Houseki

3 3: Seu Medo / 4: Sua Lembrança


HOUSEKI
Petit Ange

Capítulo 3: Seu Medo.

Chiisana hikari wa kitto kurayami no fukaku ni shizunde iru kara
(Um pequeno raio de luz flutua dentro da mais profunda das trevas)
Tooku madoromu houseki no yume
(O sonho distante de uma jóia adormecida)
Yoru no soko ni futari de sagashiteru
(Faz com que nos procuremos na noite)

Ele devia estar feliz. Conseguiu fazer um bom negócio naquele dia com um senhor de aparência séria que se apresentou como um colecionador e que se interessou pela porcelana Francesa (ironicamente, bem onde achara o anel). Devia estar ainda mais feliz, também, por ter descoberto o paradeiro de um vaso da coleção, sem maiores esforços, apesar de saber que, se desejasse mesmo saber, seus contatos com outros antiquários e derivados certamente saberiam responder também.

Mas, a verdade é que não estava nem um pouco satisfeito. Deixou passar batido o óbvio, e isso o desgostava. Sempre foi muito orgulhoso de sua inteligência e sua oratória. Podia não ser como a de Zexion, mas sem dúvidas, também era boa. Mas deixara o detalhe infame de esquecer-se totalmente do vaso.

Conseguira engolir sua descrença e pedir para que o outro conseguisse falar com os pais e pedir o vaso emprestado. E seguiu-se uma discussão de que desculpa usar, até que a de simplesmente dizer que queria analisar o tal vaso, como um apreciador da arte da falecida artista, pareceu a mais interessante, sob certos aspectos. Depois, era só deixar com o rapaz de cabelos azuis, e ele saberia o que fazer para tornar a história ainda mais verossímil, até mesmo confiável em excesso, se precisasse.

Sabia que não era um mistério tão imenso assim. Era apenas achar a coleção “Heartless” e exorcizar, literalmente, aquele fantasma (bem, quem sabe sofreria um pouco mais, como a primeira vez). E, então, liberdade.

- O que é isso?

Axel desviou o olhar para o menino. Ele apontava para as máquinas de picolés que ficavam na rua.

Outra coisa que o deixava bastante desgostoso era ele. Roxas. Ninguém além dele podia vê-lo. Teve sua prova definitiva naquela mesma manhã, quando Zexion sequer percebeu sua presença (ao menos, o anel não era fantasma. Se é que isso podia ser um consolo... Quem sabe, no máximo, uma ironia). E era mesmo um fantasma vingativo atrás de sua pele. Só esse fato já era o suficiente para deixar o ruivo com o pé atrás. Mas o problema é que ele era uma criança tão estranha que acabava subestimando-o.

Talvez porque fosse um fantasma (precisava dizer várias vezes, nem que fosse mentalmente, essa palavra, para se convencer de que estava andando na companhia de um). Ou porque realmente fosse um pobre inocente. E isso o fazia pensar quantos anos tinha ele quando morreu, se era mesmo uma criança como aparentava, e há quanto tempo vagava buscando o tal “Lea”.

- Isso é se chama ‘picolé’. – ele respondeu, baixinho. Para os outros, era como se estivesse falando sozinho, por isso, precisava tomar cuidado.

- E por que é gelado como sorvete?

- ...Tá brincando ou falando sério? – ergueu a sobrancelha.

Roxas revirou os olhos. – Não é brincadeira.

- Bem... – era a primeira vez que alguém lhe fazia uma pergunta de tamanha obviedade. Pigarreou, antes de responder. – Porque... Porque acho que é uma espécie de sorvete, esses ‘picolés’.

Se ele conhecia Nama Hikari e dizia que era sua mãe (se é que falava a verdade a respeito disso, apesar de não acreditar que um objeto, se tivesse mesmo alma, iria simplesmente tomar as dores de uma criança defunta assim, sem mais nem menos), então era porquê nascera nesta época. Não podia considerá-lo uma pobre criança vítima do período Edo ou ataque terrorista na Segunda Guerra Mundial.

Mas será que nunca vira mesmo um picolé em toda sua vida? Era um item tão comum quanto roupas.

Claro que não podia confiar muito em alguém que sequer lembrava do próprio nome ou de como morreu, por isso, talvez ele apenas não lembrasse que já comeu um.

- Ah. E é bom?

- Eu gostava. – Axel confessou, dando de ombros. – Mas agora, faz muito tempo que não como um.

- É muito caro?

Assim, daquele jeito, mais uma vez o ruivo foi enganado pela percepção de que aquele menino de cabelos loiros mais parecia uma criança normal.

Tal ilusão o fez aproximar-se, contendo um sorrisinho. – Quer um, Roxas?

Para um fantasma que ficava facilmente agressivo e tinha reações muito extremas, a ponto de ser até um tanto egocêntrico, ele ficara bastante humilde naquele instante.

- ...Eu posso?

- Compro um pra você. Quer de que sabor? – e, antes que ele perguntasse, mesmo sendo algo tão óbvio, depois que soube que lidava com alguém que não conhecia picolés, achou melhor já falar: – São todos doces como sorvete, entendeu? Escolha um.

Ele achou que o garoto ia reagir com aquela voz de ofensa, dizendo coisas como “eu já sabia disso!”, mas ele parecia tão concentrado escolhendo um sabor que sequer ouviu-o, aparentemente.

- Vou querer esse. De limão.

Erguendo a sobrancelha de novo, o rapaz pôs as mãos nos bolsos do casaco preto que estava usando. – Gosta de limão?

- Não. Mas é um picolé branco. – ele sorriu de leve. – Gosto de branco.

“E isso lá é motivo para se comprar um?”, pensava Axel. Mesmo que, no fim, apesar de saber que estava fresco e a chuva ameaçava desabar a qualquer momento, acabou comprando dois daqueles.

A primeira coisa que quis ver era se alguém enxergava um picolé flutuante ao lado dele. Respirou aliviado ao ver que ninguém o encarava como se fosse um louco, uma aberração ou um fantasma também. Não sabia que tipo de lei da Física ou da Biologia fazia aquele picolé de limão simplesmente sumir (e até pensou que devia usar esse fato para que Roxas, da próxima, simplesmente roubasse um, não o fizesse gastar dinheiro) no ar e nem ser mais notado, mesmo que o ruivo o visse claramente ser devorado por um menino muito satisfeito com a ‘refeição’.

Se, afinal de contas, estava com companhia, decidiu arriscar, conversando baixinho com o garoto.

