente como piche o céu até então clareado, a tristeza também começava a brotar de algum canto do coração. Hoje em dia, era grande o suficiente para já não mais se importar com isso, mas crianças que têm pais e não os vêem com freqüência acabam importando-se com essas trivialidades.
Tinha, porém, de agradecer seus genitores imensamente: graças à constante ausência deles, tinha o dom para cuidar da loja desde pequeno. Por conta de sua idade, jamais pagou contas ou coisas do tipo (mesmo que, hoje em dia, já fizesse isso muito bem), mas sempre fazia o levantamento no fim do mês, recebia as velharias que chegavam encomendadas e atendia os clientes.
Além disso, mantinha a casa relativamente limpa (afinal, uma criança não podia, com a altura que tinha, limpar o teto e os cantos mais altos da casa). Cresceu responsável por si mesmo e pelos negócios. E pensava, hoje em dia, que talvez fosse um truque de seus velhos desde o início, aquele de deixá-lo o tempo todo sozinho para que não fosse uma criança que não se importa com nada na vida.
...Talvez o vento fresco estivesse começando a deixá-lo com febre.
O rapaz, geralmente, evitava este tipo de pensamento. Talvez, porque a noite, com sua característica melancolia, também o fizesse sentir na pele a solidão abrasadora. Mas, principalmente, porque às vezes se pegava rindo, pois já nem lembrava do rosto dos pais. Então, tinha de deixar a loja sozinha um pouco e subir até sua casa, no andar de cima, apenas para ver alguma foto e começar a rir de novo.
Para a sua felicidade, porém, o som límpido do sininho da entrada soou, preenchendo o vazio empoeirado da loja.
- Ah, meu herói! – o ruivo sorriu, reconhecendo a figura que se aproximava.
De cabelos azuis, um azul acinzentado e morto, o rapaz era alto e de pele pálida. A franja lhe cobria a parte direita do rosto, indo até o ombro, num corte repicado e estranho (que já havia lhe rendido apelidos). Os olhos eram azuis, mais vivos que os cabelos, mas igualmente exóticos.
Geralmente, ele vestia-se inteiramente de preto, mas hoje estava até mais comportado, com um casaco azul-índigo sobre os ombros largos.
- “Meu herói”... – ele também sorriu de leve, suspirando em seguida. – Vou fingir que nunca ouvi isso, para o nosso bem.
- Eu estava aqui, entediado, sozinho... Você sempre chega nessas horas para me salvar, Zexion. – insistiu, divertindo-se com o rosto do rapaz à sua frente, que beirava a incredulidade asquerosa.
- Bem, eu vim fazer um convite para sair dessa loja estranha, mas parece que vou ter que mudar a rota para o hospital mais próximo, não é, Axel?
O ruivo não se conteve, e deixou escapar um riso divertido.
- Eu estou muito bem, entendeu? – e tocou a têmpora com o dedo indicador.
- Pois nem parece. Senti seu cheiro lá de fora.
Agora, quem contorceu o rosto em incredulidade e asco, num combo nada agradável, foi o rapaz dos olhos verdes.
- Eu estou fedendo a quê...?
- Hoje, está cheirando a lavandas. – Zexion falou, num tom quase teatral. – Mas, também, está com um leve cheiro de melancolia.
Axel lembrou-se, invadido por uma nostalgia inevitável, da primeira vez em que aquele estranho dom do rapaz de cabelos azulados foi-lhe mostrado. Estavam os dois naquela loja, analisando uma coleção de delicadíssimas taças Venezianas. Até ali, o ruivo já não se importava com o excêntrico passatempo do amigo, que tinha uma coleção de cadernos, Lexicons, que usava para anotar qualquer impressão acerca coisas que ainda não tinha visto.
Era como um diário ambulante, e muitas vezes ele teve de proteger o outro de garotos mais velhos na escola que queriam xeretar aqueles livros. Na verdade, depois de um certo tempo, quando alguma nova peça antiga chegava à loja, Axel sempre ia avisar Zexion do fato, para que o menino pudesse anotar suas observações e fazer desenhos daqueles objetos fantásticos (no fim, isso se provou muito útil para ajudar no fim do mês, com os saldos finais e listagem de propriedades).
Enfim, naquele dia em especial, Axel estava dando uma aula (ou repetindo as palavras que ouvira do entregador) sobre aquelas taças Venezianas para o amigo de cabelo eternamente estranho (não que pudesse falar muito), enquanto o mesmo anotava tudo, bastante impressionado com seu reflexo no vidro delicado. Em certo momento, lembrou-se do pai; não sabia porquê, nem mesmo tinha uma imagem fixa, simplesmente um sentimento melancólico abateu-se sobre ele, quando pensou no mesmo.
Nesse momento, Zexion parou tudo o que estava fazendo e pediu desculpas por interromper (sempre tão polido...). No instante seguinte, segurou a sua mão, sem pensar muito no que estava fazendo (e isso ele próprio confessou, mais tarde, mesmo que ele fosse, na verdade, a pessoa mais calculista que Axel conheceu), e disse que sentiu cheiro de solidão vindo dele. E que ficou muito intrigado com aquilo, muito mais do que com uma coleção de vidros cheirando a poeira quente.
Bem, a amizade deles sempre tinha esse tipo de guinadas estranhas, mas era sempre hilário lembrar delas. Nem sabia como as pessoas ainda os consideravam heteros.
- E depois eu que sou o estranho! – resmungou, enfim, com um sorriso involuntário no rosto ao lembrar-se de que ficou extremamente assustado, no início, com uma pessoa que cheirava emoções, ao invés de simplesmente odores. – Que frase mais...
- Bom, meu olfato é sensível demais, mas não tenho condições para trabalhar com ele no momento. Aliás, que deslize o meu! Esqueci de cumprimentar-lhe: boa tarde, Axel.
Ele ergueu-se da cadeira onde estava, até então, sentado.
- Não precisa ser assim tão formal, Zex. – mas lembrou-se de que ele sempre insistia em serem ambos educados. – E, antes que você me incomode, boa tarde pra você também.
- Obrigado. E, aliás, “Zex”... – suspirou de novo, chocado. – Hoje, você está tirando o dia para ser bizarro, é?
Ignorando solenemente aquela pergunta, o outro continuou: — Antes de eu te interromper – oh, que horror! –, você estava dizendo...?
- Ah, sim. – assentiu. – Estava convidando-o para sair.