Conseguiu fazer alguma evolução, aparentemente, pois conseguira convencer o pequeno, de vez, que seu nome era “Axel” e que não havia necessidade nenhuma de chamá-lo de “Lea”. E obrigou-o a repetir aquele nome em todo final de frase, até que se acostumasse a falar assim, naturalmente.

Percebera também, durante todo o tempo, que ele escondia alguma coisa. Não ousou perguntar, mas ele, naturalmente melancólico em suas ações (mesmo que um pouco infantil), parecia duas vezes mais estranho. Bem, talvez sempre fora daquele jeito. Mas, mesmo assim, era estranho.

Não que Axel convivera com muitas crianças na sua vida. Não era uma pessoa muito sociável, isso desde pequeno. Porém, não imaginava que alguém pudesse ser assim, tão taciturno (à exceção de Zexion, mas esse tinha seus motivos).

E, então, lembrava-se de que estava lidando, mesmo que fosse uma loucura, com um ‘fantasma’. Um verdadeiro fantasma. Era fácil esquecer desse detalhe. Ele era tão parecido com um adolescente normal.

Depois de um certo tempo, quando ele já havia ouvido de tudo um pouco de Roxas (e cada vez mais o achava uma criaturinha estranha), percebeu que a noite já havia caído e tingido a cidade de luzes douradas e escarlates que encobriam as trevas de um azul profundo, placas em néon nas lojas e estabelecimentos e o som da vida que, enfim, podia ser livre para agir como quiser nas ruas geladas.

Seu bairro era bem tranqüilo, ao menos, onde ele morava. Mas, pela noite, parecia que tudo mudava. Assalariados, estudantes e todo o tipo de figura bizarra encontravam-se ali. Como havia muitos bares e departamentos, acabava sendo um local conhecido por proporcionar horas de lazer variado.

- Escuta, você tá com fome, Roxas? – perguntou, encarando o letreiro de um restaurante tradicional.

O menino sacudiu negativamente a cabeça.

- Já está tarde? – emendou.

“O tempo passa quando nos divertimos”, o ruivo quis dizer.

- Sim. Eu estou faminto... – ao invés disso, confessou aquilo. Não com menos tom de familiaridade, porém.

- Mas você não trouxe muito dinheiro consigo, Axel. – replicou.

Droga, era verdade.

~*~*~

- Boa noite! Seja bem vindo ao Savage Nymph, amo!

Axel conferia o dinheiro em sua carteira. Poderia comer decentemente, ao menos, mais ou menos como fazia sempre que vinha ali.

- ...Oi, Larxene.

Enquanto a loira os conduzia até a mesa onde ele sentava geralmente, o rapaz dos olhos esmeraldinos observava, com uma diversão velada, o pânico de Roxas ao encarar aquele ambiente retrô, decorado como uma casa britânica antiga. Mesmo que tivesse, talvez, quinze ou dezesseis anos, se sequer conhecia um picolé, não devia mesmo conhecer um lugar como aquele (imaginava. Mas o fato dele estar sem muitas memórias também podia enganá-lo, simplesmente).

Sentiu-se um pouco culpado por levá-lo àquele lugar e estragar sua inocência mórbida infantil, mas sua fome falou mais alto e não queria comer mais sushi do mercado. Ultimamente, andava vindo muito àquele maid café. Isso iria deixar a maluca que sempre o atendia mal-acostumada. E, mais do que isso, deixaria sua carteira em uma condição não tão bonita assim.

Roxas, o tempo inteiro desde que sentaram, ficava encarando as pessoas que ali estavam, homens que ainda tinham o terno do serviço do escritório, com os rostos levemente vermelhos pela bebida. Alguns outros eram estudantes, mais jovens e mais afobados. E o tempo todo, sua sobrancelha permaneceu erguida, como se absorver aquele antro de mulheres vestidas de forma provocante e homens que aprovavam e até se aproveitavam dentro dos limites da lei daqueles serviços fosse, para dizer o mínimo, a experiência mais traumatizante que vivenciara desde sua própria morte.

- Tudo bem aí? – sussurrou, tomando cuidado para não ser ouvido por mais ninguém.

- Esse lugar... O que é isso? – Roxas perguntou, encolhido em sua cadeira.

- Se chama “maid café”. É um lugar bem fetichista, como pode notar, mas tem uma boa comida e é mais barato que os restaurantes da região. Eu e o Zexion comemos aqui de vez em quando.

- “Zexion” é aquele seu amigo de cabelo azul, não?

- Esse mesmo.

- Ah. – e voltou a encarar o ambiente, intrigado.

(Não o culpava. Era muito difícil imaginar que alguém tão ‘comportado’ quanto o outro rapaz fosse, na verdade, um pervertido que ficava rindo o tempo inteiro, com um comportamento quase tão infantil quanto o da própria Larxene).

Por falar no diabo, a mesma sentara-se ao seu lado. Só isso foi o suficiente para que ele suspirasse pesadamente.

- E então? – sorriu, radiante.

- ...Como?

- Quando vai aceitar sair comigo?

Roxas desviou os olhos, chocado, para a cena à sua frente. Ao ver o choque do outro, Axel corou, nunca soube se muito ou pouco, sem controle sobre si próprio.

- Além de ser assédio, você está proibida de sair com um cliente.

Ela riu. – Mas sempre se pode abrir uma exceção.

- ...E perder o emprego.

Larxene fez um beicinho, cruzando as pernas. Serviu-o de mais bebida, provocante como era de se esperar de uma maid. Depois daquilo, voltou a se se encostar a seu ombro.

- Você é tão difícil! ♥ – sorriu. – Isso me deixa...

- Por favor, nem termine essa frase...

Dando uma rápida olhada em Roxas, Axel percebeu que o loiro estava encolhido em seu lugar, fuzilando-os com os olhos. Era incrível como aquele fantasma tinha um humor tão volúvel e, o pior, ficava assim sem praticamente nenhum motivo! Quem devia estar irritado era ele, pensava o mesmo.

- Tudo bem, vamos falar de coisas mais agradáveis: onde está o Zexion, hoje?

- ...E desde quando isso é agradável? – acabou rindo, sem evitar a piada.

- Você me entendeu, né! – ela também riu ao entendê-la. – Ele está na faculdade a essa hora, ainda?

- É sim. Volta bem tarde, na verdade. – e enfiou outra garfada na boca.

- Como será que ele consegue acordar tão cedo, se tem que fazer tanta coisa depois que chega em casa?... – pensativa, Larxene aproveitou e agarrou-se ainda mais ao ruivo.