- Você, querendo sair? Perdeu a virgindade? Foi aceito em Harvard?
- Muito engraçado! – e, apesar disso, ele estava rindo. – Só pensei que você precisava de ar fresco, Axel. Já passou do horário de trabalho.
(É claro, Zexion, como o responsável que era, jamais iria convidá-lo para sair sem que o horário tivesse sido completo!).
Encarando o relógio, o ruivo passou a mão pelos cabelos revoltos, percebendo que realmente, indiferente ao seu tédio, o tempo passou. Ele sempre passava. Dias se transformavam em semanas, semanas em meses e, quando percebia, mais um ano inútil havia se passado.
- Tem razão. – suspirou, estalando o pescoço. – Nossa, preciso mesmo de uma folga!
- Só para constar, Axel... – e o rapaz alto colocou as mãos nos bolsos da calça. – ...Eu pagarei a minha parte.
- ...Por que está me convidando, então?
~*~*~
O Savage Nymph era o maid café mais famoso das redondezas. Por causa disso, Axel sentia-se sempre um estranho idiota quando entrava ali. Primeiro, porque estava acompanhado de um homem que tinha uma aparência que oscilava entre a beleza andrógina e a frieza que garotas chamariam de “cool type”. E, depois, porque tinha conhecidos ali dentro, o que parecia fazer dele um tarado de carteirinha.
Na verdade, conhecera Larxene longe daquele café. Eram ambos veteranos na época, adolescentes idiotas, e a escola dela estava num intercâmbio com a dele. No fim, Axel acabou tendo que lhe mostrar o departamento esportivo, a biblioteca, salas de aula, enfim, as dependências da escola. Desde aquele dia, ela tinha uma tara inacreditável pelo ruivo.
Porém, antes que fosse violentado ou pior, o intercâmbio acabou e a escola da loira bizarra foi embora (graças aos céus). E, na imensidão de Tokyo, eles nunca mais se encontraram. Isso até o fatídico dia no qual o amigo Zexion apresentou-lhe o maid café que podia servir de restaurante para um rapaz que mora sozinho, sem nenhum dom realmente confiável na cozinha e que desistiu de prestar vestibular para cuidar da loja de antiguidades da família.
O rapaz dos olhos esmeraldinos gostou muito do fato. Belas garotas vestidas das formas mais fetichistas possíveis, atendendo aquelas suas malucas fantasias masculinas enquanto serviam-lhe comida. E tudo isso por um preço bem acessível, de acordo com a palestra de Zexion, que o mesmo lecionou lá na loja mesmo, antes de convencê-lo por A+B que deveriam tentar a sorte.
O problema era que, lá dentro...
- Boa noite, amos! – ...Estava Larxene. E vestida de maid. E ela ainda recordava da tara inexplicável. – Sejam bem-vindos ao Savage Nymph!
Usando o típico uniforme fetichista, ela trajava uma camisa branca quase sem mangas. Por cima, o vestido negro, liso e curto, com alças que iam de seu ombro até a curva do pescoço, deixando à mostra a parte da camisa que ia até o fim dos seios. Um laço branco por cima do avental cheio de babados, típico de uma maid, completava o visual, bem como a meia até o fim das coxas e as botas até próximas ao joelho, também negras.
Com aquele uniforme, por si só já seria bonita. Mas ela também tinha um corpo muito bem feito, pálido como o de uma boneca. O rosto era fino e bem simétrico, com lábios levemente rosados. O cabelo era loiro, extremamente comportado (como se ela usasse potes de gel todos os dias para deixá-lo daquele jeito), com duas “antenas de gafanhoto” (será que o cliente que dissera isso ainda estava vivo?), uma de cada lado da cabeça. Seus olhos, porém, eram o charme dela: uma exótica coloração que misturava o verde da relva virgem e o azul do mar. Impossível definir com clareza a cor dos orbes.
- Boa noite, Larxene. – Zexion parecia sempre mais à vontade, sentando-se calmamente numa mesa e arrastando Axel consigo. Claro, não era ele quem sofria verdadeiros atentados violentos ao pudor. – Vamos querer o de sempre.
- Certinho, Zex! O de sempre! – ela ria. Sempre se ria toda quando Axel aparecia. – E então, hoje não vão querer tirar uma foto comigo?
- Bom, são 500 ienes a mais... – enquanto o rapaz de olhos azuis pensava, com ganas de assassinatos em série, em quantas pessoas mais sabiam daquele apelido, “Zex”.
- Faço de graça pro Axel. ♥
- Pff, muito obrigado. – ele respondeu, com uma gota no canto da cabeça. – Apenas vá buscar o que a gente pediu...
A loira, então, ajoelhou-se, na imitação de submissão feminina mais perfeita do lugar, e começou a anotar os pedidos (então, até então ela estava apenas brincando com eles, como sempre), com um aceno servil de cabeça, ao fim.
- Voltarei logo, amos! – e ergueu-se, com um sorriso de orelha a orelha.
Com um suspiro, o ruivo deixou o cotovelo apoiado na mesa, e o rosto apoiado na mão, fechando os olhos.
- ...Será que ela não se cansa?
- Não posso culpá-la. – o outro riu. – Nunca ninguém viu você com uma mulher. Ela pensa que ainda tem chances.
- Eu quero aquele Lexicon onde você escreveu sobre ela. Vou pôr uns bigodes.
- ...Nem ouse estragar meus preciosos registros. – resmungou.
- Como você é chato. – sorriu.
Revirando os olhos, Zexion preferiu engatar uma conversa bem mais proveitosa sobre a patologia estranha das pessoas que vinham àquele tipo de lugar (bem, eles também vinham). As hipóteses variavam de Complexo de Édipo a leve esquizofrenia. Todos tinham em comum o fato de serem otakus virgens e tarados completos.
Principalmente quando alguma colega da loira ajoelhava-se também, servilmente, e servia café para seus “amos”. Axel aprendera com suas observações silenciosas, a evitar uma bebida que tivesse algum acompanhamento. Larxene sempre esperava que ele pedisse café, por exemplo, mas ele pedia água, às vezes milkshake, e só. Zexion é quem pedia café e ele sempre recebia o tratamento privilegiado (e o mesmo divertia-se muito com isso, verdade seja dita): a loira perguntava-lhe se queria açúcar ou leite, e colocava-o lentamente na xícara, quando ele assentia.