Axel suspirou, tão logo engoliu a porção.

- É o que me pergunto desde que ele começou a estudar e consegue, mesmo tendo curso de tarde e de noite, vir me encher a paciência pela manhã quase sempre.

A loira riu ainda mais, mas contendo-se para não chamar a atenção de outras colegas ou do gerente (apesar dele compreender, mais ou menos, a situação).

- Gosto quando ele aparece, mas...

E inclinando-se, acariciou o rosto do ruivo.

- ...Gosto ainda mais quando você está assim, sozinho.

Axel estremeceu. Sentiu a canela doer como se houvesse sido chutado.

- Algum problema, querido? Machucou-se? Quer um beijinho para sarar? – Larxene perguntou, percebendo o movimento brusco.

- Só quero que tire as mãos de mim... – suspirou.

“E quero a cabeça desse moleque na minha loja, de troféu!”, bradou, encarando-o firmemente. E percebeu a raiva incontida nos olhos do outro também.

~*~*~

“Onze e quinze, droga...”, pensou, encarando o relógio.

O tempo era mesmo uma coisinha muito cruel. E ele achando que nem havia ficado muito tempo no maid café.

Lembrando-se do mesmo, Larxene, como sempre, flertou com ele até o último segundo. E, em seguida, despediu-se com aqueles seus gestos infantis de sempre. A canela doeu todo o trajeto até sua casa, adicionando mais uma dor àquelas que já sentia no corpo desde o encontro com o primeiro objeto da coleção de Nama Hikari. Nem mesmo um banho quente estava resolvendo.

Roxas também não estava ajudando em nada. Sentou-se na cama e ficou ali, de braços cruzados e um beicinho de insatisfação. Fazendo birra como uma criança mimada. Axel suspirou e deixou-o fazer como queria; tinha mais com o quê se preocupar, como, por exemplo, se não ia perder um membro da próxima vez, contas a pagar, até mesmo se Zexion conseguiu falar com sua família. Enfim, outras coisas.

Quando, depois do banho, percebeu que o menino continuava ali do mesmo jeito, a pele pálida reluzindo na luz prateada da lua, viu que ele realmente estava contrariado.

Parecia cada vez mais com um garoto normal. E isso, ao contrário do que achava no início, quando se conheceram, não lhe dava mais um certo medo. Apenas era... “Normal” como sua aparência.

- Você tá na minha cama. – ele disse.

- Não me diga! – rebateu o loiro.

Seria uma competição de “quem diz a coisa mais óbvia”, agora? – Eu quero dormir...

- Pois durma! – continuou nem dando o braço a torcer.

- ...Não posso, com você bem aí em cima de tudo. – estava começando a perder a paciência com Roxas.

Mas ele parecia tão estranhamente engraçado daquele jeito que até estava dando corda para ver até onde podiam ir.

- Amanhã, vamos cedo procurar o próximo objeto da coleção. – ele respondeu, desviando do assunto.

- Tenha paciência, Roxas. Zexion disse que ele irá conseguir o vaso.

- Podemos procurar o quadro, enquanto isso.

- ...Você está começando a me irritar.

- Pois você também está me irritando muito! – e a voz dele subiu algumas oitavas naquele descarrego de palavras. – Não é “Lea”, mas me trata com o mesmo desinteresse! E ficou se agarrando com aquela...

Os olhos azuis desviaram-se, subitamente envergonhados. O garoto encolheu-se ainda mais em seu próprio corpo.

Sem acreditar no que estava ouvindo, o ruivo precisou sentar-se na borda da cama, com um sorriso igualmente descrente no rosto.

- ...Você não está com ciúmes, está?

O silêncio foi a única resposta que recebeu. Roxas sequer se mexera.

- A Larxene é só uma velha conhecida. – ele explicou-se. Achou que suas atitudes falariam por ele porque, apesar de tratá-la relativamente bem, era indiferente aos avanços da mesma. – Além disso, já pedi pra parar de me comparar ao tal “Lea”. Apesar de tudo, acho que até me importo bastante com você. Veio aqui do nada e, logo no começo, já me atacou. Estou dolorido até agora, sabia? – disse, massageando o pescoço tenso. – E, mesmo assim, não te expulsei, machuquei e nem nada. Compreendi sua situação e até aceitei, mesmo que, literalmente, me doa muito, em ajudá-lo a recuperar o resto de suas memórias e a alcançar o descanso eterno.

O silêncio permanecia como único contato.

- ...Roxas, você está sendo irracional. – ele suspirou.

- A solidão. – ele sussurrou, hesitante.

- Hum?

O adolescente parecia estar travando uma verdadeira batalha consigo mesmo. Axel o entendia, de certa forma.

Ele era bastante orgulhoso. Arrogante, temperamental e muito orgulhoso. Não devia ser fácil, para começar, depender de alguém que, supostamente, “o matou”. E as coisas só pioravam a partir disso.

- Quero você só para mim, Axel. – ele confessou.

O ruivo engoliu em seco.

- ...Se você ficar se distraindo com outras coisas, vai esquecer de mim. – ele emendou, imediatamente. O outro percebeu um leve rubor nas faces angelicais.

- É claro que eu não vou esquecer de você. – ele sussurrou, com um meio sorriso, não soube se de diversão ou por ter simplesmente compreendido e até se sentido tocado por aquela reação tão... “Humana”. – Até porque, Roxas, você é tão chato (no bom sentido, acho) que nunca sai do meu pé. Por exemplo, eu estou dormindo e, de repente, você aparece... Quem o esqueceria?

Ele não soube se aquilo convencera o pequeno fantasma. Mas, quando o menino moveu-se, soube que, afinal, ‘vencera’ a guerra.

Roxas encarou-o. E tinha nos olhos um ar frágil que Axel, até então, não vira. Ele estava sempre tão melancólico e sério, desejando apenas a vingança e sequer confessando-lhe muito mais do que a identidade da mãe. Foi difícil perceber que aquele menino tão humano, mais humano do que nunca, também era aquele que o encarava seriamente, quase como se desejasse lacerá-lo até a morte.

- Não quero ficar assim... – confessou, num tom tão baixo que o rapaz esforçou-se para entender. – Sozinho e sem memórias pra sempre.

Axel aproximou-se mais do pequenino, tocando-lhe no ombro.

- Lembra-se que você me disse, quando me encontrou, “eu estava esperando”?

Um lampejo de compreensão e, logo em seguida, uma enorme hesitação passou pelos olhos cianos, mas nada foi dito. Roxas apenas assentiu.