E quando o cavalheirismo do rapaz de orbes azulados alcançava o nível britânico-retrô da decoração daquele lugar, a maid apenas tirava-lhe o açucareiro ou o pequenino bule de leite das mãos, sensualmente, e colocava-o ao lugar. Tudo isso ainda ajoelhada passivamente. Ele ria, divertindo-se sempre cada vez mais com aquilo, e quando não fazia piadinhas sobre como ela queria que Axel estivesse em seu lugar (coisa que ela concordava), começava a brincar, forçando-se a corar como um tarado e dizendo “hum, você devia ter pedido café! Café é tããão bom!”.
Geralmente, quando a conversa estava alcançando o ápice, Larxene chegava com os omeletes e outros pratos decorados com temas fofinhos.
- Quando um natto de loja de conveniência viria assim, não? – Zexion ria.
Como era de praxe, eles selecionavam a loira para lhes servir pelos próximos sessenta minutos. Já eram conhecidos até do gerente. É claro, ela sentava perto de Axel sempre que podia e agarrava-o, enchendo-o de agrados que iam desde beijar-lhe o rosto a deixar o abridor de garrafas cair no meio de seus peitos e pedir para que ele pegasse.
Axel, pelas regras, dizia que não podia tocar no corpo dela, mas a loira insistia então que se encontrassem lá fora. O ruivo apenas suspirava.
Era estressante como ela e Zexion se davam bem! Os dois eram incrivelmente brincalhões e riam de tudo quando estavam juntos. E, mesmo assim, não estavam apaixonados. Aliás, falavam aquilo seriamente, na frente um do outro: eram apenas bons amigos que tinham gostos em comum. E, quando a hora deles acabava, o rapaz de olhos verdes dava graças aos céus pelo fato. Enquanto que Zexion e Larxene despediam-se com sorrisos quase que cúmplices.
Já lá fora, voltando à loja de antiguidades, ele suspirava.
- Juro que ela ainda vai me enlouquecer...
Com um sorrisinho cretino, o outro comentou: – Perdoe-me, mas isso foi tão...
- No bom sentido, “Zex”. – devolveu a ofensa na mesma moeda.
- ...Acho que devo ir para casa. – suspirou, sequer conseguindo esconder o desgosto por ouvir o apelido outra vez.
- Certo. Até amanhã?
- Se continuar me chamando de... – hesitou, enojado. – “Zex”, não haverá amanhã para o senhor, Axel.
- Hum, essa me deu medo. – riu.
- Boa noite. – encarou-o de perfil, o cabelo revolto e azulado naquele ângulo que o deixava ainda mais bizarro.
- É, que seja. – e o outro fingiu ter medo daqueles olhos. Era um acordo tácito, jamais dito em voz alta: se isso acontecesse, os dois dormiriam satisfeitos.
~*~*~
A noite estava agradável. Agradável até demais para a estação. Possivelmente, amanhã mesmo começaria a chover. A brisa fresca fazia tilintar os sininhos da porta, mas os mesmos, mergulhados na escuridão tétrica de um lugar que cheirava a poeira e solidão, já não tinham mais um ar gracioso. Até deixavam o lugar mais assustador, de fato.
Quando era pequeno, Axel tinha medo de descer de noite até a loja. Ouvia, de vez em quando, barulhos vindos de lá e encolhia-se em sua cama. Com o passar do tempo, aprendeu a lutar com seu pânico infundado e pegava a lanterna para verificar o que estava se passando. Na maioria das vezes, era apenas alguma velharia que caíra do lugar onde devia estar. Sua sorte, até hoje, nunca permitiu que essas coisas fossem de vidro ou de algum material frágil. Assim, era apenas colocar de volta no lugar e ir dormir, a ponto de até ter esquecido alguns acontecimentos assim na manhã seguinte.
Depois do banho, ele lembrou-se que já havia jantado no maid café (e lembrou-se da maid loira que era seu pesadelo pessoal...), e suspirou aliviado por não ter que comer natto ou alguma sopa de misou. Tinha mesmo que começar a aprender a cozinhar. Já estava começando a ficar doentio aquilo de só comer arroz ou coisas que mal alimentavam.
“Bem, amanhã eu penso nisso”, ele dava de ombros. Não se preocupava muito tempo com um determinado assunto.
Na verdade, aquele devia ser mesmo seu maior problema: deixar a vida levá-lo, sem jamais ir contra nenhum fato da mesma. Era uma estranha passividade rebelde que combinava bem com a política servil do café. E, minha nossa, ele já estava com tanto sono que nem mais racionalizava direito!
Escovou os dentes, até mesmo esquecendo de que tinha uma TV e que poderia, muito bem, perder seus últimos minutos preciosos assistindo alguma coisa. Decidiu mesmo era ir dormir. Quem sabe, assim, acordasse bem-disposto amanhã.
Porém, os ouvidos sensíveis ouviram aquele tão conhecido som: algo se chocando no chão de madeira velha. E com um som bem estranho (será que foi vidro, dessa vez?).
Grunhindo de insatisfação por ter de descer e recolocar aquilo na devida estante ou prateleira (ah, por que lojas têm que ter tudo sempre tão limpo e perfeitamente no lugar, principalmente quando são lojas que lidam com peças antigas e muito frágeis?), Axel pensou que deveria começar a varrer e limpar a loja com um pouco mais de cuidado. Quem sabe, assim, diminuiria a freqüência de vezes que isso acontecia.
Pegando a lanterna, afinal não queria gastar luz apenas para pôr algo no lugar (assim esperava, pois não parecia que foi vidro... Bom, se fosse, aí seria duas vezes pior) e voltar a dormir, desceu as escadas que levavam à loja. O ar estava abafado e cheirando a poeira. Não importava quanto limpasse em todos os cantos possíveis, até parecia que, para ser uma loja daquelas, um dos requisitos básicos é aquele cheiro inconfundível.
Morando há tantos anos ali, ele até praticamente sabia de onde vinham os sons. Por isso, foi com uma imensa rapidez que identificou o maldito corredor de onde alguma coisa havia caído.
A luz tênue da lanterna iluminava os vidros, as pratarias cheias de desenhos que lembravam brasões ocidentais antigos, colorindo o cenário mergulhado em sombras de uma tímida luz dourada. Lá fora, carros passavam, preenchendo o silêncio oco do lugar com um breve zumbido, que desaparecia tão rápido quanto chegava.
O rapaz deixou escapar um suspiro de tédio ao perceber, pouco tempo depois, que o objeto que causara tanto alarde fora apenas um anel.
- Todo aquele barulho vinha disso...? – talvez, a Física não fosse assim tão aplicável em situações que envolviam lojas antigas. Ou talvez aquele anel fosse feito de titânio.
Quando se inclinou para pegá-lo, percebeu, num olhar rápido, um par de sapatos que não estavam ali antes.
E, repentinamente, sentiu a espinha gelar, a ponto de um arrepio percorrê-la e rebentar-se, em ondas nada agradáveis de pânico, espalhando-se pelo corpo dele.
Ergueu os orbes esmeraldinos, esperando estar apenas sonhando ou tendo uma visão muito desagradável devido ao cansaço (e prometeria que iria visitar um médico, se fosse isso). Porém, muito diferente de um sonho, aquela era uma realidade onde um menino estava parado, com um rosto sombrio e acusador, bem diante dele.
Vestia-se inteiramente de branco, um conjunto simples de uma camisa sem estampas e uma calça de um material aparentemente leve, como se fosse um espírito. E tinha a pele de uma palidez de mortos, tanto quanto as vestes.
Não parecia ser um pré-adolescente. Talvez, tivesse em torno de quinze ou dezesseis anos. Era pálido, magro e de aparência delicada, evidenciada ainda mais devido àquela roupa séria. Os cabelos eram revoltos e loiros, com a franja cobrindo-lhe parte da testa e dos olhos, deixando uma sombra envolver-lhe os orbes de um azul tão puro e profundo quanto o próprio mar. Era a visão mais bela e ao mesmo tempo mais apavorante que o rapaz tinha visto em toda sua vida.
Ele entreabriu os lábios, como se fosse falar. E Axel desejou acordar; acordar e perceber que aquilo era apenas uma ilusão.
- Você é... – o pequeno querubim sussurrou.
Uma voz tão frágil e, ao mesmo tempo, tão firme e cheia de uma estranha malícia, um ódio quase incontido.
Ajoelhando-se, ficando com o rosto próximo ao de Axel, ainda tenso e imóvel, o menino encarou-o fixamente. Ele achou que fosse se perder, e de um jeito que não gostaria nem um pouco, naqueles olhos azuis.
- Lea... – sussurrou de novo.
E uma luz ofuscante, tão dolorosa que ele achou que iria morrer, que nascia de sua mão firmemente cerrada no chão de madeira, cegou-o.
Capítulo 2: Sua Maldição.
Konna ni hikaru nohara no kureru hou e
(E nós atravessaremos aquele campo de luz)
Kimi ga hitori de yuku kara ima wa musunda yubi no tsuyosa ni
(Com a força dos laços de nossos dedos entrelaçados)
Sugaritsuite kimi no kodoku wo hanasanai...
(Não deixarei você ir com sua solidão...)
Assim que a luz não mais lhe feria os olhos, Axel abriu os mesmos. Tudo isso apenas para desejar fechá-los de novo e, desta vez, acordar e ver sua cama de lençóis eternamente bagunçados. Até mesmo o único sofá da casa, aquele lugar tão estranho de se dormir e do qual ele sempre acordava com dores homéricas nas costas, seria melhor.
Porém, nem mesmo aos mais ardorosos apelos a consciência cedeu. Ele continuou sentindo a dor lancinante nos membros, braços e pernas presos por cordas finas e cortantes. Lembrou-se, sem querer, dos tempos de escola, onde o professor de História contava lendas do folclore japonês, e uma delas falava de uma feiticeira que usava fios de cabelo de mulheres virgens como cordas, para simular uma teia de aranha.
Quem sabe, subitamente surpreendido com aquilo, estivesse sonhando com um menino na sua loja que estava de pé onde devia estar o anel que fez um estardalhaço quando caiu no chão (sabe-se lá de onde ele caiu, já que o rapaz lembrava não haver nenhum anel no lugar só reservado a um determinado tipo de louças). Era mesmo a hipótese mais aceitável das que formulou. As outras se perdiam na loucura completa.
Mas o que via diante de si não ajudava muito para que se considerasse uma pessoa sã. Ajoelhado e preso ao chão como a uma marionete, os fios cercando-o nos pulsos, tornozelos, pescoço e cintura. Mesmo tocando o chão, que se mostrou uma superfície de algum lago ou semelhante, tingido numa mistura opaca de vermelho e lilás, ele percebeu que não se molhava. Era como pisar em terra firme.
Sem que tivesse controle sobre o próprio corpo, o mesmo passou a tremer, num misto de medo inconsciente e incredulidade.
- Onde diabos é...?
- Eu estava esperando.
Assustado, Axel percebeu aquela figura loira e misteriosa bem diante dele, sentado no próprio ar. Desta vez, usava o que parecia ser um manto negro que cobria parte de seu corpo. O que o mesmo não conseguia esconder, as estranhas sombras que iam devorando aos poucos as cores pálidas do ambiente faziam isso por ele.
- Esperava por você, Lea. – o pequeno continuou, encarando-o. – Por muito tempo, esperei que você encontrasse algum dos objetos amaldiçoados e fosse tragado pelo ódio deles. Nesse dia, tudo começaria para nós dois.
- Espere um minuto... Quem é Lea? – ele perguntou, subitamente sufocado por aquelas amarras finas e mortais.
- Sua alma fixou-se nesse corpo e transmitiu ao mesmo os pecados que você cometeu. Você, o homem que carrega o peso de minha vida.
“Lea”? “Pecados”? O ruivo, que já não estava entendendo muito, passou oficialmente a considerar aquele um assunto além de sua compreensão.
- Não pode mais fugir. É hora de pagar pelo que fez.
O punho branco e delicado fechou-se, como se estivesse esmagando um inimigo invisível. Aqueles olhos azuis, tão melancólicos, jamais deixaram de encará-lo, nem mesmo por um segundo. Axel sentia-se cada vez mais tragado por aquele ódio velado.
Repentinamente, a dor rasgou-o de cima a baixo, como o golpe de uma espada. O sangue brotou, mesmo que ele não visse nenhum arranhão, nenhum rasgo de pele, e foi misturar-se à água, tingindo-a de vermelho profundo aos poucos. Ele simplesmente brotava como uma doença incurável. O gemido de dor escapou de seus lábios sem que pudesse evitá-lo, enquanto debatia-se em suas amarras.