- Pois então. Você já encontrou. – permitiu-se sorrir calmamente. – E, agora que estamos juntos nessa, para o bem ou para o mal, você também não vai se ver livre de mim. Vamos terminar direito essa estória, para que você possa descansar, como deseja. Em paz e com muitas memórias.

E então, num impulso que foi somente seu, o garoto aproximou-se mais do corpo do outro, não recusando a mão que circundava seus ombros.

Aquela foi sua primeira “memória” de um abraço. E foi muito mais do que esperou.

Não soube por quanto tempo ficou encolhido, saboreando secretamente, com um contentamento quase que indecente aquele toque. Desde que encarara aqueles orbes verdes, teve a verdadeira impressão, como se marcassem a ferro e fogo em seu corpo, que odiaria aquela ‘reencarnação’ de seu assassino.

Ao contrário, tão logo passou a parar de vê-lo apenas como “Lea”, a personificação de seu ódio, só aquilo que queria enxergar, e viu um pedaço de “Axel” lá dentro... Foi como um oásis. Um remédio para seu coração.

Soube que estava perdido. Roxas já não tinha mais forças para nadar contra a maré.

(E, ironicamente, com uma expressão sombria, lembrou-se que, tanto não tinha forças para tal, que morreu afogado).

- Sabe, Axel... Você é estranho. – comentou. – Aceitou tão rápido tudo isso. Achei que iria ter mais trabalho quando encontrasse “Lea”. Achei até mesmo que teria de forçá-lo a me aceitar e a acalmar os objetos amaldiçoados.

Ele sorriu, aqueles braços quentes estremecendo delicadamente no abraço cúmplice.

- E, mesmo se eu fosse contra, você ia parar de me incomodar? – ergueu a sobrancelha, desviando o olhar para o menino.

Roxas também deixou escapar um sorriso. – Não.

- Apenas “siga o fluxo”, Roxas. Não há ditado mais inteligente que esse, entendeu?

Capítulo 4: Sua Lembrança.

Hitotsu dake shikanai namae de watashi wo yonde hoshii no
(Por favor, chame-me por aquele nome que só você conhece)
Mada daremo shiranai sekai no dokoka de nemutteru
(Aquele adormecido em algum lugar deste mundo)
Omoide to mirai ni zutto kagayaite
(Que brilha para sempre no futuro de minhas memórias)

Uma noite sem sonhos era tudo do que precisava, depois de uma seqüência de dias tão exaustivos. Parecia até mesmo que estava doente, na verdade. Desde aquela noite, o corpo doía sem tréguas, e parecia até mesmo que aquela dor lhe sugava as forças. Axel imaginava que, se apenas um daqueles três objetos já foi capaz de lhe fazer isso, quem dirá quando o vaso finalmente chegasse até Zexion e ele tivesse de batalhar a “alma atormentada” dentro dele.

Lembrava-se de como a dor foi tanta que ele achou que fosse morrer. Estava preso por fios que pareciam cabelos, de pé numa superfície líquida que não o molhava. E, principalmente, lembrava-se de Roxas vestido com uma capa negra, como um comensal, enquanto os olhos azuis, vazios como se estivessem mortos, apenas recitavam a vingança, as últimas palavras para um condenado.

A claridade de uma nova manhã aquecia seu rosto, fazendo-o perceber, com muita amargura, que estava na hora de levantar e ir trabalhar. E, mais uma vez, desejava apenas ficar dormindo para sempre. Até que aquela dor passasse.

Tomaria mais um banho quente e relaxaria os músculos, mas nem quando tomou um remédio (geralmente, ele costumava acreditar que não precisava de medicamentos até o último minuto) as fisgadas contínuas cederam. Era como se aquela dor estivesse marcada em sua alma. Não havia cicatrizes; mas ele lembrava-se com uma clareza absurda de como o sangue brotou e jorrou, manchando a água de vermelho. Depois daquilo, seu corpo nunca mais foi o mesmo.

Era difícil conseguir ânimo quando a promessa de uma dor ainda pior estava ali, pairando como um corvo.

E, mesmo assim, quando o ruivo lembrava-se da expressão tão desolada e da fragilidade até inumana com que o garoto apresentou-se ontem, era quase impossível não sentir uma tímida inspiração. Como se, por aquele sorriso que se apresentava sempre que a possibilidade de finalmente encerrarem aquele ciclo pós-morte estava ali fosse uma razão suficiente para tal.

(Talvez Zexion tivesse razão: ele era mesmo um shotacon).

De qualquer forma, se estava assim tão pensativo já quando sequer havia abertos os olhos, então já podia levantar.

Lutando contra o aperto das pálpebras que se recusavam a cooperarem, Axel conseguiu vencer. E, ao abrir os olhos, deparou-se com um rosto muito sério a encará-lo a centímetros do seu.

- AH! – berrou, puxando as cobertas para si, num reflexo involuntário.

Roxas afastou-se, aparentemente tomando um susto tão grande quanto o outro.

- Mas o que você...?! – o ruivo passou a mão pelos cabelos revoltos e, mesmo que já estivesse consciente antes, o choque do susto o fez perder totalmente o senso de realidade.

Mas será que aquele menino, mesmo sendo um espírito, nunca dormia?!

Era sempre assim! Ele sempre acordava com aquele rosto praticamente colado no seu, assustadoramente encarando-o com olhos azuis mortos. E Axel jamais iria se acostumar com aquilo, o que era ainda mais irritante.

- Estava esperando você acordar. – ele disse, inocentemente.

- ...O que foi, agora, Roxas? – resmungou, esfregando os olhos sonolentos.

- Tive um sonho, Axel. – ele falou, e não conseguia conter uma alegria na voz, o que ficava até estranho. – E, ao sonhar, eu lembrei um pouco das coisas.

Olvidando-se até mesmo da brisa fresca de uma manhã nublada que trazia o frio diretamente para o torso nu, o ruivo não conseguiu evitar também ficar estranhamente feliz por ouvir aquilo. Não sabia se por Roxas ou porque estava mais perto da liberdade.

- É mesmo? Com o que sonhou? – ou seja, ele dormia, afinal! Mas como conseguia praticamente madrugar daquele jeito?

O sorriso murchou um pouco.

- Uma parte dele eu já sabia... Sonhei com as palavras que ouvi na escuridão da morte. Que certos objetos amarraram minha alma neste mundo por causa do rancor que eles tinham por você. E que eu devia procurar “Lea” e guiá-lo para que os pequeninos pudessem ser vingados. – ele dizia, e até mesmo seu tom de voz voltara a adquirir o tom sombrio da primeira vez em que se encontraram. – E, então, eu devia dividir, rasgar, machucar o corpo dele, porque a sua dor era do que eles precisavam. Matando várias vezes “Lea”, eu purificaria os objetos amaldiçoados.