- Não importa o quanto seja doloroso... Você deve agüentar, em nome dos pecados que cometeu.
Falar era fácil. Quanto mais se esforçava para escapar daquele abraço vermelho, mais parecia que ele enrodilhava-se mais, esmagando-o com dor e agonia.
Axel teve certeza de que morreria ali mesmo.
A menos que acordasse e percebesse que aquele era o sonho mais estranho de sua vida. O tipo de sonho que o faria ter medo de dormir outra vez.
...Estava morrendo, afinal.
E, neste momento, algo despertou dentro de si, uma onda que reverberou tão profundamente que até mesmo parecia vir daquela superfície líquida e calma que mal tocavam seus pés.
Era a Morte. Não que acreditasse na veracidade da mesma, que sempre foi apenas uma sombra anônima que aparecia diariamente nas notícias da TV.
Mas, naquele momento, quer fosse um sonho ou não, ele estava sendo ameaçado.
Com uma força que não julgou ser sua, ele puxou aquelas amarras, tentando parti-las. E percebeu que conseguira, ao menos em um braço.
O garoto de cabelos loiros e revoltos não pareceu importar-se, talvez sequer percebera o fato. E não se moveu um centímetro quando Axel avançou sobre ele, inclinando ameaçadoramente seu corpo para ter um maior alcance, já que o resto de seus membros estava invariavelmente preso.
Bruxuleou como luzes foscas a capa negra, e os olhos azulados acompanharam a trajetória da mão que estava pronta a socá-lo, esmagar seu crânio, ou pelo menos garantir a sobrevivência.
E, então, houve o contato inicial. O primeiro e único.
E Axel percebeu, com uma pungente dor que sequer sabia mais de onde vinha, que aquele era o contato mais delicado que já sentira.
Seus braços foram amarrados outra vez. E a agonia recomeçou.
~*~*~
Os primeiros raios tímidos de sol de uma manhã que prometia chuva em breve tocaram de leve seu rosto, aquecendo-o. Resmungou qualquer coisa, pensando que deveria comprar uma cortina mais grossa. E lembrou-se, com uma irritação matinal que acordava antes mesmo dele próprio, que devia abrir a loja e iniciar mais um dia irritante.
O corpo estava doendo tanto. Talvez devesse ir a um médico e ver se estava com um resfriado. E iria matar Zexion por levá-lo numa noite fresca até um maid café, quando ele podia ter evitado aquela gripe se tivesse ficado simplesmente em casa. E, muito mais do que isso, tinha mesmo que comprar uma cortina mais grossa.
Esfregou os olhos, gemendo mais uma vez alguma frase incompreensível. Axel, então, sentou-se na cama, ainda com os orbes fechados.
Abriu-os devagar, lembrando-se da quentura dos lençóis e desejando ardentemente que o mundo explodisse e ele pudesse dormir só mais um pouco. Porque aquela dor que se espalhava no corpo sequer parecia um resfriado. Não tinha condição nenhuma para...
- Ei, você.
Com um sobressalto que, literalmente, despertou-o para a vida, o ruivo percebeu que havia uma segunda pessoa com ele na cama.
Sentado sobre a mesma estava um menino. Loiro, pele pálida, um estranho beicinho contrariado que não condizia com sua (provável) idade e penetrantes olhos azuis.
- O menino de on... – espere um pouco. Então tudo aquilo foi real?
Bem, nos primeiros minutos da manhã, ele sequer lembrou-se daquele sonho estranho, mas agora que via aquela criança ali, tudo ficava tão mais fácil.
- Você está péssimo. – ele sentenciou.
Passando a mão pelos cabelos, o rapaz suspirou.
- O que diabos está acontecendo? – deu-se por vencido, enfim. – Geralmente, eu sou mais inteligente, mas... Digamos que você está vencendo minha lógica.
Sem mover-se um centímetro do lugar, mais uma vez, o loiro encarava-o.
- Você é Lea, o homem que me assassinou. Está carregando o pecado dele. Você me matou e deve pagar por isso. É assim que os objetos amaldiçoados pensam também...
Axel lembrava-se vagamente daquele menino ter falado algo assim ontem, naquele lugar que pareceu ter sido tirado de uma mistura da pintura mais extravagante de Salvador Dali com pesadelos freudianos infantis.
- “Objetos amaldiçoados”? – será que era o sono que o estava deixando assim, mais lerdo do que de costume?
- Todo objeto tem uma “alma”. A “alma” desses objetos odeia você, por ter me matado. Eles choram por mim e desejam vingança. – ele explicava, sem titubear. – Por isso, eles procuram por você. Como Lea, é seu dever aceitar o rancor deles. Ficarão satisfeitos quando machucarem você. Como ontem...
...Aliás, por que ele sequer parecia muito surpreso por ter um menino louco ali, na sua cama, na sua casa, em plena manhã?
Tentando agir com o máximo de frieza possível e não sair como um louco por aí, alegando que não era um tarado nem nada, ele forçou-se a compreender os fatos.
- Ou seja: estou sendo ameaçado de morte por objetos “com vida”...
- Sim.
- ...E você disse que eu sou um tal de “Lea” e que te matei...
- Sim.
- ...Então, você é um fantasma...
- Sim.
- ...E existem outros objetos amaldiçoados que estão esperando para me pegar e me punir por sua morte, é isso?
- Exato. Temos de procurar por eles, para que possam descansar.
Oras! Estava ainda dormindo, afinal. Precisava acordar ou iria se atrasar para abrir a loja e começar a trabalhar...
- Está bem, já entendi tudo. – apontou para a própria cabeça, pondo ênfase na frase inteira. – Boa noite, fantasminha.
Ao ver o homem alto e de cabelo ruivo e estranho voltar a deitar-se, totalmente indiferente à sua dor, o loiro engoliu em seco.
- EI! – irritado, pegou o primeiro travesseiro que viu e jogou-o na cara do outro.
Assustado, Axel ergueu-se de imediato, como se tivesse recebido diretamente no ouvido um anúncio de incêndio na casa.
- Mas o que...?!
- Acorde já! Nós vamos sair e procurar pelos outros objetos, agora!
Respirando profundamente, para não cometer qualquer erro como, por exemplo, matar (de novo?) uma criança estranha em sua casa e sujar seus lençóis, o ruivo passou a mão pelos cabelos, fechando os olhos.
- Eu tenho que trabalhar. Ou dormir. – quem sabe, falando francamente com aquela assombração ou o que quer que fosse, ele acordaria.