Que foi exatamente o que fizera quando Axel tocou no anel. E foi com um aperto no coração que se lembrou, sim, da vez em que purificou aquele objeto.

A lembrança da dor ainda era uma constante em sua vida.

- Mas... A segunda parte do sonho foi melhor. – ele voltou a sorrir com um pouco mais de animação. – Sonhei com minha mãe. Ela me contou que fez o anel especialmente para mim, ao contrário dos outros objetos. E que, mesmo assim, aquela era a sua coleção mais preciosa, porque ela a fez pensando em mim. Tirou seu próprio coração e colocou-o nessas obras. Por isso, chamou-as de “Heartless”. Ela me contava tudo isso enquanto subíamos por umas escadas. Havia o mar abaixo de nós. Eu lembro que o mar estava calmo e o céu era multicolor, como naquele cenário que vimos através da ‘alma’ do anel...

(Engraçado, porque o rapaz lembrava-se muito pouco daquele lugar. Mal pôde analisá-lo antes de ser brutalmente violentado, para dizer o mínimo. Em sua mente, estava mais marcada toda aquela dor, isso sim).

- Fiquei pensando... Talvez, os objetos guardem lembranças daquele dia. Afinal, eles estavam lá. Não consegui nada mais, mesmo forçando a mente. Mas, quem sabe... – Roxas parecia tão eufórico, o que era até assustador, que Axel ficou mudo, apenas escutando-o, sem nem saber como agir. – Quem sabe, se conseguirmos purificar os outros objetos... Eles também me digam algo sobre aquele dia... E sobre quem eu sou.

O rapaz dos olhos verdes lembrava-se da decepção do loiro quando pesquisaram sobre Nama Hikari. Havia pouquíssimas menções a um filho. Nem sequer seu nome era mostrado em lugar nenhum.

Roxas chamava-se assim porque era o primeiro nome do qual se lembrou. Mas ninguém garantia que era seu nome real.

E ele pensou, por um breve momento, que se estivesse no lugar dele, um espírito vagando preso ao mundo terreno, buscando vingança apenas porque era nela que estava seu descanso... Certamente, ele também seria assim. E, ainda mais certo, iria ficar muito desapontado de sequer ter pistas de sua vida, quando de alguma maneira sofrera uma lavagem cerebral na morte.

- Vai ser difícil, mas... Sem dúvidas, Roxas, você vai conseguir se lembrar de tudo aos poucos. Eu garanto. – ele passou a mão pela cabeça do menino.

Geralmente, nesses momentos, ele a tirava dali e bradava sobre não ser um animal ou coisas do tipo. Axel nem ouvia, na verdade. Porém, ali ele não fez nada; apenas continuou feliz, embebido em sua própria satisfação ilusória por ver, tão perto e tão longe, a luz no fim do túnel.

Foi quando desviou os olhos para os de Axel.

- ...Obrigado. Acho. – agradeceu, num misto de timidez e orgulho.

A mão continuou ali. Assim como os olhos.

E, então, o telefone tocou. Roxas estremeceu, afastando-se de imediato. Olhou para o corredor, de onde vinha o som agudo, e olhou para o ruivo em seguida, numa pergunta muda e bastante óbvia.

- ...Já vou. – resmungou Axel, finalmente levantando-se.

- Por que você fala com o telefone, assim, se sabe que ele não irá parar? – questionou de repente, seguindo-o.

- Argh. – disse simplesmente, vendo que já começara de forma espetacular (e insira-se muito sarcasmo aqui) sua manhã.

O espectro só pôde ficar parado, observando as costas desnudas do rapaz alto à sua frente, que falava ao telefone e respondia, em sua grande maioria, por monossílabos. Sequer podia ter uma idéia do que conversava ou de quem era, e a cada segundo, sua curiosidade crescia mais.

Axel finalizou com um “certo. Muito obrigado” e emendou, depois de um breve silêncio um “tá bem, de tarde. De tarde, entendeu?”.

- Quem era? O que aconteceu? – Roxas já desatava a perguntar, assim que ele desligou o telefone.

O ruivo tinha uma expressão neutra no rosto branco. Será que eram más notícias?

- Sabe, Roxas...

Será que tinha a ver com a coleção? Alguma coisa aconteceu com alguém? Mas que diabos, ele não falava de uma vez!

- O que foi?! – já começava a ficar irritado.

- ...Zexion disse que o vaso acabou de chegar! – e abriu um enorme sorriso.

Foi o suficiente para que, de um segundo para o outro, o loiro arregalasse os olhos, numa expectativa tão grande que Axel, por muito pouco, não se esqueceu de que estava lidando com um espírito que era bem mais velho do que aparentava (estava começando a parecer um idiota... Precisava tomar cuidado).

- Mesmo?! – perguntou, e até mesmo a voz tinha a emoção do sentimento.

- Sim. Ele disse para que eu viesse pegar amanhã, já que ele não tem aula e pode fazer as honras da casa (frescura dele, mas enfim).

Roxas não falou nada mais, os lábios selados como os de um verdadeiro morto, imerso em seus próprios pensamentos. Mas os olhos jamais se calaram. Estes estavam tão felizes que o ruivo quase achou que ele fosse morrer de novo.

~*~*~

Quando Zexion abriu a porta, no entardecer seguinte, encontrou um rapaz de cabelos ruivos encharcados e a roupa começando a colar no corpo gelado diante de seu apartamento. Porém, se pudesse mesmo enxergar a tudo, veria claramente uma terceira pessoa; um adolescente de cabelos loiros igualmente molhados, logo atrás.

- ...Boa noite, Axel. – cumprimentou, no tom polido de sempre. – Não me diga que se esqueceu do guarda-chuva.

- Tudo bem, então não digo isso. – deu de ombros, com um sorriso irônico.

Suspirando, o rapaz de cabelos azuis exóticos chamou-o para entrar. Roxas, que estava praticamente agarrado à cintura do ruivo desde que a chuva começou a despencar (obviamente temendo que a força dos ventos o levasse para o outro lado do Japão), não teve nenhum problema para conseguir entrar sem segurar a porta e transformar aquele prédio em um novo fenômeno paranormal.