- E eu tenho que descansar.
Axel lembrou-se daquele sonho. Começava a considerá-lo uma estranha realidade, mas, mesmo assim, lembrava-se dele como se fosse algo muito distante de sua realidade monótona.
Em meio àquela dor, quando tocou aquele rosto imóvel, mesmo que brevemente, ele ficou chocado. Era delicado demais, parecia que ia quebrar-se.
- Não gosto de depender dos outros, muito menos de você... Mas só posso ir embora depois que os objetos vingarem-se de você e vingarem a mim também. – o adolescente finalizou.
E, agora mesmo, ele continuava parecendo apenas uma entidade diáfana.
Só podia ser um fantasma... E, mesmo assim, se ele não tivesse conhecido-o ontem numa situação totalmente absurda e tivesse ouvido-o falar que era um espectro, jamais acreditaria nisso.
“Mas no que eu estou pensando?”, ele ponderou. “Eu devo mesmo estar perdendo o juízo! Preciso de um banho, meu senso de realidade está ruindo!”
(Se bem que, mesmo que não acreditasse no menino, mesmo que voltasse a dormir, ele lhe atacaria de novo com aquele travesseiro).
- Será que dá tempo de tomar um banho, pelo menos...? – suspirou, dando-se por vencido. E se surpreendendo por ter sido tão rápido.
Para a surpresa de Axel, o garoto loiro sorriu. E aquele simples esgar na face de Serafim deixou-o tão mais delicado e estranho que sequer parecia ter sido o mesmo de ontem, que o encarava tão seriamente e não dizia absolutamente nada.
- ...Obrigado. – muito a contragosto, o garoto respondeu.
- Claro. – que jeito de se começar o dia!, pensava.
Demorou-se no banho o máximo que seu dinheiro permitia, pois não desejava ver a face pálida tão cedo. Ao sair do banheiro, percebeu que o menino continuava sentado na sua cama, do mesmo jeito. Axel imaginou se um fantasma (minha nossa, era difícil acreditar nisso) podia sujá-la com aqueles sapatos que pisaram sabe-se lá em que parte do inferno. E percebeu também que estava apenas com uma toalha e que o garoto não parecia querer desviar os olhos dele.
Num misto de constrangimento e raiva, pegou suas roupas e vestiu-se no banheiro, aproveitando para finalizar sua higiene pessoal, com a escovação de dentes e tudo. Terminado aquilo, suspirando pesadamente ao comprovar-se sem nenhuma fome e com o corpo totalmente dolorido, de uma forma que nem o banho quente o ajudou, ele rezou, pela primeira vez, para que nenhum cliente atravessasse a porta e fizesse soar o sininho delicado. Porque, se alguém o fizesse, iria ser tratado tão mal...
Sequer convidou o garoto a descer. Na verdade, tentava não pensar nele. Talvez fosse uma alucinação devido à dor. Ainda queria acreditar naquilo.
Porém, quando estava já na loja, varrendo o chão que sempre parecia adquirir um pouco de poeira noturna, lembrou-se do anel. Aquele anel que brilhou quando lhe tocou e que quase o cegou.
Se fosse mesmo um sonho, então aquele objeto não deveria estar ali. Ou, talvez, ele estivesse e Axel desmaiou ou dormiu após pôr o bendito no lugar. Enfim, de todas as formas, estaria em qualquer lugar, menos no chão. Talvez, ele devesse era voltar para a cama e ver se um pouco mais de sono decente acabava com aquela dor em seu corpo e com essa estranha loucura que o afetava desde a noite anterior.
Ergueu a sobrancelha, porém, ao encontrar uma lanterna no chão naquele corredor estreito. E, imediatamente, um mal estar que começava no estômago assaltou-o. Ajoelhou-se, tentando ligá-la, mas percebeu que a pilha foi totalmente consumida. “Tá de brincadeira!”, exclamou mentalmente, recusando-se a acreditar que aquilo era real.
Ao lado da lanterna, para seu desgosto, estava o anel. Esquecendo-se do resto do mundo, pegou-o nas mãos, percebendo-o muito leve. Não devia ter feito todo aquele barulho ao ter caído, então. Observou-o, esquecido do mundo, repentinamente. Tinha um desenho bem peculiar. Era inteiramente negro, com uma figura de um coração, com a ponta que lembrava uma flor-de-lis dos brasões franceses antigos. O contorno era vermelho, e havia dois riscos com leves hachuras formando um ‘X’ em seu centro.
O ruivo teve a impressão de já ter visto aquilo em algum lugar. Aquele mesmo símbolo. Como trabalhava em uma loja de antiguidades, podia muito bem ser um anel de alguma coleção estranha, de alguma família...
- Meu anel.
Estremecendo, porém se controlando antes que pudesse avançar sobre aquele pestinha que só aparecia de repente e o assustava, Axel respirou fundo.
- Escute... Sabe se os outros objetos têm esse mesmo desenho? – aparentemente, era hora de usar um pouco de lógica.
- Têm sim.
Mas já?! Como foi tão estúpido de nem ter percebido isso mais cedo?...
Começava a culpar a falta de estudo há algum tempo. Isso estava começando a mexer com sua inteligência que ele considerava impecável.
- É de alguma coleção?
- Se chama “Heartless”. Era de autoria da minha mãe.
- Ela morreu?
- Foi leiloado depois de sua morte. Como foi o último trabalho dela, todos resgatados devidamente, passaram a valer muito.
Ou seja, Axel estava com um item muito valioso em suas mãos...
Começava a achar que estar com um espírito ou sabe-se não seria assim, de todo ruim. Porém, a realidade bateu em sua cabeça no mesmo instante.
- Um momento! – ergueu a sobrancelha. – Vamos ter que invadir casas de ricaços, ambientes públicos, talvez até mesmo sair do país, caso esses objetos valiosos estejam em locais assim?
O loiro, sem nenhuma intenção de ser irônico, falou, no habitual tom de enfado:
- Mas é claro que sim.
No segundo seguinte, antes que pudesse fazer qualquer coisa, Axel já estava com a lanterna e o anel nas mãos, bem longe dali.
- EI, ESPERE! – bradou, correndo atrás dele.
Esbarrar nas costas largas do ruivo foi o suficiente para que o mesmo soerguesse a sobrancelha de novo. – Se você é, como diz, um fantasma, por que não me atravessou?