Assim que chegaram, o garoto permitiu-se olhar o ambiente ao seu redor, procurando o vaso. Não o achou, mas percebeu a imensa organização da casa. Tudo estava em seu lugar. Nenhuma poeira, nada desajeitado, era quase que obsessivamente arrumado. Por algum motivo, não gostou tanto do ar asséptico.

A casa de Axel era bem mais desleixada e, mesmo assim, onde a maioria iria preferir alguém ordeiro, ele ainda ficaria com aquele lar bagunçado. Mesmo assim, não podia deixar de louvar um estudante solteiro. Ele era muito bom em manter sua vida, visual e até mesmo palavras organizadas.

Roxas percebeu que, aparentemente, Axel já ‘era da casa’. O mesmo andou até a sala e sentou-se no chão perto da poltrona azul-escura como a noite lá fora, colorida pelos pingos de chuva que deixavam o bairro encortinado numa espécie de vapor líquido. O som da chuva era insistente, retumbava direto nos ouvidos.

- E então? Não vou receber nenhum “olá”? – ele perguntou ao voltar, mantendo a expressão desaprovadora, enquanto trazia uma toalha.

- Oi, Zex... Ion. – emendou rapidamente.

- Que bom que percebeu que está em meu território. – sorriu.

- Depois que soube do que você fez com o Marluxia, sempre tive medo de você. – resmungou, secando-se apressado.

O rapaz riu, sentando-se na poltrona.

- Ele mereceu, foi diferente.

- Mesmo assim... E você fez tudo aquilo sem sequer sujar as mãos. – continuou. – Ninguém jamais ganhará de você em matéria de cretinice.

- Não é verdade. – ele discordou. – Conheço uma pessoa, Saïx: ele é minha inspiração.

- Com que espécie de seres humanos você anda...? – discretamente, Axel deixava que Roxas também pudesse usufruir da toalha.

Ao olhá-lo, porém, de relance, percebeu que o menino sequer estava ali.

“Maldição... Quase esqueço que ele é uma criança”, e apesar de tudo, pirralhos eram sempre pirralhos! Não podia nem sair dali e procurá-lo.

- Não é tão ruim. Na verdade, o senhor Saïx é bem mais decente que eu.

Axel riu. – Entendi tudo! Vou ter que ouvir confissões pessoais de um certo estudante chamado Zexion, né?

O mesmo revirou os olhos.

- Vá tomar um banho, por favor. Essa tempestade não acabará tão cedo.

- Tá brincando... – suspirou.

- Nem um pouco. Os noticiários estavam todos dizendo que hoje, no mais tardar amanhã, uma tempestade memorável cairia. E você, como sempre, distraído! Devia tê-lo deixado morrer de frio lá fora.

- Isso foi tão cruel... – simulou um tom ofendido.

- Não comece, por favor. – massageou a têmpora. – Já é triste o bastante saber que, provavelmente, você terá que ficar aqui...

- Nossa, isso sim foi cruel.

Fuzilando-o com os olhos azuis, o outro replicou: – Segunda porta à direita. Quer alguma coisa?

“Se puder me trazer o Roxas até aqui, agradeço”, quis dizer.

- Oh sim, um pijama. Importa-se de usar um dos meus?

- Eles não vão me matar assim, sufocado, no meio da noite, não é? – Axel desenterrou uma velha brincadeira que fazia com o outro desde que dormiu uma vez em sua casa e acordou com a camisa de Zexion amarrada em seu pescoço, inexplicavelmente (mas, talvez, tivesse a ver com o fato dele se mexer tanto no meio do sono, para sempre acordar, não importa em qual posição dormisse, de barriga para baixo).

- ...Pare de brincar. – suspirou de novo.

Como já conhecia, e muito bem, a casa do outro, o ruivo esperou que o outro lhe trouxesse o pijama (e agradeceu, já que ele praticamente exigiu um), fechando a porta em seguida.

E estremeceu pela milésima vez (ainda iria morrer por isso) ao ver Roxas sentado ali, como se o esperasse.

- Onde esteve todo esse tempo? – perguntou baixinho, tão logo se recuperou.

- ...O vaso “Heartless” está no quarto dele.

Axel suspirou. – Podia me dizer isso depois que eu acabasse o banho, Roxas.

- Não mexi nele.

- Eu sei. – até porque, imaginava, se tivesse mexido, toda aquela agonia teria recomeçado, do mesmo jeito que foi com o anel. – Então, o que esteve fazendo?

- Olhando a casa do seu amigo. – falou, inocentemente.

Ele passou a mão pelos cabelos úmidos.

- ...Até onde você viu?

Sorriu de leve. – Vi aqueles tais de “Lexicons” que você me falou. Têm muita coisa escrita neles. Mas...

Axel parecia prestes a ter um ataque.

- Você mexeu nos “Lexicons”?! – como se aquilo fosse o fim do mundo.

- Como eu tinha dito, só olhei de relance algumas coisas. – deu de ombros. – É como um grande dicionário.

E ele calou-se, como se ponderasse algo no qual pensava.

- Eu... Também vi vários bilhetinhos colados na parede. Fiquei surpreso, porque a casa é tão organizada. Além disso, tinha um calendário bem riscado e duas ou três agendas em cima da mesa de cabeceira.

Axel desviou os olhos. Ele conhecia bem aquele quarto.

- ...Tem alguma coisa errada com ele?

O rapaz nada disse. Em vez disso, despiu-se sem cerimônias do resto de suas vestes, obrigando o loiro a virar-se, corado como um tomate, quando viu que sequer estava sendo respeitado (e respondido).

- EI! – bradou, trincando os dentes. – Por que fez isso...?!

- Ninguém mandou entrar no banheiro quando eu ia tomar banho. – respondeu, abrindo o chuveiro. – Se quiser sair...

Roxas cruzou os braços. – Como vai fazer para entrar naquele quarto?

- Sou VIP por aqui, entendeu? – ele respondeu do Box, enquanto um vapor levemente cristalino começava a invadir o ambiente. – Posso entrar ali quando quiser.

- ...Ele não fecha a porta? – surpreso.

- Claro que não. – ainda mais surpreso.

- Vocês não têm noção de privacidade...? – agora, depois daquela resposta tão natural, o adolescente estava é com medo.

- Nos conhecemos faz muito tempo. – Axel explicou. – Só o fato de eu poder vir à casa do Zexion significa que ele me considera bastante.

- E o que isso tem a ver...? – ele sabia que era melhor ter ficado quieto, mas não conseguiu evitar. Sua boca sempre era mais rápida

- Tem tudo a ver, entendeu? – outra vez, aquela mania do “entendeu”.

Depois daquilo, Roxas resignou-se a ficar quieto, e agora sim conseguindo controlar a vontade de dizer algumas verdades. E resignou-se igualmente a virar o rosto quando Axel saiu dali.

Não antes, porém, de entrever a pele úmida e os músculos (será que erguer caixas e limpar a camada eterna de poeira era um exercício tão eficaz assim?) ainda visualmente tensos. Corou mais uma vez, suspirando.

Ele secou-se e colocou aquela roupa do outro, escura demais para parecer um pijama (mas, por algum motivo, combinava estranhamente). E, com um sorrisinho que não se sabia se era de escárnio ou ironia, deixou o banheiro. Zexion, apenas pelo cheiro que deslizava por cada recanto da casa, havia esquentado comida.

- Olha! Lasanha! – comemorou. – Há quanto tempo não comia isso!

- Está bem barato no mercado, sabia? – o rapaz replicou.

- Nem mesmo quando eu esquento fica boa. Prefiro as que você faz. – e, sem cerimônias, Axel já ia se sentando.

- Sempre sinto o cheiro da pão-durice vindo de você.

- ...E de lavandas. – ironizou.

Roxas ficou de pé ao lado dele, apenas observando a interação dos dois.

- ...Sem querer ofender, mas eu poderia estar com uma bela donzela ao meu lado, comendo lasanha, não servindo de mãe e babá para um marmanjo crescido. Por que você? – suspirou pesadamente.

- Sou melhor que uma donzela. – disse o ruivo, enquanto se servia, quando o outro a recém tinha posto o prato na mesa.

Zexion riu outra vez.

- “Querido diário, hoje o Axel veio até minha casa, com a desculpa de querer olhar um vaso dos meus pais, para confessar sua sexualidade e sentimentos para mim”.

- Vá sonhando! – riu também. – Você sequer faz meu tipo!

- Ah, é? E qual o seu tipo, se me permite...? – soergueu a sobrancelha.

- Gosto das mais meigas. Um ar meio kodomado, sabe?

Zexion revirou os olhos, como se já esperava isso. – E você ainda me fala que não é um lolicon! Devia te chamar de “Humbert” por aquele infame de apelido “Zex”!

Os olhos esmeraldinos desviaram-se para Roxas, cujos orbes azuis exibiam um misto de descrença e um sentimento que não soube determinar, mas muito parecido com o que turvou seus olhos na última visita a Larxene.

Pigarreou. – Não é verdade! ...Podemos mudar o assunto?

O rapaz dos cabelos azuis encarou a janela, observando a chuva que caía incessantemente, enquanto pensava no quão milagroso era o fato de ainda não haver caído a energia elétrica do bairro.

- Claro. Vamos parar por aqui. – ele ergueu-se, então. – Eu vou fazer minhas anotações noturnas e dormir. Infelizmente, amanhã já tenho aula.

- ...Como você sabia que eu ia me oferecer para lavar a louça?

- Você sempre faz isso. Desde pequeno. – meneou a cabeça. – Não tem problemas em dormir no sofá, não é? Bem, mesmo se tivesse, dormiria lá igual. É sua punição por ser um irresponsável.

- Fala isso, mas também nem tem um guarda-chuva.

- Tenho sim, mas emprestei-o. – sorriu cinicamente. – E nem por isso não tomei as devidas precauções para que isso não me afetasse.

- Oh, “meu herói”! – desenterrou o apelido, igualmente cínico.

Roxas sacudiu a cabeça, perguntando-se, do seu lugar, qual deles era o mais infantil (naquele momento, já que Zexion, de longe, era muito mais maduro).

- Ei! – e Axel ergueu a sobrancelha também. – Para quem emprestou?!

O rapaz empalideceu.

- ...Para ninguém que lhe interesse. – disse, tentando manter a compostura.

- Mentira! Emprestou sim para alguém! – e, num lampejo, o ruivo abriu um sorriso cruel. – Para o tal de Saïx! Você o viu hoje!

Zexion passou a mão pelos cabelos. – Quanta besteira!

- Não adianta fugir! Eu sei que ele esteve aqui!

Mesmo assim, não o seguiu quando o outro desapareceu pela porta da cozinha, totalmente sem-jeito, mesmo que não demonstrasse tal sentimento. Axel apenas deu de ombros, ainda rindo internamente por aquilo, e tirou a mesa.

Só então Roxas saiu de sua aparente passividade, indo ao lado do ruivo e olhá-lo abrir a torneira e começar a lavar a louça alheia.

- ...Quer ajuda? – perguntou o garoto.

- Obrigado, posso cuidar disso sozinho. – se pudesse, passaria a mão pelos cabelos loiros e revoltos, como agradecimento, mas as mesmas estavam molhadas.

- O que ele vai fazer? – arriscou.

- Algumas anotações. Mais bilhetinhos na parede, acho.

- ...É algum problema na cabeça?

Axel suspirou. O som do vidro dos pratos batendo-se era tudo que preenchia de sons o ambiente, excetuando a chuva que fustigava a cidade.

- Eu era criança ainda quando conheci o Zexion. A família dele não é de Tokyo, veio passar uns dias aqui a negócios e passeio. Conhecemo-nos ao acaso. Ele vinha sempre que podia aqui e nós brincávamos. Acho que eu era o único amigo não-interesseiro dele. A família dele é rica, sabe... – os orbes esmeraldinos estavam melancólicos, como se vissem diante de si um passado ricamente colorido. – Enfim, éramos muito amigos, mas ele precisava voltar. E, na volta... A família sofreu um acidente. Então, o Zexion perdeu a capacidade de memórias a médio e longo prazo. No início, ele sempre acordava e pensava ser o dia do acidente. Dizia “mas nós não estávamos indo viajar hoje mesmo?”.

Roxas baixou os olhos, subitamente violentado por aquela revelação.

Sabia que ele tinha um problema desde que vira os bilhetes na parede com lembretes normais, que qualquer um saberia guardar, mas...

- O Zexion é o primogênito, mas não podia suceder a família naquelas condições. Por isso, o herdeiro ficou sendo Ienzo, seu irmão. E, então, o Zex veio morar aqui, já que não tinha mais utilidade alguma para sua família. Tinha um tutor com ele... Depois da maioridade, passou a viver sozinho. Ele aprendeu a se cuidar. Os “Lexicons” são todas as coisas que ele aprendeu e não podia guardar, porque sempre que dorme ele se esquece de tudo. Até mesmo sonecas de tarde... Ele me contou que se esqueceu da matéria de uma prova importante porque dormiu de tarde. Enfim, pessoas, lugares, tudo está lá dentro, para que ele leia e saiba... E tem, claro, os lembretes na parede e as milhares de agendas. Até os calendários. É difícil, mas o Zexion soube se virar muito bem. Até muito melhor do que eu faria, se fosse comigo.