- Não acredite em tudo que os filmes de Hollywood dizem... – ele esfregava o nariz.
- Conhece “Hollywood”?
- Está achando que eu sou o quê? – começando a ficar irritado.
- Quantos anos você tem? – antes que ele dissesse que tinha entre quinze e dezesseis anos, que devia ser sua idade mesmo, corrigiu-se. – Digo, como espírito.
O rosto infantil crispou-se, tornando-se sombrio repentinamente.
Axel não sabia no que ele estava pensando, mas era fácil dizer que, por seu semblante preocupado, não era alguma coisa agradável.
- ...Não lembro. – falou, por fim.
- Como é?
- Não. Eu não sei qual a minha idade. – e, repentinamente, o menino pareceu ficar em pânico. – Meu nome... Tudo que eu lembro são dos objetos e... Havia água... Por que eu não lembro de nada, se eu...?
“Mas hein? E só me diz isso agora?!”, ele pensou, desgostoso, e achou novamente que estava lidando com um louco.
Porém, aquele menino parecia ainda mais frágil quando estava assim, totalmente confuso. Nem tinha traços dos olhos azuis gélidos que o encaravam, desejando apenas sua dor. E isso, de alguma forma, alertou-o.
Axel sentiu que devia se afastar, repentinamente fustigado pela compreensão de que aquilo não era nenhuma mentira. O menino era mesmo um espectro, ele sofreu ontem uma tortura de verdade, e talvez por isso seu corpo ainda doesse, mesmo não tendo nenhuma cicatriz física. Mesmo assim, tudo que fez foi pôr sua mão sobre a cabeça do pequeno e suspirar profundamente, repentinamente tocado por aquela fragilidade.
- Escute... Lembra do seu nome, pelo menos? Eu me chamo “Axel”, não “Lea”.
Uma apresentação, em um momento daqueles?... Estava mesmo muito louco, só podia. Mas não achou nada melhor em tão pouco tempo para distraí-los.
- “Axel”...? – sussurrou, como se fosse difícil acreditar naquilo.
- Isso mesmo. Consegue lembrar do seu nome?
O menino dos olhos azulados ficou em silêncio por muito tempo. Em nenhum momento moveu-se, como uma pedra esculpida em mármore branco e macio. Era estranho, pensava Axel.
Ele não se parecia em nada com um fantasma. Era quente demais, real demais para tal. Talvez, estivesse mesmo contaminado pelas ‘visões hollywoodianas’.
- “Roxas”... – disse, enfim.
- Esse é o seu nome?
- Acho que sim. É o único do qual lembro.
Algo não fazia sentido ali. – Incrível, você lembra de informações sobre a coleção da sua mãe, mas não lembra nada de si próprio.
- ...Isso é retórico?
Suspiro. – Enfim, vamos nos concentrar em algo que podemos procurar, ao invés de ficarmos pensando em qual deve ter sido seu nome em vida.
~*~*~
Com um pouco de paciência redobrada para agüentar um moleque que ficava lhe perguntando a toda hora como estava indo ou mexendo nas coisas da loja, Axel descobrira informações interessantes sobre a coleção. E, dentre elas, a de que Roxas ficava com um tom ainda mais profundo de azul quando surpreso.
- Veja só isso. – apontou para a tela do computador. – A coleção “Heartless” foi criada por Nama Hikari. Isso lembra algo...?
Roxas sacudiu negativamente a cabeça.
Era estranho, o ruivo pensava, pois ‘Nama Hikari’, por sua vez, era um assunto que ele certamente ouvira em outro lugar. Tinha um péssimo pressentimento sobre isso, mesmo achando que devia só ser alguma notícia de jornal ou TV aleatória, uma vez que uma mulher tão famosa assim (achava) já aparecera várias vezes na mídia.
- “Heartless”. É uma coleção composta por um vaso e um... Quadro? – silêncio. Muito silêncio. – Escute, você disse que essa tal de Nama Hikari é sua mãe, correto? Já que foi ela que criou tudo isso.
- Bem, é verdade. – assentiu.
- Então, por que ela criou essas coisas tão aleatórias...? Um anel não combina com quadros e vasos!
Roxas apenas encarou-o firmemente:
- Isso era pra ser uma piada?
- ...Você é a criatura mais estranha que eu já vi. – finalizou. – E não é uma piada.
- Vamos procurar ainda hoje pelos objetos, não é?
Axel deu um sorriso irônico. – Só pode estar brincando. Eu tenho que trabalhar, menino. Ainda não morri, só pra constar.
- Mas...
- Amanhã.
Percebendo que Roxas não podia fazer muito, impotente como era, o ruivo finalmente viu-se em paz com seus pensamentos. Na verdade, tudo estava tão rápido que custava a acreditar que estava vivenciando aquilo.
De repente, um menino fantasma aparece em sua vida e reclama vingança de uma coisa que sequer sabia o que era. Mas via muita dor em seus olhos. E, talvez, fosse um maldito tarado. Ele ficou tocado por aquela dor. Conhecia algumas histórias de espíritos que continuam no mundo dos humanos, mas todos eram espíritos sofredores, cujas dores intensas os prendiam.
Aquele menino era tão franzino e delicado. Será que também estava sofrendo, para ser um espírito tão vingativo?
(Bem, isso era um tanto óbvio...).
O peso na consciência estava obrigando-o a fazer coisas muito estranhas. Tais como pensar, por um momento, que devia convidá-lo para tomar ar fresco e acalmar a cabeça (de ambos, diga-se de passagem).
- Escute aqui, quer sair hoj...
- Está falando com quem, Axel?
Sobressaltando-se pela trigésima vez no dia, os olhos esmeraldinos fixaram-se na figura de pele branca e cabelos azulados, uma mistura de um azul que perdia os resquícios de vida e um cinza levemente opaco.
Pôs Roxas escondido atrás do balcão, sem nem pensar muito em algum esconderijo melhor ou na tamanha obviedade daquele local, temendo que o menino fosse visto e Zexion começasse a chamá-lo de “lolicon” ou coisa pior, ou até chamar a polícia.
- Droga, é você, “Zex”! – passou a mão pelos cabelos, tentando aparentar calma. Com a outra mão, pressionava a cabeça de macios fios dourados cada vez mais para baixo.
- Quer parar, por favor, de me chamar de “Zex”? – suspirou. – Bom dia, a propósito.
- ...Bom dia. – resmungou.