O loiro engoliu em seco. Não soube o que dizer depois disso. Apenas ouviu Axel lavar a louça, enquanto imaginava que o outro rapaz estivesse no quarto fazendo as anotações do dia, os lembretes para amanhã, sabendo que, quando acordasse, esqueceria de tudo do mesmo jeito; e que seria assim para sempre.

A falta de memórias e a motivação que o mantinha ao mundo terreno nunca o fizeram ver quão grande era o mundo. E sequer tinha lembranças se, algum dia, soube realmente disso.

Sem que controlasse seu próprio corpo, desviou os olhos para a figura alta do ruivo. O vaso estava ali, há poucos metros de distância. A dor também.

O mundo era feito de dor. Disso ele sabia. Mas, naquele momento, o ensinamento cravou-se com uma força absurda em seus ombros. Roxas sentiu-se subitamente derrotado, como se visse duas jogadas adiante, como no ditado japonês. Foi como a voz que ouviu enquanto perdia a consciência, flutuando nas águas salgadas.

O mundo não é feito de amor e esperança”, ela disse. Foi como sua canção de ninar. E tudo do que ele lembrava-se quando acordou de novo.

- Eu terminei aqui... – despertado subitamente pela voz do outro, Roxas estremeceu uma vez mais. – Quer resolver isso logo?

Ergueu os olhos azuis, encarando-o. – E quanto a você?

- ...Está hesitando, Roxas? – surpreso, como se nem fosse o menino que tivesse lhe perguntando aquilo, continuou. – Quem foi que pediu para virmos logo aqui, me incomodou até hoje?

- Acho que... Não quero tirar a chama da sua vida. – ele confessou baixinho.

- Não seja tolo. Estamos nisso juntos, entendeu?

- Mas, Axel...

- Não diga mais nada. Vou ter de insistir, é? – puxando-o pelo braço pálido, ele abandonou a cozinha, desligando a luz da mesma.

- Por que faz isso...? – incrédulo (enquanto percebeu que o tempo passara tanto que, possivelmente, Zexion já estivesse no quarto. Dormindo, será?), Roxas sacudia a cabeça, negando-se a acreditar que os papéis inverteram-se.

Os olhos verdes do rapaz fixaram-se nos azuis do menino. E as mãos fortes puxaram-no para uma carícia inconsciente.

- Porque... Não gosto de pensar que você vai ficar sozinho e sem memórias... Assim, desamparado... Às minhas custas. – sorriu de leve. – Posso suportar um pouco de dor, se com isso puder mudar essa situação.

Roxas não pôde mais falar nada. Não desejou falar mais nada.

Apenas sentir aquele toque outra vez.

~*~*~

Era estranho não tocar o mar. Sim, porque aquele era o mar. O céu era colorido de azul e amarelo, como se ouro líquido tivesse se derramado na pintura maravilhosa cheia de pontos tênues de estrelas, tingindo com um tom levemente fantasioso, como se fosse o céu colorido pelas mãos de alguma fada de contos-de-fadas.

O mar bem debaixo de seus pés não os molhava, não era violento, era apenas uma calma superfície quase que vítrea, que deixava entrever o reflexo de ambos. As nuvens índigo e levemente douradas, bem como as tantas estranhas estrelas, enchiam a superfície de ondulações brilhantes.

As cordas prateadas, como se fossem feitas de fios lunares, finalmente haviam se partido. O vaso vingara-se de “Lea” e fora já purificado.

E, agora, “Lea” dormia no colo de Roxas.

O menino passava a mão pela testa pálida do rapaz desmaiado. Mais uma vez feriu-o, abriu-o e brincou com seu corpo e sua alma. Mas, diferente da outra vez, agora já não tinha nenhuma fome de vingança. E, enquanto lentamente as lembranças que se escondiam no objeto amaldiçoado rastejavam outra vez para o coração do espectro, o mesmo pensava que já não mais desejava o caos.

“Não quero tirar a chama de sua vida”, ele dissera outrora.

E nunca tal desejo prostrou-se diante de si com tanto empenho.

Hesitara todo o tempo em que machucara Axel. E duvidou muito que conseguisse terminar sua missão.

Porque ele lhe ensinara. Roxas já não era mais apenas um espírito sem memórias, cuja única coisa que o movia era o desejo de sangue alheio. Irônico poder encontrar vida apenas depois da morte. Mas era assim que se sentia: estranhamente vivo.

E o coração doía como um golpe físico ao pensar que, para isso, aqueles olhos verdes teriam de ser apagados. Como chamas tremeluzentes no vento.

“Não gosto de pensar que você vai ficar sozinho e sem memórias... Assim, desamparado... Às minhas custas”, respondera o ruivo.

...Ele não era o único.

Roxas também estava chocado por perceber que aquele corpo tão alto e que parecia tão ameaçador também era tão delicado.

- Eu não quero te matar... “Axel”. – sussurrou em seu ouvido.

E permitiu abraçá-lo, enquanto durasse aquela ilusão.

Continua...

Notas finais
Nota #1: ...Esse foi o capítulo mais difícil. Estreitar a relação em apenas algumas linhas foi um desafio tremendo. ;__;
Nota #2: Sei que os acontecimentos foram rápidos demais. Mas, como é ritmo de OVA (XD), não posso me deixar prender por detalhes desnecessários. Peço perdão, mas vou pecar nessa parte, realmente...
Nota #3: A explicação sobre os objetos amaldiçoados, só pra constar, é copy-cola de Cossette. Acho tão lindo isso tudo que nem consegui evitar. *-*
Nota #4: Sobre o problema de memória do Zex... Eu não lembro o nome dessa doença (?), mas tem nome. Juro que se descobrir, ponho nas notas do próximo capítulo! XD
Nota #5: Zexion&Saïx existe...? *viu uma fanart deles e ficou encantada, simples assim XDDD*
Nota #6: "Ienzo" é o nome verdadeiro do Zexion. Só pra ninguém me matar. Mais uma vez, thank you, KHPédia! =D
Nota #7: Btw, esse capítulo 4 foi escrito, tipo assim, totalmente ouvindo "B.T." (Yuki Kajiura), do .hack//SIGN. É linda, recomendo. *¬*

Enfim, acho que é isso. Muito obrigada, povo! ^^