- Agora, voltando à pergunta: com quem estava conversando? Ouvi sua voz, mas... Tem alguém mais aqui? – como se houvesse tido uma idéia repentina, ajeitou a gola da camisa. – Seus pais voltaram de viagem? Que falta de educação a minha, sequer trouxe um doce para recepcioná-los...
- Relaxa, Zexion. Meus pais nem pisaram na capital ainda. – por algum motivo, talvez por culpa da tensão, ficar parado daquele jeito.
- Está me machucando! – de repente, Roxas sussurrou, obviamente contrariado.
- Cale a boca. – Axel devolveu, tentando ser discreto.
- Então, talvez, a solidão esteja finalmente deixando-o louco. Falar em voz alta quando se mora sozinho, assim, sem motivo algum, é uma estatística bastante comum, e...
- Zex, não tem nada a ver. – suspirou.
- ...Vou parar de controlar meus impulsos assassinos da próxima vez que me chamar assim. – e sorriu, radiante.
Dando um outro passo para frente, ele aproximou-se mais do balcão.
- O que é isso? – e, repentinamente, esquecendo-se até da raiva, viu o site que era exibido na tela. – Está vendo os trabalhos de... Nama Hikari? Se me permite perguntar, desde quando começou a gostar deste tipo de arte?
Corando levemente por ter sido pego em tamanha... “Desvantagem”, na falta de palavra melhor, o ruivo inclinou ainda mais a cabeça de Roxas, escondendo-o.
- Ai!... – ele reclamou. – O que você...?!
Com um simples olhar, já que sequer podia falar mais, Axel calou-o.
- Está escondendo alguma coisa aí?
“Droga”, gemeu, em pensamento. Agora sim, estava com problemas.
- Claro que não. – por fora, porém, ele era a imagem da descontração. Não parecia estar sequer nervoso. Tinha de agradecer muito ao seu dom de ser um tremendo mentiroso.
- Sei. Então, desculpe invadir sua privacidade, por que está todo inclinado?
- Acordei um uma dor nas costas, Zexion. Só isso. – bem, não estava mentindo. Ele realmente estava morrendo de dor. Mas não era apenas nas costas e aquela desculpa não convenceu nem ele próprio!
- Está escondendo algo de mim... – ele expirou, incrédulo.
- Não estou!
E, no segundo seguinte, Zexion estava bisbilhotando, calmamente, o espaço vazio do balcão, vendo a mão de Axel segurar alguma cabeça invisível, totalmente apoiada no ar.
- ...Realmente, não está escondendo nada. – sorriu de leve.
- O que?!
Seus orbes esverdeados viam, com uma clareza assombrosa, a figura vestida inteiramente de branco, a mão nos cabelos loiros, obrigando o pequeno adolescente a permanecer encolhido ali atrás. Mas os olhos azuis do outro não viram nada disso. De fato, sequer mostraram a surpresa da descoberta.
Apenas rumaram, distraídos, e não encontraram nada. Como se aquele fosse um espaço vazio, absolutamente normal.
E, de repente, o fato de que Roxas era mesmo um fantasma começava a fazer um sentido tão absurdo que Axel sentiu vontade de sair correndo. Não, não iria jamais cometer tal gafe, mas foi seu primeiro pensamento realmente consciente, tirando aqueles que estavam tão embaralhados pela confusão que sequer conseguiram ser traduzidos para uma linguagem mais decente.
“...O que está acontecendo?”, perguntou-se, totalmente estupidificado (mas tentando ao máximo manter a face despreocupada).
- O que é isso ali embaixo?...
Percebendo que, de qualquer forma, Zexion não conseguiria ver o loiro mesmo, largou sua cabeça, enfim, contendo um suspiro de puro alívio. Ao encarar os orbes azulados de Roxas, estremeceu muito de leve, tendo a certeza de que encarava um espectro. E que a dor que seu corpo estava sentindo e aquele sonho maluco (que possivelmente nem isso era) estavam intimamente ligados.
- Ah, isso? – e Axel percebeu-se segurando o anel. – Achei ontem por aqui.
- Isso faz parte da coleção?... – o outro rapaz analisava o objeto.
- Bem, de fato, eu não vi isso aqui, mas faz diferença? – talvez, devesse começar a ser ainda mais responsável com o que chegava para dentro de sua loja.
- Mas é claro que faz! – ele disse, como se fosse óbvio. – Isso não está listado na coleção original. Mas tem o mesmo símbolo.
Axel deu de ombros.
- Será que não é uma imitação?
E sentiu uma pontada nas costas. Roxas lhe dera uma cotovelada.
- Não chame o trabalho da minha mãe de “qualquer coisa”!
- ...Algum problema?
- Nenhum. – trincou os dentes. Se havia alguém que devesse controlar instintos assassinos, esse alguém era ele próprio.
- Reconheci na hora esse desenho, pois, além de ser ‘único’, tem um igual na casa dos meus pais, como deve lembrar.
E tanto o menino quanto o rapaz se entreolharam para, em seguida, encararem o estranho de olhos azulados.
- ...Tem um igual?
Zexion suspirou, obviamente decepcionado.
- Desculpe, mas você é mesmo um tapado! – meneava a cabeça, pesaroso. – Eu que tenho uma desculpa e é você quem esquece que o vaso da coleção “Heartless” foi comprado pela minha família?
Silêncio. O que mais havia para falar depois disso...?
Continua...
Notas finais
Nota #2: Larxene&Axel é conhecido. Mas Larxene como maid é novo. Isso também foi uma sandice sem comentários.
Nota #3: O mesmo vale para o Roxas em sua versão "Cossette sem roupas góticas".
Nota #4: O cenário fumado foi uma tentativa infame e frustrada, obviamente, de recriar os cenários altamente psicodélicos tanto do OVA quanto do mangá.
Nota #5: Sim, dei um jeito de enfiar os objetos amaldiçoados que existem em Cossette e, de quebra, ainda enfiar o símbolo Heartless. Mereço morrer... u.u
Nota #6: Essa é uma minific e, como é baseada em Cossette, que é um OVA que fala do desespero sexual jamais consumado (até porque temos um espírito por aqui), Não esperem limão. 8D
Nota #7: Eu sei que estou esquecendo de algo... Mas me apedrejem mesmo assim. ¬¬'
Então, mais um capítulo (ou dois?). Espero que gostem. =D
E ma Kane-ou, amo-te. (L)
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